terça-feira, 30 de janeiro de 2024

A Minha Casa Não é Essa - Parte 90

 


Continuando...

            Wolfgang estava ansioso e acabou se adiantando mais do que os amigos. Rapidamente já estava na beira da clareira. O rio estava a um passo dali, apenas com uma vegetação rasteira que se espalhava até a sua beira. Olhou e acabou demonstrando a sua decepção, já que não encontrou nenhum membro da família de Carl. Olhou em torno para ver se os amigos já tinham chegado e nada deles. Foi então até a beira do rio e para a sua surpresa tinha um pescador, em cima de uma pedra, que só era visto da borda do rio, tentando garantir o seu alimento para aquele dia. Era um senhor com aproximadamente setenta anos, que se assustou quando o agente pisou em algum galho seco. Antes de se virar, reclamou com palavras ofensivas a quem chegava.  Ele acreditava que qualquer ruído externo sempre espanta os peixes. Ainda mais que naquele dia nenhum peixe ainda tinha beliscado a sua isca. Mas depois ao se virar para ver a pessoa que chegava, assustou-se, pois não conhecia o cidadão que estava ali parado olhando-o, vestido diferentemente dos moradores da região. Como mandava a educação, desculpou-se. Mas Wolfgang engatilhou a sua arma e não pensou duas vezes, atirou na cabeça do senhor, que caiu sem vida, junto com o seu caniço, dentro d’água. O poço ficou rubro na mesma hora e alguns peixes vieram até a superfície, coisa que não tinham feito durante todo o tempo em que o senhor estivera com vida e fome. Agora ele ia servir apenas de comida.

             O agente, sem demonstrar qualquer remorso, soprou o cano da arma, como se fosse um pistoleiro do velho oeste americano. Nesse momento os amigos apareceram e correram em sua direção. Um deles, de nome Cristian, se adiantou e perguntou:

             - Wolf, o que houve? Matou o Herr Carl?

             - Não. Nesse poço ele e a família não estavam.

             - Mas nós ouvimos um tiro!

             - Era um cidadão que falou umas coisas que não gostei e tive que eliminá-lo. Era um inimigo do Reich.

             - E cadê ele?

             - Agora está alimentando os peixes. Deve ter uma carne boa. Olha só!

             Os Três agentes foram até a beira do rio e olharam para dentro do calmo pocinho. Lá estava o corpo do senhor boiando e rodeado de peixes pequenos, que eles desconheciam. Mas nenhum peixe ousava tocar no corpo inerte, que boiava preso entre duas pedras. O sangue escorria e tingia a correnteza de vermelho, que descia vagarosamente até pegar velocidade suficiente para ir apagando a vermelhidão da água.

              A cena era chocante. Mesmo eles, de corações embrutecidos, acostumados com a violência gratuita, acharam o assassinato do senhor idoso desnecessário. Deixaram a amostra um ar de indignação. Cristian, aparentemente o mais chateado, chamou a atenção de Wolfgang:

             - O que é isso, Wolf? Não tinha necessidade disso! Um senhor! E um cidadão alemão! Nós estamos aqui para eliminar qualquer inimigo da nossa pátria e do nosso Führer, e não um cidadão!

             - Cristian, não foi assim que ele se apresentou. Um cidadão não ofende um agente da Gestapo e sai impune! Talvez o meu erro fora não perguntar a ele por Carl e sua família.

            - Era isso que você tinha que fazer! Como morador, ele deveria saber do destino do vizinho! Você perdeu a oportunidade de resolver essa questão aqui! -Que droga, Wolf! Você tem que domar esse animal que traz aí dentro!

           - Cristian, você sabe que não é sempre que eu ajo assim! Fui eu quem ficou aqui espionando a família do general Kurt, esqueceu? Então, não dei tiro à toa, dei? Escuta uma coisa: esse velho me tirou do plumo. Você não estava aqui para ouvir o que eu ouvi. Ele conseguiu me chamar de todos os nomes feios que existem na nossa língua. Agora já foi feito. Ele não estava dando de comer aos peixes? Agora os peixes não terão mais fome.

