terça-feira, 10 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 17

 


Continuando...

               Ele então faz mais uma tentativa com o menino, para ver se ele se lembrava de alguma coisa. Com cautela, para não o assustar tentou manter uma conversa sem causar-lhe qualquer desconforto, procurando evitar que ele ficasse ansioso. Então pegou-o pela mão e convidou-o a sentarem-se no meio fio. A criança foi conduzida sem demonstrar qualquer constrangimento. Toni sentou-se primeiro e em seguida o menino. Quim continuou em pé apenas observando para ver qual a estratégia que o irmão iria usar.  

                 Depois de acomodados Toni iniciou a conversação.

           - Meu filho, então você é do Acre. Foi uma pessoa que estava com você no carro, que me falou. Você se lembra que estava no carro, junto com uma moça e mais alguns homens? E que esse carro bateu num caminhão?

 Você se lembra?

           - Não me lembro de carro nenhum. E não me lembro de ninguém junto comigo.

          - Você não se lembra de nada?

          - Não.

          - Ih Toni! Estamos ferrados mesmo! Lascou-se!

          - Bota ferrado nisso, mano! O que é que a gente faz? Se formos pra polícia, a gente bota o garoto em risco de vida, segundo aquela senhora. Será que é isso mesmo? Mas porque ela mentiria? Não sei o que pensar.

         - Toni, eles foram sequestrados, com certeza. Aí eu tô com a mulher. Não podemos levar ele pra polícia, não. Vai que ele aparece no jornal. Aí vai dá encrenca mesmo. Aposto como vem rapidinho bandido atrás dele. Com certeza os pilantras vão chegar primeiro do que os pais. Mano, agora estou com mais pena do garoto. O que é que a gente faz?

          - Isso eu já te perguntei isso! Vai jogar pra cima de mim?

          - Ué Toni! Em cima de mim é que não dá! Oh! Resolve você! Você é o mais velho!

          - Para com isso, Quim! Mais velho... Não. Assim não. Então vamos decidir nós dois, tá legal? E para com isso de me chamar de velho!

          - Tá bom. Não vou te chamar mais de velho. Tá bom assim? Mas então... Mano, o que é que a gente vai fazer?

          - De novo, não! Eu perguntei primeiro!

          - Viu só! Eu sabia que você estava querendo é jogar no meu colo a decisão! Você não falou, nós dois? Então, se não for assim, a bomba vai cair no meu colo. Assim não dá. Mano, você é um grande enrolador. Mas eu já pensei numa coisa.

          - O que é? Que coisa é essa?

          - É simples. A gente tira par ou ímpar.

          - Quim, que coisa mais antiga! Par ou ímpar! Agora, é zerinho ou um.

          - Zerinho ou um tem que ter mais de dois. E é um jogo muito sem graça.

               O garoto que não tirava os olhos de cima dos dois, quando Toni acabou de falar, disse:

           - Eu gosto de brincar de zerinho ou um.

           - E você se lembra como joga isso? – perguntou Quim.

           - Claro. Eu não me esqueci. – respondeu o garoto prontamente.

           - Aí Quim, de repente o negócio não é tão sério assim. De uma hora pra outra ele acaba se lembrando de tudo. Vamos brincar um pouquinho com ele. Às vezes isso pode estimular a sua memória.

          - Toni, escuta só. A gente tá com um tremendo pepino na mão e você está pensando em jogar par ou ímpar?

         - Quim, não é par ou ímpar. Par ou ímpar são só dois. E isso ele nem sabe o que é. O que ele disse que sabe é zerinho ou um.

        - Eu me enrolei. É zerinho ou um. Qual o problema?

          - Nenhum. Vamos jogar um pouquinho. Sem reclamações, tá bom? E não faz essa cara assim não. Tá contrariado? Então deixa que... Não pode. Tem que ser no mínimo três.

          - Toni, eu não vou fugir da raia não. Vamos lá. Mas só mais uma coisinha: a gente não pode marcar bobeira por aqui não. Eu acho que a gente tinha que ter ido embora. Parava lá no posto e ficava por lá, até resolver essa questão.

         - Relaxa. Ninguém vai pegar a gente não. Eles não vão nem desconfiar que o garoto está aqui. Vamos jogar um pouquinho e depois vamos embora. Vamos lá, garotão?

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 3 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 16

 


Continuando...

