terça-feira, 10 de outubro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 4

Continuando...


O silêncio tomou conta da redação. Os repórteres estavam todos atentos, esperando que PC falasse mais alguma coisa. Já que o repórter ficou em silêncio cismando, o chefe arriscou uma pergunta:
          - E aí! Ele falou se ia telefonar novamente?
          - Não, só falou esse negócio. Não! Pô! Arrepiei-me todo! Aqui! – mostrando o braço.
            Do fundo da sala uma voz feminina ecoa. Era Lucinha se adiantando ao chefe:
         - PC! O que foi? Foi coisa braba?
         - Braba? Bota braba nisso! Sabe o que ele disse?
           Ninguém perguntou, mas todos balançaram a cabeça negando. Então ele continuou:
         - Sabe o que ele disse? Disse que vai tirar um par de olhos castanhos! Souza, será que esses olhos castanhos, serão os meus?    
           Dois dias após essa conversa, um telefonema, antes das nove horas, ecoa na sala. Todas as cabeças se levantam. Mas ninguém arrisca ir atender. Só o continuo é que se levanta e vai até a mesa do chefe e atende.
          - PC! É o delegado Carlos! Quer falar com você!
          - Fala delegado! Tudo bem?
          - Tudo em ordem.  Acho que sim. Ou não está.
          - Que confusão. Tá. Não tá. Desembucha.
          - PC. Dá uma chegadinha aqui na delegacia. Tem uma encomenda pra você.
         - Doutor! Que encomenda é essa?
         - É melhor você vir até aqui. É um troço muito estranho. PC é muito macabro!   Cara! Nunca peguei um caso assim, na minha área! Sinistro!
           O repórter olha para Souza e diz:
         - Chefe. O delegado me disse que o maluco deixou alguma coisa pra mim, lá na delegacia. Como isso?
        - PC, leva Marcão com você. O garoto tem que aprender. Acorda Vermelho.  O cara tá cochilando. Oh! Esse motorista tá enchendo o pote! Fica de olho nele!  Avisa que se continuar assim eu troco ele! Tem que ficar esperto! 
       - Chefe! O cara é bom motorista! Ele não bebe em serviço!
       - Tá a fim de me enrolar? Eu sei que ele bebe com você! Fica esperto, hein!
          PC dá um sorriso amarelo para Souza. Depois desce com Marcão. Vermelho já estava a postos na porta do edifício. Os dois entram no carro e seguem para a delegacia. No meio do caminho, PC ameaça dar um esporro em Vermelho, mas acaba rindo e convidando o motorista, para depois do expediente, tomar uma gelada.    
         O carro para próximo à delegacia. PC e Marcão descem. Vermelho procura um lugar para estacionar. PC arruma a sua bolsa a tira colo, mexe na sua barba rala, alisa o bigode e entra na DP. Vai passando e falando com todos os funcionários. O cara conhecia todo mundo. Parecia que o delegado já sabia que PC estava chegando. A porta da sua sala já estava aberta a espera do repórter. Marcão que o acompanhava calcanhar no calcanhar sabia que tinha muito que aprender com PC. Era uma reputação de anos de trabalho. Mal entra na sala, o delegado vai falando para o grande repórter de polícia:
         - PC, meu irmão! O louco resolveu desafiar a gente! Nas nossas barbas, ele ou eles, - já não sei mais! – deixou mais dois corpos! Parece que estão a fim de brincar com a gente. Além dos presuntos, deixou esse bilhete pra você.
            PC, um cara que fala pelos cotovelos, não conseguiu dizer nada. Apenas esticou a mão e pegou a missiva do delegado. Abriu devagar. Não dava pra saber se estava com medo. Mas abriu a carta. Olhou e depois leu em voz alta:
          - Senhor PC. Ainda não sei o que é esse PC. Por enquanto vai só PC.
            Como falei com o senhor: olhos saltarão das órbitas. Promessa é dívida. Pensei, pensei e resolvi brincar com você. Você é um cara que mete o nariz aonde não é chamado. Isso é um caso entre eu e a polícia. É um desafio para nosso corpo policial. Pois eu quero mostrar como a polícia do Brasil é incompetente. Mas decidi brincar com todos vocês, já que você meteu o bedelho aonde não é chamado.
            Jamais conseguirão por as mãos em mim. Mas os olhos vocês porão... Os seus olhos estarão nos meus. Posso até neste momento, estar olhando para vocês. E estou. Meus olhos são frios, mas podem queimá-los. Meus olhos estão perdendo o brilho, mas ainda podem ofusca-los.
         Que tal, gostou do presente?
         A vida é um circo e... A brincadeira continua. Abre o presente.
         Até qualquer momento.
        PC estava boquiaberto. Esteve sempre dentro dos fatos, sem ser parte dos acontecimentos, mas agora estava ali de corpo e alma sem ser mero coadjuvante. Sentiu que estava encrencado. O delegado olhava para ele, a quem já conhecia há mais de dez anos e que considerava como amigo, e, depois de algum tempo de reflexão, perguntou:
          - PC, por que o bilhete pra você?
            O repórter, querendo achar alguma resposta, olha para o delegado e ao invés de responder, pergunta:
         - Doutor que presente é esse a que ele se referiu? Será que são os           presuntos?
         - Não sei. Mas de repente pode ser sim. Sei lá!
         - Delegado, não tinha mais nada além do bilhete, não?
           Dr. Carlos fica pensativo. Parecia que tentava encontrar alguma coisa na cena do crime. Balança a cabeça negativamente. Depois grita para o comissário:
         - Ô Bira! Não tinha mais nada além do bilhete, não? Eu não me lembro! Você que pegou o bilhete não viu mais nada?
            Bira que estava na sala ao lado, responde e vem ao encontro do Dr. Carlos, com um pequeno pacote na mão.
         - Delegado! Antes de a gente voltar, encontrei esse embrulhinho aqui! Estavam entre os dois corpos! Peguei, botei no bolso e acabei me esquecendo de falar com o senhor!
        - Bira, você não pode ficar mexendo nas coisas que estão na cena do crime, cara!
       - Eu ia mostrar ao Doutor! Mas caiu no esquecimento! Mas juro que não abri! Está aqui intacto!
             Continua semana que vem...

