quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Pensamento de Poeta - Uma Guerra Contra Todos

 



UMA GUERRA CONTRA TODOS

-   José Timotheo   -

Nós contamos

Somamos, mas diminuímos

Só multiplicamos, mesmo

A nossa pena

Hoje vejo no horizonte

O nosso sonho se reduzir

A esperança engatinhar

E a perseverança morrer

Procuro, vez ou outra

Olhar o céu

Alguma coisa me diz

Que faltam estrelas

Torço por uma explosão

E ela acontece

Caem bombas e mais bombas

Na casa do vizinho

Queria apenas uma supernova

Na estrada láctea, só isso

Mas nasce mais um buraco no meu chão

No chão de todos nós

Pois tanto faz estar no sul

Ou no norte

................................................

Desnorteados passarinhos

Qualquer hora o ninho

Fica vazio

Não vamos ser mais aves

Querendo voar

Perderemos o bico, também

E as penas?

Que pena

Atiraram no pensamento

Sobrou apenas o livre arbítrio

A parte irracional

Da arte de pensar

Cruzem os braços, então

E esperem a morte chegar

                                                      FIM

 

Obs. Guerra Rússia X Ucrânia

12/09/2023

terça-feira, 26 de setembro de 2023

A Minha Casa Não é Essa - Parte - 72

 


Continuando...

            O tempo passou em total silêncio. Eles não marcaram no relógio, mas deve ter sido quase uma hora, apenas olhando na direção da entrada do porão. Tanto do lado de fora como de dentro, nenhum ruído fora ouvido, até aquele momento, pelos guerrilheiros. Só Kalled, que tinha a audição mais apurada, conseguiu perceber alguma coisa se movimentando dentro do buraco, mesmo afastado, mais ou menos, dois metros da entrada. Ficou atento virando uma das orelhas nessa direção. Depois de algum tempo, deixou escapar um sorriso. Tinha identificado a origem do som: era algum rato se mexendo. O roedor passeava pelo porão a procura de algum alimento. Isso era um bom sinal, pois levava a quase certeza da inexistência de alguém dividindo o espaço escuro com ele. Mas continuou atento a mais outros ruídos. Depois de alguns minutos outros sons chegaram até o seu ouvido. Identificou na hora que eram de mais alguns roedores. Para não deixar dúvidas veio uns guinchados, agora ouvido por todos, de ratos brigando ao disputar algum alimento.

             Kalled sinalizou, enquanto se aproximava mais da entrada do porão, para que os amigos o acompanhassem. Parou na beira do buraco, ladeado por Balal e Nazary. Juntou os dois e falou bem baixinho:

             - Para termos certeza absoluta, vamos botar o plano em execução. Se não sair ninguém, é porque tem alguma passagem de escape aí dentro.

             Vou falar alto que estamos indo embora. Com certeza os ianques não entendem a nossa língua, mas os meninos vão dizer para eles o que falamos. Aí, se ainda estiverem aí dentro, vão sair, com certeza. Saindo, pegamos todos. E vivos! Estão entendidos?  

             Os dois não responderam, mas balançaram a cabeça afirmativamente. Ficou cada um no seu posto, ao redor da entrada do porão. O silêncio era profundo e nervoso. A tensão estava estampada na feição de cada um, mas Balal era o que demonstrava ser o mais descontrolado. E isso se confirmou quando, sem perceber, estalou um dos dedos. Imediatamente o chefe fez um sinal, com a cara torcida de raiva, de que iria decapitá-lo. Balal, entendeu o gesto e chegou a sentir um calafrio percorrendo o seu corpo. Na mesma hora parou de apertar os dedos e sinalizou pedindo desculpas. Nesse momento parecia que algumas gotas de suor desciam pelo seu rosto, tanto que, com às costas da mão, passou pelo rosto.

             Aquela noite parecia que não tinha fim. Tentavam não tirar os olhos de dentro do buraco. Já estavam ali a mais de meia hora e nada de aparecer algum americano. Kalled então sinalizou para os dois dizendo que ia botar o plano em funcionamento. Meteu a cara na entrada do porão e falou mais alto do que de costume:

            - Nazary! Balal! Mohammed! Mustafá! Acho que perdemos o nosso tempo aqui! Esses ianques já devem estar bem distantes! Nos enganaram direitinho! Mas não vai faltar oportunidade para nos encontrarmos! Alá está conosco! Vamos embora!

            Terminou de falar e, apontando com o dedo, indicou onde ficariam os seus dois combatentes. Depois afastou-se e se escondeu atrás de uma meia parede, que ainda resistira a chuva de bombas.