               Toni, esperançoso, deixou aflorar um leve sorriso e respondeu:

          - Nós estamos na Bahia. Isso diz alguma coisa pra você?

          - Bahia? E aonde é a Bahia?

          - Você não sabe não? – perguntou Quim, com uma expressão de incredulidade.

          - Sei não. Nunca ouvi falar. – respondeu o menino, com uma entonação de tristeza.

          - Você é do Acre, não é? – Quim colocou uma entonação na voz, como se o menino estivesse num interrogatório. Toni percebeu o tom de voz do irmão e 

recriminou-o:

         - Ei Quim. Vai devagar. Parece que você está interrogando um prisioneiro. É só uma criança que quase morreu. Não esqueça. E ela não matou ninguém.

         - Ei Toni! Também não é assim! Eu só fiquei ansioso na hora de perguntar!

         - Olha só como ele está assustado. Tadinho.

         - Tá legal. Foi mal. Menino pode responder com tranquilidade. Nós somos amigos. Vou te perguntar de novo: você não é do Acre?

              A criança demorou um pouquinho para responder. Não se sabe se realmente ele ficou assustado com a inquirição de Quim, mas finalmente respondeu:

        - Nunca ouvi falar.

        - Mano, - falou Toni, baixinho para o irmão - ele nunca ouviu falar na Bahia e nem no Acre. Pro tamanho dele, já era pra saber. Será que ele está com algum problema na cabeça?   

               Quim usando o mesmo tom de voz do irmão, respondeu:

          - Não sei não, mano. Será que ele está com magnésia?

          - Amnésia, você quis dizer.  

          - É isso mesmo. Só estou nervoso. Você sabe que quando fico nervoso, não penso direito. Mas mano, não precisa ficar me corrigindo toda hora! Parece até que não estudei! Para com isso!

         - Quim, a minha intenção não foi fazer troça. Mas, olha lá o remédio que você toma para o estomago. Tá lá escrito: leite de magnésia. Essa deve ter sido a confusão. – termina de falar e sorrir.

        - Tá rindo de quê?

       - Nada. Nada. Menino, qual o seu nome?

      - Meu nome? – ficou em silêncio, enquanto os irmãos esperavam ansiosos pela sua resposta.

      - Não sei. – falou depois de quase um minuto em silêncio - Não sei quem eu sou. Estou com a cabeça doendo.

      - Chi Quim! Agora que o bicho vai pegar! Olha a cabeça dele!

      - Só tem um galinho. Nada demais. Será que ele está com aquilo que falei errado?

      - Acho que sim, Quim. O garoto está com amnésia.

      - Toni, agora é que a coisa vai ficar preta. Só vejo problema pela frente. O que é que a gente vai fazer? A gente vai se ferrar em verde e amarelo!

      - Calma mano.  

      - Calma? Como ficar calmo?

           Depois dessa pergunta, que Quim não obteve resposta de Toni, ficaram, em boca miúda, tentando encontrar alguma saída. Falavam tão baixo que se podia ouvir uma mosca voando. O que diziam dentro de cada orelha, ninguém poderia saber. A discussão ocorreu em segredo de estado. Em dado momento pararam os cochichos. Cada um ficou de um lado da criança. Pelas caras conclui-se que não chegaram a nenhuma solução do problema.

             Toni olhava para a criança, e era claro que sabia que estavam num beco sem saída. Ele coçou a cabeça, passou os dedos no bigode, se esticou, tossiu uma tosse nervosa e depois demonstrou uma expressão de que tinha tomado uma decisão. O irmão achou que ele finalmente tinha encontrado uma solução. Deixou até escapar um sorriso leve, fazendo par com um olhar que beirava a emoção. Só que Toni só fez a sua mise-en-scène e ficou por ali mesmo, calado sem saber o que fazer. Quim então, já tirando do olhar a esperança, falou ríspido:

           - Pô Toni! Você fez uma presepada danada, parecendo que tinha descoberto o que tinha nascido primeiro, o ovo ou galinha e no fundo, queria só aparecer!

          - Eu aparecer? Você parece que não me conhece nada. Nós falamos um no ouvido do outro e não chegamos à conclusão nenhuma. Como de repente eu encontro uma solução? Você está viajando, Quim! Olha só o garoto. Ele deve estar achando que os salvadores dele são dois malucos.

          - O maluco, com certeza, não sou eu. Me tira dessa, Toni. Olha só. Você é o líder.

