terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Caso dos Olhos Azuis - Parte Final

Continuando...
           Na redação do jornal, na manhã seguinte do trágico dia, PC, Souza e Lucinha conversam sobre o caso dos olhos azuis. Souza então procura saber alguma coisa a respeito do caso, com o amigo.
          - PC, a polícia já conseguiu localizar algum comparsa de Leo?   
          - Não chefe. Parece que sumiram todos num passe de mágica. O delegado está atento. Mas perdido. Não tem outra saída, a não ser esperar. Será que as mortes vão recomeçar?
         - Espero que não. Esperamos que não. Não é Souza?
         - É Lucinha. Vamos torcer para que tenha terminado juntamente com Leo.
           PC começa a rabiscar alguma coisa num folha de papel. Ele demonstrava ansiedade. Era visível que não estava querendo terminar a conversa ali. Tinha que escrever sobre o caso. Estava de frente pra tela do computador. Mas só tinha o título: O CASO DOS OLHOS AZUIS.  Tinha que entregar a matéria, mas precisava conversar com Souza. Olhou para o amigo e disse:
          - Souza. Meu irmão. Continuo ainda sem entender isso tudo. Tem momento que não se consegue fazer uma analise das reações do homem. Sai ano, entra ano, convivendo diariamente com o crime, ainda não consigo acreditar que as pessoas possam matar. Possam morrer. Sabia que Leo tinha câncer nas vistas? Alguém me falou. E não tinha cura. Por que será que as pessoas matam por estarem condenadas a morrer? Não saem da minha cabeça aqueles olhos azuis. Olha só que coisa estranha: na festa só tinha sido convidado pessoas com olhos castanhos ou verdes. O único de olho azul era ele. E o único louco. O único não. Ele era o mais louco. Tinha gente doida à beça lá. Na verdade todos nós somos um pouco louco, né? Chefe, por que será que ele se juntou a essa turma? Por dinheiro, com certeza, não foi. Deve ter sido apenas por ódio?
          - PC! Essas perguntas são dificílimas de serem respondidas! O único que poderia responder está morto! Ou, talvez, nem ele!
         - Mas se a polícia pegar alguém da gang, de repente tem a resposta.
         - PC, o chefe está certo. O cara era completamente doido. O maluco faz coisa que até Deus duvida.
        - Mas Lucinha, os outros não são doidos. Quando conheci Leo, ele não era maluco. Era uma das pessoas mais equilibradas que já tinha conhecido. Ele ficou doido com a doença.
        - É! Pode ser! Quantas pessoas vão dormir de um jeito e quando acordam estão doentes! Meu Deus!
       - Tem que se benzer mesmo! Vai que você...
       - Vira essa boca pra lá! Vira essa boca pra lá, PC!
          E a vida na cidade continua de morte, para quem trabalha no jornalismo policial. Os repórteres vão carregando diariamente a tragédia humana. O que fazer se o homem é trágico?
          Os repórteres PC e Lucinha vão saindo da redação para mais um dia de ronda policial. Vermelho já está com o motor do carro ligado. Mas Lucinha volta na redação para pegar a sua bolsa. PC fica impaciente com a demora da amiga. Quando ela retorna, ele reclama:
          - Pô Lucinha! A gente já estava quase indo embora sem você! Deu um tremendo castigo em Vermelho, no Marcão e no seu amigo aqui! Diga-se de passagem, o melhor repórter da cidade! É ou não é? Vamos rápido, menina! Entra logo! Temos que fazer a cobertura da prisão do ex-governador!
          Lucinha vai entrando no carro e faz careta pra PC, que já está com um sorriso na boca. Vermelho olha para trás, pede para ela colocar o cinto de segurança e sai em disparada.
                                         
                                                   fim    

OBS. Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a história, nomes dos personagens, é pura coincidência.
           




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 17

Continuando...
         - Calma PC! Me explica o que está acontecendo!
