terça-feira, 23 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 32

 


Continuando...

                  Toni, sentindo bem mais leve, caminha em direção ao caminhão, assobiando uma canção que só ele sabia qual era. Deu a volta no caminhão e entrou no lado do carona. Mal entrou na cabine, o irmão, que também era uma ansiedade só, foi logo perguntando acerca do frete.

          - Aí Toni, conseguiu? O frete é nosso?

          - Claro! E o quê que eu não consigo? Mano, as coisas estão caminhando bem. Se continuar assim, a gente entrega o garoto são e salvo e ainda de lambuja a gente ganha umas cargas. Vamos unir o útil ao agradável.

          - Eu escutei bem? Você falou umas cargas?

          - É! Eu falei! Você não escutou? Então, eu consegui! Só que...

          - Já vem bomba! Só o quê?

          - Só que uma carga é bem pequena. São garrafas pet. A outra, ainda não sei. O seu Honório vai ligar para um empresário amigo dele, aqui de perto, e saber sobre a carga. Vamos torcer para que o cara não tenha arranjado ninguém para fazer o transporte.

           - Toni, o cara está fazendo sinal pra gente.

           - É pra gente segui-lo. Vamos nessa, Quim.

                  Quim liga o caminhão e vai seguindo o carro do empresário. Sai do posto e entra por uma rua de chão batido. A poucos metros avista um galpão, onde o carro de seu Honório já está parado em frente. Lá chegando, encontra o portão já escancarado e um rapaz sinalizando para que ele entrasse. Já dentro do galpão, Quim observa um monte de garrafas pet amarradas, olha para o irmão e comenta baixinho:

            - Toni, você sabe a quantidade de garrafas?

            - Ainda não. Só com a nota fiscal na mão é que vamos saber.

          - Toni, se for só essa quantidade, tá explicado porque ninguém quis pegar. E pelo jeito você nem sabe o valor que ele vai nos pagar, sabe?

          - Ainda não.

          - Como é que você pega um negócio sem saber quanto a gente vai levar! Você está ficando gaga!

          - Ei, pega leve! Quer desistir? A gente sabe do valor e desiste em seguida, ok?

          - Vamos lá, Toni.

          - Quim, não vai se precipitar. O valor que vier, está bom. Pensa bem. Está vindo a calhar. Acho que caiu do céu. A gente não ia de carreta vazia? Então não reclama, tá? Aguenta aí firme que eu vou falar com ele. Sossega esse coração.

          - Mano, vamos torcer então para que tudo dê certo. Garrafa pet? É isso mesmo? Só você mesmo!  

                  Toni desce do caminhão e vai até ao escritório do empresário. Enquanto isso um empregado já começa, sem nem perguntar, a colocar os amarrados de garrafas dentro da carreta. Quim olha de cara emburrada para o funcionário e faz um esforço sobre humano para não engrossar com ele. Engoliu em seco a sua raiva momentânea, mas deu um soco no volante.   

                    A porta do escritório estava entre aberta, mas por educação Toni bate assim mesmo, porém levemente. Lá de dentro Honório manda-o   entrar. Toni respira fundo para espantar a tensão. Caminha com firmeza, querendo aparentar descontração, até ficar frente a frente com Honório. Depois senta-se numa cadeira em frente ao empresário, sem que este o convide. Em seguida cruza a perna e bate na bota para tirar um pouco de poeira esbranquiçada que cobria todo o couro. Depois desse pequeno ritual, sorrir amigavelmente para Honório, que não prestou atenção ou não viu.

          - Seu Honório, - pergunta aparentando calma - a nota está pronta?

          - A nota está aqui. – responde secamente Honório, esticando o braço e entregando lhe a nota fiscal - Procura Tadeu nesse endereço da entrega. Ele é a pessoa que vai te pagar.

          - Qual é o valor do frete?

          - Está escrito num papel junto com a nota fiscal.

                 Toni abre o envelope e encontra um papel dobradinho. Custou tanto abri-lo que parecia que estava com medo do que ia encontrar. Mal botou os olhos em cima do valor, fez uma torção na boca que demonstrou de cara a sua decepção. O seu Honório que estava atento comentou:

          - Pouquinho, né? Mas pode ficar à vontade, se não quiser, pode desistir.

          - Não é isso. O senhor falou também do seu amigo. Já confirmou com ele?

          - Não. Mas vou dar uma ligadinha agora. Espera um pouquinho.

Continua na Semana que vem! 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Pensamento de Poeta - Acreditando Sempre


 

Acreditando Sempre

- José Timotheo - 

Ter sentimentos

Ser sentimentos

Sem sentido

O ser sentindo

Pontos cardeais

Papais

Sem movimentos?

Estou no sul

O horizonte, está no norte

Acredito que desnorteado

Leste

Hoje o sol não deus às caras

Oeste

Faroeste

O sol tomba sangrando

Sem pessimismo

Onde o velório do homem?

No momento, só mais um tiro de meta

                                                  fim

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 31

 


Continuando...