          - Agora eu sou o líder, Quim? Você é muito engraçado. Então está bem. Vamos ver se o menino nos ajuda. 

Continua Semana que vem! 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 15

 


 Continuando...

               Toni interrompeu-o, fazendo com que o irmão ficasse sem graça e ao mesmo tempo com a cara assustada.

         - Eles não! Eles não! Você tá maluco?

         - O que foi isso, Toni? Você me deu o maior susto! Me interrompeu bruscamente! Não tô te entendendo! Por que isso?

         - Ah desculpe. Mas também tem hora que você parece que é maluco. Não se liga nas coisas. Você lembra o que a mulher falou?

         - Sei lá o que ela falou. Falou tanta coisa, mas não registrei nada. Também como é que eu ia registrar, se eu estava incomodado com as pessoas mortas?

   - Incomodado? Você estava é com medo!

          - Medo uma ova!

          - Então tá, você não estava com medo. – Toni falou com ar de conciliação.

          -  Escuta só. Ela mandou a gente entregar o garoto somente ao pai. Não entregar a mais ninguém. Isso inclui a mãe também. Coitadinha. Morrer daquele jeito.

               Toni, depois que falou na mulher, fez o sinal da cruz. E olhou para o irmão com os olhos cheios de lágrimas. Quim sorriu e zombou.

          - Ih. Nunca vi você tão emotivo. E religioso. Nem sabia que você sabia fazer o sinal da cruz.

          - Quim, isso é hora pra brincadeira? Porra você parece que não cresceu! Me lembrei da mulher e fiquei pensando no seu sofrimento. Acabei ficando emocionado.

          - Foi mal, mano. Desculpe. Concordo com você. A gente fala com o pai. Liga pra ele, diz aonde a gente está e pronto. Ele manda alguém buscar ou vem ele mesmo pegar o filho. Viu como é simples?

          - Ah bom. Colocando a situação assim desse jeito, aí fica fácil. Então vamos perguntar ao garoto o telefone do pai.

               O garoto estava parado ao lado de Quim. Do jeito que ele foi colocado ali, ali ficou feito uma estátua. Só movimentava os olhos e isso já era o bastante para não o confundir com uma escultura de mármore. Os dois olhavam-no, penalizados. Quim colocou uma das mãos em cima do seu ombro e olhou-o dentro dos olhos. 

         - Oi menino. -  falou com docilidade - Tudo bem? Meu nome é Quim. O do meu irmão é Toni. Você sofreu um acidente e nós conseguimos salvá-lo. Mas nós precisamos saber o seu nome e do seu pai, pra gente poder ligar pra ele. Ele deve estar muito preocupado com você.   

               O menino, parado estava e parado continuou. Nem uma palavra saiu da sua boca. Apenas continuou com os olhos fixos nos de Quim. Toni que observava de perto, teve a sensação que o olhar do menino furava o do irmão. Se sentiu incomodado e se virou para não continuar fitando-o. Discretamente se afastou um pouco dos dois.

                 Quim começou a ficar também desconfortável com o silêncio do menino e o seu olhar penetrante. Não sabia mais o que falar com ele. Percebeu que o irmão tinha se afastado um pouco e tratou logo de pedir socorro. 

          - Mano. Mano. Não foge não. Vem cá.

               Toni olhou para o irmão, fez uma careta e deu de ombros.

          - Nada disso! Vem cá nada! Você é bom nisso! Tenta que você consegue tirar alguma coisa dele! Vai com fé!

          - Tirar o quê? Que fé? Ele tá com esse olhar perdido no nada! Você já falou e ele deu a mínima pra você! Desistiu e jogou pra cima de mim! Volta aqui! Não me deixa sozinho nessa enrascada, não!

          - Mano, mas não custa tentar. De repente com você ele se abre.

          - Tá bom. Você está me saindo um cara metido a esperto. Mas tá bom, vou tentar. – coçou a cabeça e deu um sorriso meio sem graça - Menino, pode ficar tranquilo que você está entre amigos. Nós só queremos saber o seu nome e o do seu pai. No caso, o telefone dele também. Diz pra mim: você está se sentindo bem?

               O menino pela primeira vez se mexeu. Finalmente deu sinal que ia falar alguma coisa. Depois daquele tempo todo quase uma estátua, mostrou que estava vivo. Em seguida coçou a cabeça e balbuciou:

          - Eu acho que estou bem. Que lugar é esse? Aonde é que eu estou?

 Continua na Semana que vem!