         - Não dá tempo. Temos que agir com rapidez.
         - Está bem. Eu telefono já, já! Mas me deixa tomar só mais um golinho desse chope geladinho!
        - Pô doutor! Não dá tempo pra gole não! Vamos logo!
        - Tudo bem! Só que não podemos resolver essa questão, sozinhos! Sabe que só nós dois, não dá!
       - É... Então liga logo para a delegacia! Eu sei que não podemos dar uma de herói, mas também não podemos deixar o barco virar! Você está armado?
        - Não. Aqui não. Deixei a arma no carro. Hei! Espera aí! Você quer prender o velho Leo? É isso?
        - É! É isso mesmo!
        - Está maluco? Prender o homem sob que acusação? Estou meio bêbado, mas ainda estou lúcido! PC - você sabe! – pra se prender alguém tem que se ter algum motivo! Me dê um motivo só e eu prendo o homem!  Mas... PC me dê um motivo!        
         - Doutor ele é o homem que tirou os olhos daquela turma toda! Garanto, sem sombra de dúvida, que é ele o autor daquelas mortes! Pode ser apenas mandante, mas é o cara que tirou os olhos dos presuntos! O cara é doido varrido, delegado! Estive preso num quarto. Depois encaixotaram Lucinha também. Ficamos os dois presos. Aconteceram coisas do arco da velha com a gente! Lucinha pode confirmar isso. Só não consegui entender porque deixaram a porta aberta, para que fugíssemos. Por quê? E pra quê?
         - Carlos.
         - O que foi Lucinha?
         - Depois que aconteceu aquele lance comigo. Eu...
         - Que lance, Lucinha?
         - PC depois eu te conto tudo. Tudo detalhado, tá legal? Mas me deixa explicar pro Carlos todo lance. Foi o seguinte: quando você foi para o segundo andar, eu comecei a ir de porta em porta. Mas só as encontrava fechadas. Tentei em várias. Mas nada. Porém, em uma delas, escutei vozes. A princípio não entendia o que falavam. Então encostei a orelha na porta, aí ouvi claramente o nome de PC. Resolvi ir procura-lo, mas aí apareceram dois homens. Tentei ir para o outro lado, então me deparei com mais dois brutamontes. Então achei melhor tentar encontrar algum lugar para me esconder. Girei nos calcanhares e fui para outro corredor. Fui passando de porta em porta e finalmente em uma delas consegui abrir e entrei. Ali encontrei PC desacordado. Depois passamos por poucas e boas. Só em pensar me dar arrepios.  Só vendo! Apareceram vários pares de olhos azuis... Foi uma coisa horrível!
             O delegado abraça a namorada e dá um beijo estalado em uma das bochechas. Depois a enlaça pela cintura e se dirige para o portão. Avisa ao porteiro que vai até o carro, mas que vai voltar. Que vai só tomar um remédio e voltara em seguida. Lucinha fica próximo do portão, com PC, esperando o retorno do delegado. Carlos não demora e consegue entrar com a arma escondida. Depois se afasta com os dois, dos convidados, e procura um local mais escondido para usar o celular.  O delegado fica desapontado quando observa que não tem sinal.
          - Não acredito! Olha só! Não tem sinal nenhum aqui! Essa não!
          - Delegado, vamos mudar de lugar. Vamos para o outro lado. De repente atrás da casa a gente consiga. Vamos Lucinha.
             Eles voltam para o meio do pessoal e vão tentando ultrapassar a massa que vai ficando cada vez mais compacta. Mas nem chegam atravessá-la, pois a voz de Leo se espalha, ensurdecedora, pelo ar, acompanhada de microfonia, e os três então param.
          - Senhoras. Senhores. Desculpem a qualidade do som. Mas vai melhorar. Agora está bom. Aqui em cima, por favor.
