sábado, 19 de agosto de 2017

DEDILHADO



 https://youtu.be/KrAYkXvOcZg

Mais uma música postada no Youtube!. Essa em parceria com Martha Taruma, que também canta a canção. Essa é mais uma música do CD Refiz Estradas gravado nos estúdios Luperan, em São Pedro da Serra. A direção musical, gravação e instrumentos são de Rodrigo Garcia.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

BEM NA FRENTE

   
BEM NA FRENTE
- José Timotheo -

Tenho, bem na frente dos olhos
Um monte de flores
Que apalpo mas não vejo como flores
Tenho, bem na frente dos olhos
Um monte de qualquer mato
Que apalpo e sinto como flores
Tenho, bem na frente do mato e das flores
Um par de olhos que deixam
A verdade escorregar pela mentira
Vejo, então, na frente da própria consciência
O mato enfeitando o esquecimento
E as flores sepultando a razão

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

TARJA

          
TARJA
Minha terra chora
As sabiás se envergam sobre seus cantos
Os colibris já não beijam
Mordem as flores
As borboletas não colorem o céu
Enegrecem a esperança
Até os pardais abandonam as manhãs
Sepultando-se pelos telhados
É
Minha terra chora
O dia já não nasce mais hoje
Abortaram-no ontem
E nem do passado
Pode-se colher a saudade
Minha terra cala
E minha gente enforca-se com os sonhos
É o futuro estendido, indigente
Numa cova rasa

terça-feira, 1 de agosto de 2017

ONDE ESTÁ O CANTO?


ONDE ESTÁ O CANTO?
Sento-me na ponta da vida a pedir explicações
Do canto que outrora fluía alegre
Mas que, hoje, morre no meu peito
Não sei o que houve com os meus sonhos
Com quase todos os meus olhares
Que te cercavam de saudade
Com as minha esperanças
A correrem pelos campos com a tua esperança
Do meu adeus nas manhãs cansadas
E, até, das minhas fantasias
Fantasiando as tuas fantasias
Tudo em mim criava canções
Onde está?
Onde está o meu canto?
Está amarrado a outros cantos mudos?
Está cansado de gritar
Às desafinações do mundo?
Está cansado de correr
Pelas cabeças, mas sem ecoar nos corações?
Talvez já esteja, até
Na boca de algum mudo
Quem sabe?
Mas onde está o meu canto?
Quero o meu canto
Antes que sepultem o último aplauso

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um Anjo na Boleia - Última Parte

E chegamos a última parte...
    - Quim, mas não tinha defunto nenhum!
    - Não tinha... Mas você não sabia que não tinha! Você tinha certeza que o defunto estava lá atrás, só eu que não sabia! Em outra enrolada dessa, você não me joga mais!
    - Tá bom, Quim! Tá bom! Até parece que você não gostou de ter ajudado aquela família! Até parece!
    - Não estou falando disso! Você me entendeu! Oh! Tem mais uma coisinha: já passou da hora da gente voltar pra vida real! Vamos pra normalidade! Vamos voltar a pisar o chão!
    - Tá certo! Tá certo! Pisa aí!
   O caminhão vai se movimentando normalmente. A velocidade que pedia para aquela estrada, não podia exceder os 40 km. Mas Quim ia com um sorriso nos lábios. Toni observou a descontração que tinha se apossado do irmão e comentou:
    - O que é deu em você? Está alegre!
    - De repente me deu vontade de sorrir. Não é estranho isso? Mas eu me lembrei daquela família. Deve ter sido isso. Toni eu estava me lembrando de uma coisa.
    - O que é? Não me venha com história!
    - Que história o quê! Estou pensando aqui comigo, que o que nós fizemos até agora, não podia caber dentro desse dia.
   - Como assim!   
    - Pensa bem. Nós chegamos naBR, às cinco da matina. Aconteceu coisa pra cacete.  Até refém daqueles bandidos, nós ficamos. Pegamos essa estrada secundária, que não se pode passar dos 40 km. Olha o seu relógio, aí! Que horas tem?
- Aqui está marcando 2 e 40  da tarde.
     - E você acha Toni, que em, mais ou menos, 9 horas dava pra fazer tudo que fizemos, e ainda estar voltando para a rodovia? Eu acho que não! Quanto tempo, ficamos nas mãos daqueles bandidos? Foi muito tempo, não foi?
     - Foi mesmo, Quim. Realmente, você está certo.
     - Então, o que fazer? Eu pergunto e respondo. Não podemos falar disso com ninguém. Com certeza vão chamar a gente de mentirosos e malucos. Vamos entregar a carga conforme combinado e se pintar algum transporte, a gente pega. Depois vamos até em casa, de onde estamos sumidos há muito tempo. Toni olha só que paisagem desoladora! Eu não me lembro de ter visto um lugar tão seco e feio como esse! Como esse pessoal consegue sobreviver numa região dessas? Sabe Toni, chega de paranormalidade!
     - Essa turma vive de teimoso! E chega de fantasma! Vamos embora! Toca aí, Quim! Isso que vivemos, foi só um sonho! Acelera, mano! Estou doido pra chegar numa churrascaria e encarar aquela boa picanha! Vamos embora e sem reclamações!
    - E eu reclamo? Para com isso, Toni!

fim


Obs. Essa obra é de ficção. Qualquer semelhança com a história, nomes dos personagens, é pura coincidência.










sexta-feira, 21 de julho de 2017

A PROCURA DA NÊGA


Ai galera, acaba de ser publicado a música A Procura da Nêga, de minha autoria, no YouTube. É a primeira, e de verdade, estou muito feliz! Que tal ir lá e conferir esse novo trabalho? Irei publicar uma música por mês. Aguardem!!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um Anjo na Boleia - Parte 17 (Penúltima parte)

