terça-feira, 31 de março de 2015

UM GÊNIO QUE ENCONTROU O PARAÍSO NO ESGOTO - Parte 3

CONTINUANDO...


Ele pegou o livro que ainda estava debaixo do braço de João e começou a folhear sem muito cuidado, quase arrancando as páginas. Olhou pra João, deu um sorriso e perguntou, mas respondendo também.
- Então! Lendo Marx? Comunistazinho safado! Com essa cara de sonso aí, deve está escondendo “um puta” de um terrorista! Mas não me engana não! Diz aí qual é o grupo que você pertence! MR8? Você tem cara que deve ser do MR8! Não entendi o que você falou! Pode repetir garoto?
          João resmungava alguma coisa. Mas parecia que estava em estado de choque. Era uma falsa calma que ele aparentava. Parecia que a voz não saía. Engoliu em seco e repetiu.
- Eu falei Newton. Isaac Newton.
          Policial deu um sorriso de desdém e falou.
          -Ah! Olha só! O menino resolveu falar! Então esse é o nome do seu chefe? Bertoldo, revista ele! Vê se tem alguma coisa escondida! Um panfleto, microfone... Qualquer coisa!
- Deixa comigo! Deixa comigo! Agora é que vai começar a ficar bom!
          O policial Bertoldo foi tirando a roupa de João à procura de qualquer coisa que, além do livro, o incriminasse mais. Mas nada foi encontrado. João ficou só de cueca. E um vento frio começou a incomodá-lo. Ele tremia. O policial gritou para o outro.
          -Aí Guto! Nada! Nada! O que é que a gente faz com ele?
- Vamos dá umas porradas nele, até ele falar! Vamos ver se ele dá ou não o endereço desse Isaac rapidinho.
            João Paulo de repente pareceu ligado na conversa dos dois. Calmamente, mas com uma ponta de ironia, se dirigiu a eles.
- Tem certeza que vocês querem mesmo o endereço de Sir Isaac Newton?
          -Mas é claro, garoto! Fala logo, antes que a gente encha você de porrada! -falou Guto rispidamente.
-Eu acho que vai ser impossível eu fornecer essa informação pra vocês.
          -Como impossível? Qual é cara! – Guto foi falando e empurrando João, que se desequilibrou e se esborrachou no chão. Mesmo caído protestou.
- O que é isso cara? Assim vocês vão me machucar! Me deixa explicar!
João tentou se levantar, mas um dos policiais empurrou-o com o pé. Dessa vez bateu com a cabeça no chão. Ficou atordoado, mas mesmo assim começou a falar.
          -Gente. Sir Isaac Newton é Inglês. Ele já morreu há muitos anos.É meu amigo de cabeceira. E têm outros também.Tenho vários amigos gênios, que já pousaram aqui entre nós, que me acompanham diariamente.
          -Viu isso? Aí Guto,Cabedelo, vocês tão vendo isso? O cara tá mais enrolado do que a gente imaginava! A rede de subversão é grande! Cara! Vamos lá! Passa os nomes e endereços dessa cambada toda aí!
           -Gente! Eu não tenho como passar endereço de ninguém! Esses cientistas, estão todos mortos!
           -Cabedelo! Dá um corretivo nele! Esse subversivo, filho de uma puta, tá querendo enrolar a gente! Enche ele de porrada!
 Até o motorista, que parecia menos violento, bateu no pobre do João. Mas como João não esboçava qualquer tipo de reação, as pancadas foram perdendo a intensidade. Nem um leve gemido João deixou escapar. Com isso eles frearam a sede de sangue. Perdeu a graça o plano de tortura.Ficaram impressionados com a resistência que viam nele.O prazer estava, quando as vítimas se cagavam de tanto medo. João jogou um balde de água fria neles. Perderam o prazer. Era visível a desilusão nos seus olhos. O gosto de ver o sofrimento alheio não aconteceu dessa vez. Pegaram João e jogaram-no dentro do carro. Eles nem se incomodaram quando o capuz caiu. Olharam com desdém, mas ficaram mais surpresos, pois João falava com alguém. Cabedelo vendo isso se dirigiu para Bertoldo e questionou o comportamento do preso.
- Bertoldo. Será que esse cara não é maluco? Será que Guto não se enganou? Esse cara é pirado. Vai por mim.
- Porra Cabedelo! Fala pra mim! Qual é? Se é maluco, o problema é dele! Agora tá ferrado! Tem culpa de qualquer jeito! Quem mandou botar Marx debaixo do braço! É comunista sim! E burro!  Já perdi até a vontade de dar umas porradas nele! Vamos deixar esse cara no forte? Perdi o tesão!
- Olha só! Vamos soltar o cara! Vai por mim!Esse cara fala com uma porrada de gente!Até um tal de Arquimedes ele já falou! Olha só. Tá falando com outra pessoa agora.Escuta. Agora é com uma mulher: madame Curió. Esse cara é maluco mesmo! Curió é nome de passarinho!
