sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Pensamento de Poeta - Respeito, é a palavra

 


 Respeito, é a palavra

 - José Timotheo -

 

                  Éramos três amigos olhando para o mar, isso logo depois de uma partida de vôlei. Saquei uma cerveja da minha mochila e ofereci: já houve a primeira discordância. Balançaram a cabeça em sinal de negação e cada um pegou a sua preferida. Enquanto conversávamos, dei uma esticada de olhos para o céu. Tinha muitas nuvens, mas não eram nuvens para chuva. Percebi que o céu estava desenhado. Descobri uma das nuvens com formato de cavalo. Arrisquei, claro dando uma pincelada no tom de laranja, que era um lindo cavalo alazão. Pintei a nuvem do meu jeito. Depois cutuquei o amigo ao meu lado e apontei para a tal nuvem e perguntei o que ele via. Ele olhou, sorriu e disse, sem titubear: um camelo. Não! Não! Um dromedário. Olhei meio assustado com a sua visão. Perguntei se tinha certeza. Confirmou com um sorriso de boca inteira. Fiquei abismado com aquela visão.

                  O tempo estava bem calmo, nenhum vento. Olhei de novo e lá estava o meu cavalo no mesmo lugar. O outro colega já estava olhando para o céu e me perguntou o que estava havendo. Apontei para cima e fiz a mesma pergunta que fizera para o outro. Ele olhou, virou a cabeça de um lado para o outro, não sei porque fez isso, e disse na lata: um coelho. Com essa agora, fiquei assustado. Um coelho? Mas como um coelho? Insisti e a resposta não mudou. Olhei para os dois e lá estavam eles olhando para os seus animais nas nuvens. Como pode isso? Me perguntei. Três pessoas olhando para um mesmo lugar e vendo coisas diferentes. Olhei para os dois, que continuavam mirando o céu, e estavam com os olhares de felicidade. Dirigi, em silêncio, os meus olhos também para o meu cavalo alazão, que pintara em silêncio. E fiquei embevecido, até que um vento desmanchou a minha visão.

                  Três pessoas diferentes, visões diferentes, olhares diferentes, sentimentos diferentes, mas amigas. A amizade é isso, respeito. Cada um respeitou o que o outro enxergou. É isso que está faltando para o mundo: respeitar a opinião alheia, mas conservando a sua. O seu amigo não pode ser seu inimigo, só por causa de uma opinião que amanhã, quem sabe, não será a mesma, porque o mundo muda e consequentemente nós também. Estamos num planeta em evolução e cada um está na sua faixa de crescimento. Ninguém sabe qual a opinião, no momento, é a mais certa. Às vezes é preciso levar uma topada, para podermos aprender a caminhar com cuidado num chão pedregoso.

                  Cultivar a amizade, é muito mais importante do que querer impor a sua opinião e perder um amigo. Tudo passa, mas o amigo fica guardado no coração.

                                                                   - Fim -

 

Obs. Desejo para que cada um que me acompanha, faça a sua escolha, neste domingo, e que a escolha da maioria possa ser a certa e, com isso, fazer o Brasil ficar no lugar que merece: um país próspero e feliz.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 46

 


Continuando...

         Toni bota a mão na boca e fala baixinho para o irmão:

         - E agora Quim?

           Quim com presença de espirito arranja uma saída:

         - Senhor Tadeu, a gente vai precisar do caminhão.

         - Pra quê?

         - Pegamos um pequeno frete lá no posto. Sabe, o valor que o senhor vai nos pagar com esse frete é baixinho. Aí depois que a gente fizer o serviço, trazemos o caminhão de volta. É só pra engordar um pouquinho o bolso.

        - Falando em frete, tá aqui o dinheiro. – esticando a mão com um envelope e entregando a Toni. Agora não estava nos meus planos vocês pegarem outro frete. É pra longe?

        - Não. O cara falou que é coisa de uma hora pra ir e outra pra voltar.

        - Então está bem. Sem problemas. Só que eu quero o caminhão aqui, no máximo, às nove horas. A saída de vocês não deve passar das quinze horas. Não pode passar desse horário de jeito nenhum. Certo?

        - Claro. Claro. Sem problema algum. Podemos ir? – disse Quim, engolindo a saliva acumulada na boca. 

        - Podem. Mas não esqueçam do horário.

        - Pontualidade britânica! – falou Toni, com um sorriso de orelha a orelha, tentando esconder o nervosismo que já deixava a sua perna tremendo um pouco.

           Despediram-se de Tadeu e dirigiram-se para o caminhão. Entraram em silêncio, ligaram o veículo e em baixa velocidade, quase se arrastando, foram em direção ao portão. Quim então comentou com o irmão, entre dentes:

          - Toni essa foi na trave. Eu pensei que a gente fosse se ferrar. 