Continuando...
Os dois saem do casebre com os olhos cheios d’água. Disfarçadamente, enxugam com as costas das mãos, as lágrimas que já desciam pelo rosto. E se dirigem para o caminhão, em silêncio. Mas antes de entrar, Quim faz um comentário:
       - Ué, Toni! Nem tinha percebido que você tinha feito à manobra no caminhão!
      - Enquanto você foi levar a última caixa, eu manobrei pra gente não perder tempo. Agora a direção é sua.
      - Tá bom. Deixa comigo.
         Os dois entram no caminhão, mas antes de partir dão um adeus para dona Maria e as crianças, que os acompanharam até o portão. Quim liga o motor e vai saindo lentamente. Parecia que o pé dele estava sem força para acelerar. O caminhão foi se arrastando até a árvore. Parou. Ele colocou a cabeça para fora e ficou olhando para a copa da árvore. O irmão ficou curioso e perguntou:
      - Ué, Quim! O que é que você está fazendo?
      - Eu? Só estou olhando para ver se a menina está lá em cima da árvore!
      - Mas como ela vai estar lá em cima? Você tem cada uma!
       - E se ela estivesse? A mãe não falou que ela gostava de ficar em cima da árvore? Então, de repente ela estava lá em cima!
       - Pra quem estava aparentando estar com medo, até que me surpreendeu!
      - Que medo o quê!
      - E se soubesse antes, Quim?
       - Eu... Aí ia se esquisito! Claro que eu ia ficar com medo! E você também ia! Não adianta nem dizer que não!
       - É. Tá legal. Vamos embora, que temos ainda alguns quilômetros de poeira pela frente. 
      Quim dá a partida no veiculo, mas não consegue dar velocidade. O caminhão vai se arrastando por alguns metros e para. Toni fica sem entender o que está acontecendo e reclama:
      - O que é que está havendo? Não consegue andar, não? Vai me dizer que estamos enguiçado!
      - Não sei Toni! Não estou conseguindo apertar o acelerador! Que coisa estranha!
      - Então deixa eu levar Gertrude!
      - Pra chamar a nossa carreta de Gertrudes, é porque está com muita raiva! Só pode ser! Você me proibiu de chama-la por esse nome!
      - É mesmo! Quando eu me lembro daquela filha da mãe! Hum! Você botou esse nome, só pra me sacanear! Vamos embora! Estou te achando muito devagar! Estou descendo!
    Toni desce, mas de repente, ainda com a porta aberta, fala para o irmão, quase sussurrando:
- Quim, olha lá prá´trás. A menina está em pé lá perto da árvore. No mesmo lugar que deixamos ela.
     - É mesmo! Olha só!Ainda está mandando beijo pra gente! Será que ela está morta mesmo? É igualzinho a uma pessoa viva! Por que será que ela não apareceu pra mãe?
     - Sei lá! Sei lá! De assombração eu não entendo! Ih, Quim! Ela sumiu!
     - Não deixou nem vestígio! Eu pensei que fantasma deixasse algum rastro! Tipo uma fumacinha!
    - E lá alma de outro mundo é fumaça? Não tô sabendo disso não! Quim, deixa eu pegar na direção!
    - Peraí,Toni. Volta lá pro seu lugar. A direção é minha.
    - Mas, Quim! Você não está conseguindo apertar o acelerador!
    - Já passou! Meu pé agora está firme! Naquela hora é que não entendi! Será que foi a menina?
    - Pode ser. Depois disso tudo que aconteceu com a gente! Acredito até que o homem possa mandar uma nave para o sol, e os astronautas vão até tomar umas cervejinhas bem geladas, por lá!
    - Você é muito engraçadinho, Toni!  Vai brincando, vai! Sobe logo aí! Estou doido para pisar nesse acelerador! Vou pisar! Mas antes, quero falar uma coisinha, Sr. Toni!
- Ih, qual é Quim? Esse negócio de me chamar de senhor! O quê que é?
    - O quê que é? Viu a enrolada que você meteu a gente? A gente podia ter morrido! Tinha que ter falado antes comigo!
    - Falar com você? Quim, se eu tivesse falado com você, a gente não ia fazer nada do que fizemos!

    - Mas é claro, que a gente não ia ter feito nada! Porque eu não ia entrar nessa canoa furada! Aonde já se viu transportar defunto! Quando penso nisso, fico todo arrepiado! 
                          Semana que vem acaba essa estória!!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Um Anjo na Boleia - Parte 16

