terça-feira, 7 de abril de 2026

O Filho do Poder - Parte 21

 


Continuando...

        Com a dúvida, se deveria bater ou não, ele segurou a maçaneta e encostou a cabeça na porta. De repente começou a ouvir uma conversa entre dois patrulheiros. O diálogo era o seguinte:

          - Pereira. Olha só o que chegou aqui. Dá uma olhadinha na tela do computador.

          - O que foi Blanco?

          - Vem cá! É lá do Acre! É briga de cachorro grande! Mas a gente vai se dar bem nessa.  

          - É isso aí? Eu já sabia. Tem um camarada meu, de lá, que já me bateu toda a história. Ele faz uns servicinhos para um chefão do cartel e pra mim também. Faz jogo duplo. O traficante é um tal de Pablo. Dizem que o cara é quente. Tem dinheiro que não acaba mais. É realmente um homem forte do tráfico.

         - Pereira, o garoto que foi sequestrado é filho desse cara?

         - É sim. Não disseram não, mas é filho desse Pablo. Eu só não sei o nome do traficante que mandou sequestrar o garoto. Mas esse meu informante vai descobrir e vai me avisar. Ele só sabe, e já me falou, que os sequestradores trouxeram o garoto aqui pra Bahia. Por isso o chefe mandou a gente invadir esse posto. É por aqui que eles vão passar.

          - Eles já estão aqui? Não acredito!

          - Sabe qual é o nome do garoto?

          - Não. Nem desconfio.

          - Estou informado. Bem informado. O meu camarada disse que o nome do garoto é Carlos Hernandes.  Confere aí.

         - É sim, Pereira. Você está bem informado mesmo, hem! É! Mas você deve ter visto o nome do garoto aqui na tela, não foi

        - Vi nada! Eu sou é bem informado! Eu tenho é que me virar, meu irmão. Com esse salariozinho, não dá nem pra comprar o leitinho das crianças.

       - Ué! Você está se sentindo um policial, Pereira? Os caras estão lá atrás amarrados, esqueceu?

       - Claro que não, Blanco. Só estou exercitando.  Não se esqueça que esses nomes não nos pertencem.

       - Tudo bem. Não podemos tirar os olhos dos crachás para não esquecer os nossos novos nomes.

      - Tá certo. Escuta só. Quando chegar a informação de quem sequestrou, a gente age. Se eles vieram pra cá, é porque a base é aqui.  Certo? Então, só temos realmente que saber quem é.  Aí a gente monitora e pega o garoto.

       - Pereira, será que foi o grupo do Ramiro? Esse também é quente, né? E eu sei onde fica uma das fazendas dele. Eu e Nestor já demos cobertura a ele, antes de ficar com Rufo.

       - Nem me falou nada, hem!

       - Foi o Nestor que me botou nessa.

       - Tudo bem. Se for ele, aí vai ser mole, né? A gente toma o garoto dele. Depois eu falo com esse meu amigo e ele fica como intermediário na transação. Mas vamos ter que falar com o chefe. Vamos ter que arranjar um local para guardar o menino.

       - Isso é fácil. Deixa comigo.

       - Tudo bem.

       - Pereira, tem uma coisa.

       - O que é?

        - Nada demais. Sobre o Nestor junto na jogada. Fala você com o chefe, ele te escuta mais.  

        - Mas ele é de confiança mesmo?

        - É. Total.

        - Blanco. Escuta meu irmão. Nós não devemos nos arriscar. Segredo é só pra um.  Já somos três e você tá querendo botar mais um. Não sei não, hem! Acho que é um furada!

         - Ele é pedra noventa, Pereira. Pode deixar. É da mesma escola nossa. Além, que é uma grande vantagem, do cara conhecer todos os passos do Ramiro.

         - Então, tá legal. Tem ele com Ramiro e o meu amigo do Acre com Pablo. Fechou bem. Já tinha falado com Rufo sobre ele, agora falo sobre Nestor. Daqui a pouco dou uma ligada para o chefe.

 Continua na Semana que vem!

terça-feira, 31 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 20

 


 Continuando...

       - Pediu e daí! O que é que a gente vai fazer? Estamos numa tremenda enrascada, mano. Não temos saída. Pensa aí: a gente pode entrar numa tremenda fria. A mulher não falou em traficantes?