           - Simples assim, não é Wolf? Vamos embora. Leva a gente para o outro pesqueiro. Mas por favor, se encontrar alguém não vai atirando!

          - Tudo bem. Não vou perder o controle. Vamos sair logo daqui, senão vou me sentir culpado.

              Wolfgang ao falar, virou de lado e deixou escapar um sorriso sarcástico.

 

             A família de Carl trafegava aparentando tranquilidade. Mas ele de vez em quando olhava pelo retrovisor, preocupado se não estava sendo seguido. A cada olhadela, respirava fundo para arrancar a preocupação. Frau Eva passou a mão no pescoço do marido e pediu para que se tranquilizasse. Ela tentava passar para ele que o perigo tinha ido embora. Ninguém ia segui-los.

            - Querido, olha só como a estrada está vazia. Até agora só passou pela gente um veículo. Se a polícia chegar a nossa casa, seu tio vai segurá-lo por lá. Tenho certeza que estamos salvos. Ninguém vai nos encontrar no vinhedo da família da tia Helga.

          Carl deu um muxoxo, mas disse:

          - Oh! Minha querida! Você é muito otimista. Que Deus esteja te ouvindo nesse momento. Realmente, vamos torcer. Que Ele te ouça! Que Ele te ouça!

 

         - Mohammed, essa história não tem fim? Isso é um livro! Você sabia que isso que você está me contando é sobre a segunda guerra mundial?

        - Não.

        - Você está de brincadeira! Só pode estar!

        - Sargento, eu juro que nunca ouvi falar de guerra mundial!

        - Então você nunca ouviu falar de Hitler?

        - Eu juro! Nunca ouvi falar dessa pessoa!

        - Como você tem uma história desse tamanho e não sabe de nada da segunda guerra mundial? Você tem que ser estudado! Você tem uma memória invejável! Nós vamos descobrir quem é você.

       - Sargento, então o senhor vai me levar preso? O senhor me disse se conseguíssemos sair daqui eu estaria em liberdade! O senhor não tem palavra?

       - Eu falei isso? Se eu falei, vou cumprir. Mas eu não disse que ia leva-lo preso. Nós vamos para a base e lá os médicos vão examiná-lo e tentar descobrir quem você é. Nós não vamos prendê-lo. Isso é uma promessa.

       - Puxa, obrigado. Aí eu fico tranquilo. Posso continuar na minha história?

       - Tem mais história? Não acabou não?

       - Não. Está tudo aqui na minha cabeça.

       - Isso realmente é um livro que você leu numa época da sua vida.

       - Se é ou se não é, o que importa? Eu só sei que tenho que botar isso para fora. Eu tenho que contar isso tudo. O senhor permite que eu continue?

      - Tudo bem, Mohammed. Mas nós temos que sair daqui. Estamos perdendo tempo.

      - Olha Rachid, sargento. Ele está dormindo ou desmaiado. Enquanto eu termino a minha história, ele acorda. Continuando.

      - O que se há de fazer? Vai em frente.

......Continua Semana que vem!

 

 

 

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A Minha Casa Não é Essa - Parte 89

 


Continuar...

        Kurt começou a conversar mais com a sua secretária e com outras também, principalmente do gabinete de Hitler e de alguns ministros a quem ele era mais chegado. Fechando esse cerco, começou a ter muitas informações verdadeiras. E saber também das falsas que circulavam pelo país.

           De repente ele percebeu que estava com o braço esticado em vão. Fechou a porta e foi até o pneu traseiro e retirou a pedra que estava travando o carro. Mal ele tirou a pedra o carro foi se movimentando vagarosamente. Kurt então foi para a traseira e o empurrou. O veículo escorregou pelas pedras da margem do rio e foi entrando lentamente na água e afundando pouco a pouco até sumir por completo. Kurt ainda ficou olhando para ver se o carro já estava assentado no fundo do rio, mas foi em vão, pois já não havia nem mais sombra dele. Naquele momento é que acreditou realmente que o local era muito fundo.