Continuando...
Enquanto dona Maria vai buscar a carta, a filha entra com uma bandeja, com duas xícaras de café. Quim pega o seu, comenta:
     - Nossa mãe! Toni olha só o cheirinho desse café! Sente só!
     - Além de cheiroso, está muito gostoso! Obrigado, menina!
       Nisso volta dona Maria com dois envelopes na mão. Segurando-os, como se tivesse transportando algo de muito valor. Antes de entregá-los, beija-os carinhosamente.
     - Aqui senhor. Pode ler. 
       Toni abre o mais antigo e ler em silêncio. No segundo, dá um sorriso e comenta:
      - Dona Maria, ele fala em Lourenço, sim! Diz aqui, que ele é um grande amigo. Uma pessoa de bom coração e caráter. Mas diz também, que não sabe se terá esse amigo por muito tempo. Achava que Lourenço não suportaria a enfermidade. Quim será que ele está morto, também?
      - Sei lá! Foi ele que te entregou o caixão?
      - Isso não. Foi na funerária.
      - Vocês trouxeram o corpo do meu marido?
      - Não, a gente achava que sim. Mas não trouxemos. Foi só o caixão vazio que veio com a gente. Mas eu pensei que o corpo estava lá dentro. Acho que agora estou entendendo o que aconteceu. O caixão foi só pra despistar. Quim será que foi um morto que armou isso tudo?
     - Não! Estou achando que foram dois: a menina e o pai! Mas como uma pessoa morta pode fazer isso? Que mistério, hein Toni!
     - Será, Quim? Se foram eles, usaram a gente! Como devem ter usado outras pessoas por lá, também! Mas é muito estranho, isso tudo! Nunca ouvi falar que algum morto tenha ajudado alguém!
     - Ué! Você que acredita em tudo, deve acreditar nisso também!
     - Mais ou menos! Até que na menina eu acredito! Depois dessa prova aqui! Esse retrato... a gente não se enganou! É ela mesma, não é?
    - É! Acho que é!
    - Seu Toni. Eu gostaria de ir até esse lugar. Queria ver aonde o meu marido está enterrado.
  - A senhora vai ter que ir mesmo! Não é Toni? A senhora está com a chave de algum cofre no banco. Tem que ver a conta que tem lá também. Oh! Mas a senhora não deve procurar ninguém na cidade, não! Resolve tudo no banco, primeiro! Aí depois a senhora vailá onde está enterrado o falecido! Procura saber, discretamente, se esse tal de Lourenço ainda está por lá! Isso se ainda estiver vivo!
    - O que é isso, Quim! Se ele estiver vivo?
    - Mas é claro! Pelo jeito que está escrito na carta, o cara já passou para o andar de cima, também!
    - É! Pode ser! Mas você tem que saber como falar! Vai falando assim na bucha, que o cara morreu? Tem que ter cuidado! Masvocê é assim mesmo, né? O que é que eu vou fazer?
      Enquanto o irmão faz umas caretas, Toni se dirige para dona Maria, antes que ele conteste a colocação que tinha feito.
    - Dona Maria, me diz uma coisa: quem vai ajudar à senhora resolver isso tudo?
      - Eu tenho um filho maior. Ele trabalha numa fazenda aqui perto. É menino bom! Tem o nome do pai. O patrão gosta muito dele. Ele sabe ler e escrever. Dirige os caminhão lá da fazenda. Os trator também! Seu moço, ele já estava até pensando em ir atrás do pai. Agora a gente vai.
Muito obrigado pelo que fizeram por nós. Pode deixá que a gente dá um jeito.
      - Dona Maria...
      - O que é que você vai falar, Quim?
      - Nada. Só uma coisa que pensei aqui. A senhora, antes de ir lá para o escafundeu de Judas, pode ir até uma agência do banco, aqui na cidade vizinha, e conferir o que tem na conta.
     - Pode?
     - Dona Maria, Quim está certo. A senhora tem o cartão e a senha. Com isso a senhora vai saber quanto o Zé deixou na conta, pra vocês. Oh! Mas cuidado! Não pode mostrar pra ninguém essa senha, não!
    - Pode deixar. Eu vou ter cuidado.
    - Toni, a gente já pode ir, né?
- Claro que não! Falta descarregar o caminhão! Esqueceu?
    - Puxa vida! Já pensou se a gente esquece? Pegar essa estrada novamente pra vir aqui trazer tudo? Vamos rápido, Toni!
     Em pouco tempo, com a ajuda de dona Maria e os filhos, eles conseguem colocar tudo dentro do casebre. Um tudo que na realidade, não era muita coisa. Mas deu para entupir a casa de Zé Betão. Com aquelas tralhas, como diz Quim, dona Maria não conseguiu esconder a alegria, que brotou de dentro da sua tristeza. Agradeceu, emocionada.
      - Muito obrigada por tudo. Não tenho como pagar tanta bondade.
      - O que é isso, dona Maria? Não precisa agradecer! Fizemos de coração! Não é Quim?
      - Claro! Isso mesmo! Mas... Dona Maria, desculpe, mas agora temos que ir andando! Hein Toni, podemos ir?
      - Ah, sim! Podemos ir! A senhora não precisa mais da gente, não?
      - Mas vocês já vão? Se quiserem ficar aqui, até amanhã, podem ficar! A casa é pobre, mas dá boa acolhida!
      - Muito obrigado! Mas acho melhor, a gente ir andando! Sabe dona Maria! Alguma coisa está me dizendo, que essa vida de aperto vai passar! A vida de vocês vai melhorar!
     - Deus queira que sim.
     - E ele há de querer! Não é Quim? Dona Maria a gente já vai andando. Fiquem com Deus.
      Quim já demonstrando impaciência, fala baixo no ouvido do irmão:
       - Vamos, Toni! Vamos nessa! Já cumprimos nossa missão! Já entregamos tudo que tínhamos pra entregar! Vamos picar a mula! Vamos aproveitar que ainda está claro! Dá pra gente andar um bocado, ainda!
       - Tá apressado! Vai parecer que estamos doidos pra sair daqui! Isso é falta de educação! Calma aí, Quim!Será que não dá pra gente deixar alguma grana pra eles? Eu acho que a dispensa deles, está vazia! Até eles se acertarem, né?
       - Vai lá, irmã Tereza! Vai lá!
       - Dona Maria, eu estava falando aqui com o meu irmão... A gente resolveu deixar algum dinheiro pra vocês. Vai dar pra...
      - Não precisa se preocupar, não. A gente dá um jeito. Um dia a mais, um dia a menos... Não vai fazer diferença, não!
      - A senhora não vai fazer essa desfeita, vai? É de coração! Eu e Quim queremos que a senhora aceite!
     - Como é que eu vou pagar a vocês? Já estou devendo tanto!

