Engano
- José Timotheo -
Novos sonhos
São tantos, que me deixam tonto
Eles brotam como água nascendo da terra
Uma nascente inesgotável
Novos sonhos
São tão velhos
Que não os reconheço mais
Blog do Escritor, Poeta e Compositor José Timotheo. Nesse Blog o escritor conta as "estórias" das letras de suas canções, gravadas no CD Refiz Estradas - em Dez. de 2010, nos estúdios Luperan em São Pedro da Serra - Nova Friburgo - RJ. Acesse as músicas nos links ao lado. Picles da época do Pasquim, poesias, estórias, histórias e muito mais!
Engano
- José Timotheo -
Novos sonhos
São tantos, que me deixam tonto
Eles brotam como água nascendo da terra
Uma nascente inesgotável
Novos sonhos
São tão velhos
Que não os reconheço mais
Continuando...
Enquanto Quim falava com o menino, Toni retornou para a boleia do caminhão. Chegou e ficou olhando o irmão tentar trocar algumas palavras com o menino, mas percebeu que o garoto só olhava e não esboçava qualquer reação às suas palavras. Sugeriu então que o pegasse e descesse com ele para o asfalto. Então Quim fez o que o irmão sugeriu.
Já no acostamento, os três em pé, olhavam para o nada em total silêncio. Quim, demonstrando certo nervosismo, começou a andar de um lado para o outro. Já Toni voltou os seus olhos para o menino e percebeu que ele estava estranho, pois balançava o corpo de um modo esquisito e mantinha os olhos perdidos no horizonte, sem sequer pisca-los. Imediatamente sinalizou para o irmão, pedindo para que se aproximasse. Quim olhou o garoto e também constatou que ele se comportava estranhamente.
- Toni, será que é a fome que pode estar causando isso? – comentou quase sussurrando - Parece que estar bem fraquinho. – diz colocando a mão de um lado da boca.
- Será? Quim ele tá muito estranho. Ele pode também estar tonto. Segura o braço dele. Não larga não, senão ele pode cair. Coitadinho, está fraquinho mesmo. Mano, vou fazer um cafezinho pra gente.
- E você vai dar um cafezinho pra ele? Ele tem é que comer!
- Qual é o problema Quim? Isso pode reanima-lo. E a gente também está precisando. Depois daquela confusão toda, um café não vai bem? Pega uma barra de cereais pra ele forrar o estômago.
- Toni, tá legal. Eu vou pegar. Você venceu. Mas a história do cafezinho quer dizer que você não sabe o que vai fazer com ele, não é?
- Você sabe... Ah Quim! Você está embananado também! Pelo menos com o café, a gente pensa, né? Mas o garoto não está nada bem. Isso me preocupa.
- É mesmo. Eu já pensei, Toni.
- Pensou? Pensou em quê?
- O que eu falei antes.
- E você falou o quê? Eu não me lembro.
- Eu sempre tenho que repetir tudo pra você, Toni? Eu falei que era só perguntar ao garoto aonde ele mora e pronto. Aí tá tudo resolvido. Entregamos ele ao pai e pronto.
- Pronto. Pronto. E o que é que tem isso com a tonteira do garoto?
- Com a do garoto nada, mas com a nossa, sim.
- Quim, que tonteira nossa?
- E você não está tonto? Claro que estamos tontos! Não sabemos o que fazer! Mas pensando um pouquinho, eu acho que a situação não é tão caótica assim.
- Como não é difícil? Ah! É! Fácil assim? Você esqueceu que a mulher falou que o garoto mora no Acre? Por um acaso você sabe aonde nós estamos?
- Claro Toni. Claro. E qual é o problema?
O irmão olha-o com a cara de quem não está acreditando no que ouvia. Deu um muxoxo e sorriu um sorriso sem graça.
- Você é engraçado. Tem situação que eu apresento pra você – às vezes pequenininha -, aí você transforma num problemão. Bota às maiores dificuldades. Arranja justificativas inimagináveis.
- Gostei disso que você falou: inimagináveis! – interrompeu-o, Quim - Mano, tá letrado!
- Tá de gozação? Você pensa que eu não estudei? A gente convivendo na estrada, por tantos e tantos anos, acaba aprendendo o linguajar de várias regiões do Brasil.
- Estudou o quê? Não saiu do primeiro grau. E o que que essa palavra tem a ver com o linguajar de várias regiões do Brasil?
- Quim, não enche! Quem te disse que fiz só o primeiro grau? Deixa disso! Agora me deixa concluir o que eu estava falando? Veja só. Nesse momento estamos com um problemão, mas você acha que não é nada demais. Acorda mano! Quim, nós estamos na Bahia!
- Toni, você não entendeu o meu ponto de vista.
- Que ponto de vista? Você não me apresentou nada.
- Escuta só. Eu não estou falando de distância, mano. Estou falando da situação. Presta atenção. A coisa é simples. É só pedir ao garoto o telefone dos pais dele. Aí...
Continua Semana que vem!
Continuando...
