quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Pensamento de Porta - Partidas e o Medo

 



Partidas e o Medo 

-  José Timotheo - 

 

Alguns amigos partiram

E eu nunca estive na estação

Não estava lá para acenar

Dar um adeus

Um até breve

Simplesmente nada

A coragem falhou

Não me encorajou

Acredito que só estarei na estação

Quando for o meu embarque

Bilhete na mão

Até lá...             

                                                    fim

terça-feira, 15 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 44

 


Continuando...

                  Toni acabou levantando mais cedo, um pouco depois das cinco. Levantou ansioso, pensando na estrada que tinha pela frente. Queria sair logo do hotel, mesmo sem o café da manhã, entrar no caminhão e varar a madrugada na estrada. Teve vontade de acordar o irmão e o menino, mas conseguiu controlar a ansiedade, já que prometera a Quim que iriam sair às oito horas. Não conseguiu entender porque ficara daquele jeito. Mas acabou sossegando o coração.

 

               O caminho era longo até Palmas e quanto mais cedo chegasse lá seria melhor. Entretanto não estava querendo se preocupar com o destino final, que era o estado do Acre, pois tinha medo de ser tentado a desistir, porque sabia de antemão que era muito chão até lá. Então não queria correr o risco de ser pego pelo desânimo, tendo em vista que não cogitava abandonar a promessa que fizera a senhora, de entregar a criança sã e salva ao pai.  

                O irmão e o menino roncavam. Toni chegou mais de uma vez perto deles, com o propósito de sacudi-los e acordá-los, mas preferiu sair um pouco do quarto e ficar apreciando o dia raiar. Amanhã acordava com o canto de alguns pássaros, mas ele não conseguiu identificar nenhum deles. Voltou para o quarto e viu que o irmão se espreguiçava, aí não se controlou, chamou-o e sacudiu-o fortemente para acordá-lo de vez:

          - Quim. Quim. Já está na hora. Ainda temos que tomar café. É um estirão até Palmas. Termina de se espreguiçar lavando a cara. Vou acordar o menino. Vamos logo, deixa de preguiça.

                   O irmão levantou assustado, mas não teve nem força para contestar, só fez mesmo uma cara feia. Já o garoto foi mais tranquilo, só foi Toni encostar a mão no seu ombro e num pulo ficou de pé.

                    Antes das oito horas, os três já estavam na lanchonete tomando o café. Fizeram um desjejum reforçado, parecendo quase um almoço. Toni foi o primeiro a se levantar. Pagou rapidamente as despesas e foi se encaminhado para o caminhão. O irmão e o menino não tiveram outra escolha: foram atrás dele. Quim ao emparelhar com o irmão falou:

          - Pô Toni, você tá apressadinho! Parece que vai tirar o pai da forca!

          - Apressadinho? Você é que está um molengão!

          - Molengão não. Porque não foi você que encarou aquele mato. Pra mostrar a você que não sou devagar, vou pegar a direção.

          - Tudo bem. Assim é que se fala. Agora senti firmeza.

                 Depois de horas de viagem ininterrupta, Toni comentou:

          - Quim, já estamos andando há mais de quatro horas. Acho bom a gente parar no próximo posto. Almoçamos e descansamos um pouco.  Depois eu pego o volante. Certo?

         - Você é quem manda, mano.

                 Já passava das doze horas. O sol estava abrasador. Estavam doidos para comerem alguma coisa e esticarem as canelas. Mesmo com o descanso do dia anterior, ainda estavam cansados. A ansiedade era evidente no semblante dos irmãos, mas na do garoto não. Não pedia nem água, só bebia se lhe oferecessem.  Eles nunca sabiam se ele estava com fome ou não. Quando perguntado, aí sim ele se expressava. Para uma criança, ele tinha um controle maior do que muitos adultos. E Toni chegou até a questionar isso com o irmão:

          - Quim, já percebeu como esse garoto se mantém firme? Não reclama de nada. Parece que foi preparado para adversidade.  Acho que se deixar ele num cantinho, fica sem beber água e sem comer o dia todo, sobrevive numa boa. Ele deve ter sido preparado para suportar aquele mundo cão que ele vive com o pai.

          - Pode ser Toni. Que é estranho é. Mano, olha lá. A placa está indicando um posto daqui a um quilômetro. 

                   Chegaram rápido. Almoçaram, descansaram um pouco e pernas para quem te quer. Toni pegou a direção e rapidamente já estavam a caminho de Palmas. O menino foi almoçar calado e voltou para o caminhão trocando apenas algumas palavras com os dois.

          - Muito obrigado pelo almoço.

          - Não tem de quê. – respondeu Toni sorridente.

                  A viagem até Palmas transcorreu tranquilamente. Mas antes de chegar na entrada da capital do Tocantins, Toni comentou:

          - Quim, dizem que o lugar é bonito. Não me lembro de já ter vindo aqui com o velho. Não me lembro mesmo. Aproveita e vê o endereço aí na nota.

