Continuando...
Enquanto Quim falava com o menino, Toni retornou para a boleia do caminhão. Chegou e ficou olhando o irmão tentar trocar algumas palavras com o menino, mas percebeu que o garoto só olhava e não esboçava qualquer reação às suas palavras. Sugeriu então que o pegasse e descesse com ele para o asfalto. Então Quim fez o que o irmão sugeriu.
Já no acostamento, os três em pé, olhavam para o nada em total silêncio. Quim, demonstrando certo nervosismo, começou a andar de um lado para o outro. Já Toni voltou os seus olhos para o menino e percebeu que ele estava estranho, pois balançava o corpo de um modo esquisito e mantinha os olhos perdidos no horizonte, sem sequer pisca-los. Imediatamente sinalizou para o irmão, pedindo para que se aproximasse. Quim olhou o garoto e também constatou que ele se comportava estranhamente.
- Toni, será que é a fome que pode estar causando isso? – comentou quase sussurrando - Parece que estar bem fraquinho. – diz colocando a mão de um lado da boca.
- Será? Quim ele tá muito estranho. Ele pode também estar tonto. Segura o braço dele. Não larga não, senão ele pode cair. Coitadinho, está fraquinho mesmo. Mano, vou fazer um cafezinho pra gente.
- E você vai dar um cafezinho pra ele? Ele tem é que comer!
- Qual é o problema Quim? Isso pode reanima-lo. E a gente também está precisando. Depois daquela confusão toda, um café não vai bem? Pega uma barra de cereais pra ele forrar o estômago.
- Toni, tá legal. Eu vou pegar. Você venceu. Mas a história do cafezinho quer dizer que você não sabe o que vai fazer com ele, não é?
- Você sabe... Ah Quim! Você está embananado também! Pelo menos com o café, a gente pensa, né? Mas o garoto não está nada bem. Isso me preocupa.
- É mesmo. Eu já pensei, Toni.
- Pensou? Pensou em quê?
- O que eu falei antes.
- E você falou o quê? Eu não me lembro.
- Eu sempre tenho que repetir tudo pra você, Toni? Eu falei que era só perguntar ao garoto aonde ele mora e pronto. Aí tá tudo resolvido. Entregamos ele ao pai e pronto.
- Pronto. Pronto. E o que é que tem isso com a tonteira do garoto?
- Com a do garoto nada, mas com a nossa, sim.
- Quim, que tonteira nossa?
- E você não está tonto? Claro que estamos tontos! Não sabemos o que fazer! Mas pensando um pouquinho, eu acho que a situação não é tão caótica assim.
- Como não é difícil? Ah! É! Fácil assim? Você esqueceu que a mulher falou que o garoto mora no Acre? Por um acaso você sabe aonde nós estamos?
- Claro Toni. Claro. E qual é o problema?
O irmão olha-o com a cara de quem não está acreditando no que ouvia. Deu um muxoxo e sorriu um sorriso sem graça.
- Você é engraçado. Tem situação que eu apresento pra você – às vezes pequenininha -, aí você transforma num problemão. Bota às maiores dificuldades. Arranja justificativas inimagináveis.
- Gostei disso que você falou: inimagináveis! – interrompeu-o, Quim - Mano, tá letrado!
- Tá de gozação? Você pensa que eu não estudei? A gente convivendo na estrada, por tantos e tantos anos, acaba aprendendo o linguajar de várias regiões do Brasil.
- Estudou o quê? Não saiu do primeiro grau. E o que que essa palavra tem a ver com o linguajar de várias regiões do Brasil?
- Quim, não enche! Quem te disse que fiz só o primeiro grau? Deixa disso! Agora me deixa concluir o que eu estava falando? Veja só. Nesse momento estamos com um problemão, mas você acha que não é nada demais. Acorda mano! Quim, nós estamos na Bahia!
- Toni, você não entendeu o meu ponto de vista.
- Que ponto de vista? Você não me apresentou nada.
- Escuta só. Eu não estou falando de distância, mano. Estou falando da situação. Presta atenção. A coisa é simples. É só pedir ao garoto o telefone dos pais dele. Aí...
Continua Semana que vem!