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 3

Continuando...


No meio daquele bate papo acalorado, um grito de mulher explode no recinto:
         - Porra! Por que vocês não conversam como gente!
           Era Lucinha, a única repórter feminina da redação, que saía da cozinha. Os dois, pegos de surpresa, emudeceram. A doce Lucinha fê-los voltar à calma. Vendo os dois perplexos, deu um sorriso meio sem jeito e repetiu a mesma pergunta, só que num tom que combinava com a sua doçura:
         - Desculpe gente. Mas vocês deveriam conversar com calma, como gente. Não acham?
           PC percebendo que o chefe deu uma relaxada aproveitou e investiu no seu intento:
          - Chefe nós vimos um lance incrível! Deixa eu e Marcão pegar esse caso! O garoto é estagiário, mas é esperto! E tem que aprender mais! Deixa a gente tentar! Se não der certo... Pelo menos é uma tentativa! Pode dar certo, não pode? Vamos lá, Souza!
             Souza não respondeu de imediato. Olhava para PC fixamente. Fazia umas caretas enquanto pensava. A sala estava abraçada ao silêncio. Os outros repórteres pararam o que estavam fazendo e ficaram esperando pela resposta do chefe. Parecia que a tal resposta não ia sair nunca daquela garganta. Quem o conhecia sabia que antes de qualquer decisão, ele fazia uma porção de caretas. E era o que estava acontecendo. Mas quando parasse de torcer a boca de um lado para o outro, vinha à resposta.  E não deu outra: parou de fazer caras e bocas. A resposta veio, mas quase num sussurro:
           - Está bem.
             PC, como os outros repórteres, não entendeu o que Souza tinha falado. Então questiona:
           - Chefe, o que você falou? Não entendi.
              Parecia que a resposta estava meio à contra gosto. Não tinha muita certeza se estava fazendo a coisa certa, deixando PC com o caso. Engoliu em seco e falou mais alto:
          - Está bem PC! O caso é seu! Vocês venceram! Mas tem uma coisa: não vai querer dar uma de policial, não! Está bem?
            PC sai do fundo da sala, com um sorriso nos lábios, se aproxima de Souza, põe a mão no seu ombro e fala:
          - Chefe você não vai se arrepender. Pode anotar aí: eu, PC, vou tirar a raposa da toca. Vamos tirar!
          - Você é louco! E está levando o Marcão para o caminho da insanidade! Sumam daqui!
             Durante três dias a manchete foi sobre o caso dos olhos azuis:
         - “A polícia acredita que dentro de vinte e quatro horas colocará a mão nos assassinos. As pistas estão cada vez mais claras. É só uma questão de tempo”.      
            PC termina de fazer o texto e vai até Souza e pergunta:
         - Chefe, vê se a chamada está legal.
           Souza nem olha para o texto. Antes faz a sua cobrança:
          - PC, hoje é o terceiro dia.  E até agora nada aconteceu. A partir de amanhã as coisas vão voltar ao normal. Vamos noticiar só verdades. Chega de viajar na maionese. Vamos continuar falando do caso, mas somente sobre as mortes. Meu irmão. Vou repetir uma coisa que eu já estou cansado de falar: quero coisa concreta.
             Mal Souza termina de falar, o telefone toca. O continuo atende e grita:
         - PC é pra você!
            Ele dá um sorriso, mexe na sua bolsa a tira colo e, enquanto caminha na direção do contínuo, pergunta:
         - Topete. É mulher?
         - Não, PC! É voz de barbado!
           Ele dá um muxoxo e fala:
         - Estou desprezado! As mulheres estão me abandonando!
            Pega o telefone da mão do contínuo e atende:
         - Pronto! Aqui é PC! O melhor repórter de polícia! Quem fala?
            Do outro lado uma voz cansada e tenebrosa responde:
         - Quem fala? Já deves saber que sou eu. Com certeza já estavas esperando a minha ligação, certo? Vai um aviso: estás metendo o bedelho, onde não és chamado. Estarei ao teu lado pronto a tirar-lhes os olhos. É uma pena que eles sejam tão feios. E muitos olhos saltarão das órbitas. Outros tantos estarão em festas: o verde estará no azul; o preto estará no azul; o castanho estará no azul, mas o azul estará dançando fora de órbita. Finalmente os olhos azuis serão entregues aos vermes. Todos os presentes verão e ficarão sem entender.
           PC completamente sem ação emudeceu por completo. Com expressão mista de terror e surpresa, deixa o fone cair, segurando-o apenas pelo fio.
           Todos os colegas olham sem entender o que está acontecendo. O chefe, vendo que o amigo estava parado sem ação, interroga-o:
          - PC o que houve?
            Com o silêncio do amigo e a falta de resposta, ele grita:
          - Fala homem! O que houve? Você está com cara de idiota, PC!
            PC coça a cabeça e balbucia algumas palavras:
          - Olho azul. Órbita. Olho preto. Azul no verde.
            Souza ficou olhando para o amigo sem nada entender.  As palavras que dizia eram desconexas. Para trazer o amigo a realidade, deu-lhe uma boa sacudidela. PC olhou para Souza e disse:
          - Viu chefe, deu certo! Foi o homem que telefonou! É o assassino! Mas ele decidiu brincar com a gente. Só deixou enigmas.
         - O que foi que ele disse?
         - Loucura. Tudo uma tremenda loucura.
         - O que foi homem? Desembucha!
         - Souza o cara é um psicopata. O que ele disse é um quebra cabeça. Falou de olhos em órbitas. Em festas. Misturou olhos verdes, pretos e castanhos. Disse que eles estão todos no azul. E que o azul, se não me engano, será dos vermes. Uma loucura! O que será isso? Com quem estamos lidando?
             Continua semana que vem...