-Cabedelo, para com isso! Tá ficando mole agora? O cara caiu no nosso carro e já era!
-Mas Guto... Está bem. Então vamos largar ele lá no forte e depois damos no pé. Isso está me cheirando a azar. Vai por mim. O que é que você acha disso?
-Realmente eu nunca vi um cara assim! De repente você está certo. Eu sei que a gente pode apagar ele por aqui mesmo, mas isso pode trazer azar pra gente... Ele já levou umas boas porradas, então a gente larga ele lá no forte e os caras lá decidem o destino dele. Já fizemos a nossa parte, para o bem da revolução.
           Chegaram num acordo e botaram João sentado no banco como um saco de batatas. Mas dessa vez ele soltou um gemido.Mas não deram nenhuma importância. De repente nem o ouviram gemer. Esqueceram até de colocar nele, o capuz. Também naquela altura, não ia fazer qualquer diferença. João já estava em outro lugar.
            Depois de algum tempo de viagem, ele perguntou pelo livro. Os caras se olharam e riram. Deram boas gargalhadas. João acabou rindo também. Riu, mas sem saber o porquê do riso. Quando voltou o silêncio ele falou novamente.
-Senhores, aquele livro eu achei na cantina da faculdade. Eu só estava procurando o dono.
-Aí Cabedelo! Olha só o cara! Diz pra ele que o dono é um tal de Karl Marx!
-Mas o Karl Marx é o autor. E já morreu há muito tempo.
-Guto vamos devolver o livro pro cara. Não vai ter utilidade nenhuma pra gente. Eu dei um folheada nele e vi que só tem a capa e a contra capa do livro do comunista. O que está por dentro é outra coisa. Ele é muito babaca, que nem percebeu isso. Só pode ser maluco mesmo.
-Senhor, eu não leio livro nenhum. Sabe de uma coisa: não preciso ler nada. Gosto muito de ciências e sei bastante. Mas também não leio nada a respeito. Já está tudo dentro da minha cabeça.
-Viu só gente! O cara é um gênio! Olha só! Estamos com um gênio do nosso lado! Isso não é bacana? Guto aproveita e dá uma cotovelada nesse cara aí, dá! Ele tá chamando a gente de burro! Dá uma porrada nele, dá! Cabedelo, rasga a capa dessa merda de livro! Mas deixa  o conteúdo! Sabe de uma coisa: pra lá aonde ele vai, vai ter todo tempo do mundo pra ler essa bosta. Vou falar com o pessoal de lá, pra dar uma colher de chá pra ele. Ele não disse que não lê nada? Então vai ser obrigado a ler essa droga!
          João preferiu não falar mais nada. Dessa vez a cotovelada pegou de jeito. Até a respiração estava dificultosa. Passou a mão no local, como se isso fosse aliviar a dor. Com dificuldade tentou respirar fundo. Conseguiu, mas foi doloroso. Nisso o capuz foi empurrado novamente na sua cabeça.
Eles rodaram bastante tempo com João. Circularam por mais de duas horas. A maior parte do tempo era por ruas esburacadas. João não tinha nenhuma noção do lugar que estava. Só tinha uma certeza: os lugares que estava passando eram desertos. Somente em um lugar ele percebeu que tinha movimento de carros. E foi o único trecho que devia ser de asfalto. Quando pararam, já estava anoitecendo. Mas ele ainda não sabia que era noite. João só foi descobrir, quando foi retirado do carro e ficar sem o capuz. Ficou um tempo encostado no carro, enquanto Guto conversava com um sargento. Eles falavam baixo. João tentava ouvir, mas não conseguia entender nada do assunto. Nem mesmo os seus colegas sabiam o que estava sendo conversado. Só deu para perceber que ali era um forte. Ouvia nitidamente as ondas se chocarem contra a parede da construção. E sentiu uma “poeira” de gotículas de água salgada bater no seu rosto. Estava fria, mas foi agradável. Não demorou muito e dois soldados vieram e o levaram para o interior. Nada falaram, simplesmente jogaram-no dentro de uma cela escura e suja. A escuridão era total e o lugar fedia a mofo. Se encostou numa das paredes de pedras irregulares e, naquele momento, mesmo estando encarcerado, se sentiu livre. E as pedras pareciam acolchoadas. Eram frias e úmidas, tomadas pelo limo, mas mesmo assim sentiu uma sensação gostosa. Respirou fundo e se interrogou do porque daquela situação. Era um cara que nunca se interessou por política. Mas não era nenhum alienado, mesmo muita gente pensando o contrário. Sabia o que estava acontecendo a sua volta.Não tinha certeza, mas desconfiava, porque muita gente desaparecia do nada. Uns até voltavam, mas se mantinham calados, enquanto outros evaporavam e ninguém nunca mais colocava os olhos em cima deles novamente. Entretanto,aquela coisa de política, não interessava nada, nada a ele. O que importava realmente eram as suas teorias e os seus inventos. –“Mas o que iria adiantar os seus inventos ali?” – pensava com um aperto no coração. Porém a esperança de que iria sair dali gritava mais alto. Iam perceber que tinha havido um engano. Um grande equívoco. E respirou fundo novamente.