             Pela primeira vez na festa, Leo vai aparecer para todos. E realmente quando os convidados olham para cima, um “oh!” vibra no ar. Lá estava ele, completamente despido, no alto do prédio. O delegado, Lucinha e PC estavam boquiabertos com a cena surreal.
            Depois que o silêncio volta, Leo continua a falar:
          - Acho que a maioria não estenderá nada do que está acontecendo. Não está entendendo nada mesmo!
             Ele faz outra pausa. E o silêncio mais uma vez toma conta do ambiente. Estão todos atônitos. Lucinha faz uma cara de espanto e fala:
           - PC foi esse velho que falou comigo!
           - Falou quando?
           - Quando eu vi os olhos azuis no espelho! O Carlos sabe! Eu falei pra ele!
          - Que olhos azuis no espelho, Lucinha? Me explica isso!
          - Eu saí à procura do banheiro. Ia aproveitar para dar uma olhada e ver se te achava.  Quando olhei no espelho, lá estava um par de olhos azuis. Pareciam dois olhos mortos. E depois apareceu o rosto dele. Não quero nem lembrar.
            Nisso a voz de Leo volta a ser ouvida:
           - Todos me olham e não entendem nada. – Interrompe a fala e volta a dar gargalhadas. Depois de mais uma pausa, recomeça a falar:
          - Vocês sabem que os meus olhos morreram? Vocês estão vendo dois olhos azuis sem vida! – mais uma vez deixa a sua gargalhada ecoando, ecoando, até morrer lentamente. Nisso entra uma música pesada, dando um ar sinistro ao evento. Um chamamento fúnebre. A execução dura aproximadamente dois minutos. Quando a música morre, a voz cavernosa do anfitrião retorna.

          - Eu poderia ter continuado no anonimato. Deveria ter continuado guardado nos meus domínios. Ninguém jamais iria saber que estou por detrás dos fatos. Muitos olhos estão pagando pelos meus olhos mortos. Mesmo à mostra, jamais me pegarão. Vocês não acham que o mundo é um imenso circo? – novamente deixou a sua gargalhada ecoar. Depois continuou: - Antes eram olhos sem órbitas. Agora, vão ficar nas órbitas, mas as córneas vão continuar viajando. Viajando! Viajando! – aí, depois de outra pausa, toma um ar mais sério no seu discurso: - Vou confessar uma coisa para vocês: faltou-me tempo para acabar com todos os olhos azuis. Isso mesmo! Faltou-me tempo! Eu odeio olhos azuis! Odeio todo mundo! – termina de falar e recomeça a sua diabólica gargalhada. Mas de repente começa a chorar. Chora bastante. Um choro repleto de dor. Depois dá um riso nervoso. E chora e ri ao mesmo tempo. Pouco depois silencia. Os convidados atentos não tiram os olhos dele. Esperam que ele fale mais alguma coisa. Mas nada. Simplesmente abre os braços e se joga no espaço. E em poucos segundos o seu corpo se choca com a borda da piscina. Agora os seus olhos não estão mais azuis. Seus frios olhos dão lugar a duas borras de sangue.
                   Continua na semana que vem... 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 16

Continuando...
A voz saía de todos os pontos do cômodo. Os dois pareciam em estado de choque. Olhavam-se, mas não conseguiam falar nada. O silêncio foi breve, pois uma gargalhada, talvez a mais estridente, mergulhou dentro quarto. Lucinha colocou as mãos nos ouvidos e já chorando, balbuciou:
          - Por que PC? Por quê? Estou sonhando?
          - Calma menina. Já estou quase inteiro. Vou tirar você desse lugar. Pode apostar nisso. E os porquês, a gente vê depois! Agora temos que encontrar um ponto de fuga! Lucinha, nós não estamos sonhando, minha querida. Estamos é dentro de um senhor pesadelo. Pode se preparar para sair daqui comigo. Ou não me chamo PC!
