terça-feira, 17 de maio de 2016

A Menina do Rochedo - Parte 11

continuando...
     - Ela sumiu. Me largou lá no rochedo sozinho. Ih! Falando nisso, olha lá ela!  Falou no capeta, o diabo apareceu! Ainda está dando um tchauzinho pra gente! Filha da mãe!
      - Eu acho que ela faz parte do bando. Não sei por que eles não acabaram com você. Devem estar achando mais gostoso te ver se acabando sozinho, enfiando a cara numa ilhota dessas daí. Eles são sádicos, cara! São sádicos!” 
     - Não. Acho que ela me salvou. Não sei por que me abandonou depois. Mas tem hora que acho que ela é uma espécie de anjo. Você não viu como subi aquele rochedo? Cara parecia que tinha um caminho! Eu fui subindo! Subindo! Teve uma hora que fui olhar para trás, e não tinha mais caminho nenhum! Só pra frente! Quando cheguei lá em cima, eu estava simplesmente em cima de um bloco de granito gigante. Não tinha nem como descer. Não é estranho?
    -Estranho é uma caveira conversar com um mortal! Ih! Ih! Ih!
    - Ria! Pode rir! Pode rir! Mas só que tem uma coisa: você já morreu e eu ainda estou vivo. Ah! Ah! Quem rir por último rir melhor!
  - Deixa de babaquice! Olha pra frente! Porra! Olha pra frente! Você vai bater! Ufa! Quase! Acho que você está querendo virar caveira. Tá com inveja?
   - Vira essa boca pra lá. Pra quem nunca pilotou um troço desses, até que estou dando um show. No fundo você está gostando! Pode falar!
   - Gostando do quê? Até agora eu só levei susto. E você é um grande maluco. Isso sim. Meu irmão, vamos sair daqui? Você só fica rodando! Rodando! Rodando! Percebeu que já circulou esse rochedo uma porrada de vezes? E  quase se chocou com aquela ilhota lá, umas três vezes?
   - Não contei. Contar pra quê?  Você acha que não estou tentando? Não estou é conseguido! A história é outra! Parece que essa droga não quer sair daqui! Pensou que eu desviei daquela ilhota? Que nada! Foi ela que fez toda manobra sozinha!
   - Então as coisas estão piores do que eu imaginava! Ainda está tirando onda que sabe pilotar! E eu aqui preocupado! Quase em pânico! Pensei até em pular daqui!
  - Está maluco? Aonde já se viu, na altura do campeonato, você se suicidar!
  - Que suicidar o quê! Eu já estou pra lá de morto! Como pode um morto, depois de morto, se suicidar?
  - É mesmo. Viu só como você está me deixando maluco? Eu sempre acho que estou falando com uma pessoa de carne e osso. Mas que na realidade, é só osso mesmo.
  - Estou te deixando, uma ova! Você já é maluco! Não vem com essa de por a culpa em mim! Assume que você é doidão! Percebeu que você até agora só fez maluquice? E para de dizer que sou um monte de ossos! 
  - Tá nervoso. Vai ficando calmo. Sem stress. Têm momentos que não te entendendo. Você diz que sou medroso. Depois que sou maluco. Ô esperto! Me diz o que eu faço agora!
  - Vamos sair daqui logo! Vira essa porra para o alto mar e vamos embora! Senão eu pulo!
  - Tá maluco? Ô caveira doida!
         Não estou gostando desse silêncio. Engraçado. Por que será que ela não falou mais? Será que pulou? Se pulou, agora não tenho com quem dividir o meu medo. Ela me chamou de maluco, várias vezes. Será que sou mesmo? Se não sou, vou acabar ficando. Do jeito que as coisas se encaminham, vou acabar ficando doido mesmo. 
