terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Filho do Poder - Parte 47

 


Continuando...

           Toni saiu do galpão e foi caminhando sem pressa, até chegar ao posto de gasolina, trajeto esse que gastou menos de dez minutos. Antes de subir para o quarto, trocou meia dúzia de palavras com um frentista, perguntando a ele sobre Tadeu. O rapaz não respondeu de imediato, parecendo que estava procurando alguma coisa pra dizer. Depois de vasculhar a memória, simplesmente falou:

          - Seu Tadeu? Seu Tadeu é cliente nosso. Ele... Ele, não sei muito bem, dizem que é boa gente. Mas...

         - Mas, o quê?

         - Mas... É melhor deixar pra lá.

         - Deixar pra lá? Pode falar amigo. Eu estou perguntando, porque só fui conhecê-lo ontem.  Vou levar uma carga pra ele até o Acre. Gostaria de saber alguma coisa sobre ele. Não pode falar?

           - Acho que não devo. Mas não é nada demais. São só boatos.

           - O amigo está me deixando preocupado. Se são só boatos, você pode dizer alguma coisa. Boato chega, boato vai. Boato é boato. Vamos lá, diz alguma coisa desse boato!

           - Não comenta com ninguém, está bem?

           - Pode contar com o meu silêncio.

           - O certo é que ninguém tem certeza. Mas chegou até a gente que ele pode ser amigo de um traficante muito conhecido. Não sei o nome. É só isso. De resto ele é um cara legal. Desde que ele chegou aqui, se dá bem com todo mundo. Quando vem abastecer, dá até uma gorjeta gorda pra gente. Não comenta com ninguém, está bem?

           - Pode deixar. Segredo é segredo.

                  Toni subiu para o quarto do hotelzinho e entrou meio pensativo. Quim estava deitado vendo televisão, enquanto o menino estava em outra cama debaixo de um lençol, coberto até a cabeça. Entrou em silêncio e não falou nada, coisa que não era do seu feitio. O irmão notou e indagou:

           - O que é que houve, Toni? Tá calado. Algum problema lá com o seu Tadeu? Ele desistiu de dá o frete pra gente?

           - Não. Não é nada disso não. Está tudo em cima. Duas e meia a gente pega o caminhão carregado. É... Acho que é só cisma.

           - O que foi? Desembucha.

           - Eu conversei com um frentista aqui do posto... Sabe mano, estava curioso para saber alguma coisa desse Tadeu. Aí perguntei a ele sobre o cara. Ele me enrolou, me enrolou, mas depois da minha insistência ele soltou que o cara, disse que pode ser boato, é amigo de um traficante conhecido.

           - Ele disse o nome do traficante?

           - Ele não falou. Mas também isso não é problema nosso. Se ele é amigo do cara, o problema é só dele, você não acha?

           - Desde que ele não coloque droga pra gente levar, tudo bem.

           - É isso aí. É só a gente olhar a carga que ele botar no caminhão e pronto.

           - Toni, não vamos esquentar a cuca. Mano, acho que você tem que ir sozinho, de novo, buscar o caminhão. Eu fico aqui com o garoto. Acho arriscado deixar o menino aqui sozinho, pra depois a gente pegar ele. Sei lá! Vai que ele some! Como ele está com a memória prejudicada, pode resolver fugir. Aí mano, a gente tá frito. Você vai e na volta pega a gente.

           - Fugir nada! Vira essa boca pra lá!

           - Quim a gente vai fazer o mesmo lance pra levar o garoto pro caminhão. Até que deu certo a sua ideia de enrolar ele no tapete.

           - Sou um gênio.

           - Um gênio. Mas por sorte não tinha ninguém perto pra ver os pés do garoto. Não podemos bobear dessa vez. Mas chama a atenção. Em outras paradas a gente vai usar outra coisa pra transportar ele. Tem que ser alguma coisa que não chame muito a atenção.

           - Mas o tapete chama muito a atenção?

           - Muito. Alguém pode achar estranho, dois barbados levando um tapete para um hotel. Se fosse pra vender, tudo bem. Mas a gente traz ele de volta pro caminhão, aí fica esquisito.

           - É mesmo. Tudo bem.  