     - E quem disse que a senhora está devendo alguma coisa? Quem falou em pagar? É um presente, dona Maria! Se fosse ao contrário, eu tenho certeza que Zé Betão faria o mesmo! Está aqui. Fiquem com Deus e boa sorte. Nós já vamos. Se a senhora precisar da gente, é só telefonar. Está aqui o nosso telefone. É só ligar! Não precisa chorar. Vou acabar chorando também.
           Continua semana que vem...

terça-feira, 4 de julho de 2017

Um Anjo na Boleia - Parte 15

Continuando...
                 Quim abre um bocão e fala assustado:
            - O quê? Peraí! A senhora tá dizendo que ela está morta?  É isso?
            - Sim. Infelizmente a minha Angélica já morreu. Seu moço, ela era uma menina tão boa! Penso que agora ela deve está no céu!
            - Não acredito! A senhora me desculpe, mas não pode ser! Quim fala pra ela!
            - Senhora, Toni está certo. Ela está viva. Nós...
            - O senhô não entendeu. Os médico disseram que ela pegou pneumonia. Não resistiu. Moço, ela morreu.
           Quim olha para o irmão, com os olhos arregalados, e fala:
            - Toni, então a gente ficou esse tempo todo com um fantasma? Não posso acreditar! Se eu contar isso pra alguém, com certeza vou ser taxado de maluco!
           - Vocês conheciam a minha filha?
           - Chi, Dona Maria! É uma longa história! A gente conheceu ela, sim!
  Não é Quim? Parece incrível! Sabe que foi ela que trouxe a gente até aqui?
            - Seu moço, não pode ter sido ela! A minha Angélica já morreu! Deve ter sido alguma menina parecida com ela!
           - Nós deixamos Angélica, ainda agora, naquela árvore lá na estrada. Aquela lá da curva.
- Mas ela morreu seu moço.
           - Pra mim ela parecia vivinha! Não é Quim?
           - Muito vivinha! E esperta pra caramba!
          - Quim, será que era só a gente via ela? Você viu lá naquele posto, aquela confusão toda! Lembra que a garçonete só botou dois pratos na mesa? E os bandidos? Eles também não viram a menina! Lembra que ela ficou no meio dos dois uma porção de tempo?
         - Mas eu falei pra você que estava achando tudo muito estranho! Não falei? Mas você não deu muita atenção no que eu estava falando! Toni, como é que ela sabia que tinha uns caras atrás da gente? E o negócio da carreta! Como ela sabia que a carreta estava tombada?  E depois ela soltou a gente e os caras não viram! Era tudo muito estranho!
- É!
         - Seu moço! A minha menina era boa mesmo! Agora que vocês falaram isso tudo, acho que pode ter sido ela mesma! Será que a minha menina virou santa?  Ela voltou pra ajudar a gente! Isso era coisa dela mesmo, seu moço. Estava sempre lá pra ajudar todo mundo. O senhor falou na árvore da estrada. Ela adorava ficar lá nas grimpas. Passava um tempão lá. Mas só depois que ajudava em casa. Sabe! Uma vez ela disse que ia achar o pai dela de qualquer jeito! Se não fosse em vida, seria na morte! Ela achou! Achou e veio avisar a gente!
           Dona Maria estava visivelmente emocionada. Os olhos estavam rasos d´água. Pegou a ponta do avental e secou as lágrimas. Depois passou a mão na cabeça do filho, que estava enroscado na sua perna, e disse:
          - Obrigado. Muito obrigado. Seu moço, ela virou santa. Minha menina virou santa.
          - Dona Maria, eu até comentei com o meu irmão, Quim, que sonhei com a morte do Zé. Agora veio claramente na minha cabeça, que a menina no sonho era Angélica. Ela me avisava da morte dele. E me mostrava o lugar onde ele estava. E ainda me pedia pra eu ir lá, que ele precisava de mim. Como é que eu só lembrei agora? Quim, ela é um anjo! Só pode ser!
          - Toni! Nós ficamos esse tempo todo com um anjo? Olha só! Estou todo arrepiado!
- E eu não tô? Olha só!
          - Foi isso mesmo, seu moço?
          - Foi assim mesmo, dona Maria! Eu lembrava do sonho, mas não lembrava da menina! Ela deve ter apagado isso da minha memória!
