terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Assombração - Parte 14

Continuando...
          O silêncio não podia se eternizar. Alguma coisa tinha que acontecer para quebrar aquele gelo. E aconteceu: uma xícara escorregou da mão da enfermeira e se espatifou no chão. Finalmente a vida voltou a circular no ambiente. Um pedido de desculpas, depois do barulho, ecoou na sala, fazendo com que todos saíssem do estado cataléptico. Assombração liberou o seu sorriso. O Dr. Anton não resistiu e foi ao encontro do irmão, abraçando-o e chorando emocionado. Reconheceu-o imediatamente. Assombração apenas sorria. Esse era o seu estado normal. E nesse dia, tinha um motivo a mais para estar mais feliz, pois se tratava de um momento, que não caberia, de forma alguma, a tristeza. Tendo em vista que tinha certeza absoluta, que devolveria o sorriso aos lábios da menina do nº dezoito. Para ele, a dúvida não existia. A menina ia ser salva.
          O Dr. Anton continuava abraçado ao irmão. Não parou um momento sequer de chorar. Parece que chorava pelos anos todo que esteve afastado dele. Assombração, sem deixar que o sorriso fugisse dos seus lábios, simplesmente afastou o irmão e olhando-o nos olhos, disse:
          - Esse é um momento de alegria! Não tem espaço para a tristeza! Sabia que vou ajudar a menina do nº 18? Mesmo eu não sabendo do resultado do exame, tenho certeza que deu positivo! Não é Dr. Justus?
           O médico, com o resultado debaixo do braço, parecendo que guardava um tesouro, sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Com a confirmação, Assombração abraçou o irmão com muita força, quase o sufocando. Em seguida levantou-o, parecendo que jogava uma folha de papel para o alto. Com isso, quase que o irmão bateu com a cabeça na luminária. Depois desse gesto, colocou-o no chão e em seguida pegou a enfermeira Elga e fez a mesma coisa. Ela, no entanto, gritou. Mas depois deixou escapar um sorriso, meio sem jeito, essa é que é a verdade, causado por um pouco de vergonha. Tendo em vista que o seu rosto branquinho, apresentava manchas avermelhadas. Ele só não levantou o Dr. Justus, mas pegou a sua mão e beijo-a, em sinal de agradecimento.
          Naquela pequena sala, estavam cinco almas felizes. E o Dr. Justus era uma delas. Queria falar, porém a voz não saía. Olhava para Assombração, que ainda mantinha a sua mão pressa na dele, e apenas sorria. O tempo foi passando e ele precisava falar alguma coisa. Por sorte a atendente Angélica, precisando voltar para o seu setor, foi obrigada a sacudir aquele silêncio, dizendo:
         - Dr. Justus, desculpe. Mas, como Assombração está entregue, vou voltar para a recepção. Um bom dia para todos.
           Virou às costas e foi saindo, fechando a porta atrás de si. Com essa quebra do silêncio, o Dr. Justus aproveitou, vencendo aquele estado emotivo, e falou:
          - Meu rapaz. Meu bom rapaz. Realmente você é o doador compatível. E vai poder salvar a menina, como sempre afirmou. Meu rapaz. Não sei, até agora, de onde você tirou tanta certeza. O que é que posso dizer? Não sei mesmo. Acho que só Deus sabe. Só...
          Assombração não deixou o Dr. Justus completar o seu raciocínio, interrompendo-o bruscamente.
          - Dr.! Dr.! Vamos lá! O senhor pode tirar de mim, tudo que precisar para salvar a menina! Vamos logo!
          Dr. Justus sorriu e falou calmamente, enquanto abria a gaveta e guardava o exame.
          - Calma meu rapaz. De agora em diante, você não vai mais precisar ficar nervoso. Agora, está praticamente tudo resolvido. Às chances da menina ficar boa, beiram os 100%. Então... Pode sorrir bastante! Graças a Deus! Ah! Mais uma coisa! A partir de amanhã já podemos dar início aos procedimentos para o transplante da medula. Gostaria que voltasse à tarde, para ficar internado. Têm alguns procedimentos que temos que realizar antes da intervenção cirúrgica. São alguns exames corriqueiros. Está bem? Mas antes que vá embora, gostaria de te apresentar uma pessoa. Na realidade vocês já se conhecem há muito tempo.
          Assombração mostrou um ar de espanto e depois abriu um sorriso, antes de interroga-lo:
          - A mim? Quem é? Quem?
         Dr. Justus sentou-se na sua cadeira, sorriu para ele e disse:
          - Ué! Você não observou uma pessoa que está aqui na sala? Meu rapaz, você até o abraçou!
          Dr. Justus em seguida chamou o Dr. Anton, que estava naquele momento atrás do irmão.
          - Dr. Anton, por favor, se aproxime.
          Quando o médico chamou o colega, Assombração virou-se e encontrou com o olhar do irmão, que já estava bem encostado nele. Estavam cara a cara. Dr. Anton sorriu e disse:
           - Antoane, está lembrado de mim?
          Assombração ficou encarando-o, porém sem o sorriso costumeiro, franziu a testa e depois respondeu:
           - Não. Não. Sei não. Meu nome é Assombração. Só sei isso. Mas você é parecido comigo. Por que é que você se parece comigo?
          Dr. Anton fechou os olhos, sem deixar que o sorriso escapasse dos lábios, depois, esfregou-os com as costas das mãos, e disse, com a voz um pouco embargada:

          - Claro Antoane. Nós somos irmãos. Você é o meu irmão.
        Continua semana que vem...

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