                  Na hora marcada, Toni chegou no galpão. Foi recebido pelo próprio empresário Tadeu, que já estava com a documentação toda na mão. Cumprimentou-o e disse eufórico:

           - É isso! Muito bom! O amigo é realmente uma pessoa de palavra. Eu gosto é de gente assim. Agora vamos aos negócios. O outro frete já paguei, certo? Agora tenho aqui o outro envelope, com o pagamento dessa carga. Gosto de pagar adiantado. Não abre o envelope agora. Ele está gordinho, não é? A nota está aqui. Essa é mais do triplo da outra.

           - O triplo, seu Tadeu? 

Continua Semana que vem! 

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Pensamento de Poeta - Respeito, é a palavra

 


 Respeito, é a palavra

 - José Timotheo -

 

                  Éramos três amigos olhando para o mar, isso logo depois de uma partida de vôlei. Saquei uma cerveja da minha mochila e ofereci: já houve a primeira discordância. Balançaram a cabeça em sinal de negação e cada um pegou a sua preferida. Enquanto conversávamos, dei uma esticada de olhos para o céu. Tinha muitas nuvens, mas não eram nuvens para chuva. Percebi que o céu estava desenhado. Descobri uma das nuvens com formato de cavalo. Arrisquei, claro dando uma pincelada no tom de laranja, que era um lindo cavalo alazão. Pintei a nuvem do meu jeito. Depois cutuquei o amigo ao meu lado e apontei para a tal nuvem e perguntei o que ele via. Ele olhou, sorriu e disse, sem titubear: um camelo. Não! Não! Um dromedário. Olhei meio assustado com a sua visão. Perguntei se tinha certeza. Confirmou com um sorriso de boca inteira. Fiquei abismado com aquela visão.

                  O tempo estava bem calmo, nenhum vento. Olhei de novo e lá estava o meu cavalo no mesmo lugar. O outro colega já estava olhando para o céu e me perguntou o que estava havendo. Apontei para cima e fiz a mesma pergunta que fizera para o outro. Ele olhou, virou a cabeça de um lado para o outro, não sei porque fez isso, e disse na lata: um coelho. Com essa agora, fiquei assustado. Um coelho? Mas como um coelho? Insisti e a resposta não mudou. Olhei para os dois e lá estavam eles olhando para os seus animais nas nuvens. Como pode isso? Me perguntei. Três pessoas olhando para um mesmo lugar e vendo coisas diferentes. Olhei para os dois, que continuavam mirando o céu, e estavam com os olhares de felicidade. Dirigi, em silêncio, os meus olhos também para o meu cavalo alazão, que pintara em silêncio. E fiquei embevecido, até que um vento desmanchou a minha visão.

                  Três pessoas diferentes, visões diferentes, olhares diferentes, sentimentos diferentes, mas amigas. A amizade é isso, respeito. Cada um respeitou o que o outro enxergou. É isso que está faltando para o mundo: respeitar a opinião alheia, mas conservando a sua. O seu amigo não pode ser seu inimigo, só por causa de uma opinião que amanhã, quem sabe, não será a mesma, porque o mundo muda e consequentemente nós também. Estamos num planeta em evolução e cada um está na sua faixa de crescimento. Ninguém sabe qual a opinião, no momento, é a mais certa. Às vezes é preciso levar uma topada, para podermos aprender a caminhar com cuidado num chão pedregoso.

                  Cultivar a amizade, é muito mais importante do que querer impor a sua opinião e perder um amigo. Tudo passa, mas o amigo fica guardado no coração.

                                                                   - Fim -

 

Obs. Desejo para que cada um que me acompanha, faça a sua escolha, neste domingo, e que a escolha da maioria possa ser a certa e, com isso, fazer o Brasil ficar no lugar que merece: um país próspero e feliz.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 46

 


Continuando...

         Toni bota a mão na boca e fala baixinho para o irmão:

         - E agora Quim?

           Quim com presença de espirito arranja uma saída:

         - Senhor Tadeu, a gente vai precisar do caminhão.

         - Pra quê?

         - Pegamos um pequeno frete lá no posto. Sabe, o valor que o senhor vai nos pagar com esse frete é baixinho. Aí depois que a gente fizer o serviço, trazemos o caminhão de volta. É só pra engordar um pouquinho o bolso.