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 2

             Continuando...


            Quando os três sujeitos perceberam que o carro do jornal tinha parado e a buzina estridente ecoava sem parar, assustados, e sem completar o intento, largaram a pessoa no chão e partiram em alta velocidade. 
            PC e Marcão rapidamente se aproximaram do corpo estendido junto ao meio fio. PC, antes de mexer no corpo, observa se a pessoa está respirando. Confirmado, com cuidado vira o corpo, que estava com a cara enterrada no chão. Um fio de sangue escorria pela testa. Estava desmaiado. Mas não demorou muito e o rapaz abriu os olhos. PC sorriu e disse:
          - Ô irmão! Como é que você está?
            Foi perguntando e, ao mesmo tempo, ajudando-o a se levantar.
            O rapaz ainda se refazendo do acontecimento, não respondeu de imediato. Mas depois de ficar em pé e botar a cabeça em ordem, disse:
          - Agora tá tudo bem. Muito obrigado, cara. Não sei bem o que aconteceu. Mas se vocês não tivessem aparecido, acho que eu estava frito. Vocês me tiraram de uma fria! Muito obrigado. Obrigado mesmo.
             Nisso Marcão olha para o rapaz e fala assustado:
          - PC! Ele tem olhos azuis!
          - Meu irmão! Pode crer que você nasceu de novo!
          - Não estou entendendo. O que tem demais os meus olhos?
            Vermelho que já vinha chegando, entra na conversa e fala:
          - Rapaz! Acende uma vela pros seus santos, que eles livraram a sua barra! Meu irmão! Você tem o corpo fechado, hein!
            O rapaz olhava assustado. Parecia que a voz não queria sair. Como não falava nada, PC foi dizendo:
          - Não tens lido o jornal, não? Ias ser o décimo sétimo presunto, meu caro! Iam te deixar sem esses lindos olhos azuis! Dá uma chegada na DP! Faz isso!
          - Não. Acho que não. Vou me mandar pra casa.
          - Então deixa o seu endereço com a gente. Tá legal? Dá uma esfriada. Com a cabeça mais tranquila, você consegue se lembrar de tudo.
          - Não sei. Eles estavam com meia de mulher na cara. Mas vou deixar o meu endereço com vocês. Vocês foram legais.
            O rapaz saiu e os três retornaram para o carro do jornal. No meio do caminho o telefone de PC toca. Ele atende e tenta explicar o que tinha acontecido. Mas Souza, o chefe da redação, não quer engolir as suas justificativas:
          - PC! Não vem com essa não! Matos é quem vai cobrir esse caso! Pô! Você já era pra estar em Saquarema, antes das oito horas! Pelo jeito, nem às nove! Só voando!
          - Mas chefinho eu estou com uns planos sensacionais! Pelo menos se não der pra desvendar esse mistério, a gente vai deixar eles doidinhos! Isso vai ser só o começo! Como eu te falei, nós salvamos um cara! Com certeza ia ser a décima sétima vitima! Eles não esperavam por essa! Uma coisa que estava completamente coberta, já começa a mostrar a cara! Podemos dizer que a polícia já está na cola deles! Que os repórteres do nosso jornal, viram-nos! E tem o rapaz também! Ele pode dizer que pode ajudar a polícia! O que acha da ideia, chefe?
          - Como é que você pode afirmar que o tal rapaz ia ser a décima sétima vitima? PC, isso é só palpite! Só porque uns caras estavam querendo pegar o rapaz, não quer dizer que sejam os mesmos que praticaram os dezesseis crimes! PC, eu quero coisa concreta!
           - Chefe, o rapaz também tem olhos azuis!
           - Isso não prova nada! Pode ser pura coincidência! Me diz uma coisa: Bezerra fotografou todo o lance?
              Antes de responder ao chefe, tapou o fone e falou pra Marcão e Vermelho:
           - Acho que o chefe vai ceder.
             Em seguida fala com Souza:
           - Chefe. Infelizmente Bezerra ainda não estava com a gente. Mas isso não quer dizer nada.
          - Como não quer dizer nada! Nem uma foto sequer dos três!
          - Mas os bandidos não sabem!
          - Pelo menos com o celular! Nem isso? Então nada feito! Saquarema espera por vocês! Curta bastante esse sábado!
            Na manhã da segunda - feira, antes de chegar à redação, PC para no bar da esquina. Seu Joaquim olha pra ele e rapidamente traz um café reforçado. Era assim toda segunda. O portuga, como ele o chamava, sabia que aquele dejejum era para espantar o wisk paraguaio que desceu atravessado no domingo. De vez em quando olhava para dentro da sua inseparável bolsa a tira colo. Seu Joaquim, enrolando o bigode, demonstrando curiosidade, pergunta:
          - Ô gajo! O que tanto tu olhas para dentro desta bolsa? Já estás a me deixar curioso!
         - Curioso?  Tu és um grande bisbilhoteiro, portuga! Só estou vendo se não esqueci o meu caderninho! Cara curioso!
        - Caderninho? Ora bolas! Isto aí é uma montoeira de papel rabiscado! Nem tu entendes o que está escrito! Tu não me enganas!
        - Estou indo!
        - Me vais dar um trambique?
        - Depois eu pago!
        - Assim tu me levas a falência!
          Isso acontecia todas às segundas-feiras. Devia ser para pegar folego. Ele sempre conseguia sair dali, com o humor melhorado. Até deixava escapar um sorriso, depois das reclamações do Seu Joaquim. Quando entrava no edifício, se sentia um pouco mais leve, para mais um dia de batalha. Nos seus rabiscos, como dizia o portuga, já tinha um material bom para mandar para a sede do jornal, no Rio de Janeiro.
         Já estava no último degrau. Deu uma paradinha para respirar, acertou a sua bolsa a tira colo e entrou na sala. Deu um bom dia baixinho, para não chamar a atenção. Mas o chefe já o conhecia de longa data. Eram amigos desde o tempo em que eram focas. Conhecia as suas manhas de cor e salteado. Viu quando a porta se abriu bem devagar - esse era o seu estilo - e já sabia que era ele chegando. Ao seu bom dia, ele respondeu com uma bronca:
          - PC você é um irresponsável! Quem é o chefe aqui sou eu! Você e os seus planos! Assim não dá!
            Ele então responde no mesmo tom:
          - Você pode ser o chefe, mas o repórter sou eu! Quem se joga no meio das feras, é o papai aqui! Souza, você sabe que tenho faro policial! Cara sou repórter de polícia! O tempo me deu esse faro!
                     Continua semana que vem...
 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 1

