terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Assombração - Parte 7

Continuando...
          Nisso já tinha parado vários funcionários no hall de entrada do hospital. O médico observou um movimento atrás de si e percebeu que as pessoas faziam comentários entre dentes, olhando na sua direção. Virou a cabeça e mirou um por um, fazendo com que as pessoas se dispersassem. Depois retornou para a posição que estava anteriormente, deu um sorriso amarelo para a recepcionista e indagou:
          - O que é isso? Que está acontecendo alguma coisa, está! Por que essas pessoas estavam de cochicho atrás de mim? Preciso de uma explicação!
           Angélica não respondeu, mas saiu detrás do balcão e pediu para que o médico a acompanhasse. Levou-o até o consultório do Dr. Justus, médico responsável pelo setor de pediatria. Esse, quando o viu, fez um ar de espanto, mas comentou sorrindo:
          - Menino! Aonde você arranjou essa roupa alinhada? Está parecendo outra pessoa! Assombração! Você está elegante!
          O Dr. Anton olhou o Dr. Justus e falou com azedume:
           - O que é que está havendo aqui? Que brincadeira é essa? Estão querendo fazer troça com a minha cara? Agora é o senhor que me chama de assombração! É muita brincadeira para o meu primeiro dia! É um trote?
          A princípio um silêncio constrangedor se instalou no recinto. Só os olhos tentavam dizer alguma coisa. O Dr. Justus parecia que estava entalado. A recepcionista tentava disfarçar, mas acabou saindo de fininho, deixando os dois sozinhos. Nisso a enfermeira Elga que ia chegando, quase se choca com ela. E ao entrar no consultório, levou o maior susto. Ficou  parada olhando para o Dr. Anton, que não se conteve e falou bruscamente:
          - A senhora também? Acha que sou outra pessoa, não é? Eu mereço uma explicação! O que é isso? Meu primeiro dia... e começando mal!
           O Dr. Justus custou a sair do estado que se encontrava. Pigarreou e passou a mão na testa, deu um sorriso sem graça para a enfermeira, mas finalmente convidou o colega para se sentar. Ofereceu a sua cadeira, com o intuito de, de alguma forma, acalmar o Dr. Anton, que recusou, mas sentou-se numa outra cadeira, que normalmente é destinada aos pacientes ou visitantes. Já a enfermeira Elga, ainda espantada com a semelhança do Dr. Anton com Assombração, acomodou-se numa cadeira do outro lado da sala, sem, no entanto, desgrudar os olhos dos médicos. O mal estar estava instalado. O Dr. Justus, que ainda continuava em pé, depois de alguns minutos sem saber o que fazer, optou por sentar-se, mas sentou-se de lado na cadeira. Estava realmente se sentindo muito embaraçado. Era uma situação que nunca tinha passado. Algo constrangedor. Cruzou as pernas e fingiu amarrar o cadarço do sapato. Em seguida girou na cadeira e ficou de frente para o Dr. Anton.  Olhou para o colega, que estava de cabeça baixa e repentinamente esticou o braço e se apresentou:
          - Meu nome é Justus. Sou médico oncologista.
            Dr. Anton levantou a cabeça e encontrou o braço esticado do colega. Em sinal de educação, mesmo estando chateado, apertou-lhe a mão com vigor, e também se apresentou:
          - Prazer. Anton. Sou também oncologista.  Trabalhei na capital, no setor de pediatria. 
            Antes de falar alguma coisa a mais, o Dr. Justus engoliu em seco e falou timidamente:
          - Então... É... Então é o senhor que veio substituir o Dr. Carlos Antunes?
             Dessa vez ele respondeu prontamente:
          - Sim. Mas com a recepção que tive, acho que não vou ser aceito. Tenho quase certeza. Um conceituado hospital, que é esse, não contrataria uma alma de outro mundo, não é?
          A enfermeira Elga não conseguiu conter-se e soltou uma estridente gargalhada, que deve ter sido ouvida por todo o hospital. O Dr. Justus tentou ao máximo prender o riso, já estava ficando corado, mas acabou entrando no clima da enfermeira e desandou a rir. Dr. Anton, a princípio fez uma cara de desagrado, entretanto, vendo que os dois não paravam de rir, foi aos poucos se descontraindo e acabou aderindo ao riso frouxo, mas procurou ser mais comedido. Aquilo serviu para que os três pudessem finalmente conversar amigavelmente.

         O ambiente foi aos poucos ficando mais leve. A enfermeira Elga levantou-se, já conseguindo controlar a explosão de riso, respirou fundo, mas não conseguiu afastar completamente o sorriso, que teimava em ficar nos seus carnudos lábios. Ajeitou o uniforme e gentilmente ofereceu café para os médicos. Eles aceitaram e ela foi pegá-lo na cafeteira elétrica, num espaço improvisado em cozinha, escondido atrás de um biombo. Depois de servidos, é que finalmente a conversa pode rolar descontraída. Com a curiosidade estampada nas faces, o Dr. Anton quis logo saber o porquê de se dirigirem a ele naqueles termos. Dr. Justus se desculpou e procurou esclarecer o mal entendido.
       Continua semana (ano) que vem...rs.rs.rs.

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