segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Assombração - Parte 10

Continuando...
          A enfermeira Elga ansiosa, roendo as unhas, perguntou:
         - E o seu irmão, Doutor?
         - Não foi encontrado. As buscas foram imediatas. A região toda foi vasculhada, mas nada do corpo dele. Mas alguma coisa aqui dentro me dizia que um dia, ele ia aparecer vivinho. Foram semanas e mais semanas e nada dele ser encontrado. As buscas foram encerradas. Mas aqui dentro eu nunca desisti. Eu...
          O Dr. Anton parou de falar de repente. A sua voz sumiu. Era muita emoção. Dessa vez deixou que as lágrimas fluíssem. Cobriu o rosto com as mãos e chorou copiosamente. A enfermeira e o Dr. Justus ficaram emocionados também. Os dois estavam com os olhos banhados de lágrimas. Olhavam apenas para médico, em silêncio, sem coragem de fazer qualquer comentário, para não quebrar aquele momento, no qual ele arrancava toda dor que ficara por tanto tempo guardada. Deixaram-no extravasar toda emoção até não restar mais nenhuma lágrima de dor. Quando o Dr. Justus sentiu que o pranto estava suavizando, se aproximou do amigo e postou-se ao seu lado, colocou uma das mãos no seu ombro e falou docemente:
          - Calma. Amigo, essa dor vai acabar. Brevemente vai ter seu irmão nos braços. Se Deus quiser vai ser Assombração sim. Seu irmão é esse rapaz, com certeza. Antoane, não é?
          - Sim. Onde posse encontrá-lo?  
          - Como disse, ele vem amanhã. Não sabemos o seu paradeiro. Nunca tem um lugar certo para ficar. Anda por toda cidade. Cada dia dorme em um lugar diferente. Pode ficar tranquilo que amanhã ele estará aqui. Ele é de uma pontualidade impressionante. Amanhã teremos o resultado e o senhor terá a chance de confirmar se ele é ou não o seu irmão.  Não se esqueça que ele chega antes do sol nascer.
        Dr. Anton estava se sentindo sufocado. Levantou-se e pediu outra xícara de café. Dr. Justus percebendo o estado do colega tentou mudar de assunto, falando:
          - Doutor, vou levá-lo até o departamento de RH. Estando com a documentação toda em ordem, o senhor começa segunda feira próxima. Acredito. Tem as burocracias normais. Não é? Com isso tudo que está acontecendo, acabamos nos esquecendo de regularizar a sua situação perante a empresa. Vamos? Por favor.
          Assombração levantou-se cedo, como já era habitual, mas não antes, claro, dos pássaros. Esperava sempre as aves se dispersarem em bando, para depois espreguiçar silenciosamente, sem fazer alarde, e encontrar o sol pelas ruas da cidade. A sua convivência era pacífica com as aves. Viviam em total harmonia. Alguns já estavam acostumados com a sua presença, que até dormiam em cima dele. Assombração procurava manter-se em total rigidez, sem se mexer, para não assustá-los.

       A rua já começava a bocejar. Assombração desceu da árvore e caminhou até o ferro velho do seu Juca. Um vigia que já o conhecia, abriu o portão e deixou-o entrar. Encaminhou-se até o banheiro, escovou os dentes e em seguida foi para debaixo do chuveiro. Aquele banho não era igual ao de outras manhãs. Aquele era um dia especial e especial teria que ser também aquele banho. Tinha comprado um sabonete cheiroso e um xampu, de boa marca, para dar um trato na sua aparência. Depois do banho tomado, pegou um embrulho, abriu-o e tirou de dentro uma camisa, uma calça jeans e um par de meias, num azul já meio desbotado, tal e qual a calça. Estava tudo limpo e perfumado. De dentro de outra sacola tirou um par de tênis bem surrado, o único que tinha, mas que dava para ser usado. Assombração procurava sempre mantê-lo o mais limpo possível. Pelo menos, uma vez por semana lavava-o. Depois de tirar tudo de dentro das sacolas, começou a se vestir. Antes de sair daquele cubículo, mirou-se no espelho e deu uma ajeitada no cabelo. Olhou todo o pequeno banheiro e viu se estava tudo em ordem. Já tinha puxado a água para o ralo e passado um pano para enxuga-lo. Com tudo limpo, recolheu as roupas usadas e colocou-as dentro de uma das sacolas que tinha caído no chão. As sandálias, ele as jogou dentro da outra sacola, que estava pendurada num gancho atrás da porta. E mais uma vez olhou-se no espelho e sorriu. Nessa hora, dos seus olhos apareceu um brilho de confiança. Falou alguma coisa, mas que de tão baixo, soou incompreensível. Abriu a porta e saiu. Deu alguns passos, parou e mirou uma das poucas árvores que tinha naquela floresta de ferros velhos torcidos.  Era um ipê, com mais de 10 metros de altura e com idade desconhecida, que coberto de cachos de flores amarelas, dava a impressão que tinha ouro flutuando no espaço. Era um tremendo contraste, com aquela imensidão de ferros enferrujados e retorcidos, enfeando o local.  Assombração foi em direção ao portão de saída, mas não encontrou o Seu Juca. Pensou que fosse encontrar o amigo e com ele dividir a sua alegria. Queria falar da sua certeza de ser o salvador da menina do nº 18. Essa certeza que fazia o seu coração pular e que era a mesma certeza de estar vivo. Mas não viu o Seu Juca. Foi em frente e passou por Fidélis, o vigia, e de cabeça erguida, cumprimentou-o, dando um sonoro “bom dia”. O rapaz ficou tão surpreso com o comportamento dele, que acabou imitando o patrão, deixando no ar uma tremenda gargalhada. Assombração sorriu, bateu com uma das mãos, mas não olhou para trás, e continuou na sua caminhada leve e descontraída.  
     ...Continua na semana que vem...

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