                               O CASO DOS OLHOS AZUIS
       -José Timotheo-      

          O som de uma sirene cortava o silêncio da madrugada.
          - Dr. Carlos Alberto, o que vamos fazer? Com esse corpo aí, já são dezesseis! Dezesseis cadáveres, Dr.! Isso é muito intrigante! As características são as mesmas! Todos faltam os olhos!
          Falava o comissário Miro, ao delegado, que pensativo, as mãos sob o queixo, os cotovelos apoiados na viatura policial, tinha o olhar pedido na imensidão do infinito. Coçava a cabeça de vez em quando. Mas a expressão era de que não tinha chegado, ainda, a nenhuma conclusão. O máximo que tinha era suposições. Ergueu o corpo e ficou encostado na porta do veículo. Olhou para o comissário e disse:
         - Miro, isso está parecendo...
         - Parecendo não! Isso é uma tremenda batata quente, delegado!
           O Delegado fica surpreso com a presença do repórter e pergunta:
        - Oh, PC! O que é que você está fazendo por aqui? São três horas da matina, cara!
      O repórter, como era do seu hábito, estava com o seu bloco de papel e caneta na mão, a sua inseparável bolsa a tira colo, já pronto para o trabalho. Antes de responder, bateu no ombro do delegado e disse:
         - Aí Dr.! Parece que a notícia chega junto comigo! Com certeza é mais um furo de reportagem! É mais uma boa notícia que cai no meu colo! Moro aqui do lado! Ouvi essa zoeira infernal e vim ver o que era! Delegado, sabe de uma coisa. Vou dar minha opinião. O senhor sabe que eu tenho faro! Sabe! Não sabe? Não tenho nenhuma dúvida que o serviço, nesses dezesseis cadáveres, foi feito por um profissional de primeira! Tem mão de médico nessa história, Dr.! Concorda comigo?  
         - PC, realmente você tem razão. Era mais ou menos isso o que ia falar pra Miro, quando você chegou. Certeza! Certeza! Eu não tenho. Se o assassino é médico, não posso afirmar. Mas que é da área, isso ele é!
        - Delegado, esse cadáver está com algum documento?
        - Está sim. Estava com uma capanga presa ao pulso. No seu interior achamos uma carteira de identidade. Está aqui no carro. O nome é Aberlado. 
            O repórter fica pensativo, mas em seguida fala:
         - Delegado, posso dar uma olhadinha?
         - Tudo bem. Rapidinho. E não me tira nada de dentro, tá bem?
         - Sem problema. Dou uma olhadela rápida.
            PC abre a capanga e começa a olhar o seu interior. Encontrou de interessante, uma cópia da carteira de identidade e meia dúzia de retratos coloridos, 3x4. De repente, olhando para a foto, faz uma cara de surpresa.  Coça a cabeça e fala para o delegado:
        - Olha aqui delegado! Olha essa foto!  Dr. Carlos, esse também tinha os olhos azuis! Todos tinham os olhos azuis, não é isso? É muita coincidência, não acha?
        - Bota coincidência nisso, PC! Sabe que eu já tinha observado esse detalhe! Cara, só pode ser maníaco quem faz uma coisa dessas! É uma coincidência tenebrosa!  Sou um cara cascudo, mas isso aí tá me deixando impressionado!
        - Tá ficando velho?
        - Que velho nada! Isso aí é coisa de demônio! Sabe de uma coisa: nos primeiros corpos que foram achados, até ventilei a hipótese de estarem retirando as córneas para vender. A gente sabe que existe uma gang vendendo, não só córnea, mas outros órgãos também. Agora eu te pergunto: pra quê arrancar os olhos? Nesse instante eu já tenho dúvida se tem, realmente, alguma gang envolvida nisso. Pra quê tirar os olhos, cara? E só olho azul! Em dois meses, já temos dezesseis cadáveres! Não sei mais o que pensar!
         - Sorte que eu tenho olho castanho!
         - E você ainda ri, PC?
         - Só pra descontrair um pouco, delegado. Estou subindo. Mais tarde a gente se fala.
            O dia começava a clarear. PC já tinha subido e se deitado em sua cama, mas não tinha conseguido dormir. Não pregou olhos. A cena não saía da sua cabeça. Virou na cama mais que bife na frigideira. Olhou para o telefone que estava na cabeceira. Ameaçou pegar, mas desistiu. Olhou para o despertador e viu que passava um pouquinho das seis. Dessa vez sem pestanejar, pegou o celular e discou. Do outro uma voz sonolenta reclamou:
          - Porra, PC! Você já viu a hora? São seis horas! Deixa eu dormir mais um pouquinho, cara! Tá legal?
         - Nada disso Marcão! Um bom repórter tem que ter os olhos bem abertos, tá falado? E você é apenas um foca! Se quiser ser um repórter de verdade, tem que ir a luta! Se prepara que daqui a pouco eu e Vermelho vamos passar por aí! Vamos trabalhar, cara!
            Logo após esse telefonema, PC ligou para o motorista, que morava próximo, e o pegou ainda sentado numa mesa de um bar. Não reclamou, mas, depois de um muxoxo, disse que ia passar em casa e tomar um banho.
            Às sete e quinze já estavam pegando Marcão, que dentro do carro questionou-o:
        - PC, pra onde a gente vai tão cedo?
        - Sabe desde que horas eu estou acordado? Três horas da matina!
        - Estava com insônia?
        - Você já viu PC com insônia, menino? Sabia que apareceu outro presunto, sem olhos? E sabe onde foi isso? Perto de casa! Sabia que esse também tinha olhos azuis? É isso aí, meu caro!
           Deu uma pequena pausa, olhou para a cara do estagiário e continuou:
         - Estou com uma ideiazinha aqui, pra esse caso... E o chefe me manda pra Saquarema, acompanhar um torneio de surfe! Eu, PC, um repórter de polícia! Pode isso?
            Enquanto PC falava, Vermelho esfregava os olhos, tentando ficar aceso. Era uma viagem que não estava nos seus planos. Mas o que fazer? Quando chegasse ao município de Saquarema, encostava o carro em qualquer cantinho e tirava uma pestana.
            Trafegava devagar. A atenção estava dobrada. Nisso, próximo a um cruzamento, viu três caras tentando colocar um rapaz dentro de um carro. Achou estranho e falou:
          - PC, o que é aquilo ali?

          - Ih! Tão querendo botar um cara à força dentro do carro! Para e buzina essa joça! Faz bastante barulho, Vermelho!
                             ...Continua semana que vem!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

CRUCIFICADA





Que tal ouvir mais uma música do CD Refiz Estradas?

O vídeo já está disponível no Youtube!!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A história que deu origem a história, “O caso dos olhos azuis”.

                                 
                  
A HISTÓRIA QUE DEU ORIGEM 
A HISTÓRIA, 
“O CASO DOS OLHOS AZUIS”