          - Mas graças a Deus você teve uma saída de mestre. Quim, essa você fez um golaço.

          - Nem sei como eu inventei aquela história. Mas o importante é que deu certo.

            Enquanto conversavam, o menino se mexeu e ia tirando a lona de cima, quando Quim viu e colocou o braço em cima e falou mais baixo ainda:

           - Ei garoto, não bota a cara pra fora não. Fica aí escondidinho como ficou até agora. Já estamos quase saindo do galpão.

                 Depois comentou com o irmão:

           - Toni, estamos com muita sorte. Como é que eles não olharam aqui dentro?

           - Sei lá. Estou achando que é muita sorte mesmo. Muita sorte assim, até santo desconfia.

          - Toni, muita sorte assim até santo desconfia? Essa é demais. Vamos andando para que a sorte não mude.

          - Vira essa boca pra lá, Quim! Eu hein! A sorte vai continuar com a gente!

            No dia seguinte, Toni chegou às oito horas e quarenta e cinco minutos. Tadeu com os seus funcionários já estavam circulando tanto pela parte externa como pela interna do galpão. O portão já estava aberto e Toni foi entrando com o caminhão sem pedir permissão. Apenas um dos funcionários indicava onde deveria estacionar e ele fez tudo como o indicado.

           Ele desceu do caminhão e foi em direção de Tadeu, que o esperava com um sorriso nos lábios. Quando Toni chegou ele esticou a mão e cumprimentou-o. Depois falou com um pouco de entusiasmo:

          - Gostei, gostei muito! Gosto de gente assim: pontual! Tudo leva a crer que vamos nos dar muito bem! Como foi o extra ontem?

          - Levamos um bolo.

          - Como foi isso?

          - Não foi bem um bolo, na realidade. O que aconteceu é que o fazendeiro, segundo ele disse, o seu caminhão tinha sido consertado. Aí o extra foi pro brejo. Não era muita coisa, mas é sempre bem-vindo qualquer um trocado.

           - Mas não tem problema. Essa carga que você vai transportar vai render um troco muito bom. A nossa parceria vai ser lucrativa, você vai ver só, Toni. E o seu irmão, não veio?

          - Ele disse que ia descansar um pouco. Sabe como é que é, tomou umas cervejas a mais e agora está lá encarando um bode.

          - É assim mesmo. Uma cerveja geladinha sempre desce bem. Mas se passar do limite, o bicho pega.

         - É isso aí, seu Tadeu.

         - Toni, deixa o caminhão aí e volta às duas e trinta. Tudo bem?

         - Sem problema. Voltamos mais tarde. Até mais ver.

         - Até mais. Não se atrase!

         - Pode deixar. Pode deixar.

         - Espera aí, Toni. Lino, leva ele até o hotel.

         - Precisa não, seu Tadeu é pertinho. Tô precisando caminhar um pouquinho. Estou todo travado. E o que vamos ficar sentados ainda, - puxa! - vai amassar a gente todo! Por isso tenho que me esticar. E não precisa se preocupar, duas e trinta estarei aqui.

 Continua na Semana que vem!

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Pensamento de Poeta - Delirando

 

 

Delirando 
 -  José Timotheo -

Acordei

Motel sem categoria

Há elos entre o amor e o ódio

Ligações entre bregas canções

E solfejos clássicos

As canções muito usadas

Vão impregnando a minha alma

Com a tirania do sucesso

Massificação de holofotes

Paralisando o bom gosto

Não acordei

Mas assei o meu despertar

Junto com o despertador

E afoguei o meu celular

Na xícara de café

Tudo dentro da ética

Do acordar saudável

Mas brigo com o sol do abajur

É uma Invasão da minha manhã

Com certeza

Agora não aposto mais no sono

Dormi?

Não sei responder

Mas arrisco um olhar para o leito

Lá está ela enroscada nos lençóis

Deixando a minha imaginação

Ver as suas formas

Desenhadas como ondas

Nas areias no deserto  

Eu não abri outra garrafa

Sem certeza do ato

Então apago o cigarro que não fumei

Eu não fumo

Ela continua enrolada no lençol encardido

Eu então deitei debaixo da cama

                                                 fim

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 45

 


Continuando...

        Quim desceu com o caminhão ainda em movimento, demonstrando muita ansiedade. Toni até sorriu com o pulo dado pelo irmão, que pisou no asfalto meio desequilibrado. Mas do jeito que desceu rápido, voltou mais rápido ainda. Toni comentou:

          - O que é isso mano? Calma! Parece que vai tirar o pai da forca!

                  Quim fez uma careta e entrou no caminhão num pulo.