        - Falando em frete, tá aqui o dinheiro. – esticando a mão com um envelope e entregando a Toni. Agora não estava nos meus planos vocês pegarem outro frete. É pra longe?

        - Não. O cara falou que é coisa de uma hora pra ir e outra pra voltar.

        - Então está bem. Sem problemas. Só que eu quero o caminhão aqui, no máximo, às nove horas. A saída de vocês não deve passar das quinze horas. Não pode passar desse horário de jeito nenhum. Certo?

        - Claro. Claro. Sem problema algum. Podemos ir? – disse Quim, engolindo a saliva acumulada na boca. 

        - Podem. Mas não esqueçam do horário.

        - Pontualidade britânica! – falou Toni, com um sorriso de orelha a orelha, tentando esconder o nervosismo que já deixava a sua perna tremendo um pouco.

           Despediram-se de Tadeu e dirigiram-se para o caminhão. Entraram em silêncio, ligaram o veículo e em baixa velocidade, quase se arrastando, foram em direção ao portão. Quim então comentou com o irmão, entre dentes:

          - Toni essa foi na trave. Eu pensei que a gente fosse se ferrar. 

          - Mas graças a Deus você teve uma saída de mestre. Quim, essa você fez um golaço.

          - Nem sei como eu inventei aquela história. Mas o importante é que deu certo.

            Enquanto conversavam, o menino se mexeu e ia tirando a lona de cima, quando Quim viu e colocou o braço em cima e falou mais baixo ainda:

           - Ei garoto, não bota a cara pra fora não. Fica aí escondidinho como ficou até agora. Já estamos quase saindo do galpão.

                 Depois comentou com o irmão:

           - Toni, estamos com muita sorte. Como é que eles não olharam aqui dentro?

           - Sei lá. Estou achando que é muita sorte mesmo. Muita sorte assim, até santo desconfia.

          - Toni, muita sorte assim até santo desconfia? Essa é demais. Vamos andando para que a sorte não mude.

          - Vira essa boca pra lá, Quim! Eu hein! A sorte vai continuar com a gente!

            No dia seguinte, Toni chegou às oito horas e quarenta e cinco minutos. Tadeu com os seus funcionários já estavam circulando tanto pela parte externa como pela interna do galpão. O portão já estava aberto e Toni foi entrando com o caminhão sem pedir permissão. Apenas um dos funcionários indicava onde deveria estacionar e ele fez tudo como o indicado.

           Ele desceu do caminhão e foi em direção de Tadeu, que o esperava com um sorriso nos lábios. Quando Toni chegou ele esticou a mão e cumprimentou-o. Depois falou com um pouco de entusiasmo:

          - Gostei, gostei muito! Gosto de gente assim: pontual! Tudo leva a crer que vamos nos dar muito bem! Como foi o extra ontem?

          - Levamos um bolo.

          - Como foi isso?

          - Não foi bem um bolo, na realidade. O que aconteceu é que o fazendeiro, segundo ele disse, o seu caminhão tinha sido consertado. Aí o extra foi pro brejo. Não era muita coisa, mas é sempre bem-vindo qualquer um trocado.

           - Mas não tem problema. Essa carga que você vai transportar vai render um troco muito bom. A nossa parceria vai ser lucrativa, você vai ver só, Toni. E o seu irmão, não veio?

          - Ele disse que ia descansar um pouco. Sabe como é que é, tomou umas cervejas a mais e agora está lá encarando um bode.

          - É assim mesmo. Uma cerveja geladinha sempre desce bem. Mas se passar do limite, o bicho pega.

         - É isso aí, seu Tadeu.

         - Toni, deixa o caminhão aí e volta às duas e trinta. Tudo bem?

         - Sem problema. Voltamos mais tarde. Até mais ver.

         - Até mais. Não se atrase!

         - Pode deixar. Pode deixar.

         - Espera aí, Toni. Lino, leva ele até o hotel.

         - Precisa não, seu Tadeu é pertinho. Tô precisando caminhar um pouquinho. Estou todo travado. E o que vamos ficar sentados ainda, - puxa! - vai amassar a gente todo! Por isso tenho que me esticar. E não precisa se preocupar, duas e trinta estarei aqui.

 Continua na Semana que vem!