           Já estou cansado de ficar rodando em volta desse pedregulho. Às vezes quase se chocando com aquele outro. Troço estranho, aquela menina em pé em cima do rochedo. Deve ser ela que está comandando a asa delta. Só pode ser. E outra coisa estranha, é que não estou apavorado. Agora, que tenho que sair daqui, eu tenho! Como, ainda não sei! Será que já morri? De repente estou morto e ainda não dei conta. Como eu vim parar aqui? Só me lembro que estava no bar na beira da estrada. A caveira falou para eu ir para o mar aberto. Se for pra lá, vai ser um problema maior ainda. A chance de descer, sem me dar mal, vai ser mínima. Estou frito. Vou falar num português claro: estou fodido mesmo! Essa é que é a verdade! Mas se conseguisse sair daqui e seguir o litoral, as chances seriam bem maiores. Se caísse na água, num local mais raso, poderia me safar. Vou tentar mudar a direção. Essa bosta não responde! Vou tentar virar para o outro lado. Nada! Continuo voando ao bel prazer de alguém! Se essa droga baixasse um pouquinho, de repente eu conseguisse pular. Acho que até uns 3 metros da lâmina d’água, eu consiga me safar. Meu Deus vê se me ajuda! Olha lá a menina! É ela! Só pode ser! Meu Deus será que ela é mais forte do que o Senhor? Ela me fez subir no rochedo sem ter nenhum acesso normal. Ela criou uma escada imaginária. Parecia real. Eu acho que era. Senão como eu poderia subir? Foi uma coisa real, mas simplesmente irreal. Isso é maluquice. Mas só Deus pode fazer uma coisa dessas. Não, ele não faz, mas permite? Aquela menina... Não tenho certeza se ela apareceu para me ajudar ou me ferrar. Acho que em parte me ajudou. Ô Deus! Ô Deus! Há quantos anos eu venho questionando as suas verdades! Eu não consigo entender o porquê da gente ter que sofrer! Crianças morrendo por aí afora de fome, doenças... violência! O Senhor fica aí de cima de braços cruzados! Essas coisas têm que mudar!
      - Hei! Hei! Você está maluco mesmo! Falando até sozinho!
      - Ih! Você está vivo?
      - Claro que não, cara pálida! Já viu uma caveira morrer duas vezes? Você já está extrapolando a imaginação. Desde quando Deus vai mexer na obra Dele? Nunca! Ainda mais só pra te agradar. Bota uma coisa na sua cabeça: ninguém vai conseguir mudar Deus. Já que isso é uma coisa definitiva, então só tem uma solução!
      - Que solução?
      -  Você é que tem que mudar.
      - Grande solução! 
      - É a única solução. Você tem que ser uma pessoa melhor. Tem que deixar de ser um cara chato. Isso já é um bom começo, sabia?
      - Eu chato? E você um grande pentelho!
      - Na minha situação atual, nem isso eu tenho mais! Ah! Ah!
      - Até que tem hora que você é engraçadinho. Pra quem perdeu tudo e ainda ri, você é um caso aparte da criação.
      - Engraçadinho uma ova! Você acha que fiquei satisfeito, quando me mataram? Você ainda teve sorte! Já eu! O pior disso tudo, é que não sei por que me mataram. Eu não tive chance nenhuma. Simplesmente me apagaram. Agora estou aqui com um quase morto ou talvez futuro, quase breve, defunto.
      - Vira essa boca pra lá! Você veio aqui pra me ajudar ou me ferrar?
      - Desculpa. Eu não queria te deixar mal. Vou te ajudar. Também eu não quero morrer de novo.
      - O que é que você está olhando?
      - Lá vem o helicóptero de novo! Acho que agora é pra valer! Se ele atirar, vai ser uma merda! E... Lá vem chumbo! Ué! Como você conseguiu desviar da bala?
      - Mas eu não fiz nada. Nem vi o que vinha na nossa direção. Foi ela mesma. A asa delta desviou sozinha.
      - Vamos embora daqui. Já estou ficando enjoado. Ela não para de ir pra cima e pra baixo. Vou acabar vomitando. Agora é sério mesmo.
      - Só não pode vomitar em cima de mim. E caveira vomita? Desde quando? Sabe, com a garota no comando, está melhor. Acho se eu estivesse comandando, à gente já estava pra lá de morto! Esse “a gente”, quer dizer, eu. 
      - Você continua com piada fora de hora. Cara vê se faz alguma coisa! Olha só! Lá vem ele de novo atirando! Meu Deus, agora a gente vai se chocar com a água! O que é que você fez agora? Que manobra! Eles se estreparam! Se espatifaram naquelas pedras! Cara você é bom mesmo! Eu te devo essa! Já pensou se a gente tivesse batido ali, como é que iam colocar no lugar meus ossos? Eu acho que ia virar pó! Hei! Você está calado. Não vai falar nada?
     - Falar o quê? Agora é que consegui respirar! E eu acho que me sujei!
     - Calma! Respira fundo! A asa voltou ao normal!
     - A asa já, mas eu não! Porra cara eu me vi virando carne moída naquelas pedras! Acho que foi a pior sensação ruim que já senti na minha vida! Tenho que sair daqui de qualquer jeito! Vou acabar enfartando! Já estou no limite!