            Ele tenta abrir as janelas, mas nada acontece. Todas as três estão bem trancadas. Ele procura algum objeto que possa usar, porém nada é encontrado. O cômodo está completamente vazio. Ele olha para amiga e comenta:
          - Lucinha, se pelo menos tivesse uma cadeira, eu quebrava uma dessas janelas. Mas não tem nada que possamos usar.
             Ele senta-se no chão desanimado. Lucinha, que ainda estava encostada na parede do lado da porta, põe a mão na maçaneta e torce, nisso a porta se abre. Ela fica surpresa e chama o amigo:
           - PC! Olha aqui! A porta está aberta! Só está encostada! Dá uma olhada!
             Ele se levanta rapidamente, mas está com uma expressão de incredulidade. Aproxima-se com cautela da porta e mete a mão na maçaneta. Antes de movimentá-la  fala para a amiga:
          - Lucinha será que não é uma armadilha? Há poucos minutos estava trancada e agora, sem mais nem menos, aparece encostada.  Dá pra gente ficar com uma pulga atrás da orelha, não é?
          - Temos que ter cautela. Acho que foi proposital. Mas vai abrindo devagar.
             PC vai abrindo a porta lentamente. O coração está aos saltos. Dá uma parada e olha atentamente pelo espaço aproximado de meio metro de abertura e avista todo o corredor à esquerda. Constata que está vazio. Olha para a amiga e dá um suspiro de alívio. Mas ainda tem o corredor da direita. Para vê-lo tem que abrir a porta totalmente. Antes de escancarar a porta, olha para a amiga e fala baixinho:
          - Lucinha. Será que tem alguém desse lado? Estou preocupado. Isso pode ser uma armadilha. O que você acha?
          - Não sei. De repente resolveram nos deixar livres. Se quisessem fazer alguma coisa, tinham feito aqui dentro. Não acha?
          - Acho que você tem razão. Ainda não consegui acertar meus pensamentos. Seja lá o que Deus quiser.
             PC num repente abre a porta de uma vez só. Devagarinho vai botando a cara para fora. Olha o corredor e constata que ele está também vazio. Pega a amiga pela mão e sai rapidamente do quarto. No meio do corredor fala:
          - Vamos Lucinha! Vamos aproveitar que a barra está limpa! Vamos rápido! Vamos procurar o delegado! Acho que o velho é o responsável por todos esses crimes horrendos, que a nossa cidade foi palco! Vamos Lucinha!
             PC vai puxando a amiga pelo braço e consegue descer a escada, sem derrubá-la, e chega ao salão. Os dois estão  ofegantes. Olham em volta e nada de ver o delegado. Vão se metendo pelo meio dos convidados e vasculham cada ponto do salão. PC já demonstrando impaciência, fala:
           - Que droga! Onde, diabo, o delegado se meteu?
           - PC será que esses bandidos o pegaram também?
           - Só falta essa né Lucinha? Tá brincando! Vamos sair desse lugar sufocante! Ele deve estar lá fora! Vamos lá?
              Mas antes que eles se movimentem, a música para e a tal voz cavernosa ecoa no salão:
           - Senhoras. Senhores. Por favor, queiram ficar em silêncio. Obrigado. Tenho a satisfação e prazer de apresentar-lhes a surpresa que prometi. Como disse, anteriormente, vocês jamais se esquecerão dessa minha última festa. Só não disse que seria a última.
               Um lamento se espalhou pelo ambiente. Os convidados se olhavam com um ar de pesar. O anfitrião então continuou o seu discurso:
          - Não fiquem tristes. Essa será a última, mas a melhor de todas. Vocês jamais a esquecerão. E, logicamente, de mim também. Para quem já me conhece, deve ficar feliz em me rever. E quem ainda não me conhece...
             Ele fez uma pausa, mas de repente começou a gargalhar. Ficou assim por alguns minutos. Como tinha começado repentinamente, repentinamente parou. Antes de recomeçar a falar, esperou para ver se os convidados teriam alguma reação. Já que o silêncio continuou, ele recomeçou:
           - Senhoras! Senhores! Queiram se dirigir, por favor, à pérgula da piscina! Com calma, por favor.
