quinta-feira, 28 de junho de 2012

Roda Ponteiro - a estória

Roda Ponteiro
José Timotheo
Uma névoa branca tomava conta do pasto. O gado já estava espalhado no meio do braquiária. Um vulto circulava entre os animais. Não dava para identificar quem era. Mas eu sabia que era João Boiadeiro. Era o capataz da fazenda. Ele tinha me dito no dia anterior. Olhava a cena de dentro do quarto do Hotel Fazenda.
O sol ainda não tinha saído de todo. Voltei para a cama e comecei a pensar em algumas estórias que o João tinha me contado. Sujeito bom de prosa, tava ali. Se eram verdadeiras as estórias, eu não sei. Mas que pareciam estórias de pescador, pareciam!
No dia anterior, depois do almoço, caminhava para tentar melhorar a digestão. Tinha comido exageradamente. Parecia que tinha engolido um boi inteiro. Fui caminhando e descobrindo lugares bonitos. O lugar era bem tratado. Os jardins eram bem harmoniosos. De uma beleza impar. O pomar tinha uma variedade incrível de fruteiras. Andando mais um pouco, encontrei uma criação de coelhos. Logo à frente, uma granja imensa. Descendo uma ladeira, uma bela horta cobria o chão de várias tonalidades de verde. Continuei a minha caminhada. Atrás de um bambuzal, apareceu um haras, com alguns belos exemplares de manga larga marchador. Isso tudo, fora o rebanho bovino que estava quase todo no pasto. Mas encontrei alguns confinados. Me atraiu a atenção uma vaca marrom, com pequenas manchas brancas espalhadas pelo dorso. Me aproximei para observar bem de perto. Ai levei o maior susto, quando uma voz cortou o silêncio do estábulo.
- Boa tarde, senhor!
Depois do susto, consegui responder, meio gaguejando, um boa tarde. Era João Boiadeiro. Assim ele se apresentou. Em pouco tempo de papo, ele desfiou toda a sua vida ali na fazenda. Disse que tomava conta de tudo ali. Era o homem de confiança do patrão. Fiquei interessado com a sua conversa. Ele tinha uma cara engraçada. Fazia careta quando contava seus "causos". Era espirituoso também. No meio de tanto papo, me disse que tinha participado de vários rodeios. Inclusive em outros países. Mas antes quis saber se eu já tinha visto algum rodeio. Disse que não. A partir daí, ficou mais a vontade pra falar. Citou o nome de alguns peões, me perguntando se eu conhecia. Mas uma vez eu disse que não. Ai então é que se empolgou mais ainda nas suas narrativas. Falou que tinha ido participar de um rodeio no México. Disse que só não ganhou, porque lá estava o melhor dos melhores: Michel Hernandes. Afirmou que até aquela data nenhum cavalo ou touro ainda tinha-o derrubado.
- Moço! Michel Hernandes...Guarda bem esse nome! Sabe o que ele fez? Não sabe?
Eu só balançava a cabeça negativamente. Enquanto ele deixava a pergunto no ar e dava mais uma pitada no seu cigarro de palha, antes de recomeçar a estória.
- Moço! Eu vi! Eu vi com os meus "próprius zóios!" Ele, Michel Hernandes, rodopiava em cima do lombo do cavalo. Parecia um pião. E girava como um ponteiro de relógio! Bicho nenhum derrubou ele ainda! Isso não! Ele sabe que não pode errar! Cavalo xucro e touro bravo, não perdoam!
Ele me contou mais algumas estórias engraçadas. Rimos muito. Me despedi e retomei à minha caminhada de reconhecimento da fazenda. Ele continuou sentado nem tronco, improvisado de banco, dando as suas baforadas.
Perto de um lago, conheci mais um funcionário do hotel. Ele cortava grama em torno do lago. Curiosamente o nome dele era Hernandes. Rodei mais alguns metros e fui parar numa pocilga. Muito limpa! Nenhum mau cheiro! Os suínos pareciam, pelo tamanho, bezerros. Coincidentemente o tratador se chamava Michel. Aproveitei para falar sobre o João. Me disse então, que o boiadeiro tinha nascido ali mesmo e que nunca tinha saído da fazenda. A não ser, umas poucas idas numa cidadezinha ali perto, com o patrão, para fazer algumas compras. Voltei pelo mesmo caminho e encontrei o João Boiadeiro sentado no mesmo lugar. Bateu com a mão pra mim e deu mais uma pitada no seu cigarro de palha. Dei um sorriso para ele e voltei para o meu quarto. Deitei um pouco e comecei a relembrar as estórias do João e ri um bocado.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pensamento de Poeta X

O QUE É QUE EU FAÇO?