         - Com certeza Toni! Já pensou se você tivesse lembrado? Não quero nem pensar!
         - Ia ficar com medo?
         - E você não?
         - Deixa isso pra lá! Acho... Não sei.
         - Toni, acho melhor a gente não demorar. Ainda temos que descarregar o caminhão. Veja só! E eu que achava que era uma porção de tralhas! Mas agora estou vendo que vai servir muito pra eles! Vamos logo lá? Ainda temos uma carga pra entregar! Esqueceu?
        - Calma Quim! Estamos com tempo! O tempo tá sobrando! Fica calmo! Ainda vamos tomar o cafezinho!
        - Tá bom. Ih! Toni, você não disse que tinha um envelope pra entregar? 
        - Ih! Quim! Isso mesmo! Já ia esquecendo!
           Enquanto Toni procurava nos bolsos, dona Maria gritava pra filha:
        - Leonor! E o café?
 - Játôcuando, mãe!
           Finalmente Toni encontra o envelope e entrega a dona Maria. Ela abre, passa a vista rapidamente, mas devolve. Meio sem graça, pede que ele leia. Toni pega, mas questiona:
         - A senhora não vai ler?
         - Di uns tempo pra cá, meus olhos tão vendo tudo embaralhado. Essas letra miúda, faz muita confusão.  Lê o senhor.
         - Está bom. Ih! Aqui na carta diz onde ele está enterrado! Ué! Eu pensei... Quim, a gente carregou um caixão vazio! Não estou entendendo nada! Agora... Dona Maria, aqui está escrito que tem uma conta corrente. Com cartão e tudo. E tem também uma chave de banco. Está tudo numa caixa de sapato, junto com algumas fotografias e o atestado de óbito.
         - Toni você viu essa caixa?
         - Tá no caminhão. Eu botei dentro de uma caixa grande. Acho que não esqueci, porque estava com um bilhete pra eu guardar com cuidado. Vou lá buscar.
            Toni vai até o caminhão, pega a caixa e leva até o casebre.  Retira a tampa, pega a caixa de sapato e coloca em cima da mesa. Por algum tempo ficam os três olhando. Quim ameaça abrir, mas é impedido por Toni, que oferece para dona Maria. Ela ameaça, mas pede para Toni abrir.
       - Distampa o senhor. Eu prefiro. O senhor não abriu antes?
       - Não. Não senhora. Do jeito que eu peguei, eu guardei. Então eu vou abrir agora. Com a sua permissão. Tá aqui. Olha só o cartão. Aqui tá a senha nesse papel. Esse outro papel, dobrado no meio, deve ser o atestado de óbito. E é. Olha a chave aqui também. Aqui tem o número. Deve ter alguma coisa importante dentro desse armário. O banco é lá da cidade aonde ele foi sepultado.
      - Mas Toni, o que será que tinha naquele caixão?
       - Sei lá! Nem desconfio! Mas parecia muito pesado. Do jeito que os caras fizeram força pra carregar ele! O que será que eles queriam? Devia ser alguma coisa que estava no caixão. Se seguiram a gente, é porque alguém sabia...
       - Sabia o que, Toni?
       - Eles sabiam o que a gente estava carregando ou pensavam que sabia. Alguém deve ter dito que no corpo tinha alguma coisa de valor. Dona Maria, Zé estava trabalhando com o quê?
      - Ele dizia que ia ficar rico. Acho que foi atrás de ouro, diamante... Só isso que eu sei.
      - Aí, Toni! Ele deve ter achado alguma coisa! Alguém ficou sabendo! No garimpo é difícil esconder algum achado grande! Por isso que os caras vieram atrás da gente, achando que estava escondido alguma coisa no corpo!
      - Pode ser Quim! Pode ser! 
      - Mano, tem outra coisa: quem sabe alguém espalhou isso, de propósito! Aqueles bandidos vieram secos atrás da gente! Eles sabiam o que estavam procurando! E o que era, estava dentro do caixão! Eles nem perderam o tempo de revistar a gente! Toni, você já conhecia o cara que você foi encontrar?
      - Eu não! Nunca tinha visto o cabra! O encontro foi rápido! Dona Maria a senhora conheceu algum Loureço? Esse era o nome do cara! Agora me lembrei!
      Dona Maria para e parece que fica vasculhando a memória. Passa a mão na cabeça, coça a nuca e fala:
     - Esse nome! Acho que não!
     - Pensa mais. Alguma carta do Zé. Pensa, dona Maria.