                                            - José Timotheo -    

              Entrei no jornalismo pelas mãos de um amigo. Um grande repórter de Niterói. Ele era um dos melhores repórteres policiais. Naquele tempo os grandes jornalistas não tinham cursado a faculdade. Tenho dúvidas se na época já tinha alguém formado. Não sei. Não me recordo. Só sei que todos que conheci, eram grandes profissionais. E eles não precisavam de faculdade alguma para mostrar que eram capazes. Já nasceram feitos. Eram feras! Soube que alguns continuam operantes. Eu fiquei apenas alguns anos, mas ali foi a minha primeira grande escola. Eu tinha vinte e dois anos.
              Esse meu amigo fez uma brincadeira comigo. Mas eu encarei como um desafio. Na presença de todos da redação – sucursal de um jornal, em Niterói (prefiro não citar o nome) - me deu uma incumbência. Se cumprida, estaria empregado. Caiu bem a proposta. Precisava de um emprego. Mas nunca podia imaginar que seria de repórter. Fiquei empolgado. Disse-me que seria de pura investigação. – O que seria? – estava ansioso. Sorriu e passou-me a tarefa: - Cara. Queremos que você descubra o nome de uma criança que morreu de meningite, em um colégio de Icaraí. – falou e entregou-me um papel com o nome e o endereço do tal colégio. Sorri, achando o desafio tranquilo. Achei que era só chegar e perguntar. Moleza! Peguei o papel, dobrei-o e o enfiei no bolso da minha calça jeans ensebada. Nunca pensei que seria tão fácil arranjar um emprego, sem precisar correr tanto atrás. Estava caindo no meu colo. Perguntei sorridente, quando poderia começar a investigação. Disse-me: - Agora. – Lembro-me do horário (não sei por que a posição dos ponteiros do relógio não foi varrida da minha cabeça): 9h e 15 min. Esse meu amigo e um fotógrafo já estavam de saída para a ronda diária pelas delegacias. Os dois eram ótimos. Uma dupla e tanto. Depois nos tornamos um trio. Tinha sede de aprender. E não descolava nunca deles. Desci junto. Aí começou a minha peregrinação.
            Fui pra rua. Pegar ônibus nem pensar. A grana estava espremida. Saí do centro de Niterói e fui a pé até o Campo de São Bento. Achei o colégio fácil. Só que estava fechado. Chamei para ver se aparecia alguém e nada. Mas não arredei pé do portão. Naquela época era um cara teimoso. De vez em quando batia palma, chamava pra ver se alguém aparecia, gritava pra chamar a atenção e continuava tudo na mesma. Acho que alguém sentiu pena de mim, ou já estava de saco cheio e resolveu dar às caras. Já estava de plantão havia mais de duas horas. O senhor, não disse, mas deve ter me achado chato. Veio andando devagar, mascava alguma coisa, que não deu pra saber o que era, e perguntou-me o que eu queria. Fui direto: qual o nome da criança que morreu de meningite? O senhor olhou pra mim e, saindo de banda, disse: - Sei não! Morreu ninguém aqui não! – Antes que ele sumisse, falei: - Ué! Disseram-me que o senhor sabe! – Ele voltou, olhou na minha cara e disse: - Quem disse isso, não sabe das coisas! É um mal informado! Vai até o posto de saúde em Santa Rosa e pergunta lá! – Lá fui eu para o bairro de Santa Rosa. Lá também ninguém sabia. Assim disseram. Insisti tanto, que uma atendente disse para eu me informar no Hospital Antônio Pedro. Rodei tanto por dentro desse hospital, que já estava com as canelas doendo. Cada setor que ia alguém me dizia que não sabia de nenhum caso de meningite na cidade. Olhei para o meu relógio de pulso e estava marcando 14:30 h. Pensei em desistir. Já estava caminhando para a saída, quando alguém me chamou. Olhei pra trás e me deparei com uma amiga, estudante de enfermagem da UFF (Universidade Federal Fluminense). Não a via há muito tempo. Veio me deu um beijo e perguntou: - Cara! O que é que você está fazendo por aqui? – Expliquei tudo sobre a minha via-crúcis. A menina sorriu e disse: - Se o menino tiver dado entrada aqui, o meu namorado vai me dizer. – Mandou-me esperar ali e rodou nos calcanhares. Dez minutos depois, voltou. Levou-me para um canto, longe dos olhares de uns seus amigos curiosos e confidenciou-me: - A tal criança passou por aqui, mas foi encaminhada para o Hospital Santa Cruz. O nome é Carlos. Não fala pra ninguém. Isso é segredo. Não pode dizer que a informação partiu daqui. Só sabemos isso. – E o sobre nome? – perguntei. Disse que não sabia. Despedi-me e parti para o HSC.