             Mal terminou de falar, uma música macabra tomou conta do ambiente. Os convidados começaram a se movimentar, mas nesse momento já era visível às caras assustadas que se escorregavam pelo salão em direção à porta principal. PC e Lucinha aproveitam essa onda humana que se dirigia em direção à piscina e vão tentando avistar o delegado. Quando saem na área externa, avistam-no encostado numa palmeira, saboreando um chope gelado. Os dois saem rapidamente do meio da massa e vão ao seu encontro. PC antes de chegar perto, já vai chamando pelo amigo:
          - Delegado! Delegado!
          - O que houve, ô fujão?
          - Meu irmão, depois a gente brinca! Vamos comigo delegado!
          - O que houve? O que houve com vocês dois?
          - Carlos depois a gente explica. PC e eu passamos o maior sufoco!

          - É isso mesmo delegado! Temos que prender o velho Leo! Ele tem muitos homens espalhados por aqui! Vamos nós dois. Lucinha fica por aqui e tenta achar Marcão. A barra pode pesar doutor. É melhor ligar para a delegacia e pedir reforço.
                Continua semana que vem...

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 15

Continuando...
            O delegado se dirige para a escada que vai levá-lo para o outro andar. Lucinha olha para o corredor que está a sua frente e resolve começar por ali. O da direita, onde estão os banheiros, deixa pra depois. Lembrou-se do que tinha ocorrido com ela e então preferiu não arriscar por ali.  Para na primeira porta, tenta abri-la, mas não consegue. Foi para segunda e acontece a mesma coisa. Depois foi tentando às outras e nada aconteceu. Além de tentar abrir, ainda bateu em todas as portas, porém não recebeu nenhuma resposta. Saiu desanimada.
           Resolveu pegar o corredor da esquerda. Em uma das portas viu sair um casal. Passou sem nada falar. Apenas deu uma olhada para o interior do aposento, que estava aberto. Parou em frente à porta seguinte. Quando ia tentar abri-la, leva um bruto susto quando um relógio de parede bate a meia hora. Naquele silêncio não podia acontecer coisa pior. Tremeu dos pés à cabeça. E o coração quase explodiu. Refez-se do susto e foi em frente. Ao se aproximar da porta seguinte, ouviu vozes, mas não entendeu o que falavam. Encostou o ouvido e ouviu um nome: PC. Pensou: - Meu Deus. O que deve estar acontecendo com ele? Vou procurar Carlos. – Ao se virar para ir à procura do delegado, se depara com dois homens que vinham em sua direção. Assusta-se, mas tenta ir para a outra direção, entretanto mais dois brutamontes aparecem na outra extremidade do corredor. Ela corre e tenta a porta seguinte. Achou que estava com sorte, pois a porta só estava encostada. Entrou e se trancou. A escuridão era completa. Respirava ofegante. Passou a mão pela parede e encontrou um interruptor. Quando acionou, o seu sorriso veio junto com a claridade que se espalhou pelo ambiente. Respirou aliviada. Entretanto o alívio deu lugar ao susto. Gritou:
          - PC! PC! O que houve? Meu Deus!
            Ela corre em direção ao amigo, que está deitado num chão empoeirado, com as mãos amarradas às costas. Aproxima-se e vê que ele está apagado. Dá uma sacudidela, mas ele não dá nenhum sinal de vida. Então o sacode mais forte. Mas PC não esboça qualquer reação. Lucinha já estava quase entrando em desespero, mas conseguiu se controlar, quando ele respirou fundo. Ela suspirou aliviada e deixou um leve sorriso brotar nos seus lábios. Sentou-se do lado do amigo, desamarrou-o e colocou a sua cabeça no seu colo. PC estava vivo e isso é que era o mais importante. Começou a chamar pelo amigo, mas nada aconteceu. Depois deu uma tapa no seu rosto. Porém a situação continuou na mesma. Nada do cara acordar. Então achou que deveria dar uma tapa mais forte. Mesmo assim nada aconteceu. Então alisou o rosto do amigo e sapecou uma bofetada. Aí o cara voltou à vida na marra. Abre os olhos assustado e reclama:
           - Porra Lucinha! Essa porrada doeu! Que mão pesada!