     - Mas agora vai ficar tudo bem. Olha só. A lancha dos bandidos  está indo embora. Essa é uma coisa boa. E até a menina sumiu. Quem sabe agora a gente consegue sair daqui. Tenta mudar a direção da asa! Vai que você consegue! Isso! Viu só! Você conseguiu!
     - Puxa vida! Agora realmente a gente vai fugir desse inferno!
     - Vamos para o alto mar. Depois nós voltamos para o litoral. Só pra gente se livrar daqueles caras.
     - Droga! Que droga! Estamos voltando!
     - Como pode isso?
     - Sei lá Omar! Sei lá! Essa droga voltou a ter vida própria! Estamos num beco sem saída! Essa é a verdade!
     - Calma. Vamos ver o que ela vai fazer. Ela está indo em direção daquela ilhota ali. Estamos contornando bem devagar. Ué, parou no ar! Cara se tivesse algum para quedas aqui, eu ia pular! Juro que ia! Isso aqui está uma loucura! Faz alguma coisa!
     - Fazer o quê? Fazer o quê? Já tentei tudo que podia! Ih! Voltou a se movimentar! Agora a gente sai daqui! Se Deus quiser, a gente sai daqui!
     - Hermes!
     - O que é?
     - Olha só quem está lá no rochedo olhando pra gente. E parece que estamos indo de encontro a ela.
     - Porra! Agora eu tenho certeza: é ela está comandando essa droga! Estamos  indo na sua direção!
     - Será que dessa vez vamos nos chocar com o rochedo?
     - Espero que não! Senão vai ser o nosso fim!
              O que quer dizer isso tudo que está acontecendo comigo? Isso não pode ser real. Claro que não é real. Aonde já se viu ter um amigo que é uma caveira! E essa menina que comanda uma asa delta no ar à distância? Faz com que ela pare, depois volte a se movimentar, atendendo a sua vontade. Não importa o vento, nada interfere no seu comando. Isso não pode estar acontecendo.
     - Hermes!
     - O que foi?
     - Você está falando sozinho de novo?
     - Não, só estou pensando alto.
     - Pensando alto?  Se liga cara! Já estamos perto do rochedo! O que é que a gente vai fazer?
     - E eu sei lá! Vamos esperar para ver o que vai acontecer! E pára de tremer, porque está fazendo um tremendo barulho!
     - Estou com medo! Não posso?
     - Eu gostaria de saber... Eu gostaria de entender, como uma caveira pode sentir medo. Você não tem mais nada do que temer!
     - Quem disse? Tem hora que nem percebo que perdi a carne. O dia que você for caveira, vai entender o que estou falando. Estou com medo mesmo. E muito, muito medo!
     - Eu nunca pensei que ser caveira fosse tão complicado. Você confunde a minha cabeça. Tem hora que acho que ela colocou você no meu caminho.
     - Está maluco? Pirou? Eu nunca tinha visto aquela menina na minha vida! Você deve ter esquecido que foi você quem me achou!
     - Tudo bem! Tudo bem! Não está mais aqui quem falou! Fica atento.  Estamos chegando ao rochedo. Olha lá a menina. Até que ela é bonita. Você não acha?
     - Claro. Eu... Eu também acho. E como acho! Se eu ainda tivesse carne...
     - Não ia acontecer nada! Ia estar se borrando todo!
     - Aí é que você se engana! Não ia marcar bobeira, como você marcou! Isso nunca!
     - Até parece! Se liga cara! Essa menina é dos diabos! Se tivesse se engraçado pra ela, antes de morrer, com certeza tinha virado caveira bem antes! 
     - Isso só pode ser piada!
     - Falando em piada, me veio à cabeça uma história que me contaram, quando ainda era adolescente. Não sei se foi real ou fantasia. E disseram que tinha se passado com Rui Barbosa.
     - Que fato é esse! É o Rui da história do Brasil? A águia de Haia?
     - É o próprio. Tá sabendo muito, hein moleque!
     - Por que motivo você quer me contar alguma coisa, a respeito do Rui, nessa hora de sufoco?
     - Sei lá! Veio à minha cabeça! De vez em quando, sem mais nem menos, fico me lembrando disso! E também é pra tentar relaxar!

    - Então conta. Percebeu que a asa parou? Então aproveita e conta. Não sabemos mesmo quanto tempo vamos ficar estacionado aqui! A menina está lá embaixo só olhando! Deve estar esperando a água ferver no caldeirão! Vai em frente! Conta logo!!
        Continua semana que vem...

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