terça-feira, 26 de maio de 2026

O Filho do Poder - Parte 28

 


Continuando...

            Mal Pereira se despede do amigo, Blanco grita:

          - Pereira! Pereira! Dá uma chegada aqui! Olha o que eu achei!

          - O que foi? Achou o quê?

          - Vem e olha. Tem uma coberta aqui no chão.

          - Blanco deixa eu ver. Parceiro parece que alguém se deitou aqui. Olha só, até um travesseiro improvisado tem. Pelo tamanho, foi uma criança... Caraca, Blanco! Aquele caminhoneiro passou a perna na gente! Filho de uma égua! Será que ele ouviu a gente conversando?

           - Pode ser. Eu achei que ele estava meio assustado.

           - Desgraçado! Blanco, de repente ele ia deixar a criança com a gente. Mas como ouviu o nosso papo, desistiu. Só pode ser isso. Eles estão com o garoto. Acho que ninguém mais passou por aqui. O filho de Pablo só pode estar com eles.

               Pereira terminou de falar e deu um soco no ar. Depois caminhou em direção à carreta, contornou-a e continuou, sem parar, até o carro também incendiado. Blanco olhava-o atento. Como conhecia o amigo, sabia que ele tentava botar as ideias no lugar. Só quando ele parasse é que alguma luz tinha entrado naquela cabeça irrequieta. Ele andava de um lado para o outro, até que abriu a porta da viatura policial e sentou-se no banco, com as pernas viradas para o lado de fora. Aí sim é que Blanco se aproximou do parceiro e perguntou:

          - E aí Pereira, achou alguma solução?

          - Blanco, eu estava andando, mas não era para achar uma solução, não.  Eu estava tentando entender como um cara malandro como eu, foi ser enrolado por um caminhoneiro. Só estava acalmando a minha raiva.

           - Pereira, se temos que fazer alguma coisa, tem que ser rápido.

           - Só temos um jeito. E você sabe qual.

           - Passar um rádio? Certo?

           - É isso aí. Já que não temos um helicóptero.

          - Vou passar agora mesmo. Quem sabe a gente não pega eles.

          - Mas tem que ser aqui dentro do estado. Se entrarem em Tocantins, fica difícil.

          - Então vamos passar logo o rádio.

          - Calma, Blanco. Estou pensando aqui numa coisa. Pode ficar tranquilo que eles ainda estão bem distantes da fronteira. Você se lembra de Deco?

          - Aquele seu amigo antigão? Amigo de infância?

          - Ele mesmo. Ele já virou até patrimônio da PRF.

          - E então? O que tem ele, Pereira?

          - Se ele estiver de plantão lá no posto da fronteira, aí fica tudo bem pra gente. Ele não sabe da minha vida. Ele pensa que eu trabalho no Rio de Janeiro, na polícia civil.

          - Vai se identificar como Luca? Ele é dos nossos?

          - Não Blanco.

          - Então vai ficar difícil. E se ele desconfiar?

          - É Blanco, é um risco. É mais uma parada dura pra gente enfrentar. Mas pode ser que cole o meu papo.

          - Pereira como é que você vai explicar a sua presença aqui na Bahia?

          - Não pensei nisso. Então não posso usar o meu nome verdadeiro. Vou me identificar como Pereira mesmo.

          - Então, Pereira, inventa qualquer coisa. E temos que nos livrar dessas roupas e do carro. Vamos voltar lá no posto e pegar um carro de um daqueles policiais e colocar as nossas roupas. Vamos passar por policial civil.

          - É isso, Blanco. Vamos logo. Já até pensei no que vou falar: estamos na cola dos caras por tráfico de drogas. Fomos avisados que iam passar por aqui. Simples assim.

          - Boa! É isso! Mas só se o seu amigo não estiver lá, certo?  A gente pede para os patrulheiros segurarem os caras pra gente. 

          - Sei não. A coisa tá complicada. Tem uns caras muito desconfiados. Mas a gente tenta jogar que estamos na cola deles há algum tempo. Pedindo humildemente, a ajuda deles, pode ser que faça essa gentileza. Mas se Deco estiver lá, você vai sozinho.

         - Por quê, Pereira?

         - Eu não posso aparecer para ele como Pereira.

             - Não pensei nisso. Você está certo. Então vamos torcer para que seja outro patrulheiro de serviço.

             - Blanco, vamos apostar nisso. Mas pra descobrirmos, só ligando pra lá. E, como falei, pedimos a ajuda deles, com uma condição dos caminhoneiros ficarem com a gente. Como troca de gentileza.

            - Será que vai dar certo? Vamos apostar nisso, Pereira. – Blanco fica em silêncio por alguns segundos, com uma expressão interrogativa - Mas estou pensando aqui numa coisa: e se os caras forem para o Piauí?

            - Não. Acho isso improvável, Blanco. Vão procurar o caminho mais curto para o Acre.

            - Mas se eles não souberem que o menino é do Acre?

            - Estou levando em conta que o cara escutou o nosso papo.  Blanco, mas por via das dúvidas, vou ligar para o pessoal da fronteira. Digo, das fronteiras. Passo um rádio para os postos de Goiás, Piauí, Minas, Espirito Santo... Sei lá! Vou ligar pra todo mundo! A gente não pode perder esses caras!

            - E o quê que você vai dizer?

            - O que é que eu vou dizer? Acabei de dizer que vou falar que os dois caminhoneiros são suspeitos de trabalhar para o tráfico. E que a gente está no calcanhar deles. Vou pegar aqui no bolso o número da placa do caminhão. Quase que deixei passar.

 Continua Semana que vem!

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