terça-feira, 25 de outubro de 2022

A Mnha Casa Não é Essa - Parte 24

 


Continuando...

          Peter, quando saiu, depois de ter alvejado e morto o homem, que segundo Mohammed era um chefe da milícia, lembrou-se dos medicamentos que estavam com o soldado Apache. Rapidamente foi até onde estava o amigo morto, retirou a mochila que estava presa ao seu corpo e foi correndo socorrer o soldado John. Olhou para o amigo e notou que ele estava de olhos fechados. Aparentemente não tinha notado a sua presença. Mas mesmo assim deu um sorriso de vitória, por ter na mão os medicamentos que o salvaria. Abriu a mochila, mas ao olhar para dentro, a sua expressão mudou completamente. O sorriso deu lugar a decepção. Não queria acreditar no que estava vendo.  Virou a mochila de cabeça para baixo e sacudiu-a. De dentro caiu apenas um comprimido, que parecia ser um antibiótico. Ele olhou para John com um olhar de pura tristeza. Tentou falar alguma coisa, mas som algum foi emitido. Então passou a mão na cabeça do amigo, que abriu os olhos, parecendo que tinha despertado, olhando-o com uma expressão de dor. Peter passou novamente a mão na cabeça do amigo e tentou consola-lo:

           - John, otimismo meu amigo. Quando o sargento voltar, nós vamos para a base e lá você vai ter atendimento médico. Tenha paciência, ok?

           O soldado John apenas fechou os olhos e fez uma careta de dor.

           Rachid, como não entendia o que Peter falava, preferiu ficar um pouco distante. Estava visivelmente preocupado, pois sabia que ficando ali de bobeira       era um risco enorme. O peso que trazia nas feições ficou mais leve quando avistou o amigo Mohammed. Gesticulou para ele se apressar.

          O sargento e o menino voltaram para perto do grupo rapidamente. Téo não queria dar o braço a torcer, mas estava preocupado. Até aquele momento o garoto tinha acertado em tudo que falara. Já começava a demonstrar preocupação. Analisou o estado do soldado John e viu que não estava bem, mas achou que Peter tinha dado algum remédio para ele. Quando ia perguntar, Peter balançou negativamente a cabeça.

           - Como assim? E os medicamentos aí na mochila de Apache?

           - Não tinha nada, sargento. Só achei esse comprimido, que não sei o que é.

           - O que Apache fez dos medicamentos?

           - Sargento, não sei responder essa pergunta. De repente ele pegou a mochila errada.

           - Mas isso não pode acontecer. Que droga! Peter vamos levantar John.

           Mas com o simples movimento que fizeram, John urrou de dor. Deixaram-no então no mesmo lugar. Téo olhou para o amigo sentado, franziu a testa e coçou a cabeça. Isso ele fazia quando realmente estava muito preocupado. E completava, andando de um lado para o outro nervosamente. Quando parou parecia que tinha encontrado a solução.

          - John, Peter vamos ter que sair daqui. Temos que voltar para a base. É a única solução. Não estamos muito longe. John você vai ter que aguentar a dor.

          O soldado abriu os olhos e, com um esforço hercúleo, falou quase sussurrando:

          - Mas sargento, como vou levantar daqui? Estou me sentindo a cada minuto mais fraco. E a dor é insuportável. Preciso de um médico, sargento.

          - Eu sei John. Mas médico, só na base. Vamos conseguir, John. Vamos todos.

          Téo terminou de falar e olhou para Mohammed. Mas não precisou nem falar nada, porque o menino entendeu o que dizia o seu olhar. Viu claramente um par de algemas. Ia sair dali preso, com certeza. Então querendo ganhar tempo, falou:

          - Sargento, sargento! Eu sei que o senhor está querendo me levar preso, mas acho que, no momento, essa não é uma boa ideia. Voltar para a base agora é suicídio. Vamos até a nossa casa, para cuidar do soldado. Lá vocês estarão protegidos. É muito arriscado ficar andando por aí, porque com certeza vão ser um alvo fácil. 

