Continuando...
Quim desce primeiro do caminhão, às gargalhadas, zombando do irmão. Toni acabou rindo também. Só o menino é que continuou sério. Nenhum dos dois comentou a cara sisuda do menino. Toni apenas, orientou o garoto a urinar em cima do mato. Aí o garoto questionou:
- Por quê?
- Quim por quê?
- E eu sei lá! Foi você que falou!
- Deve ser então pra gente urinar bem longe? Urinar no acostamento não é legal. É isso, né mano?
- Você tá certo, Toni. Tem que ensinar a coisa correta.
Aí acabam os três urinando um ao lado do outro, forçando quem lançava o jato de urina mais longe. Para surpresa dos irmãos, o garoto urinou mais distante. Quim olhou para Toni e comentou baixinho:
- Porra, mano! Até no mijo à distância o garoto ganha da gente!
- O que se há de fazer? O garoto mija muito! Temos que exercitar mais, Quim. Ele é apenas um menino e a gente já está mais para velho.
- Velho, só se for você. Eu ainda sou um jovem, esqueceu? Você tem idade até para ser meu pai.
- Essa é demais, Quim. Idade para ser seu pai? Sei que tenho uns aninhos a mais que você. Até aí, tudo bem. Agora, ser pai de um burro velho, está muito longe. Mano, tenho que rir com os seus desvarios.
O irmão apenas dá um muxoxo, mas não procura alimentar aquela conversa que, com certeza, não ia chegar a lugar algum. Então mudando o curso da conversa, prefere falar sobre o menino.
- Mano, estou achando o menino com cara de fome. Oferece a ele alguma coisa para comer.
Toni percebeu a tática do irmão, deu um sorriso discreto e não levou o assunto adiante, para não o deixar constrangido ou talvez magoado. Aceitou então a sua sugestão.
- Carlos, vamos fazer uma boquinha?
- Boquinha? O que é boquinha? Por um acaso é uma boca pequena?
- Não. É só uma forma de dizer. Estou te convidando pra comer um pouquinho. Eu estou com fome e acho que você também deve estar. Acertei?
- Estou com fome sim. Mas depois a gente pode brincar um pouquinho?
- Brincar de quê? Se for daquela brincadeira, estou fora. Perdi todas. E nem de mijo à distância eu brinco mais. Você não dá chance pra gente.
- Puxa Toni, brinca um pouquinho com ele. Coitadinho. – Quim termina de falar e deixa uma gargalhada no ar.
- E vai sobrar pra mim? Tô fora! Joga você!
- Toni, eu vou continuar no volante. Você precisa descansar. E não tem coisa melhor do que se distrair, jogando com o menino.
- Quim, você é engraçadinho. Mas vou topar o desafio. Só estou cansado, mas sem sono. Então menino, vamos jogar? Vou deixar claro: só se for porrinha. Quim, esse garoto é adivinho ou sei lá o quê. Mas dessa vez, vou ganhar.
- Quero ver. Quim já podemos ir? Está faltando pouco pra gente entrar em Tocantins. Vamos encarar o Posto da Patrulha Rodoviária e, se não me engano, tem também dois postos fiscais, um em cada estado, da Secretaria de Fazenda.
- É isso aí. Mas não estou preocupado com os fiscais, estou preocupado com os policiais. Corrigindo: os falsos policiais. Esses sim a gente tem que ter cuidado. Vamos fazer mágica para esconder o garoto. Se encontrarem ele, vamos ser acusados de sequestro. Vamos pagar o pato, com certeza.
- Só se formos pegos por policiais verdadeiros. Os falsos serão capazes de darem cabo da gente e pegar o garoto. Quim, a gente vai conseguir. Fé em Deus. Vamos indo?
- Ei menino! Vamos? Sobe lá. Sobe lá. Se quiser dormir mais um pouquinho, pode deitar. Depois que você descansar, voltamos a jogar. Agora não dá. Fiquei preocupado com a nossa situação.
Continua Semana que vem!