          - O que é que você queria que eu fizesse? Pensei até que você estivesse batido às botas! O que foi que houve? Você sumiu! Eu estava preocupadíssima! PC essa casa é uma loucura! Temos que sair daqui!
          - Deixa-me colocar a cabeça no lugar. Ela parece que vai estourar. Estou com umas toneladas em cima. Parece que estou com o peso do mundo em cima de mim. Eu não sei o que houve Lucinha. Lembro-me apenas que entrei no banheiro. Fiz o que tinha que fazer. E... Não me lembro. Hei! Espera aí! Alguém me agarrou por trás e colocou alguma coisa no meu nariz! Depois... Não tem depois na minha lembrança.
         - Não se lembra de mais nada? Faz uma forcinha. Chegou a ir para frente do espelho?
        - Espera aí. Acho que sim. Lavei as mãos. Depois joguei bastante água no rosto, para ver se melhorava.
       - Você não viu a cara do sujeito, não?
       - Foi muito rápido. Lucinha, vamos sair daqui?
       - É. Eu acho que sim. Espera que vou te ajudar a se levantar.
          Lucinha coloca o amigo sentado e se levanta. Em seguida o pega pelas as axilas e tenta levantá-lo. O esforço é muito, mas não consegue erguê-lo. Então tenta arrastá-lo até a porta. Aí sim consegue algum sucesso. Porém quando vai tentar abrir a porta, a luz se apaga. Em seguida uma gargalhada, que ela já tinha ouvido antes, ecoa no quarto. Ela tenta abrir a porta, mas alguém pelo lado de fora já tinha trancado. A gargalhada continuava forte. De repente vários olhos fluorescentes despencam do teto e ficam pendurados se balançando. É uma cena macabra. O pânico foi tomando conta dos dois. Começam a gritar desesperadamente. Com o tempo a voz de Lucinha vai sumindo.  PC, que ainda se sentia fraco, também não resistiu e se calou. Mas o medo continua como guardião implacável. Mas de repente o que era noite, se fez dia. E uma luz muito forte tomou conta do quarto. Dois holofotes possantes foram direcionados para cima dos dois. Num flash, os olhos que estavam balançando no teto, sumiram. Nenhum vestígio ficou. O silêncio agora é o dono absoluto do aposento. Os dois não conseguem se olhar. A intensa claridade não permite que se veja nada ao redor. Lucinha se abraça ao amigo e chora baixinho. Ficam assim por alguns minutos, sem falar palavra. Nesse abraço fraterno, os corações vão se acalmando. Lucinha, já mais equilibrada, fala para o amigo que vai tentar mais uma vez abrir a porta. Fecha os olhos bem apertados e vai tateando até encontrar a fechadura. Vira a maçaneta, mas nada acontece. A tentativa foi em vão. De repente ela esmurra a porta com toda a sua força. Volta a gritar, mas parece que o seu pedido de socorro não sai ali do quarto. Desanimada senta ao lado de PC. Nisso as luzes dos holofotes são desligadas. A iluminação normal volta. Um ruído de um microfone se esticou pelo quarto. Lucinha fica em pé e ajuda o amigo a se levantar. Dessa vez, já mais refeito, consegue se erguer.  Os dois então se encostam à parede, do lado esquerdo da porta, e ficam procurando por onde pode estar saindo o som. Mas a voz cavernosa ecoa:

          - Meus convidados ilustres, não desejo que fiquem loucos. Mas não podem xeretar. Têm que ficar e aguardar os acontecimentos. Vocês aqui não são repórteres. São pessoas comuns, sem títulos. Vocês não podem atrapalhar a surpresa que tenho para todos os meus queridos convidados. Até agora está indo tudo certo, como planejado.  Mas não podem atrapalhar. Todos se divertem como nunca. Que tal a recepção? Se vocês tivessem olhos azuis... Olhos azuis. Não os quero vivos! Nenhum olho azul sobreviverá! Vocês ainda me verão hoje e ouvirão, mais uma vez, a minha gargalhada!