           O general vasculhou o chão para ver se o carro tinha deixado alguma marca. Mas tranquilizou-se ao constatar que não havia nenhum vestígio deixado pelo veículo. Também com aquele chão duro era improvável achar qualquer marca dos pneus, já que na região não chovia há meses. O frio estava chegando, mas muito seco e a neve ia demorar um pouco para cair.

            Kurt e Helga foram até a estrada secundária, de onde vieram, e para surpresa deles a neblina ainda não tinha se desfeito totalmente. Subiram o leve aclive e seguiram para a via principal. Trafegaram por alguns quilômetros até o cruzamento da estrada e pararam ali por alguns minutos. Kurt alisou o rosto da esposa, depois puxou-a para perto de si e beijou-a levemente na face rosada. Ela retribuiu o carinho, abraçou-o e deixou que a emoção represada caísse dos olhos. Pouco menos de um minuto foi o suficiente para que ela voltasse ao seu normal. Estava aliviada. A mulher forte estava de volta. Olhou nos olhos de Kurt, segurou o seu rosto e beijou-o ternamente. O marido correspondeu despejando uma carga de paixão. Depois ficaram em silêncio, abraçados. Helga se recompôs e apontando para o sentido que tinham que tomar, disse:

           - Querido, vamos. A nossa família nos espera.

 

           O segundo carro fez a manobra e seguiu em direção ao rio. Os quatro policiais estavam ansiosos para colocar as mãos em Carl e sua família, seguindo em direção ao primeiro pesqueiro indicado pela senhora do posto telefônico, repassado pelo chefe Weber. Um deles, de nome Wolfgang, disse para os amigos que já tinha estado na região há dois meses, quando fora designado pela chefia para acompanhar os passos da família de Carl, o mais próximo possível. Vigiou bem de perto sem ser descoberto. Conheceu pelo menos três pesqueiros que a família frequentava. O quarto, mencionado por Weber, Herr Carl não foi.

          A estrada que margeava o rio era toda arborizada. Em alguns trechos apareciam algumas falhas na vegetação, formando trilhas que davam acesso aos poços mais profundos daquele trecho do rio. Eram os locais mais usados pelos moradores locais e às vezes por pescadores de regiões próximas. Ali, pelo menos, se tinha mais chances de se conseguir peixes maiores e com mais fartura. No primeiro que apareceu Wolfgang mandou que o amigo Werner, o motorista, parasse. Desceram os quatro com as armas engatilhadas e entraram pela trilha indicada por Wolfgang. Andavam pelo mato feito felinos atrás de sua presa. O caminho parecia que era bem utilizado, porque a grama estava bem pisada. Para um lugar que poucas pessoas circulavam até que o pesqueiro era bem frequentado. Mas os poucos moradores viviam fechados dentro de suas casas. Raramente eram vistos circulando pelo lugarejo, já que os campos estavam todos plantados e que a colheita só se daria dali a dois meses, aí sim poderiam ser vistos nas suas terras, quase final de outono. Depois só serão vistos novamente quando, depois do inverno, estiverem preparando o terreno para novo cultivo. Eram tempos de medo. Nesse período quando saíam, era para procurar um complemento alimentar e, nesse caso, o peixe era o mais fácil e certo.   Do que produziam nas suas terras, pouco ficava para eles, quase tudo era confiscado pelo governo, para alimentar as tropas no front.  

           Os agentes foram se espalhando pelo meio da vegetação. Wolfgang foi pela trilha principal, deixando que os outros três se embrenhassem pelo meio do mato. O final do caminho desembocava numa pequena clareira na margem do rio, mas que comportava em torno de oito pessoas. O agente acreditava que iria encontrar a família de Carl. Olhou para a sua arma e acarinhou-a. Depois deixou escapar um sorriso maldoso. Pela sua expressão não deixava dúvida que tinha em mente a eliminação sumária de todos os familiares. Essa tinha sido a ordem de Weber e eles iriam cumprir à risca. 

......Continua Semana que vem!