........Continua Semana que vem!

 

 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

A Minha Casa Não é Essa - Parte 23

 


Continuando...

             - Vai pegar a arma por quê?

            Mohammed coçou o rosto, com uma expressão pensativa, procurando alguma justificativa, mas finalmente, como sempre fazia, falou com firmeza, deixando aflorar um leve sorriso:

            - Ah sargento! É só uma lembrança pela minha participação no confronto!

            - Que confronto? Você não guerreou!

            - Eu não dei nenhum tiro, mas salvei a vida de vocês dois! Se eu não tivesse visto que ele estava vivo, - apontando na direção do corpo - vocês agora estariam sendo preparados para serem comidos pelas minhocas!

            - E eu agradeço por isso, mas eu não posso te dar essa arma. Você tem que entender que quando você vende uma arma dessas, ou outra qualquer, ela vai ser usada de novo contra todos nós.

           - É mesmo. Eu não tinha pensado nisso.

           - Que não tinha pensado o quê, Mohammed! Você é o cara mais esperto e sonso que já conheci! Você não é um garoto como aparenta. A sua idade verdadeira está escondida atrás dessa cara juvenil.

           - Sou garoto sim. Eles me disseram que eu tenho dez, onze, doze... Ah! Sei lá, sargento!

           - Como você mente com tanta facilidade. É o maior cara de pau que eu já conheci.

           - Puxa sargento. É isso que o senhor pensa realmente de mim? Acho que somos até parceiros, depois desse dia de hoje.

           - Só rindo! Você não existe!

           - Sargento, agora falando sério: temos que sair daqui o mais rápido possível. O meu amigo Rachid andou escutando umas coisas aqui, outra ali. E chegou à conclusão que vocês não têm outra solução, a não ser se esconder.

           - Como nos esconder? Acabamos de acabar com um foco de terroristas!

           - Foco? Terroristas? Era só três milicianos. E tem mais: vocês mataram um chefe deles. Vão vir cheios de raiva para cima de vocês. Essa turma é vingativa. Vão querer pegar o senhor e seus soldados de qualquer jeito. Podem voltar até para os Estados Unidos, que eles vão mandar alguém para pegá-los. Vai começar a sair bandido de tudo que é caverna para procura-los!  Pode acreditar nisso, sargento.

           - Sem exagero, Mohammed. Eles são só soldados como nós.

           - Não é exagero. Tudo bem, não quer acreditar, azar o seu. E eles não são soldados. São bandidos.

           - Mas como é que eles vão saber que fomos nós que matamos um chefe deles?

          - Não sei, mas eles vão descobrir. Até eu tô encrencado. Só me livro se passar para o lado deles. Mas também não tenho saída com vida. Com certeza vão me recrutar para ser homem bomba. Ou morro ou morro.

          - Você é dramático! Já pensou em ser ator?

          - Eu já vivo num drama vinte e quatro horas por dia. Até que às vezes aparece uma comédia aí pelo caminho. Ah antes que me esqueça: o soldado tem que ter um atendimento rápido. O ferimento dele é grave. E outra coisa: a região aqui está descoberta de segurança pública, porque o vice-presidente sofreu um atentado longe daqui. E segundo falou Rachid, morreu muita gente.

          - Essa eu não sabia. Não sei por que não me avisaram. Mohammed, o seu vocabulário não é de criança. Estou impressionado. Você fala com desenvoltura para a sua idade. Você esconde tudo sobre a sua vida, mas eu vou descobrir.

          - Eu ficarei eternamente grato. Eu também quero saber quem eu sou. Não tenho nem um flash de quem eu era. Parece que eu nasci desse tamanho. Agora só vou comemorar meu aniversário a partir da hora que acordei. Vamos? Temos que sair o mais rápido possível. O senhor não vai pegar a arma?

          - Claro. Agora vamos andando.