          Tinha perdido a noção do tempo. Mas já era uma pequena eternidade. Sem perceber já estava sentado. Os seus olhos já começavam a se acostumar com aquele breu. Começou a identificar o ambiente. Achou um colchão embolado num canto. Se levantou e foi olhar a sua descoberta. Ele estava úmido e fedia muito. Ali estava faltando o sol. –“Como posso trazer o sol aqui pra dentro? – pensou com os seus botões. Depois achou melhor não só pensar, mas também falar. Falar em voz alta. Conversar com alguém. Mesmo que esse alguém fosse ele mesmo. Não ia ter ninguém ali para julgar a sua sanidade mental mesmo!
           Naquele primeiro dia... Ou noite? Não sabia, já tinha perdido completamente a noção do tempo que estivera com os policiais. Não tinha certeza também se tinha chegado ali à noite. Não lembrava se o sol tinha batido na sua pele, ou se a noite tinha jogado estrelas dentro dos seus olhos. Estava tudo confuso. Deitou mas não conseguiu pregar olhos. Pensou no silêncio que o envolvia. Mas sabia que não existia o silêncio absoluto. No fundo todo silêncio é barulhento. A “engrenagem” que move os planetas faz barulho. A Terra faz o seu barulho passeando no espaço. Todo o universo faz barulho. Perdeu um tempão pensando nisso. –“Ou será que não faz?” – falou alto. Só voltou a pisar no chão, quando alguém abriu uma pequena portinhola e passou alguma coisa, parecido com um pedaço de pão, e uma coisa esbranquiçada parecendo com leite. Tomou coragem e comeu o pão, constatou que o leite estava misturado com café. – Isso é coisa de hotel! – falou alto e depois esboçou um sorriso. Após se fartar de quase nada, resolveu conversar consigo mesmo.
-Então é manhã. Amanheceu mesmo. Vamos ver se vão me trazer o almoço. Quem sabe um bife acebolado. Depois vão me levar para pegar sol. Toda prisão faz isso. O que você acha? Estou perguntando pra você que está aí dentro de mim. Vamos dialogar? Precisamos manter uma conversação alegre e sadia, para isso aqui não ficar monótono. Ou pior ainda, uma situação desesperadora. Eu não posso perder o controle da situação. – Que lugar é esse?–até que enfim você falou. Que lugar é esse? Boa pergunta. E eu sei? – Você não é fera em física, matemática e etc? Dá um jeito pra gente sair daqui! - Eu já pensei nisso. Juro por Deus. Me diz uma coisa: nesse lugar para que servem as minhas teorias? Os meus inventos, pra que servem? Se pelo menos tivesse um ponto de luz. A única claridade que surgiu, foi quando eles deixaram o café. Deve ser de manhã. Acho. Temos que ficar atentos quando trouxerem o almoço. Se realmente trouxerem a bendita comida, vamos aproveitar para, mesmo com a pouca claridade que adentrar esse cubículo, fazermos uma observação rápida.
 João parou de falar. Tateou pelas paredes até localizar a porta, já que tinha tentado fazer um reconhecimento, mesmo no escuro. Colocou-se ao lado e ali ficou, pacientemente, até que abrissem novamente a portinhola. A espera estava dando nos nervos. Ele procurava não ficar tenso. Para isso começou a se lembrar das suas teorias, dos seus projetos. Lembrou-se do motor movido a água. Quando ele comentou com algumas pessoas, ninguém deu a mínima importância para o seu invento. Se recordou também de como deu trabalho o projeto de um gerador de energia elétrica, a partir da ação da gravidade. E a vestimenta para deficientes se locomoverem normalmente! Era só a pessoa vestir e pensar que podia andar e rapidamente a roupa se moldava ao corpo e respondia ao comando do cérebro. Mas era só teoria. Faltava dinheiro para tocar o projeto. Entretanto, garantia que funcionaria. Procurou patrocínio, mas ninguém acreditou na sua criação. Os projetos estavam repousando numa velha estante. Estavam juntos com alguns livros de poesia. Parecia que era a única coisa que lia. Entretanto chegou ler alguns romances. Mas isso era raridade, tendo em vista que o seu tempo era precioso demais. Ele achava que o tempo que iria perder lendo um romance, deixaria de criar alguma teoria ou inventar alguma coisa.
                                         Continua semana que vem...