     - Seu Toni. Espera aí. Eu tenho uma carta sim. Nesse tempo todo, Zé só mandou duas carta. Mas eu não me alembro se falou em algum amigo. Deve ter uns dois anos que ele mandou a última. Eu vou pegar.
Com sua licença.
              Continua semana que vem...

terça-feira, 27 de junho de 2017

Um Anjo na Boleia - Parte 14

Continuando...
Toni coça a cabeça, olha para a esposa do amigo e fica sem saber o que falar. Olha para o irmão e, com um olhar que só Quim conhece, pediu socorro. Mas Quim, disfarçadamente, vira o rosto. Num beco sem saída, deixando escapar um pigarro nervoso, fala timidamente para dona Maria:
      - Dona Maria. Eu...
      - Sim. Alguma noticia do meu marido? O que ele mandou pra mim?
      - É sim. É ele mandou sim. Mas... Mas eu não tenho boas notícias. Ele...
      - Ele está doente? Muito doente?
      - É! Ele ficou... Sabe! Ele não...
      - O senhor que dizer... Ele morreu? É isso? Ele morreu?
      - Foi... É! Sabe! Infelizmente ele não resistiu! E...
      - Então ele morreu mesmo? Meu Deus! Meu Deus!
         Dona Maria se segura no portão, arria a cabeça e chora compulsivamente. O filho, que estava ao seu lado, se abraça a ela. Toni e Quim não aguentam a cena e choram juntos com a esposa e o filho de Zé. O momento era de total tristeza. Dona Maria, depois de chorar tudo que podia, levantou a cabeça e falou para os irmãos, ainda com os olhos inundados de lágrimas:
        - Senhor, o que é que vai ser da gente? Eu sempre tive a esperança dele voltar. Um dia seu pai vai voltar. Eu sempre falava isso para as nossas crianças. Mesmo do jeito que ele tinha ido. Ele levantou um dia e disse que ia embora para "enricar", mas depois voltava. Moço, nós já tivemos uma vida melhor. Antes dele se ir, nós vivia com pouco, mas vivia bem. O senhor sabe que eu estudei um pouco? Aprendi a lê e escrevê. E ensinei com o pouco que eu sabia, os nosso filho. Nesse fim de mundo, não tem nada. Desculpe. Tem sim alguma coisa: miséria. Mas eu tinha esperança que ele voltasse.
       Quando a mulher de Zé dá uma pausa no seu lamento, Quim consegue escapar do silêncio e fala para a viúva:
        - Dona. Eu sinto muito! Sinto mesmo! Do fundo do meu coração! Mesmo eu não conhecendo o Zé, eu fiquei triste! E estou triste com a sua tristeza!
       - É dona Maria, ele era um grande amigo. Quim não conheceu o Zé. Só conhecia deu falar. Ele deve ter falado no meu nome com a senhora. Eu me chamo Toni. A senhora se lembra?
         Ela já um pouco recuperada do choque da morte do marido, tenda responder, enxugando um resto de lágrimas:
       - Toni? Ah, sim. Vocês trabalharam juntos. Tem muito tempo, não tem?
       - É! Muito tempo, mesmo!  Velhos tempos! Tenho saudade daquele passado, que faz muito tempo, mas parece que está aqui. Acho que não vai sair nunca daqui dessa cabeça. Por que a vida faz isso com a gente?
      - É seu Toni. Tem hora que fico com muita reiva com tudo que acontece com a gente. Fico até burricida com Deus! Mas depois eu peço desculpa. Tem muita gente por aí pior que a gente, não tem? Eu não sei purquêtanta coisa ruim acontece comigo e com tanta gente por aí afora. Mas acontece coisas boa também. Então eu peço desculpa a Deus, porque ele sabe o que faz, né?
       - Acho que a senhora está certa, não é Toni?
       - É. Tá certa sim. Quem somos nós pra julgar Deus. 
         Toni dá uma parada. Antes de recomeçar a falar, respira fundo, assopra e finalmente volta ao fio da meada:
       - Dona Maria. Nós trouxemos algumas coisas pra senhora. São alguns pertences do seu marido. Foi um amigo do Zé que pediu pra eu trazer. Só não lembro o nome dele, no momento. Mas não deve fazer diferença, né? O importante é que trouxemos o prometido. Também eu nem sei se ele falou o nome. Deixa pra lá. Ele me entregou tudo é foi embora. Sabe que eu não vi mais o cabra?
         Dona Maria deixa escapar um sorriso meio sem expressão e, apontando para a casa, convida- os a entrar:
       - Vamos entrá? Não repare, não. A casa é pobre, mas dá pra receber os amigo do meu marido.
       - Aceitamos sim. Se não for incomodar! Não é Quim?
       - Leonor, côa um cafezinho, aí, filha! Temos visita!
          A cortina que cobre o vão da porta é aberta e aparece uma menina, que não passa dos doze anos, magra, cabelo lambido, com um vestido branco roto, dá um bom dia para os dois caminhoneiros e depois pergunta a mãe:
            - Boa tarde. Mãe faz quantos? Pode fazer pra nós também?
            - Não, filha. Só pras visita.
              Quim olha para o irmão, enquanto a menina volta por onde tinha saído, e quase sussurrando, fala:
            - Toni, isso não tá certo! Eles são muito pobres! A gente vai desfalcar o café deles!
            - Fica quieto, Quim! Ela pode se ofender! Depois deixamos uns do nosso! Temos muito! Não podemos é fazer desfeita!
            - Tá bom! Você tá certo, mano! Ih! Toni! Olha só aquele retrato, ali! Não é aquela menina que veio com a gente?
            - Isso mesmo, Quim! É ela! Só pode ser! Por que será que ela não quis descer aqui?
              Quim nada responde, porque, com certeza, não saberia o que dizer. Mas olhava para o retrato, boquiaberto. Estava impressionado. A semelhança era muita. Não se conteve e se dirigiu a mulher do Zé:
           - Dona Maria. Essa menina é sua filha? Aquela ali do retrato!
           - É sim! É linda, não é? Angélica! Minha Maria Angélica! Sinto uma saudade danada dela! Meu Deus, que saudade!
          Toni percebendo a dor que aquela mãe sentia, pergunta:
           - Ela fugiu de casa?