          - Mano, o cara falou pra gente -  deu uma respirada - entrar na segunda rua à direita, depois entrar na terceira à esquerda. Disse que é um galpão logo na esquina.

          - Então vamos lá, Quim. Mas fica calmo. Calmo, tá?

          - Estou calmo, mano. Só um pouco ansioso. Um pouquinho agitado.

                  Toni vai fazendo o percurso que o borracheiro indicou. Não demorou quase nada, pois em mais ou menos cinco minutos já estavam no destino, local que foi logo avistado por Quim, que demonstrando ansiedade falou:

          - Mano, mano!  É ali! Olha só! É ali!

          - Calma, Quim. Então, vou parar bem em frente daquele portão.  Você faz, como fez lá no posto: vai num pé e volta no outro. Mas não se esqueça de apertar a campainha.

          - Tudo bem, engraçadinho. Mas pra eu voltar rápido, tenho que ser atendido rápido. Você não acha? Vou apertar a campainha e esperar. - termina a frase e faz uma careta para o irmão – Agora falando sério. Mano bateu uma coisa aqui na minha cabeça. Uma cisma.

          - Qual é a cisma?

          - Sei lá se é realmente cisma. Mas eu só sei que temos que manter o garoto escondido. Só isso. Alguém assoprou aqui no meu ouvido. E olha só: mais de uma vez.

          - Isso é coisa de fantasma, Quim.

          - Que fantasma nada! Tudo pra você agora é para-normalidade!

          - Estou brincando, mano.  Está bom, mas vai logo lá. Deixa que eu falo com o menino.

          - Trata disso. Estou indo.

                  Toni olha para o menino, que estava deitado de lado, e fala em um tom um pouco ríspido:

          - Olha só menino! Não podemos arriscar! Não vai entornar o caldo, tá legal? Se cobre aí pra ninguém te ver! Não pode falar, não pode tossir, não pode fazer nada! Se tiver que fazer xixi ou coco, faz na calça! Mas não sai daí! Você tem que ficar escondido! Nós prometemos que vamos entregar você ao seu pai e vamos cumprir! Mas também tem que ter a sua cooperação! Está entendido?

               O garoto se virou, deu um sorriso, se cobriu e se virou para o outro lado novamente. Nisso Quim já estava retornando. Tinha apertado à campainha, mas ninguém tinha atendido. Entrou na cabine e quando ia falar o que tinha acontecido, o irmão disparou:

          - Ih Quim! O portão agora está se abrindo!

          - Então mano, entra direto!

          - Já estou indo.

                 Quando iam embicando o caminhão, surgiu um rapaz, aparentando uns vinte e cinco anos, que levantou a mão direita sinalizando para que parassem. Toni pisou rapidamente no freio parando o caminhão. Em seguida ouviu quando o rapaz gritou para outra pessoa:

          - Diba! Avisa ao patrão que a mercadoria chegou!

          - Lino, já avisei! – respondeu o amigo - Ele mandou o caminhão entrar e disse que não demora!

          - Tudo ok.

          - E disse pra levar os dois lá pra cozinha. Serve alguma coisa pra eles comerem, que devem estar cheios de fome.

          - Já entendi.

                 Toni entra com o caminhão e para no pátio. Em seguida desce ele e o irmão e seguem o funcionário Lino, até um pequeno refeitório. Enquanto fazem uma refeição leve, oferecida por Lino, chega o patrão, que olha para eles, dá um sorriso e pergunta:

          - Tudo bem? – e continua – Já olhamos o caminhão e a carga chegou intacta. Muito bom trabalho. Gostei do tempo de entrega. Soube até que tiveram uns imprevistos. E que só estava um no caminhão.

          - É. Foi isso mesmo. O meu mano, Quim, teve um probleminha de saúde, mas conseguiu ficar bem e deu tempo de encontrar comigo. O tempo que fiquei na Patrulha Rodoviária, foi o suficiente para ele pegar uma carona e ir me encontrar. Acabou dando tudo certo. Ele chegou primeiro do que eu. Como é bom o celular, pra certas horas, né?

        - É. O senhor então é Toni?

        - Sim, sou eu. Prazer. – esticando a mão para cumprimentar – O senhor deve ser Tadeu.

          - Sim, sou eu. O Honório me falou que você estava querendo carga para o Acre, é isso mesmo?

          - Sim senhor. Será que o senhor arranja alguma coisa pra gente?

          - Claro Toni! Um pedido de Honório é uma ordem! Temos pra amanhã à tarde. Topam?

          - Claro! Não é Toni? – falou Quim, nem esperando que o irmão respondesse ao Tadeu.

          - É tudo que a gente precisa. – respondeu Toni, com um sorriso de canto de boca.

         - Então vocês podem deixar o caminhão aqui mesmo. Logo cedo a gente carrega ele.