          - Mas a nota está aí no seu bolso. Manda pra mim.

          - É. Tinha esquecido. Seu Honório disse que fica logo na estrada. A gente pode perguntar aonde fica.

          - Toni dá uma paradinha ali que eu pergunto no borracheiro. Eles devem conhecer até a pessoa que vai receber a mercadoria.

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 43

 


Continuando...

           - Até que enfim você falou uma coisa boa.

           - Deixa de bobeira. Eu estou cansado também. Vou te segredar: visualizo um jantar decente. E depois, de barriga cheia, dormir bem.

           - Eu também, Toni. Mas a segunda parte, vou deixar para depois. Já visualizo umas menininhas...

           - Já vem você. Cara, tem hora que eu acho que você é tarado.

           - Que tarado o quê, Toni! Há quantos dias que não vejo uma gatinha? E você... Você parece um anacoreta!

           - Ih! O quê que é isso, mano? Não sou isso aí não! Falou, mas aposto que nem sabe o que é isso!

           - Sei sim. Eu li em algum lugar. São aquelas pessoas que ficam isoladas e só rezando, rezando. Só fazem isso. Mulher, nem pensar! É você!

           - Deixa de história, Quim. E eu não tenho os meus cachos? Eu não sou igual a você, que não pode ver um rabo de saia. Qualquer dia vai acabar pegando um padre. – diz Toni e cai na gargalhada.

          - Eu não me engano! Mulher é mulher! Vou pelo cheiro!

                 Os dois acabam caindo na gargalhada juntos. E a viagem dali para frente fica mais tranquila, sem nenhum incidente. Aos poucos o silêncio pousa na cabine, enquanto apreciam a paisagem, que margeia a estrada e se alonga pela planície até se perder de vista.

                  Uma vegetação rala se misturava com alguns arbustos que se esfregava no acostamento. Em algumas fazendas, que encontraram pelo caminho, o gado se espalhava até quase sumir no horizonte, parecendo pedras brancas enterradas no solo, deixando só um pedaço de fora. Depois de muito tempo em silêncio, Quim falou:

          - Aí mano, bonita essa paisagem. Não é como a do Estado do Rio, mas é bonita. É diferente, não é?

          - Muita coisa, Quim. A nossa é a mata Atlântica, aqui é cerrado. Mas que é bonito é. É diferente, mais não deixa de ter a sua beleza.

          - Toni, tá demorando à beça, não tá?

          - Já estamos chegando. Mano, só foi você falar e olha lá a placa.

          - Graças a Deus. Tô cansado, Toni. Tô cansado. Vamos procurar logo um local pra gente dormir.

          - Ué, vai dormir? E o jantar e depois as gatinhas? Só rindo, mano. Mas pode ficar tranquilo que é a primeira coisa que vou fazer. Estou um bagaço também. Mas vamos comer logo em seguida.

          - Mano, de Barreiras até aqui já tem mais de três horas de chão. Nem paramos.

          - Chora não. A gente bebe uma cerveja geladinha, quando chegar lá. Tá bom?

          - Aí já me animei.

                 Entraram onde indicava a seta. Dali até um posto de gasolina foi pouco tempo trafegando. Pararam, abasteceram e conversaram com o frentista sobre algum hotelzinho bom e barato. Ele indicou o hotel do próprio posto e permitiu que estacionassem o caminhão ali mesmo. Pegaram o garoto, que ainda estava sonolento, coisa que estavam achando muito estranho, e foram até o hotel e reservaram um quarto com três camas. Depois foram até o restaurante, tomaram a tão esperada cerveja gelada e jantaram. O menino a princípio recusou a refeição, mas Toni pegou assim mesmo e colocou o prato na sua frente. Ele ficou olhando para a comida até dar a primeira garfada, aí se animou e comeu tudo com uma velocidade impressionante. Toni e Quim acharam muito engraçado, pois não imaginavam que o garoto estivesse tão esfomeado. Olharam para o prato limpo e riram. A criança pareceu um pouco constrangida, mas agradeceu pelo prato de comida. Toni então ofereceu outra refeição, mas o menino recusou.

                   Depois da segunda cerveja Toni comentou:

          - Quim, acho que já está de bom tamanho. A gente para nessa segunda cerveja, tá bom? Não podemos esquecer que até Palmas tem muito chão. São seis, sete horas de viagem, ou até mais. É bom que a gente esteja de pé bem cedinho.

          - Pô Toni! Tão cedo assim? Não faz isso comigo, mano!

          - Deixa de ser preguiçoso, Quim. O que é que o garoto vai achar da gente?

          - Mas Toni, a gente quase não descansou! Só foi pauleira! E o sufoco que passamos? Não conta não? Foi só desgaste!

          - Tá bom. Saímos às oito horas, tá bom?

          - Assim já melhorou. Posso até arranjar uma gatinha.

          - Nem pensar! Depois dessa cerveja, vamos é dormir!

 Continua Semana que vem!