terça-feira, 24 de março de 2015

UM GÊNIO QUE ENCONTROU O PARAÍSO NO ESGOTO - Parte 2

CONTINUANDO...

A primavera já apontava. O inverno pendurava o agasalho no guarda roupa. A temperatura estava agradável. Cinco alunos subiam o morro a caminho do Instituto de Física. João Paulo ia à frente, acelerado. Isso era raridade. Ninguém conseguia entender a sua pressa. A sua preocupação em não chegar atrasado era um fardo que carregava no lugar da mochila. Todos sabiam que ele não perderia nada, mesmo chegando atrasado ou até não indo à aula. A física que ele vestia, estava muito mais à frente da de qualquer professor. Se um problema era apresentado na aula, automaticamente ele já tinha a resposta. A solução para qualquer tipo de questão estava dentro da sua cabeça. Ninguém nunca viu o cara portando livro, caderno, lápis, caneta... Era só a sua cabeça mesmo. Nesse dia a aula não apresentou nenhuma novidade. Os colegas que não conseguiram tirar as suas dúvidas com o professor, foram acudidos por João. Segundo alguns colegas era muito mais fácil tirar dúvidas com ele, do que com o professor. Depois da aula encerrada, foi para a cantina tomar um café, como fazia habitualmente. Para a segunda aula, teria que esperar uma hora. Pegou um café e foi para o seu canto favorito, que ficava escondido atrás de um pilar e cercado de caixas de refrigerantes. Era ali que ficava viajando. Às vezes refazendo algumas de suas teorias ou criando outras. Isso ele segredou a um amigo, que tinha se preocupado com a sua solidão. –“Que solidão?” – perguntou ele. E antes que o outro falasse mais alguma coisa, disse que era impossível ser sozinho, com tanta coisa na cabeça. Eram tantas perguntas para serem respondidas e outros tantos questionamentos, que enchiam suas manhãs, tardes e noites. Até pelas madrugadas ele tinha companhia, pois dormia muito pouco.
Não era do seu feitio, ficar observando o que se passava a sua volta, jogar conversa fora, discutir política, futebol... O que não fosse útil estava fora de questão. Por isso ele sentava ali, tomava toda a xícara de café e fechava os olhos, atrás de um par de lentes imensas, e fazia a sua viagem. Mas nesse dia foi diferente. Pediu para colocarem o seu café no copo. Tomou apenas um gole e não fez o seu mergulho interior. Depois colocou o copo numa mesinha baixa a sua frente. Deu uma espreguiçada. Quando foi pegar o copo, a sua atenção foi despertada por um livro de capa vermelha. Retirou uma garrafa de refrigerante que estava em cima dele. Não tinha nenhum nome a vista. Abriu na primeira página. Aí sim viu o nome do autor, mas fechou-o. O autor era Karl Marx. Ficou olhando para o livro e depois cerrou os olhos e foi bater um papo com a sua cabeça. O teor da conversa não dá pra saber. Algum tempo depois, abriu os olhos e foi para a sala de aula. Como era de costume, não falou com ninguém. Sentou e colocou o livro em cima da carteira. Um amigo ficou surpreso ao vê-lo com um livro, já que nunca fora visto com um. O cara não agüentou de tanta curiosidade e perguntou que livro era. Respondeu secamente que tinha achado e não sabia de quem era. E nem do que se tratava. Ia deixá-lo na biblioteca. O amigo abriu-o. Não viu o título, mas viu o nome do autor: Karl Marx.Ficou surpreso, pois sabia que João Paulo não se ligava em política, e deu um toque nele:
- Cara. Some com esse livro. Vão acabar achando que você é subversivo. Joga essa porra no lixo. Vai por mim.
João olhou para o amigo, parecendo que estava a milhares de quilômetros dali, e balbuciou.
- Subversivo?
- É! Subversivo! Ou comunista! - respondeu André.