       - Eu sei. Eu sei que ela falou. Mas vou pensar mais um pouquinho.

       - Pensa logo. De repente a gente é parado na Patrulha... Pensou nessa possibilidade? Então, como a gente vai explicar esse garoto aqui na boleia? Vamos ficar enrascado! Isso sim!

      - Depois das suas ponderações...

      - Aí Toni, tá falando difícil!

      - Deixa de bobeira. Isso não é hora para brincadeira. Então, depois do que você falou, pensei, pensei aqui com meus botões e começo a dar razão a você.

     - Viva! Até que enfim você concordou comigo! Puxa vida, hem!

     - Você está engraçadinho. Pensei o seguinte: eles foram sequestrados por traficantes, certo? Então – vou falar no seu ouvido – o pai do guri deve ser traficante também, certo? Isso está cheirando a guerra de gangues.

     - Então, você chegou aonde eu cheguei. É isso aí, Toni. Pronto está resolvido. A gente entrega o garoto à polícia. Os policiais vão cuidar dele direitinho. A polícia não é para isso? Não é pra proteger o cidadão?

    - É Quim, você tem razão. Vamos nessa. Vamos resolver logo isso. Pisa mais um pouco. Mas sem ultrapassar a velocidade permitida. Ouviu?

          - Tá bem! Tá bem! Mas o quê que a gente vai dizer pra eles sobre o garoto?

          - A gente diz que achamos o garoto andando pela estrada. Não é melhor assim? Simples assim. A gente não precisa entrar em detalhes, Quim.

         - Mas se eles perguntarem pelo acidente?

         - Será que eles não sabem do acidente? Estou apostando na possibilidade de não saberem ainda. Até agora não passou ninguém pela gente. Você viu algum movimento, Quim?

        - Não. Toni, isso é estranho, não é?

        - O que é estranho?

        - O estranho, é porque toda vez que a gente entra numa roubada nunca passa ninguém. Nunca notou isso?

        - Sei lá, Quim. Acho que nunca prestei atenção.

        - Mas eu estou sempre ligado. Com aquele fantasma então! Aquela menina não sai da minha cabeça. Posso te falar um negócio?

        - O que é?

        - Toni, aquela história foi tão louca que eu tenho dúvida se existiu.

        - Mas como não existiu?

        - Sei lá, mano. Duvido se a gente consegue achar aquela estrada. Acho que nem existe.

       - Claro que existe. Se não existisse a gente não tinha ido lá.

      - Mas Toni, será que fomos lá mesmo?

      - Ah! Deixa isso pra lá! Vai acabar dando um nó na minha cabeça! Esquece! Já passou! Agora temos é que resolver esse problema que temos nas mãos.

  - É, Toni. E que problemão. Mano, se prepara.

  - Me preparar para quê?

  - A Patrulha está depois daquela curva lá.

  - É mesmo. A gente para e entrega o garoto.

                    Quim trafegou por mais quinhentos metros e encostou a carreta. Depois falou para o irmão:

          - Toni, deixa que eu vou até lá. Fica aqui com o garoto. Não sei o porquê, mas bateu um negócio aqui na cuca, me mandando ir sozinho. Vou sondar. Depois aceno pra você. Tá bom?

          - Não, deixa que eu vou até lá. Fica aqui esperando. Como você está cansado de falar, eu sou o mais velho. Então vou eu.

          - Tudo bem, você manda. – respirou como tivesse se livrando de um problema - Mas conversa direitinho com os policiais.

          - Claro que eu vou conversar numa boa.

                Toni desceu do caminhão, foi andando, sem muita pressa, quase arrastando os pés, em direção ao posto da patrulha. Dava a impressão de que não queria demonstrar o quanto estava ansioso. No fundo estava com medo da missão que se encarregara. Deu uma parada, parecendo que ia desistir, mas respirou fundo e foi em frente. Chegou até a porta e ficou parado em frente sem nada fazer. Depois, mesmo com a indecisão de plantão, ameaçou bater na porta. Chegou até a levantar o braço, com o punho fechado, porém acabou abortando o movimento. Teve a sensação de que alguma coisa segurou o seu braço. Isso ele segredou depois ao irmão.

 Continua na Semana que vem!

terça-feira, 24 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 19

 


 Continuando...