- Não sinhô! Fugiu não! Nossa menina, nunca fugiria da gente! Nós perdemos ela pra Deus! Já faz três anos! O pai nem soube. Pegou uma febre e... A gente não teve nem tempo pra correr.
           Continua semana que vem... 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Um Anjo na Boleia - Parte 13

Continuando...
        Tonhão fala para o amigo e aponta na direção da tal estrada de chão. Tião vai diminuindo a velocidade do carro, até quase parar. Da rodovia para a rua de chão, tem um desnível. Entra vagarosamente e depois dobra a esquerda, passando por cima de um mato ralo.  Estaciona o carro e os dois descem rapidamente. Ansioso, Tião abre a mala do carro e tenta puxar o caixão. Mas ele não consegue movê-lo. O amigo fica olhando, ri do seu fracasso e ainda faz uma gozação:
       - Ah! Ah! Ah! Tá fraco, hein Tião? O que você comeu não deu sustança, não?
       - Qual é? Tô fraco, uma ova! Vem de sacanagem, não! Ao invés de ficar aí falando besteira, vem me ajudar! Esse troço tá pesado pra cacete! Anda rápido pra gente sair logo daqui! Esse esforço vai valer a pena! Vem logo e deixa de frescura!
       - Tá nervoso? Fresco, é tu! Sou é cabra macho! Vou mostrar pra você como é mole arrastar esse caixão! Deixa comigo!
      - Ué! Cadê o machão? Deixa de besteira! Pega aqui por fora, que eu vou empurrar lá de dentro! Vamos lá! Parecia mais leve, não é Tonhão?
      - Estranho, né? Mas nós coloca ele aqui! Se colocamo, a gente tira! Vamos, Tião! Empurra essa droga, que eu vou puxar!
     - Lá vai! Um, dois, três... Foi! Agora vou aí pra fora.
     - Cuidado pra não deixar cair, Tião.
     - Qual o problema de jogar ele no chão?
     - Porra cara! A gente quer a grana, mas não podemos desrespeitar o defunto! Vamos pegar o que interessa e deixar o defunto por aqui mesmo! Mas com a tampa aberta, prus urubus! Vamos descendo devagar. Pronto. Viu? Agora é só destampar. Tira a tampa você.
     - Por que eu?
     - Tá bom. Você já fez força à beça, agora deixa comigo. Olha bem. Ué, Tião! A tampa tá aberta! Aqui! Só tá encostado! Cara, como é que a gente fez tanta força e não conseguimos abrir? Olha como tem pano em cima do defunto! Tião mete a mão e tira isso tudo!
     - Por que eu? Tira você!
     - Tudo bem! Mas eu tiro do meio pra cá e você pra lá!
     - Tá bom! Tá bom! Começa você!
        Os dois estavam visivelmente receosos para mexer no defunto. Mesmo convivendo com a violência, não estavam demonstrando desembaraço no trato com a morte. Custaram a tomar iniciativa. Foi Tião que acabou cedendo e começou a remover os panos que cobriam o falecido.
      - Já que você não se mexe, eu vou tirar.
         Lá foi Tião, vagarosamente, cheio de medo, afastando o tecido que aparentemente cobria o pé. Logo que levantou o pano, parou e fez uma cara de espanto:
      - Ih! Ih! Tonhão! Cara se demos mal! Só tem pedra!
      - Como só tem pedra?
      - É isso mesmo: só tem pedra! Tira tudo! Tira tudo!
      - Tião, que sacanagem! Só tem pedra aqui também! Tudo é só pedra!
      - Andamos pra caramba, pra encontrar só pedra? Cara, isso é sacanagem das grande! Tonhão, vamos voltar lá e pegar aqueles caras! Eles ficaram com o nosso tesouro! Nós fomos enganados pelaqueles dois babacas! Vamos voltar!        
      - Como voltar? Tá maluco? A polícia tava chegando lá, esqueceu? Nessa nós dançamos! E dançamos feio, cara! Além do mais, eles já devem estar muito longe! Essa parada nós perdemos! Agora, só partindo pra outra! Tá falado?
         Tião aceitou, mas revoltado. Acabou descarregando a sua raiva no caixão, dando vários chutes. Enquanto isso, Tonhão entrava no carro e assumia a direção. Com o carro ligado, esperava Tião, que demonstrando total desequilíbrio, esvaziava o tambor do revolver, no caixão, destruindo-o a tiros. E bem longe dali, os irmãos Toni e Quim continuam a caminho da casa da família de Zé. Já na estrada de chão, bem distante da rodovia, Toni ouve as reclamações de Quim:
       - Puxa, Toni! Não tinha estrada pior do que essa não? Já estou com os ossos todo quebrado! Pô, mano! Parece que a gente já andou pra lá de 20 km! Estou mais moído que vidro em linha de trem! Esses buracos estão sacodindo os meus miolos! Meus pensamentos vão ficar embaralhados!
       - Como reclama! Como reclama! Até parece que é a primeira vez que você encara uma estrada dessas! Para com isso, Quim! Deixa de bobeira! A menina vai achar que você é um fracote!
      - Que fracote, nada! Pô, Toni! Depois de tantas emoções, o que é que você queria? E vamos rezar para os caras não pegarem o nosso rastro! E aí, menina! Falta muito pra chegar?
      - Tá pertinho! Pertinho! Tá mais perto do que você imagina! Logo ali! Depois daquela árvore. Está vendo? É o primeiro sítio. Vou ficar ali mesmo. Pode parar em frente à árvore.
      - A sua família mora por aqui? A gente leva você até a sua casa!
      - Não precisa, não. Obrigado pela carona. Obrigado por tudo.
      - Né Toni? A gente é que agradece! E peço desculpas por ter desconfiado de você! Você salvou as nossas vidas!
      - Vocês é que vão salvar muitas vidas! Obrigado. Tchau.
      - Tchau! Vai com Deus!
      - Até mais ver! Ei, Toni! Ela disse que nós vamos salvar muitas vidas? É isso mesmo? Não entendi! Olha lá, mano! Será que é ali? Olha só! Pelo jeito da casa, devem viver numa tremenda miséria! Meu Deus! Toni, você sabe o nome da viúva?
       - Espera aí. Tá escrito no envelope. Vou pegar aqui no bolso. Toma. O nome está dentro. Tem um pedaço de papel com o endereço e o nome dela.
        - O nome dela é Maria da Anunciação. O número está ali: 535.
- Quim,vou pararum pouquinho depois da casa. Se não vai ficar muito em cima do portão.
       - Estou descendo, Toni. Ih! Olha lá! A menina ainda está parada lá na árvore!
       - Deve estar descansando! Com certeza, está cansada igual à gente! Vamos lá. Bate palma. Vamos, Quim!
       - Calma. Calma. Tem um menino ali. Dona Maria está? 
       O menino corre e entra no casebre, chamando pela mãe.
       - Mãe! Mãe! Tem um moço aqui chamando à senhora!
      Enquanto a criança entra gritando pela mãe, Quim fala, quase segredando, com o irmão:
       - Toni, acho melhor a gente não dizer nada sobre o defunto, não. Como é que a gente vai explicar que ele foi roubado, com caixão e tudo? Dá só a notícia da morte dele! É melhor! Vai por mim!

       - Acho que você está certo. Quim, tá vindo uma senhora. É a mulher do Zé, sim. Eu vi numa foto, que ele me mostrou. Caramba! Ela não mudou quase nada! Dona Maria?
      - Sim senhor. Sou Maria.
      - A senhora é a esposa de Zé Betão?
      - Sou sim senhor.Porquê? O senhor tem alguma notícia dele? Há muito tempo que ele não dá noticias!
      - Eu sou Toni e ele, é Quim, meu irmão. É... É... Nós trouxemos notícias, sim! Trouxemos algumas coisas pra senhora.
     - Ele mandou?
     - É... Mais ou menos. Sabe...
     - Toni, desembucha logo!
     - Calma, Quim!
       Toni bota a mão na frente da boca e fala baixo:
     - Quim, como é que eu vou dar a noticia assim de cara?

     - Sei lá! Você sabe que eu fico nervoso com muito suspense! Fala logo! Mas sem falar no corpo!
             Continua semana que vem...