O irmão balançou a cabeça concordando. Depois se virou e olhou para a criança que estava deitada atrás do banco. Viu que ela continuava de olhos fechados num sono profundo. Até aquele momento, desde que foi colocado ali, ainda permanecia imóvel. Mas o importante, observou Quim, é que o seu coração batia e que a respiração estava normal. Acabou deixando aflorar um sorriso de alívio e falou para o irmão:
- Ei Toni, ele continua dormindo. Tá apagadão, mas o importante é que o coração tá batendo firme. Tá até roncando, ouve só. Mas coitadinho do menino. Mano, não deve ter mais de dez anos, não é? Tão novo e já passando por isso tudo.
- Que brabeira. Coitadinho mesmo. Criança não devia sofrer, não é?
- É isso mesmo, mano. Pior que tem uma porção por aí sofrendo, e muito. Vamos parar de pensar nisso, que vou acabar chorando.
- Chorando? Nunca te vi chorar!
- Só choro escondido. Não divulgo as minhas emoções.
- Gostei, Quim, está falando bonito.
- É. Agora falando sério. Mano, você já contou em quantas confusões a gente já entrou?
- Não. Acho que não foram muitas.
- Não importa a quantidade, né? Pra você, nunca é nada demais.
- Não é assim. Em todas as encrencas eu tive medo. Mas não quero nem me lembrar da quantidade. Já passou.
- Toni, passou uma ova! Já estamos entrando em outra! Me dá medo só de pensar. Será que dessa vez vamos conseguir sair inteiros? Das outras, nos safamos. E dessa?
- Ei Quim! Afasta esse pensamento negativo pra lá! Nem sabemos se estamos entrando em uma fria! Exorciza os maus pensamentos. Fica tranquilo que a gente vai resolver esse probleminha rapidinho. Vamos esperar só o garoto acordar.
- Pronto, já estou light. Não estou pensando mais em coisas ruins. Nesse momento já estou pensando na Verinha.
- Verinha? Eu não sabia que você tinha alguma namorada naquela biboca que a gente vai. Ela é de lá mesmo?
- Tenho nada, Toni. Verinha é só um nome e uma esperança. Mas já estou até sonhando com ela. A gatinha que vou encontrar lá, eu já batizei de Verinha.
- Quim, você é um cara muito convencido, hem! Já até idealizou uma mulher, que nem sabe se vai encontrar! Uma garota que você vai ficar – gostou do ficar? Sou um cara moderno! Tá pensando o quê! – lá no posto de gasolina do Mano Alê!
- Mas eu...
Quim interrompe o que ia responder ao irmão, porque o garoto no exato momento se mexe e solta um gemido. Ele olha para trás e fala para Toni:
- Mano. Você ouviu? O garoto está recobrando os sentidos. O que é que a gente faz?
- Olha ele. Vê se está de olho aberto.
- Não. O olho continua fechado. Você não acha melhor a gente dar uma paradinha? Já que estamos andando há muito tempo, vai ser bom pra dar uma relaxada. De repente eu pego a direção. Não vai ter problema a gente parar. A estrada continua vazia, vazia. Toni, eu não me lembro quando foi a última vez que pegamos uma estrada tão deserta. Vamos parar? Para fora da estrada, por precaução.
Toni passa a mão no queixo, olha para trás rapidamente. Depois mira o retrovisor do lado direito e depois o do seu lado e respira aliviado, ao constatar que não vinha nenhum carro. Como viu que a estrada estava livre, respondeu ao irmão:
- Acho que não tem problema algum a gente parar no acostamento. O acostamento aqui é bem espaçoso. Vou parar agora mesmo. Depois a gente vai direto, se der, e só para no posto do Mano Alê.
Ele foi diminuindo a velocidade até parar no acostamento. Antes de descer pede ao irmão para olhar o garoto. Disse que ia descer primeiro para aliviar a bexiga. Quim então colocou a mão na testa do menino. Mas mal encostou, o menino arregalou os olhos. Ele emocionado gritou para o irmão:
- Toni! Toni! O garoto abriu os olhos! Vem cá ver!
- Calma Quim! Me deixa terminar de fazer as minhas necessidades!
Continua Semana que vem!
Quero Falar...Continuar
- José Timotheo -
A palavra
Quanto tempo o homem levou para falar?
Ninguém sabe. Só suposições
Viemos engatinhando, levantamos e falamos
Quantos milênios nos arrastamos até o primeiro balbuciar?
Que vitória!
Essa foi a maior conquista do homem, com certeza
E é esse um direito eterno
Outorgado pelo criador
Quem é que tem o poder de me mandar calar, a não ser Ele?
Ninguém pode nos emudecer
Seria o maior retrocesso
Que a humanidade poderia sofrer
As opiniões são muitas
E têm que ser respeitadas
Eu falo e cada um pode e deve falar
Se eu não ofendo, não posso ser recriminado
Podem me recriminar, desde que não me ofendam
Vivemos para falar, pensar
Sem isso, não criaremos nada
O mundo para
Se não criamos
Voltamos a engatinhar
E aí? Vão continuar?
Se assim for
Já vou procurar a minha caverna