Continuando...
Toni soltou o cinto de segurança, para poder se virar para trás. Ajoelhou-se no banco e foi espiar o menino. Mal colocou olhos em cima da criança, ela se mexeu. Depois deu uma boa espreguiçada, para confirmar que acabara de acordar. Toni sorriu e comentou entusiasmado.
- Quim, acho que o garoto está acordando. Acho não, tenho certeza. Até se espreguiçou. Agora estou aliviado! – Toni diz com uma ponta de entusiasmo.
- Acordou? É mesmo? Puxa mano, já era tempo. É realmente um alívio. Assim fica a certeza que ele vai viver.
- Claro. Agora só falta ele abrir os olhos para completar a nossa esperança. Olha Quim! Acabei de falar e ele abriu os olhos no mesmo instante! – Toni falou emocionado - Oi menino, tudo bem? Você dormiu pra caramba. Meu coração está até disparou. Já nem sabemos mais o tempo que você está dormindo. Estou falando por mim e pelo meu irmão Quim.
- Oi rapazinho! – falou Quim, virando a cabeça rapidamente para trás – Parece que você dormiu por um ano! Caramba!
O garoto ainda sem saber em que lugar estava, olhou espantado para os dois e falou:
- Ainda estou com sono.
- Se quiser dormir mais um pouco, pode dormir. Né Quim?
- Claro. Puxa mais um ronco aí, que temos muita estrada pela frente. Sabe que nós descobrimos o seu nome? Você ainda não se lembra, não é?
- Não lembro de nada. Nem do meu nome.
- Quim, será que não vai confundir mais a cabeça dele, se você falar?
- Vai nada, Toni. Ele tem que saber. Menino o seu nome é Carlos. Ih esqueci o resto! Você se lembra, Toni?
- Lembro não. Agora me deu um branco. Nem sei se eu falei.
- Falou sim. Depois eu me lembro. Esse nome diz alguma coisa pra você, menino?
O menino ficou olhando para o alto, depois esfregou a ponta dos dedos na cabeça, parecendo que desfolhava o pensamento, e balançou a cabeça mais de uma vez.
- Não sei não. – disse quase sussurrando - Carlos? É um nome bonito. Eu gostei.
- Ei Toni, isso já é um bom sinal, você não acha? – Quim falou demonstrando otimismo.
- Vamos torcer. Vamos torcer. Até que você concordou comigo, hein mano!
Toni não contestou a colocação do irmão. Repousou a cabeça no encosto do banco, tombou-a para o lado e ficou em silêncio. Parecia cansado. Em poucos minutos já estava dormindo profundamente. Quim olhou para o irmão, balançou a cabeça e sorriu.
O menino também voltou para o seu soninho, depois de comer um pouco e beber um copo d’água, que Toni lhe dera. Só Quim permaneceu aceso na direção. Já dirigia há muito tempo e o silêncio começou a incomodá-lo. Olhou para o irmão e achou que estava na hora de acordá-lo, já que os seus roncos, mesmo que espaçados, estavam ficando irritativos também. Não sabia se o silêncio era mais chato do que o ronco do irmão. Ou o contrário. Como estava se sentindo incomodado, resolveu acorda-lo. Só que Toni, parecendo que tinha adivinhado, despertou antes que o irmão chamasse por ele.
- Ué Quim, acho que apaguei. Já andamos muito?
- Se andamos muito? Bota muito nisso. Daqui a pouco escurece.
- Já?
- Mais ou menos. Acho que você está de olho fechado.
- Que de olho fechado, o quê! Mano, você deve tá é cansado. Vamos dar uma paradinha, aí depois eu vou pra direção.
- Mas não tem nenhum posto por perto. Acredito que em menos de uma hora possamos encontrar um.
- Qual o problema? A gente para agora e depois para de novo no posto. Quim, é só pra gente esticar um pouquinho às pernas. E, claro!, dar uma chegadinha no mato. Depois a gente come uns salgadinhos que comprei e toma um cafezinho. Você nem viu quando eu comprei os salgadinhos e enchi a garrafa de café. Foi na saída que lembrei. Comprei também pro garoto, pro lanche dele. Ele comeu tão pouco a quentinha, pode ser que abra o apetite pro lanche.
- Olha só, mano. Acordou também. E aí Carlos, está com fome? Ei menino, estou falando com você. Se liga, o seu nome é Carlos!
- Moço, eu estou com fome sim. Mas também eu quero ir ao banheiro.
- Meu nome não é moço. Meu nome é Quim. E o meu irmão é Toni. Gravou?
- Quim e Toni.
- É isso aí. Mas agora o banheiro que você vai, é no mato. No momento, é só esse banheiro que a gente tem. Mas pode ficar tranquilo que temos papel higiênico aqui.
- Não preciso de papel não. Só vou dar uma mijada.
- Quim, eu pensei que ele fosse falar xixi. O cabra falou forte: vou dar uma mijada! E eu vou também.
- Vai mijão! Olha lá Toni, não vai pegar o meu banheiro não! O meu é da esquerda! Ei, deixa eu parar primeiro. Não quero ser responsável pela morte de um velhinho, não.
- Engraçadinho. Você acha que a gente ia se jogar? Aí menino, vai se acostumando com as gracinhas do meu irmão. Ele é assim mesmo: um palhação.
- Palhação, uma ova! Vamos lá, parei! Viu só? Você não precisou de descer do caminhão em movimento. Acho melhor eu te pegar, porque você não está em idade para descer sozinho de um caminhão. Não é velhinho?
- Velhinho é uma ova! Vamos descer logo, antes que eu mije na calça!
Continua Semana que vem!