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um Anjo na Boleia - Parte 12

Continuando...
          - Não se preocupe. Não tem nada pra explicar, não! Você não tem um envelope para entregar pra família?
        - Tenho.
        - Então, é a única coisa que importa! Eles não precisam saber de corpo nenhum!
           Toni fica olhando para a menina, sem saber o que falar. Estava tentando encontrar palavras para continuar a conversa. Olha para o irmão, como querendo que ele falasse alguma coisa, mas Quim, parecendo que tinha percebido a intenção dele, dá uma sacudida na cabeça, negando, e diz:
          - Oh! Estou fora! Não tenho nada pra dizer! Não sabia de corpo nenhum! E tem mais: foi até melhor os caras terem levado o caixão! Você sabe que eu não fico muito a vontade perto de defunto!
          - Mas você é cagão, Quim! Eu sabia que não podia contar com você! Agora, menina, me diz uma coisa: como é que você sabia do envelope? Ninguém sabia! Acho que nem Quim sabia! Se eu comentei, elenem percebeu!
         - É! Não sei de envelope nenhum! Você não falou nada! Acho que falou de uma carta! Só isso!
         - Ah! Quim! Devo ter falado e você não registrou! Mas quero saber como você sabia, menina!
         - Isso não é importante agora, tá legal?  Vamos embora! Vamos subir no caminhão e pé na mula!
         - Mas...
         - Mas nada!
         - Mas nada? Olha aí Toni! Mas antes de qualquer coisa: o cagão é você. Ouviu bem, Toni? E agora, menina, me diz uma coisa: por que os caras deixaram a gente e se mandaram apressados? Pelo menos isso tem explicação, né?
        - Foi à sirene da polícia!
        - Que sirene?
        - Vocês não ouviram a sirene da polícia?
        - Eu não! E você Toni?
        - Eu também não! Quim, eu desconfio que estamos ficando surdos!
        - É! Pode ser! Surdinho! Surdinho! 
        - Vocês não ouviram, porque estavam com muito medo. O medo deixa as pessoas cegas, surdas e mudas.
       - Mas eu não estou nem cego, nem surdo e nem mudo. Falei de brincadeira que estava surdo. Só de brincadeira. Quim chega mais perto: você não acha que na distância que a gente estava dos caras, a gente não ia ouvir a sirene?
      - Eu acho. Muito estranho! Muito estranho!
        Enquanto os dois falavam quase sussurrando a menina deixava escapar um sorriso. Depois esticou o olhar por todo aquele matagal queimado pela seca, talvez procurando por algum verde. Mas o horizonte só mostrava desolação. Virou às costas e se encaminhou para o caminhão. Quando ia saindo, Quim, percebendo o seu afastamento, fala:
     - Menina. Menina Angélica. Sabe de uma coisa? Eu jurava de pés juntos, que você estava com aqueles pilantras. Na verdade, desde o inicio, achei sempre isso. Agora... Mas se você não estava com eles, como é que não fizeram nada com você? Explica isso?
       - Ah! Eles estavam tão preocupados com o caixão, que nem prestaram atenção em mim! Mas... O melhor agora é a gente ir embora! O que tem de barro pela frente, não está no gibi!
       - Aí Toni! Continua sem explicar nada direito! E ainda, fala uma gíria pra lá de antiga!  Menina! Menina!
       - Deixa de papo! Vamos embora! Vamos?
         Os dois acabam, entre resmungos e protestos, acompanhando a menina. Quando os dois entram, Angélica já está sentada no seu lugar de sempre. Toni pega a direção e comenta com o irmão:
       - Aí Quim! Ela é rápida! Menina ligeirinha! Você viu quando ela subiu?
       - Eu não, mano!
       - Vocês é que são muito molengos!            
       - Molengo, eu? Eu não sou! Toni! E você é?
       - Você sabe que não! Nós somos uma dupla que não dorme no ponto! É ou não é?
       - Claro mano!
       - Vamos deixar de papo furado? Vamos pra rodovia? Na primeira estrada de chão, à esquerda, a gente entra! Aí, estamos quase na minha casa!
      - Daqui a pouco? Daqui a pouco, mesmo? Não pode dizer a distância, não?
  - Claro! Está bem pertinho! Uns cinco quilômetros, só!
 - Assim fica mais fácil, né Toni? Ela é muito engraçada, você não acha? Menina, fala pra gente: entrando nessa tal estrada, você vai ficar aonde?
 - Vou ficar pertinho de onde vocês vão! Quando chegar, eu aviso!
        Toni liga a carreta, mas não sai do lugar. A menina olha para ele e demonstra impaciência. Mas antes que ela falasse alguma coisa, ele vai tentando justificar o fato de não ter colocado o veiculo em movimento, dizendo:
      - Já sei que vai reclamar. Mas tem um probleminha. Não podemos sair assim, sem mais nem menos. Voltamos pra estrada e de repente damos de cara com aquela dupla infernal! O que é que a gente faz? Acho melhor não arriscar. Vamos por essa estrada de chão, mesmo. Lá embaixo, a gente sai. Isso é mais seguro.
      - Precisa não! Eles já estão bem longe, com o seu tesouro! Não precisam se borrar de novo, não!
        A menina fala, vira para o lado e dá um sorriso. Toni dá um muxoxo e rebate a gozação:
      - Se borrar, uma ova! Aí, Quim! Tá chamando a gente de cagões! Pode isso?
     - Aí menina! Você está rindo de quê? Toni, ela tá sacaneando a gente!
     - Deixa! Acho que ela esqueceu que os bandidos estão com o corpo do meu amigo! Eu dei a minha palavra, que ia entregar o corpo aos familiares! E agora?  
        Longe dali, os bandidos conversam.
      - Tonhão, você não acha melhor a gente parar e abrir o caixão? Não deve ter mais perigo, não! Já conseguimos despistar a polícia, cara! Tá na hora da gente ver o nosso tesouro! Estou doido pra abrir logo esse caixão!
     - É. De repente você tem razão. Já estamos andando há bastante tempo e nem sinal de polícia, nenhuma. Tá legal. Vamos sair da estrada. Naquela estradinha ali, de chão batido, a gente entra. Parece um lugar bem deserto. E não deve ter ninguém pra bisbilhotar. Ah. E tem mais: aproveitamos e deixamos o corpo por aqui mesmo. Os urubus cuidam dele.
                  Continua semana que vem...