            O silêncio continuava mais barulhento do que nunca. E isso dava nos nervos de qualquer mortal. Mas como eram combatentes experientes, tentavam engolir toda e qualquer adversidade e digeri-la da melhor forma possível. Sabiam que se tivessem que ficar um, dois, três ou mais dias no mesmo lugar, esperando o “coelho” sair da toca, ficariam sem pestanejar. Eram preparados para isso. A paciência, carregavam dentro das suas mochilas. Fazia parte como se fosse a ração que os mantinham vivos.

            Kalled continuava ligado em qualquer som que viesse, principalmente, de dentro do porão. Os minutos não paravam a sua marcha. Iam implacáveis furando o tempo. Nada os interrompiam. Cada um deles parecia que trazia um pêndulo dentro da cabeça marcando o seu tic tac: era a espera. Naquele momento era o único barulho que se abraçava a ansiedade. Dava para ver claramente quando um ou outro metia a mão na granada e deixava aflorar quase um descontrole, querendo arrasta-lo a acabar logo com aquela espera, que para Balal e Nazary era desnecessária. Podiam ser preparados para a paciência, mas paciência tem hora e limite. E era isso o que andava na cabeça dos dois. Entretanto tinham consciência que não podiam ir contra as ordens do chefe, pois se descumprissem pagariam um preço alto. Então lançar uma granada dentro do porão, parava na vontade.

            Quase uma hora ficaram de olhos fixos no buraco. Como ninguém saía, Kalled caminhou com cuidado até onde estava Balal e sinalizou para o outro, para que se aproximasse. Quando estavam bem próximos, comentou:

            - Pelo tempo que ficamos esperando, e nada deles aparecerem, não vamos mais perder tempo: vamos descer.

            - Mas chefe e se eles estiverem só esperando a gente descer? – questionou, Balal.

            - Balal. Eu sei que é um risco. Estamos numa guerra e guerra só tem risco. Não podemos dar mais chances de fuga para esses ianques. Na minha opinião já não estão mais aí dentro. Tenho quase certeza que fugiram.

             - Então, Kalled, vamos embora.

             - Como ir embora, Nazary? Eu tenho um objetivo: acabar com aqueles americanos. E não vou desistir até pegá-los com as minhas próprias mãos. E vou fazer justiça. Se fugiram, foi lá por baixo mesmo. Não sei como. Mas a gente vai no rastro deles. Ou estão apenas escondidos. Por aqui eles não saíram. Custe o que custar vamos pegá-los.

            - Kalled, agora o que fazemos?

            - Balal, vamos descer. Vamos com cuidado. Quero bastante iluminação pra dentro do buraco.

             Os três se postaram o mais próximo da entrada. Acenderam as lanternas e direcionaram a luz para dentro. Ninguém ousou colocar a cara para olhar, apenas as pontas das lanternas ficaram com meio corpo para dentro. Depois de alguns minutos é que Kalled resolveu dar uma espiadela. Com cautela colocou apenas um pedaço do rosto na borda do buraco, o suficiente para que conseguisse ver alguma coisa lá no fundo.  

........Continua Semana que vem!

terça-feira, 19 de setembro de 2023

A Minha Casa Não é Essa - Parte 71

 


Continuando...

           Depois da explosão, o silêncio abocanhou aquele pedaço de país esquecido por Deus. O silêncio ali era coisa rara. Podia ser manhã ou noite, que algum tiro, um míssil ou uma granada explodia em algum lugar, parecia que o barulho    atravessava todo o Afeganistão. O sossego naquele país já tinha sido atingido por algum tiro e agonizava, há muito tempo, em alguma vala imunda.

          Kalled foi o primeiro a levantar a cabeça. A poeira ainda atrapalhava um pouco a visão, mas pacientemente com o seu binóculo para uso noturno, conseguiu fazer uma boa varredura naquela área destruída. Mas não encontrou o companheiro Amim. Como a poeira ainda estava no ar, concluiu que ele continuava escondido para se proteger. Então achou melhor ficar ali, até que retornasse e com boas notícias. O tempo passou, a poeira assentou-se e nada de Amim aparecer. Kalled acenou para os outros dois, que estavam a alguns metros distante, para que viessem até ele.

          - Balal, você vai por aquele lado. – apontando para o lado direito. – E você, Nazary, vai pela esquerda. Eu vou em frente, seguindo os passos de Amim. Andem mais ou menos cinquenta metros, depois fechem para o meio, onde devemos nos encontrar. Vamos! Vamos!

          Kalled esperou que os companheiros fossem para onde ele tinha indicado. Depois de perde-los de vista é que começou a sua caminhada. Cuidadoso como era tentava o máximo não ficar exposto para não ser pego de surpresa.