          João balbuciou alguma coisa, que André não conseguiu entender, mas nem se mexeu. Até o final da aula continuou mudo e na mesma posição. No término, se levantou, não falou nada com o amigo, e foi em direção à biblioteca. Mostrou o livro a uma atendente, mas ela se recusou a receber, dizendo que não era da biblioteca. Mesmo assim ele largou o livro em cima do balcão, mas a menina disse que se ele não quisesse que o jogasse no lixo. A contra gosto, pegou o livro e colocou debaixo do braço e deu um sorriso meio sem graça. Como era do seu caráter, não contestou. E também não conseguiu jogar na lata de lixo. Nunca brigava. Estava muito acima dessas coisas. A atendente olhou-o de frente e sorriu pra ele. Entretanto, não foi pra retribuir o seu sorriso, mas sim pela expressão engraçada que fazia, por detrás de um par de óculos imensos, que cobria quase todo seurosto. E ele sorriu de novo. Insistiu mais uma vez, colocando o livro em cima do balcão. E começou a conversar com a moça.
          Num canto da biblioteca um rapaz folheava um livro despretensiosamente. Os seus olhos, por trás de um par de óculos escuros, miravam mais o ambiente, do que as páginas do livro. Na realidade ele não lia nada. Ele estava ali para observar a tudo e a todos. Estava fantasiado de estudante. Carregava uma bolsa à tira colo, que não tinha nem livros e nem cadernos, somente uma arma calibre 38. Desde a chegada de João
ele não desgrudou os olhos de cima dele. Observou quando colocou um livro vermelho em cima do balcão. Não sabia do que se tratava, mas de antemão sabia que não fazia o seu gênero. Na verdadelivro algum era do seu agrado, ainda mais com a cor vermelha estampada na capa. Pra ele só podia ser comunista. Discretamente se levantou, caminhou até próximo do balcão, deu uma olhada por cima do ombro da atendente, enquanto continuava folheando o livro de química, e procurou ver o nome do autor da obra. Não conseguiu, mas mesmo assim a suspeita tomou conta dele. Só podia ser de subversivo. Ficou ali esperando um pouco, até que João abriu o livro e deu para ele ver o nome do autor. Ficou emocionado, mas não deixou transparecer qualquer tipo de emoção. Ali estava a sua chance de mostrar serviço. Colocou o livro em cima da mesa e saiu discretamente. Do lado de fora procurou um local que pudesse ficar sem chamar muito a atenção. Achou uma árvore, com uns galhos quase arrastando no chão, que dava para esconder uma pessoa. Mas antes sinalizou para alguém que, aparentemente, não estava à vista. E pacientemente ficou esperando.
          João deu um tchau pra menina e saiu da biblioteca. Colocou o livro debaixo do braço e foi descendo uma ladeira, tranquilamente, com aquele seu jeito peculiar: sem pressa e conversando consigo mesmo. De vez em quando parava, falava alguma coisa e voltava a caminhar.
          Naquele período tenebroso da ditadura militar, onde todos eram suspeitos, desde que não provassem o contrário, quem visse a cena de longe - ainda não existia o telefone celular-, poderia achar que o cara estava se comunicando com alguém, por algum tipo de rádio. Alguma coisa nova trazida pelos comunistas. Só viam o que interessava a eles. E João continuava descendo vagarosamente. O cara que estava atrás da árvore, não viu a cena, mas próximo dali, dentro de um fusca caindo aos pedaços, dois caras acompanhavam todo o trajeto de João. Um deles falou: -“Ali vem um subversivo!” O outro já estava ficando nervoso com a lentidão de João e tentou sair do carro, mas foi impedido pelo colega.
         Nessa época alguns policiais saiam nesses carros velhos para não levantarem suspeitas. Mas como não levantar suspeitas? Faziam questão de aparecer, demonstrar que estavam mandando e que todo mundo tinha que obedecer. Alguns estudantes sabiam desses carros que circulavam pelas proximidades da universidade. Procuravam ficar atentos, mas de vez em quando um bobeava e era jogado pra dentro desses micros presídios ambulantes. Quem ali caía, podia estar com os dias contados.
