quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pensamento de Poeta - Transgressões e o Jeitinho Brasileiro

 
Transgressões e o Jeitinho Brasileiro

- José Timotheo -  

Sinal vermelho

Já passei

Calçada sem obstáculos

Já deixei duas rodas em cima

Proibido parar

Fecho os olhos

Dei um jeitinho

Assim vou levando a vida

Tombei

Emergência

Esperar o atendimento?

Não deu para burlar

Dessa vez

Sentei e esperei

O bolso furado

Sem plano

Acho que morri

Se morri

Não tenho certeza

Mas assim mesmo

Vou planejar um lugar no céu

Eu posso: sou brasileiro

 

                                                fim

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 37

 


Continuando...

               A viagem foi tranquila até avistarem a Patrulha Rodoviária. As expressões de Toni e Quim mudaram radicalmente. Um ar de preocupação, porque não dizer de medo, tomou conta do sossego. Era evidente que o medo estava em primeiro lugar, pois não sabiam o que poderia acontecer com eles dois e o menino, já que brincaram com os brios dos falsos policiais, enganando-os sobremaneira. Toni, que estava na direção, - trocara com o irmão, em uma das paradas para usarem o “banheiro” da beira da estrada       - diminuiu a velocidade, devido a uma pequena retenção no trafego, e comentou com o irmão:

          - Quim, já viu onde estamos chegando?

          - Claro que vi.

          - Já estou ficando preocupado.

          - Preocupado com o quê?

          - E você pergunta, Quim? Você - vai me enganar! – está nervoso também!

          - É. Tô nervoso sim. Mas estamos com a documentação toda certa. Vai ficar tudo bem. – fez uma pausa – Caraca, Toni! – diz Quim carregado de preocupação.

          - O que foi, mano?

          - Toni, uma coisa bateu aqui agora: e se os falsos policiais se comunicaram, se passando pelos patrulheiros verdadeiros, com os patrulheiros daqui? Já devem estar esperando por nós, mano.

          - Mas já falei sobre isso. Vamos apostar na sorte. Mas se a sorte tiver partido, aí o bicho vai pegar, Quim. Eu sei que com a documentação não vai ser problema. A encrenca é o garoto. Se pararem a gente, como vamos explicar a presença do menino aqui? Nem sei a cana que dá para sequestro. Mas é o que vai sobrar pra gente. Estamos numa enrascada. Em que problemão a gente se meteu, hein!

           - Eu sei Toni que estamos com um problemão na mão. E não sei o que vamos fazer.  Será que se o menino ficar bem encostado nas costas do banco e se cobrir bem, vamos enganar os policiais? O menino é magrinho. Quem sabe? Só Deus pra nos ajudar.  Carlos, se estica aí e se cobre com a lona.

           - Tá calor! – contesta o menino.

           - Nós sabemos que está calor, mas você não pode ser visto. Tem que se esconder e bem, se não estamos fritos.

           - Olha só, Quim. – Toni aponta na direção do posto policial - O transito está lento, mas em compensação não estão parando ninguém. Acho que a gente está com sorte.

                  Quim olha atento para os policiais, mas fica calado, enquanto analisa a situação. Toni olha para o irmão e vê o momento em que ele coça a cabeça várias vezes. Isso era uma alerta para a chegada de algum problema.

           - O que foi, mano?       

           - Toni, eles querem a gente. Olha lá, mano. Um dos policiais está checando as placas dos caminhões. As carretas dão uma paradinha e depois o policial manda seguir em frente. Até agora não pediu documento de ninguém. Os carros de passeio nem param. Não estou gostando nada disso. Só pode ser a gente que eles querem.

           - Quim, um deles está vindo pra cá. Está mandando os carros de passeio saírem e só deixando os caminhões. Ih! Ele está apontando pra gente!

           - E agora? Sujou geral, Toni!

           - Escuta só. Ele pode não ter visto você. Vamos arriscar. Pega o garoto e desce com ele. Vou continuar na mesma marcha. Desce no acostamento e entra no mato. Vê se consegue sair, sem ser visto, bem lá na frente. Depois eu pego vocês. Mas procura se afastar o máximo das vistas dos policiais. Pula aqui pra frente menino. Isso. Quim abre a porta e depois pega o garoto.

                    Quim consegue descer sem chamar a atenção, pega o garoto no colo e entra por dentro do mato, que estava bem próximo do acostamento. 