                  Continua semana que vem...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 14

Continuando...
Ela fica olhando pra ele, mas parece que não o está vendo. Depois de um período de alienação, fala:
          - É... Talvez... Onde está PC? Ele disse que ia ao banheiro. Ele já apareceu? Mas eu vi! Não estou maluca, não! Aquele par de olhos... Azuis! Muito azuis! Eles olhavam pra mim! Aquela gargalhada!
            Nesse momento os degraus já estavam cheios de gente. Próximo de Lucinha tinha um garçom, que tentando ajudá-la, oferece uma bebida:
          - A senhora aceita uma bebida? É bom pra relaxar.
            Lucinha olha para o garçom, dá um sorriso morno, estica o braço e pega um copo de uísque. Levanta-se, com a ajuda do delegado, e, pedindo licença, vai descendo a escada. Já embaixo, no salão, o delegado leva-a até uma poltrona. Ela bebe um gole, antes de sentar-se. Entrega o copo ao delegado e se acomoda no assento. Fecha os olhos, mas não consegue relaxar. A visão começa a passear pela sua mente. De repente, ao abrir os olhos, grita desesperada. Mas uma voz suave tenta acalmá-la:
         - Calma senhorita. O que houve? O que está se passando? Você está entre amigos. Fique tranquila.
            Lucinha para de gritar, mas não consegue articular palavra. Abre os olhos assustada. Parece que está vendo uma assombração. Baixa a cabeça imediatamente. Não consegue encarar o par de olhos azuis que estava devorando-a. Então a pessoa a sua frente fala docemente:
          - Oh! Senhorita! Senhorita! Desculpe esse seu criado! Devo me apresentar. Com certeza a senhorita não me conhece pessoalmente. Talvez por nome: L. W. Rich, Rique para os íntimos, às suas ordens.
             Depois de um pequeno período em silêncio, finalmente Lucinha levanta a cabeça. Olha meio desconfiada para o senhor que se posta a sua frente. Não consegue falar nada, mas finalmente deixa escapulir um leve sorriso. Então LW aproveita que a repórter já está apresentando uma leve melhora, continua falando:
          - Parece que assustei a senhorita. Mais uma vez, me desculpe. Essa não foi a minha intensão. Soube pelo meu garçom que a senhorita não estava se sentindo bem. Foi um susto? Não foi isso?
            Lucinha não consegue responder. Continua olhando para o anfitrião, emudecida. Ele então, tentando faze-la se descontrair, fala:
         - Conheço o seu trabalho e sei que a senhorita é uma repórter de fibra. Sempre equilibrada e determinada. O que houve hoje, que a deixou nervosa? Uma moça tão linda como você. Tenho alguns quartos a disposição dos meus convidados. Caso queira repousar um pouco, a fim de recuperar o controle, pode dispor de um deles.
            Antes mesmo de terminar de falar, Rique vai se virando e caminha em direção à escada. Quando chega ao topo, para e se vira. Fixa os seus olhos azuis nos olhos de Lucinha, sorrir e some de vista. Um olhar misto de dor e morte fez com que ela se arrepiasse toda. Um pressentimento ruim invadiu o seu coração. Ela olha para o delegado e fala:
          - Carlos, senti uma coisa muito ruim. Não gostei nada, nada desse senhor. Foram esses olhos que vi refletido no espelho. Tenho certeza. Eles fazem me lembrar de morte. Estou ficando maluca? Até a gargalhada continua ecoando dentro da minha cabeça.