         Os dois saíram do carro, acertaram os óculos escuros na cara, e encostaram-se numa árvore, esperando João descer. Ele vinha sem pressa. Ele parou e ameaçou voltar. Os dois caras demonstraram impaciência. O que estava escondido atrás da outra árvore gesticulou, tentando saber o que estava acontecendo. Eles responderam com gesto, pedindo para ele ficar onde estava. Nisso João resolveu continuar a descer a rampa. Essa rampa devia ter aproximadamente uns vinte metros de extensão, mas parecia que tinha esticado, tendo em vista a morosidade de João. O cara que estava
escondido resolveu dar uma olhada e viu que João, muito desligado, se aproximava. Mal João passou, ele saiu e caminhou atrás. A sua cara demonstrava a ansiedade que se apoderava dele. Não se sabe como conseguiu se controlar e passar por João sem nada fazer. Passou também pelos amigos e entrou no carro. João parou novamente. Falou alguma coisa e voltou a andar, mas daquele jeito que só ele fazia. Irritava qualquer cristão. Ou não. Porque aquelescaras não deviam ter religião alguma. Um deles mascava um palito. De vez em quando sugava os dentes, fazendo um barulhinho que irritou o companheiro. Entre dentes, mandou-o parar com aquela nojeira. Ele, a contra gosto, jogou o palitofora, limpou os dedos na camisa e cuspiu alguma coisa no chão.
          Finalmente João desceu toda a rampa. Mal passou perto da árvore, os dois caíram sem cima dele. Um jogou um capuz na sua cabeça e o outro torceu um dos seus braços para trás. Com o susto João ficou sem ação. Não conseguiu esboçar qualquer reação. Queria falar alguma coisa, mas não conseguiu. Eles nem precisaram agir com violência, tal a docilidade da vítima.
          O fusquinha velho já estava com as portas abertas. João foi jogado para dentro. O livro continuava debaixo de uma das axilas. Um dos policiais enterrou mais o capuz na sua cabeça. Do jeito que ele foi atirado, ficou. Não esboçou qualquer reação. Os caras ficaram surpresos com isso, pois nunca tinha acontecido isso antes. As suas vítimas sempre ficavam desesperadas. E eles riam a vontade com o sofrimento alheio. Mas com João estava sendo diferente. Os três ficaram olhando, a espera de alguma reação. Ele permanecia imóvel e em total silêncio. Um dos policiais que estava atrás fez sinal para o motorista dar partida no carro. Ele ligou o veículo e saiu devagar. Isso também nunca tinha acontecido. Foram se afastando da cidade em total silêncio. O carro parecia que já sabia para onde iria. Como eles sempre faziam, quando prendiam alguém, se dirigiam para uma praia deserta. De vez em quando o motorista virava para trás e fazia alguma careta, como se estivesse cobrando alguma coisa dos colegas. Eles respondiam também com trejeitos, mas continuavam em silêncio. E assim foi até chegarem ao destino: praia de Itaipuaçu, no município de Maricá. Nessa época era quase deserta. Eram poucos os moradores. Um sítio ou outro pipocava pela orla. Pararam o carro numa rua sem nenhuma habitação. O mato crescia dos dois lados. Saíram e ficaram olhando para João, que continuava imóvel. Depois de algum tempo, o que estava dirigindo, mandou-o sair. Como João não se mexeu, ele agarrou-o por um dos braços e puxou-o para fora. Ele bateu violentamente no chão, mas não reclamou. O outro policial pegou-o pelo pulso e colocou-o de pé. Os três ficaram olhando, sem saber o que fazer. Com outros estudantes tinhasido fácil. O pavor deles estimulava-os. A adrenalina ficava a mil. Aí era só torturá-los. Mas com João estava sendo diferente. O prazer não estava acontecendo. Um deles resolveu tirar o capuz dele. João estava com uma cara tranqüila. Parecia que não estava ali. Os três ficaram se olhando, sem entender nada do que estava acontecendo. Aquela calma irritou um deles.