Meu Deus! Meu Deus!
O que é que eu faço do meu silêncio?
Ele faz mais barulho que qualquer grito de gol!
O que é que eu faço da minha ausência?
Ela dói mais que uma ferida! Purulenta!
Meu Deus! Meu Deus!
O que é que eu faço do meu descaso?
Ele está mais grudado em meus olhos que catarata!
O que é que eu faço da minha omissão?
Ela explode em minha cabeça feito bala de canhão!
Meu Deus! Meu Deus!
Mas eu não posso mudar o mundo!
Mas eu não posso mudar!
Mas eu não...Eu não!
Eu tenho medo!
Eu tenho medo.
- José Timotheo -

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Crucificada - no myspace

Já se encontra liberada para ouvir a canção Crucificada do compositor José Timotheo em parceria com Martha Taruma, que também canta a canção.
http://www.myspace.com/music/player?sid=88008348&ac=now
Aguardo os comentários!!

Crucificada - letra de música

Crucificada
José Timotheo e Martha Taruma

O farol incendeia
A estrada resto de noite
Ao lamber no fogo da lua
Nua eu te vejo sem pudor
A rolar pelo asfalto
Salto alto
Embolar numa flor
Amor no cadafalso da rua
Segue a sina
Carrega a dor
Vende a esperança
A cidade sua
Se arrasta no motor
Ele te leva e te prende na cruz
Induz a viver sem saudade
Apaga o que resta de luz
Saia dessa via
Avia essa dor
Dorme e se esfrega num sonho
Pra não morrer
Linda Flor

terça-feira, 5 de junho de 2012

Crucificada - a estória

Crucificada
José Timotheo
Assiti a uma reportagem que me causou tristeza e uma desesperança sem tamanho. Um repórter varria a beira de uma estrada. A sua câmera furava a noite. Cada pedacinho de chão, próxima a um posto de gasolina, meninas disputavam cada caminhão, automóvel ou qualquer outro veículo que ali chegasse para abastecer. Ou mesmo que passasse devagar. Esses já vinham na certeza do que queriam encontrar. Elas surgiam da margem da estrada, como formigas. Conseguiam se esconder atrás da noite. Eram meninas que não deviam ainda ter saído dos doze, treze anos...e até mais novas. Cada uma delas arrastava a fome, a miséria, atrás de si. Entregavam o seu corpo por um prato de comida. Essa reportagem me chocou. Não me lembro quem fez e nem o lugar. Mas eu acho que foi no norte do país. O pior é que muitas delas declararam ao repórter, que foram jogadas naquela vida pelos próprios pais. Sendo essa a única forme de conseguirem o pão nosso de cada dia. Várias bocas estavam em casa esperando pelas migalhas que elas conseguissem.
Aqueles corpinhos esquálidos, que ainda não tinham saído da infância, já carregavam a dor de uma vida inteira. Talvez nem conseguirão chegar na adolescência, pois as doenças já batem às suas portas. Elas sabem que o amanhã é duvidoso.  Como almejar um futuro? A triste realidade é sempre o hoje, com um prato de comida ao alcance, para amenizar a falta de esperança.
A câmera varreu de novo a beira da estrada. Naquela hora apareceram algumas crianças com bonecas de pano. Brincavam enquanto esperavam mais um freguês. Elas queriam apenas brincar, como todas as crianças. Precisavam brincar. Só isso! E estamos negando isso a elas. Essa é mais uma ferida no nosso Brasil, que teima em não cicatrizar.
Fim