                    O patrulheiro que havia apontado para o caminhão dos irmãos, para de caminhar, se vira e sinaliza para o colega, com um gesto de mão, para que ele libere todos os demais veículos. Só que os carros mantiveram a mesma velocidade, se tornando, com isso, numa grande ajuda para a fuga de Quim e do menino.

Continua Semana que vem! 

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 36

 


Continuando...

        Quim desce primeiro do caminhão, às gargalhadas, zombando do irmão. Toni acabou rindo também. Só o menino é que continuou sério. Nenhum dos dois comentou a cara sisuda do menino. Toni apenas, orientou o garoto a urinar em cima do mato.  Aí o garoto questionou:

          - Por quê?

          - Quim por quê?

          - E eu sei lá! Foi você que falou!

          - Deve ser então pra gente urinar bem longe? Urinar no acostamento não é legal. É isso, né mano?

          - Você tá certo, Toni. Tem que ensinar a coisa correta.

                  Aí acabam os três urinando um ao lado do outro, forçando quem lançava o jato de urina mais longe. Para surpresa dos irmãos, o garoto urinou mais distante. Quim olhou para Toni e comentou baixinho:

          - Porra, mano! Até no mijo à distância o garoto ganha da gente!

          - O que se há de fazer? O garoto mija muito! Temos que exercitar mais, Quim. Ele é apenas um menino e a gente já está mais para velho.

         - Velho, só se for você. Eu ainda sou um jovem, esqueceu? Você tem idade até para ser meu pai.

          - Essa é demais, Quim. Idade para ser seu pai? Sei que tenho uns aninhos a mais que você. Até aí, tudo bem.  Agora, ser pai de um burro velho, está muito longe. Mano, tenho que rir com os seus desvarios.

                   O irmão apenas dá um muxoxo, mas não procura alimentar aquela conversa que, com certeza, não ia chegar a lugar algum. Então mudando o curso da conversa, prefere falar sobre o menino.

          - Mano, estou achando o menino com cara de fome. Oferece a ele alguma coisa para comer.

                   Toni percebeu a tática do irmão, deu um sorriso discreto e não levou o assunto adiante, para não o deixar constrangido ou talvez magoado.  Aceitou então a sua sugestão.

          - Carlos, vamos fazer uma boquinha?

          - Boquinha? O que é boquinha? Por um acaso é uma boca pequena?

          - Não. É só uma forma de dizer. Estou te convidando pra comer um pouquinho. Eu estou com fome e acho que você também deve estar. Acertei?

           - Estou com fome sim. Mas depois a gente pode brincar um pouquinho?

           - Brincar de quê? Se for daquela brincadeira, estou fora. Perdi todas. E nem de mijo à distância eu brinco mais. Você não dá chance pra gente.

           - Puxa Toni, brinca um pouquinho com ele. Coitadinho. – Quim termina de falar e deixa uma gargalhada no ar.

          - E vai sobrar pra mim? Tô fora! Joga você!

          - Toni, eu vou continuar no volante. Você precisa descansar. E não tem coisa melhor do que se distrair, jogando com o menino.

          - Quim, você é engraçadinho. Mas vou topar o desafio. Só estou cansado, mas sem sono. Então menino, vamos jogar? Vou deixar claro:  só se for porrinha. Quim, esse garoto é adivinho ou sei lá o quê. Mas dessa vez, vou ganhar.

          - Quero ver. Quim já podemos ir? Está faltando pouco pra gente entrar em Tocantins. Vamos encarar o Posto da Patrulha Rodoviária e, se não me engano, tem também dois postos fiscais, um em cada estado, da Secretaria de Fazenda.

          - É isso aí. Mas não estou preocupado com os fiscais, estou preocupado com os policiais. Corrigindo: os falsos policiais. Esses sim a gente tem que ter cuidado. Vamos fazer mágica para esconder o garoto. Se encontrarem ele, vamos ser acusados de sequestro. Vamos pagar o pato, com certeza.

           - Só se formos pegos por policiais verdadeiros. Os falsos serão capazes de darem cabo da gente e pegar o garoto. Quim, a gente vai conseguir. Fé em Deus. Vamos indo?

           - Ei menino! Vamos? Sobe lá. Sobe lá. Se quiser dormir mais um pouquinho, pode deitar. Depois que você descansar, voltamos a jogar. Agora não dá. Fiquei preocupado com a nossa situação.

Continua Semana que vem!