- Porra! Cara o que é isso? Tá zombando da gente? Me dá essa porra de livro aí!

                   Continua semana que vem...                                           

quarta-feira, 18 de março de 2015

UM GÊNIO QUE ENCONTROU O PARAÍSO NO ESGOTO - Parte I

 UM GÊNIO QUE ENCONTROU O PARAÍSO NO ESGOTO

                                                      José Timotheo

A cantina estava vazia, João se espreguiçava num banco cercado de caixas de refrigerantes. Os seus olhos estavam fechados.Alguém chegou silenciosamente. Sorrateiramente se sentou ao seu lado e levemente tocou no seu braço. Num ser normal, isso iria causar um susto, mas João apenas abriu os olhos e olhou em volta. Do seu lado estava um professor de física. João fixou o seu olhar no olhar do seu professor e esboçou um sorriso. Ficou em silêncio e esperou que ele dissesse alguma coisa. O silêncio entre os dois ficou barulhento,até que o professor, meio sem jeito, tentou quebrar esse momento,em que as emoções causam às vezes estrago,engoliu a seco e falou:
                 -João... Você está ocupado?
                  Como era do seu feitio, João demorou um pouco para responder. Olhou de novo o professor e,secamente, mas de forma calma, falou:
-Não.
                 Respondeu, mas continuou sem dar muita atenção. O professor, meio sem jeito, coçou a cabeça, pigarreou e insistiu:
- Podemos conversar?
                Dessa vez João olhou-o, jogou um sorriso meio sem graça e falou:
-Claro mestre. Em que posso ser útil?
-Eu preciso que você conheça algumas pessoas. Pode vir comigo até a minha sala?
-Posso sim, professor. Agora?
-Se puder, tudo bem.
                 João se levantou e seguiu o professor. Entraram na sala e João sentou numa cadeira que o mestre apontou. Em seguida três pessoas adentraram no recinto. João olhou-os surpresos. Não deu para perceber de onde eles tinham saído. Parecia que a parede tinha se afastado para os três aparecerem. O professor vendo do jeito que ele ficou, com uma interrogação no colo, se adiantou e disse:
-Ali é o meu local de estudos. A gente tem que ter um esconderijo para poder pensar em paz. João, vou te apresentar a esses senhores. O da esquerda é o General... General Dimitri. O do meio é o General... General... Apenas General. E o General Mackey.
                João se levantou e cumprimentou os três. Olhou-os meio sem jeito e comentou:
- Professor, ele é russo? O outro americano? E o outro?
               O professor coçou a cabeça, antes de falar. Mas assim mesmo fez com que o silêncio se acomodasse entre eles. Esperou um pouco e finalmente disse:
               -João, realmente o ilustre general Dimitrié russo. O não menos ilustre, Gene -
 ral Mackey, é americano. E o nosso amigo general, é brasileiro.  Podemos chamá-lo apenas de general.
- Eu não estou entendendo... um general russo aqui.
- João, são apenas estudiosos. Eles estão aqui para conversar com você sobre a sua arma, digo, a sua invenção.
             -Mas professor, eu não quero fazer da minha invenção uma arma de destruição. Ou melhor, eu não quero que seja uma arma.
             -Claro João! Os meus amigos além de generais são físicos nucleares! E mais ainda, são pacifistas! Querem a energia nuclear apenas para fins pacíficos. Eles apenas estão curiosos. Não acreditam que você tenha desenvolvido uma teoria que... Eles querem apenas conversar.Vou segredar-lhe uma coisa: esses russos e americanos não acreditam que no Brasil tenha alguém com capacidade para desenvolver qualquer tipo... Alguém que possa, sem um laboratório bem equipado, mexer com energia atômica. Eles acham que nós não somos capazes. Você acredita nisso? Eu só quero que você converse com eles. Vamos conversar. Se você não entender russo e nem inglês, eu traduzo pra você.
- Não precisa. Eu falo bem o idioma russo e o inglês. Meu pai é judeu russo. Ele veio para o Brasil pequeno com seus pais, fugindo da guerra. Os meus avós não deixaram que o meu pai esquecesse a língua natal. Depois me ensinou o básico. Como eu tenho muita facilidade para o trato com outras línguas, foi fácil dominar bem o idioma.
            -Você fala outras línguas?
            -Falo algumas. Inglês, alemão, espanhol, russo, italiano, mandarim, e outras. Falo e escrevo.
- Então você pode escolher.
            O russo tirou do bolso do casaco uma garrafa de vodka. Ofereceu a João e ele recusou.
- Obrigado. Não bebo bebida alcoólica.
            Nisso entrou um rapaz com uma bandeja contendo cinco xícaras de café. Ofereceu aos generais, ao professor e a última a João. João bebeu e comentou.
- Essa é a minha bebida preferida.
            Bebeu tudo de uma só vez, devolveu a xícara para a bandeja e se sentou. Passou a mão no rosto e esfregou os olhos. O professor perguntou se estava tudo bem. Depois o convidou a entrar na sua sala de estudos. João levantou-se e se encaminhou para a tal sala.
 O ano de 1972 continuava fazendo corações de pais e mães sangrarem e até pararem de bater... Uma vida que desaparecia nos calabouços da ditadura, arrastava outras vidas para os calabouços da agonia. O filho ia para a faculdade e mais tarde chegava à notícia que ele havia desaparecido. Alguém o viu ser jogado dentro de um carro. Acho que isso era feito propositalmente. Sempre alguém via. Com isso a notícia caía rapidamente no colo da família. Aí um tiro que era disparado para um, derrubava uma família inteira. A via “crucis” estava armada. Tem pessoas procurando filho,marido,mulher, um amigo, uma amiga até hoje.Os órgãos que poderiam informar continuam mudos. Naquela época, quando alguém conseguia chegar até a polícia para tentar saber o paradeiro de um filho, era recebido com um “ninguém sabe, ninguém viu”. Muitos nem iam, com medo de ficarem por lá também.
         Conheci um cara genial. João Paulo era o seu nome. Cursava física. Diziam que era o maior cdf da faculdade. Era dos números que mais gostava. Se o assunto fosse outro, ele saía à francesa. Principalmente política, pois não entendia nada. E não fazia questão de saber. Dizia que não via utilidade no assunto. Era um sonhador. Falava que queria, depois de formado, trabalhar na NASA, nos Estados Unidos da América. Indiscutivelmente era a maior fera da faculdade. O terror dos professores. Mas tentava ser humilde. Tentava. Mas como, se ele sabia que sabia mais do que os mestres? Procurava não tripudiar. Queria ser igual aos colegas, entretanto não conseguia. Como ele iria fazer pergunta para esclarecer uma dúvida, se não tinha nenhuma? Procurava se esforçar para dar alguma chance ao professor, porém a coisa soava mais como gozação. Não queria se colocar na posição do mestre, mas só que ele era o próprio mestre. Era mestre sem ter feito mestrado e doutor sem ter feito doutorado. Ele virou uma lenda.                                  
                                                                    - Continua semana que vem...