                Toni acomoda a criança e se prepara para começar a brincadeira. O garoto então esfrega as mãos, demonstrando ansiedade, e fala:

          - Vamos jogar zerinho ou um?

          - Não dá. – responde Toni – Você sabe que com dois, o jogo não rola. É de três pra cima.

          - Então vai ser par ou ímpar?

          - Aí sim. É isso aí. Vamos começar? Pode pedir.

          - Eu ímpar – escolheu o garoto.

     Mal Toni bota os dedos, Quim dá uma gargalhada.

          -  Viu Só? Já perdeu a primeira! – querendo engolir o riso.

          - Vai rindo! Vai rindo! Essa foi só a primeira! Essa agora e as outras vão ser só minhas!

          - Quero ver.

          - Puxa vida. Ganhou de novo. Puxa garoto, só dá você. Que sorte danada. – diz Toni um pouco sem graça.

          - Tá reclamando, Toni? – Quim se dirige ao irmão com uma ponta de deboche -Tenta de novo. Vai tentando! Vai tentando!

          - Vou sim! Vou sim! E não estou reclamando coisa nenhuma!  Eu só quero ganhar pelo menos uma, né?

           - Começou agora e já está chiando? Garoto, dá uma surra nele!

           - Surra! Ah! Você vai ver a minha reação!

                A viagem transcorria com tranquilidade, permeada de risos e reclamações de Toni, que demonstrava claramente a sua insatisfação em tentar distrair o garoto, já que não acontecia a tal reação. Depois de um breve silêncio, ele explodiu:

          - Assim não dá! Assim não dá! Cansei! Porra, até agora não ganhei nem uma!  

          - Ué! Você não riu de mim? Agora aguenta! Joga mais umazinha, joga. E lava essa boca suja!   

          - Boca suja? Desculpa, garoto. Mas jogar? Você está maluco. Mano, escuta aqui. Vou falar no seu ouvido. Esse garoto é bruxo. Isso não é normal. Ele adivinha quantos dedos eu vou botar. Ele ganhou todas de você e de mim. Isso é normal? Chega. Não jogo mais. Vamos esperar a memória dele, voltar sozinha. Vamos dar tempo ao tempo, senão quem vai ficar sem memória sou eu.

          - Calma. Mano, relaxa. Você não ganhou porque tem um agravante.

          - Que agravante?

          - A sua idade. Você está ficando velhinho! – Quim dá um riso debochado.

          - Velho uma ova! Quem está velho com trinta e cinco anos?

          - Você além de ancião, é um tremendo mentiroso!

          - Ah! Vai plantar batata, Quim!

               O tempo foi passando e nada da memória do garoto voltar. Nesse momento ele estava deitado atrás dos bancos e não dava nenhum sinal de que estivesse com a sua memória em ordem. Desde que Toni não quis mais jogar, ele voltou ao seu mutismo. De vez em quando Toni perguntava alguma coisa sobre a sua família, mas sempre vinha como resposta um não sei. Depois da última pergunta, Quim falou:

          - Toni, esse negócio de esperar a memória dele voltar, está dando nos nervos. Vamos cair na real, mano. Esse negócio de amnésia, – agora acertei! -  pode demorar muito tempo. Eu sei que tem caso que a memória volta rápido, mas em outros casos demora uma eternidade.

          - Mas o caso dele, pode voltar sem a gente menos esperar. Vamos aguardar mais um pouco, pacientemente. – diz Toni, querendo injetar um pouco de esperança no irmão.

          - Esse um pouco, quer dizer quanto tempo? Um dia, dois dias, três dias... um mês, um ano e, às vezes nunca mais?

          - Ih! Deixa de ser pessimista, Quim. A esperança é a última que morre. Alguém disse isso e eu levo fé na esperança.

          - Não é o caso de não ter esperança, não é isso. Não sou aquele cara totalmente pessimista. Mas, mano, a verdade é que nós não sabemos nada de amnésia. A gente só ouve falar. Não somos médicos, Toni. Um médico é que poderá analisar o caso do menino. 

         - O que é que você sugere?

         - Eu sugiro que a gente leve ele até um posto da Patrulha Rodoviária. 

    Lá eles vão saber o que fazer. Se não me engano tem um posto próximo.

        - Você fala em médico e quer levar para a polícia. Não entendi. Quim, a moça pediu...

 Continua na Semana que vem!