          Subia uma ladeira e pensava em como descobrir o nome completo do menino. A barriga roncava de fome. Já passava das 15:00 h. Parei na porta para descansar. Ainda não tinha encontrado um jeito para fazer a abordagem à recepcionista. Entrei e fui direto a um bebedouro próximo ao balcão da recepção. Bebi bastante água para afogar a fome. Depois tomei coragem para perguntar. Nisso chegou uma menina, entrou na minha frente, e pediu informações de um parente. A recepcionista perguntou o nome. Ela simplesmente disse: - Paulinho (não me recordo se era esse). A recepcionista olhou na lista e falou: - Aqui tem duas pessoas com o nome de Paulo. Paulo A. (como exemplo) e Paulo B. (como exemplo). – A menina confirmou o segundo. A recepcionista deu as informações devidas e disse que o internado ainda não estava podendo receber visitas. Aproveitando o gancho, lá fui eu. Aproximei-me e perguntei: - Gostaria de saber como está o estado de saúde de Carlinhos. – Ela olhou na lista e disse: - É Carlos P.?(como exemplo) Só tem esse nome aqui. – Pensei um pouquinho e falei: - Se for uma criança, é. Como tem tanta gente com nome parecido, ficamos na dúvida, né? Ele deu entrada com meningite. – Ela olhou pra mim, estampou um ar triste e perguntou: - Você é parente? – Confirmei que o menino era meu sobrinho. Ela então procurou falar com cuidado. Disse-me que os médicos tentaram de tudo para reverter o quadro, mas o óbito acabou ocorrendo. Ele tinha falecido pela manhã. Saí dali triste com o fato. Acho que a criança tinha aproximadamente cinco anos. Fiquei pensando na recepcionista que, mesmo lidando com a morte diariamente, ainda demonstrava bons sentimentos. A gente presencia tantos descasos com a vida alheia, que acaba ficando surpreso quando encontra alguém que ainda se entristecesse com a tristeza dos outros.
            Desci a ladeira e fui para a redação, que não era muito distante dali. Parecia que tinha dado a volta ao mundo, quando o caso foi resolvido praticamente do lado. Cheguei antes das 16:00 h. Fui entrando na sala, sendo recebido com um cheiro de café entrando pelas minhas narinas. O grupo rodeava a mesa do chefe da redação, papeando e bebendo café. Dei um alô. Dos três repórteres, um se virou e falou: - Chegou na hora, Timotheo! Vamos tomar um cafezinho pra arrancar o cansaço dessa cara? – Peguei o copo que me oferecia.  O meu amigo ficou me olhando, esperando que eu dissesse alguma coisa. Percebi um sorriso escondido por detrás do bigode. Não tenho certeza se ele achou que eu tinha fracassado. Tomei o café de um gole só. Senti de imediato que as minhas forças estavam sendo acordadas. Não falei nada, mas entreguei um papel com o nome completo do garoto e o nome do hospital que tinha acontecido o óbito. Ele leu. Mostrou-o para os outros repórteres e entregou-o ao chefe. Esse deu uma olhadela, torceu a boca e devolveu para o amigo. Parecia que o papel estava quente. Ele recebeu de volta e disse: - E aí, fulano! (não me recordo do nome do chefe) E agora? Promessa é promessa! O garoto está empregado? – O chefe deu uma resposta rápida:- O que fazer! Que se cumpra o prometido! – Aí foi o meu início.
           Sobre o caso do menino, fiquei sabendo que nenhum jornal tinha conseguido a informação. Foi assim que me tornei um foca.
          Nesse jornal consegui aprender alguma coisa. Fiquei ali, pouco tempo. Depois passei para outros e o aprendizado continuou. Agora, o que tem haver isso tudo que escrevi, com “O CASO DOS OLHOS AZUIS”? Vou explicar. No período que trabalhei na imprensa, houve algum rumor sobre tráfico de órgãos.  As suspeitas, não me lembro se foram verdadeiras. Só sei que a minha imaginação foi longe.  Juntei isso, com um corpo encontrado no mar, que apresentava o rosto completamente desfigurado. Chamou-me a atenção a falta de um olho. Parecia que tinha sido comido por criaturas marinhas. Poucos dias após o ocorrido, veio-me a ideia de escrever um texto, tendo como personagem principal o meu amigo PC. Nesse tempo todo, a história ficou dormindo sobre algumas linhas. Agora resolvi reescrevê-la. Vamos lá.