            O delegado se abaixa em frente de Lucinha, pega na sua mão, faz um carinho e fala:
          - Você está tensa. Vamos lá pra fora pegar um pouco de ar. Depois tomamos um chope para relaxar. Você só está um pouco impressionada. Devem ter sido os olhos azuis dele. Eu também quando vejo alguém com olhos azuis, lembro-me das pessoas que foram mortas. E fico pensando se ela não será a próxima vítima.
          - Será? Carlos, temos que procurar PC.
          - Ele deve ter ido embora.
          - Não. Ele jamais faria isso com a gente. Pode até ser um maluco, mas é amigo. Além de ser um repórter responsável. Pode escrever aí: aconteceu alguma coisa com ele.
          - Será que ficou de porre mesmo?
          - Pode ser. Então deve estar em algum quarto curando a bebedeira. Vamos atrás! O tal senhor – Rique para os íntimos! – não disse que tem vários quartos a disposição dos convidados? MD pode estar dentro de um desses! Carlos, ele não foi embora. Eu o conheço muito bem.
         - Você falou, está falado! Por onde começamos?
         - Você é que é o policial! Você é que sabe!
         - Está bem. Vamos subir. Eu observei que além desse andar, tem mais outro. Você olha nesse primeiro e eu vou para o outro.
        - Não é perigoso? Estou com medo. Acho melhor irmos juntos.
        - Não precisa. Não vai ter problema. Assim andamos mais rápido. Mas qualquer anormalidade você grita. Combinado?
       - Tudo bem. Gritar é comigo mesmo!
           Antes de começar a empreitada, o delegado olha ao redor e observa que em alguns pontos foram aparecendo seguranças. Eram homens de terno preto e óculos escuros. Notou que na altura do bolso superior de cada um tinha um volume, que podia ser de uma arma de fogo. Antes de subir a escada comenta com Lucinha:
         - Não olha não. Mas apareceram alguns seguranças e estão espalhados pelo salão. E eu acho que estão armados. Fica atenta. Vamos subindo devagar sem levantar suspeitas. Vamos subir abraçados?
        - Mas não vai te comprometer? 
        - De jeito nenhum. Quem vai prestar atenção na gente? Minha única preocupação agora, é se tem seguranças lá em cima. Aí pode atrapalhar os nossos planos. De resto... Não estou me preocupando com mais nada.
          - Então chega pra cá! Já que não tem problema, vamos agarradinhos!
             Os dois sobem bem devagar. O delegado dá um beijo no rosto de Lucinha, fala alguma coisa e sorrir.  Ao chegar ao primeiro andar, antes de se separarem, prestam atenção no papo de um casal:
           - Você viu aquela velha lá na piscina, Augusto?
           - Aquela toda de vermelho?
           - É! Sabe que ela fez topless? Que troço mais de ridículo!
           - E você não sabe quem é ela! E não é tão velha assim!
           - Quem é?
           - Minha querida Olga. Você não prestou atenção. Se tivesse olhado com atenção, ia saber quem era.
          - Fala logo!
          - Senta pra não cair. É a mulher do senador...
          - Já sei! Não precisa nem falar! É uma ordinária! Bel me disse que ela ganhou de um deputado – aquele que está envolvido em algumas falcatruas! - O seu amigo do peito! – um anel de brilhante, que de tão pesado é capaz de quebrar o dedo!
          - Amigo uma ova! De velha ela não tem nada. Mas de velhaca, tem tudo!
            Os dois caem na gargalhada. Lucinha então olha para o delegado, balança a cabeça e fala:

         - Não vamos perder nosso tempo com isso não! Vamos procurar o nosso amigo? Sobe para o outro andar, que eu vou olhar nesse. Bom que não tem nenhum segurança. Aqui a gente pode dar um beijinho. Eu falei um beijinho. Vai! Vai!
             Continua semana que vem...