          Os dois saíram dos escombros. Passaram por onde já tinha existido, pelo tipo de construção, uma linda e cara porta. Sem deixar de lado a cautela, continuaram a olhar para todos os lados, com medo de serem surpreendidos. Caminhavam sem pressa.

          A alguns metros dali, avistaram Peter prestando socorro ao soldado John, que estava sentado e apoiava às costas em um muro já bem castigado por marcas de tiros. E do outro lado da viela, aparecia uma parte do corpo de Rachid, que aparentemente observava os dois soldados. 

.............Continua Semana que vem!

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Socialista Burguês nas Eleições de 2022 - Parte Final

 


Continuando...

              Eu o interrompi de pronto: eu, candidato? Ele me olhou com deboche, balançou o seu livro e apontou para a capa, esfregando o dedo em cima do nome de Marx. Pelo que eu entendi, tive que deixar escapar um sorriso. Não gostou da minha reação, percebi logo. Andou de um lado para o outro algumas vezes, até que me olhou dentro dos olhos. Vou confessar que me arrepiei. De repente sorriu, meteu a mão dentro do bolso e tirou uma foice e martelo cruzados, impresso numa folha A4, bem amarelada. Tentei arriscar algum comentário, mas nem me deu bola. Joguei palavras ao vento.

           - Pensa bem. Estamos aqui, frente a frente, discutindo o futuro do país.

              Interrompi-o perguntando: Brasil? Mas ele me ignorou e continuou o seu discurso.

            - Esse país grandioso. Grandioso ainda não. Vai, com certeza, ser em breve. Já estávamos articulando com os camaradas da União Soviética. Vamos fazer tremular – ou tremer? – (colocando o dedo indicador na bochecha, pensativo) nos mastros em cada ponto do território a bandeira, que não é essa atual, com a foice e o martelo. Meu camarada, nas próximas eleições vamos até importar um candidato para concorrer à presidência da República. Só tem aí candidato fraco!

             Olhei-o sem entender o que estava dizendo. Um candidato importado, é demais. Mas não quis interrompê-lo.

          - Esse candidato é imbatível! – falou transbordando emotividade - Sabe... Mas na realidade ainda não consegui definir entre dois. Quero convidar, um deles, pessoalmente. Tenho certeza de que não vai haver recusa. A ideia é transformar essa terra desgovernada em mais um estado soviético.

          Aí eu ri. Tentei colocar a mão na boca para esconder o riso, mas não teve jeito, acabei gargalhando. Mas o cara não perdeu a pose. Com o olhar direcionado acima da minha cabeça - me lembrei até de um político já falecido - continuou, depois de uma pausa, a discorrer sorridente sobre o seu devaneio.

           - Você já pensou no mais novo estado soviético? Essa nossa terra nunca esteve em boas mãos. Eu não sei o que Che veio fazer aqui. Será que acertou com algum partido de direita? Virou a casaca? Sabe alguma coisa a respeito? (Balancei a cabeça negando. Estava assustado.)  E o Abraão? (Neguei também) É outro de direita radical. Na realidade são dois: o amigo de Moisés e o outro eu só sei que é do hemisfério norte. Tudo gente que quer atrapalhar a nossa política. Falam em progresso. Eu não, falo em trabalho. É o trabalho que vai nos fazer crescer. Temos que colocar calos nas palmas das mãos!

          Deu uma pausa e me apresentou as suas mãos. Olhei para tentar encontrar algum calo, mas não achei nenhum. De tão lisas, pareciam envernizadas.

            - Cada cidadão - continuou empolgado - tem que dar a gota do seu suor. Tem que pensar na grandeza da pátria. Pensar em colocar comida na mesa dos camaradas do partido. É isso! Dividir a renda. Quem precisa viver com muito? Tem que ter essa consciência. Olha só que grandeza de justiça. Isso até me emociona. Estou arrepiado. Olha só.

          Arregaçou as mangas e me mostrou um dos braços. Olhei, olhei e não vi nada arrepiado, além de algumas tatuagens. Percebi ainda que o braço estava depilado. Não entendi. Depois observei o seu rosto e notei que as sobrancelhas tinham sido aparadas. A barba continuava vasta, só deixando os olhos à mostra. Ali estava o meu amigo socialista. Marxista até debaixo d’água, assim ele sempre se auto intitulou.