           Silenciosamente os outros dois também procuraram não ficar expostos a um ataque inimigo. Quase se arrastavam no chão, de tão arriados que estavam. Mas não estava sendo fácil se moverem por cima da grande quantidade de detritos e de poeira. Eram combatentes preparados para a adversidade, entretanto se mover por sobre pedras pontiagudas, lascas que se assemelhavam a navalhas, de tão afiadas, e o próprio inimigo, que podia estar escondido em qualquer lugar no meio daqueles escombros, era uma missão arriscadíssima. Só mesmo o ódio para leva-los a tão imprevisível missão. Botar a própria vida em risco, por pura vingança, por causa de três ianques, e sem saber se iriam encontra-los, era demais. E já tinham perdido dois amigos e ainda não sabiam que Amim, morrera vitimado pela sua própria bomba.

            O chefe caminhava cuidadosamente por cima daqueles escombros, mesmo carregando o ódio debaixo do braço. Ia até mais cauteloso do que os seus próprios subordinados, que mesmo não deixando os seus corpos a amostra, pensando que estavam protegidos de qualquer ataque inimigo, não percebiam que os seus passos causavam algum tipo de ruído, mesmo que imperceptível para ouvidos comuns, mas não para ouvidos apurados em guerras. Com isso seriam presas fáceis para os americanos.  Mas a sorte estava com eles, pois não tinham mais nenhum inimigo ao redor. Só que não sabiam disso

             Kalled depois de seguir apenas pela luz do luar tropeçou em algo, mesmo atento onde pisava. Parou e olhou fixamente para o chão, mas não conseguiu identificar o que era. Sabia que não era pedra e nem madeira. Era macio. Mesmo preocupado em ser localizado pelo o inimigo, acendeu a sua lanterna e direcionou a luz para onde pisava. Recuou ao perceber que era um homem, ou melhor, pedaços dele. Identificou que era sua gente, pelo resto de vestimenta que resistira a explosão. Não quis olhar mais detalhadamente, por que estava claro que aquele corpo era de Amim. Levantou as mãos coladas para o céu e falou alguma coisa ininteligível e foi adiante. Andou mais alguns metros e encontrou o buraco, que era a entrada do porão e que estava escancarado. Não quis iluminá-lo, antes que chegassem os seus comandados. Esperou então até que os dois ficassem ao seu redor.

              Balal foi chegando cauteloso. Parou a poucos metros de Kalled e ficou mirando-o. O chefe percebeu e fez um sinal para que se aproximasse. O outro menos precavido, se dirigiu logo para onde deveria estar o seu líder e o amigo. Encontrou-os lado a lado, em silêncio, olhando para dentro do buraco. Se postou ao lado de Kalled e mirou também o buraco negro. Como não estava conseguindo visualizar nem a escada, que supunha existir, olhou para o chefe e   perguntou:

           - Chefe, como vamos entrar nesse buraco? Olha só a escuridão!

           - Fala baixo, ô animal! Você quer que saibam da nossa presença?

           - Mas Kalled, eles já sabem que estamos aqui. Isso não é novidade para eles.

           - Eu sei. É claro que sabem da nossa presença. – falou o chefe entortando a cara – Se assim não o fosse, quem teria matado os nossos amigos?

           - Mas chefe...

           - Escuta uma coisa... – interrompeu a fala do amigo. E deu uma leve pausa. – Escuta Nazary. Eu quero que pensem que fomos embora. Vamos nos afastar e esperar. Ou se você quiser, joga uma granada aí dentro.

             - Então chefe, o que estamos esperando?

             - Você acha mesmo que eu vou deixar alguém fazer isso?

             - Mas...

             - Mas não tem nem mais nem menos. Se eu quisesse, já tinha jogado logo, quando aqui cheguei. Mas assim não ia ter graça nenhuma. Eu quero é mata-los com as minhas próprias mãos. Entendeu, Nazary?

             - Agora está tudo claro. Mas tem o garoto que está aí dentro, não é? O que eu soube é que não podemos mata-lo.

             Kalled mirou-o por alguns segundos, deixou escorregar um sorriso maldoso e respondeu:

             - Nazary, Nazary eu só espalhei isso, para que ninguém se adiantasse a mim. E além do mais o garoto que deu as informações, não está aí dentro.

             - Não?

             - É claro que não. Os que estão aí dentro, são dois e são só seus amigos, então podem ser eliminados.

             Antes que Nazary falasse mais alguma coisa, ele colocou um dedo em cima dos lábios e pediu silêncio. Em seguida encostou a sua boca na orelha dele e disse baixinho:

           - Vamos deixar passar um tempinho e depois falamos em tom alto, que já vamos embora. Eu aviso quando for o momento.

           Depois se chegou para Balal e fez a mesma coisa: falou baixinho no seu ouvido, a mesma coisa que tinha falado para o outro. Em seguida puxou os dois pelo braço e se afastou da entrada do porão. Em seguida apontou os pontos que os dois iriam ficar. Balal foi o primeiro a se encaminhar para o lugar indicado, ficando assim do lado direito da entrada. Nazary foi para à esquerda e como o amigo ficou afastado quase dois metros da entrada do porão. E o chefe ficou no centro.

.......Continua Semana que vem!