OBS. Todos os nomes são fictícios.
           Acompanhe a história  “O caso dos olhos azuis”. a partir da semana que vem!.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

CONTRASSENSO


CONTRASSENSO  
 - José Timotheo -

Você vê a nossa criança
No alto do morro
Brincando com arma
Tão sorridente
Ali está estampada
A felicidade da tristeza

Olhando pra cara da gente

terça-feira, 29 de agosto de 2017

FORA LADRÃO!!!




FORA LADRÃO!! 

                                              - José Timotheo -                                                               
                                 
Vou mascar sabão
Cuspir bolinhas coloridas
Antes de lamber o pão
Vou passar a língua na pedra
Arrancar aftas doloridas
Espalhando- as pelo chão
Vou mastigar
Esse ar carente
Botar corrente
No vendaval
Vou me livrar da ventania
Engarrafar vilania
Do distrito federal
Fora ladrão
Fora ladrão
Deixe o trigo que resta
Para não faltar o pão


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A PASSAGEM


A Passagem
- José Timotheo -

Ali está a porta
Ela está sempre aberta
Foi feita para receber
E para deixar partir
Mas eu procuro não entrar por ela
Só a uso para sair
E o mais rápido possível
Pois temo criar mofo
Forçosamente temos que entrar
Fujo da porta, mas abro uma janela
Por que evito a porta? Não sei
Tento evitar o inevitável
Qualquer caminho vai para o mesmo lugar
Crio a janela e ela não deixa de ser a minha porta de entrada
De qualquer jeito tenho que ir em frente
Entro e quando saio, tento trazer o que aprendi lá
Mas apesar do cuidado
Do pensar que sei
Ainda carrego coisas ruins
Coisas que devia ter desaprendido
Mas é difícil
Entro e saio quantas vezes me permitem
Erro e acerto quantas vezes me tolerem
E tenho a porta para sair mais uma vez
Com certeza na volta, vou entrar pela janela
Quando chego, penduro as mazelas num cabide
Quando saio, nunca olho para trás
Procuro me familiarizar com o futuro
Ali vejo coisas bonitas da vida
Passa e passa gente por mim
É um vai e vem de medos
A porta está ali e para sempre
E ela é larga
Saio mais uma vez
E vou em frente
Para uma nova etapa