            Toni desce do caminhão e vai ao encontro de um frentista, o mesmo que tinha abastecido o seu caminhão. Aproxima-se e toca no ombro do rapaz.

          - Meu irmão, - botando uma dose de humildade na voz – por gentiliza, você podia me dá uma informaçãozinha?

          - Oi, pois não.

          - Ainda agorinha eu falei com um senhor. Eu não sei o nome dele. Ele até me ofereceu uma carga. Você viu?

          - Vi sim. Eu conheço ele. É o seu Honório. Gente boa.

          - Ele foi embora?

          - Foi não. Ele foi lá para a lanchonete. Mesmo se ele já tiver saído, coisa que eu duvido, não tem problema, o galpão dele é aqui pertinho.

 

          - Valeu, meu irmão.

                Toni vai até o caminhão e fala com o irmão:

          - Aí Quim. Espera aqui mesmo e observa o garoto. Acho que não vou demorar. O cara está na lanchonete. Agora é só torcer.

           - Tudo bem, mano. Sucesso. Mas eu vou encostar o caminhão ali. – Apontando para a única vaga do lado da lanchonete.

                 Depois de conversar com o irmão, Toni se dirige para a lanchonete. Para na porta e passa os olhos pelas mesas. Observa que mais da metade está ocupada. Mas lá no canto, estava a pessoa com quem ele queria falar.  Entretanto a sua esperança estava em xeque. Imediatamente fez uma cara de desanimo, ao ver que o senhor conversava com um sujeito grandalhão, que, com certeza, era um caminhoneiro.

          - Que droga. - pensou - Perdemos a carga.

                Mas de repente uma chama brilhou nos seus olhos. Pensou novamente:

          - Não vou desistir. Essa é a nossa salvação. Vou lá. Se preciso for aceito até um valor menor.

                  E tomado de coragem e otimismo, se encaminhou, pisando firme, até onde está o tal senhor. Mas antes de se aproximar, o grandalhão se levantou e foi juntar-se a outra pessoa numa mesa afastada. Aí ele deixou escapar um leve sorriso e determinado, pede licença e senta-se na cadeira em frente ao seu Honório, que sorri e balança a cabeça afirmativamente. Toni então dá uma suspirada e, sem titubear, entra logo no assunto que o levou ali.

          - Seu Honório, eu aceito a oferta. Está de pé o que o senhor ofereceu?

          - Infelizmente já conversei com outro. Aquele caminhoneiro ali – apontando para uma mesa próxima – me disse que ia pensar. Se ele desistir, a carga é sua. O que fez você resolver pegar?

          - É. Nós mudamos nosso roteiro. Resolvemos passar por dentro de Palma.

          - Então, espera aqui. Qual o seu nome mesmo?

          - Toni. Antônio. Pode me chamar só de Toni.

          - Tá bom, Toni. Vou perguntar a ele.

         - Eu pensei que fosse aquele grandão.

         - Aquele é só meu amigo. De vez em quando, segurança.

         - É! O cara é forte, mesmo!

         - Fica aqui. Não senti muita firmeza nele, não. Disse que a grana é pouca.  O cara tá sempre querendo mais. É assim mesmo! Eu até falei pra ele que depois, de repente, arranjava outro frete para compensar esse.

         - E o senhor arranjou?

         - Falei com um empresário amigo meu, mas a mercadoria não está aqui, está no outro galpão dele a pouco mais de 20 km daqui. É só entrar nessa estrada aqui ao lado do posto e ir em frente. É uma estrada ruim, mas, devagar, dá pra ir bem. Uma vantagem para quem pegar, é que a carga dele vai pra perto, de onde vai a minha. As minhas garrafas pets tem que ir hoje e acho que a carga dele também. Dá pra levar as duas cargas, mole, mole.  Vai compensar.

        - Eu topo. Espero aqui a resposta.

               Toni estava visivelmente tenso, esfregava as mãos sem parar. Os pés, por debaixo da mesa, não paravam no mesmo lugar. Ele olhava discretamente para a mesa que estavam os caminhoneiros e Honório conversando, e tinha a sensação que o papo já estava demorando uma eternidade. Tentou esticar a orelha para ouvir alguma coisa, mas não conseguiu captar nada. Quando Honório apertou a mão dos dois e saiu, teve a sensação que o coração ia sair pela boca.  Procurou segurar a ansiedade e esperou sentado até que o empresário voltasse. Mas nem esperou que Honório se sentasse e foi logo perguntando:

          - E aí, seu Honório? Tenho chance?

          - Fica tranquilo. Eles queriam que eu pagasse mais, mas como eu não aceitei, eles desistiram.

          - Então é minha?

          - É só botar no caminhão.

          - E a nota fiscal?

          - Está tudo legal. Vamos pegar a carga lá no meu galpão, junto com a nota fiscal. É aqui perto. Pode me acompanhar?

          - Ah sim! Claro! A gente segue o senhor. E a outra carga?

          - Vou ligar para o meu amigo e você vai lá e pega a dele.

          - Ok. Já vou seguir o senhor.

 Continua na Semana que vem!