Apresentação do Livro - UM GÊNIO QUE ENCONTROU O PARAÍSO NO ESGOTO - José Timotheo

Olá internautas,
Apresentarei a vocês semanalmente, em capítulos, o meu mais novo livro:
UM GÊNIO QUE ENCONTROU O PARAÍSO NO ESGOTO.
Espero que todos vocês aproveitem a leitura.
- José Timotheo - 


sábado, 7 de março de 2015

Reflexão de Poeta - Imaginamos Coisas

                                                    

                                                               Imaginamos Coisas
                                                                -  José Timotheo  -
Diante da tela
Pintei a nação
A lua depenava o sol
Um sol já frio, sem cor
Uma lua coberta de flor
Com passaporte rasgado, retrato trocado
Sem visto, sem impressão digital
Arte de um artista virtual
Um pouco mais adiante
A relva amarelava o verde
O abacate, sem arte alguma
Estava esmagado sob um pé esquerdo
Farta imaginação
Um petróleo branco, sem um bronze na pele
Mãos betumenosas descontando cheques
Xeique. Xeque mate
Paraíso fiscal sem Adão
Com eva acariciando a serpente
Mas diante de tanta imaginação
Ouvi alguém gritar
O "ptróleo" é nosso
Sim senhor, alguém gritou
E as verdinhas voaram para outro continente
Me curvei incrédulo
Ao ver um punho erguido indecente
De um herói, dito inocente
Me fiz um babaca nacional
Com o "ptróleo" sugando a nação
A gente vai beijando o chão
Sem chuva, causando enchentes
Sem orgulho, sem rumo
Sem prumo, sem norte
Mas grito que o petróleo é nosso
A chuva é nossa também, mas
Só cai onde o político quer
E são todos inocentes

É pura imaginação?