                                                  fim

sábado, 19 de agosto de 2017

DEDILHADO



 https://youtu.be/KrAYkXvOcZg

Mais uma música postada no Youtube!. Essa em parceria com Martha Taruma, que também canta a canção. Essa é mais uma música do CD Refiz Estradas gravado nos estúdios Luperan, em São Pedro da Serra. A direção musical, gravação e instrumentos são de Rodrigo Garcia.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

BEM NA FRENTE

   
BEM NA FRENTE
- José Timotheo -

Tenho, bem na frente dos olhos
Um monte de flores
Que apalpo mas não vejo como flores
Tenho, bem na frente dos olhos
Um monte de qualquer mato
Que apalpo e sinto como flores
Tenho, bem na frente do mato e das flores
Um par de olhos que deixam
A verdade escorregar pela mentira
Vejo, então, na frente da própria consciência
O mato enfeitando o esquecimento
E as flores sepultando a razão

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

TARJA

          
TARJA
Minha terra chora
As sabiás se envergam sobre seus cantos
Os colibris já não beijam
Mordem as flores
As borboletas não colorem o céu
Enegrecem a esperança
Até os pardais abandonam as manhãs
Sepultando-se pelos telhados
É
Minha terra chora
O dia já não nasce mais hoje
Abortaram-no ontem
E nem do passado
Pode-se colher a saudade
Minha terra cala
E minha gente enforca-se com os sonhos
É o futuro estendido, indigente
Numa cova rasa

terça-feira, 1 de agosto de 2017

ONDE ESTÁ O CANTO?


ONDE ESTÁ O CANTO?
Sento-me na ponta da vida a pedir explicações
Do canto que outrora fluía alegre
Mas que, hoje, morre no meu peito
Não sei o que houve com os meus sonhos
Com quase todos os meus olhares
Que te cercavam de saudade
Com as minha esperanças
A correrem pelos campos com a tua esperança
Do meu adeus nas manhãs cansadas
E, até, das minhas fantasias
Fantasiando as tuas fantasias
Tudo em mim criava canções
Onde está?
Onde está o meu canto?
Está amarrado a outros cantos mudos?
Está cansado de gritar
Às desafinações do mundo?
Está cansado de correr
Pelas cabeças, mas sem ecoar nos corações?
Talvez já esteja, até
Na boca de algum mudo
Quem sabe?
Mas onde está o meu canto?
Quero o meu canto
Antes que sepultem o último aplauso

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um Anjo na Boleia - Última Parte

E chegamos a última parte...
    - Quim, mas não tinha defunto nenhum!
    - Não tinha... Mas você não sabia que não tinha! Você tinha certeza que o defunto estava lá atrás, só eu que não sabia! Em outra enrolada dessa, você não me joga mais!
    - Tá bom, Quim! Tá bom! Até parece que você não gostou de ter ajudado aquela família! Até parece!
    - Não estou falando disso! Você me entendeu! Oh! Tem mais uma coisinha: já passou da hora da gente voltar pra vida real! Vamos pra normalidade! Vamos voltar a pisar o chão!
    - Tá certo! Tá certo! Pisa aí!
   O caminhão vai se movimentando normalmente. A velocidade que pedia para aquela estrada, não podia exceder os 40 km. Mas Quim ia com um sorriso nos lábios. Toni observou a descontração que tinha se apossado do irmão e comentou:
    - O que é deu em você? Está alegre!
    - De repente me deu vontade de sorrir. Não é estranho isso? Mas eu me lembrei daquela família. Deve ter sido isso. Toni eu estava me lembrando de uma coisa.
    - O que é? Não me venha com história!
    - Que história o quê! Estou pensando aqui comigo, que o que nós fizemos até agora, não podia caber dentro desse dia.
   - Como assim!   
    - Pensa bem. Nós chegamos naBR, às cinco da matina. Aconteceu coisa pra cacete.  Até refém daqueles bandidos, nós ficamos. Pegamos essa estrada secundária, que não se pode passar dos 40 km. Olha o seu relógio, aí! Que horas tem?
- Aqui está marcando 2 e 40  da tarde.
     - E você acha Toni, que em, mais ou menos, 9 horas dava pra fazer tudo que fizemos, e ainda estar voltando para a rodovia? Eu acho que não! Quanto tempo, ficamos nas mãos daqueles bandidos? Foi muito tempo, não foi?
     - Foi mesmo, Quim. Realmente, você está certo.
     - Então, o que fazer? Eu pergunto e respondo. Não podemos falar disso com ninguém. Com certeza vão chamar a gente de mentirosos e malucos. Vamos entregar a carga conforme combinado e se pintar algum transporte, a gente pega. Depois vamos até em casa, de onde estamos sumidos há muito tempo. Toni olha só que paisagem desoladora! Eu não me lembro de ter visto um lugar tão seco e feio como esse! Como esse pessoal consegue sobreviver numa região dessas? Sabe Toni, chega de paranormalidade!
     - Essa turma vive de teimoso! E chega de fantasma! Vamos embora! Toca aí, Quim! Isso que vivemos, foi só um sonho! Acelera, mano! Estou doido pra chegar numa churrascaria e encarar aquela boa picanha! Vamos embora e sem reclamações!
    - E eu reclamo? Para com isso, Toni!

fim


Obs. Essa obra é de ficção. Qualquer semelhança com a história, nomes dos personagens, é pura coincidência.