          A alguns metros à frente, estava a sua moto. - Eu já tinha me afastado com medo. - De cara fiquei impressionado. Quase zero quilômetro. Devia ter sido bem cara. Depois de olhar bastante, me encorajei e perguntei por quanto tinha comprado. Falou rápido e entre dentes que não deu para entender. Insisti, mas enrolou do mesmo jeito. Olhei-o com um olhar que demonstrava decepção e tristeza. Deixei tão claro a minha suspeição, que ele imediatamente se justificou.

           - Gostou da moto? É de um camarada! Grande amigo! E foi um presente dado por muitos camaradas. Lembra do Mao? Contribuiu também. Sabe como é... (pausa) Como ele precisa se deslocar de uma cidade para outra, presentearam-no com esse mimo. Irmão é assim.

           Olhei-o por algum tempo, mudo. Procurei estudar aquela figura a poucos metros de mim. Nem superficialmente e muito menos profundamente consegui fazer uma avaliação daquele ser naquele momento. Já o conhecia de longa data. Sabia-o um liquidificador de ideias, um “maluco beleza”, mas naquela hora, duvidei da sua sanidade. A desonestidade que aflorou com tanta impetuosidade, era real? Ou estava fantasiando?  Com muitos adjetivos eu podia envolvê-lo, mas chamá-lo de desonesto me doía só em pensar. Como um sujeito desequilibrado, mas fiel aos seus princípios tivesse mudado tanto? Não podia acreditar. Enquanto envolvido em meus pensamentos ei-lo me acenando, passando quase no meu nariz, um santinho. Aquele que todo candidato está sempre portando. Ele passava tão rápido, que não conseguia identificar o que estava ali naquele pequeno papel retangular. Fiquei tão tenso que acabei segurando o seu braço pelo pulso. Ele sorriu e pegou o santinho com a outra mão. Depois virou-o e quase encostou-o no meu nariz. Sem demonstrar qualquer tensão, peguei o pedaço de papel e olhei com atenção. Não acreditei no que estava vendo. Estava lá. Eleição para 2022. Vote em Stalin. Ou Lenin. Embaixo das fotos uma frase que dizia: Essa é a juventude que o Brasil precisa. Depois, em letras bem pequenas, uma frase: para deputado, vote em mim. Só que não tinha o seu nome. Pensei em comentar, mas quando levantei a cabeça, ele já saía voando com a sua moto, ou de algum camarada. De repente, mais alguns santinhos vieram voando. Peguei dois. Um tinha uma bandeira desenhada. Embaixo tinha um nome grifado: Curdo. O outro santinho apresentava dois candidatos para 2022: presidente, Ulisses e vice Tancredo. Não sabia o que pensar daquilo. Estava boquiaberto. Mas enquanto eu fixava os meus olhos arregalados no santinho, ele veio quase voando na sua moto, pegou o papel da minha mão e sumiu das minhas vistas.     

          Enquanto o meu amigo sumia no horizonte, deixando apenas a poeira para trás, fiquei pensando nas promessas irrealizáveis e insanas que a maioria dos atuais candidatos despeja sobre nós, eleitores perseverantes, mas exaustos. Pensei até nas realizáveis, mas que na maioria das vezes não saem do papel, ou ainda naquelas que saem, mas que consomem uma fortuna e que, quase sempre, não são concluídas. Estamos cercados por um bando de corruptos e caras de pau. Você não identifica qualquer ideologia, nenhuma sinceridade nos discursos rápidos ou até nos longos desses candidatos que vão nos representar, e que só servem para nos saturar

          Não consegui até hoje entender como esse meu amigo só aparece quando se aproximam as eleições. Então, pelo jeito, só vou vê-lo daqui a quatro anos.  E, quem sabe, em algum manicômio.

                                                               fim