Continuando...
Toni, esperançoso, deixou aflorar um leve
sorriso e respondeu:
- Nós
estamos na Bahia. Isso diz alguma coisa pra você?
- Bahia? E aonde é a Bahia?
- Você não sabe não? – perguntou Quim, com uma
expressão de incredulidade.
- Sei
não. Nunca ouvi falar. – respondeu o menino, com uma entonação de tristeza.
-
Você é do Acre, não é? – Quim colocou uma entonação na voz, como se o menino
estivesse num interrogatório. Toni percebeu o tom de voz do irmão e
recriminou-o:
- Ei Quim. Vai devagar. Parece que você está
interrogando um prisioneiro. É só uma criança que quase morreu. Não esqueça. E
ela não matou ninguém.
- Ei Toni! Também não é assim! Eu só fiquei ansioso
na hora de perguntar!
- Olha
só como ele está assustado. Tadinho.
- Tá
legal. Foi mal. Menino pode responder com tranquilidade. Nós somos amigos. Vou
te perguntar de novo: você não é do Acre?
A criança demorou um pouquinho para
responder. Não se sabe se realmente ele ficou assustado com a inquirição de
Quim, mas finalmente respondeu:
- Nunca ouvi falar.
- Mano, - falou Toni, baixinho para o irmão -
ele nunca ouviu falar na Bahia e nem no Acre. Pro tamanho dele, já era pra
saber. Será que ele está com algum problema na cabeça?
Quim usando o mesmo tom de voz do irmão,
respondeu:
- Não sei não, mano. Será que ele está com
magnésia?
- Amnésia, você quis dizer.
- É isso mesmo. Só estou nervoso. Você sabe
que quando fico nervoso, não penso direito. Mas mano, não precisa ficar me
corrigindo toda hora! Parece até que não estudei! Para com isso!
- Quim, a minha intenção não foi fazer
troça. Mas, olha lá o remédio que você toma para o estomago. Tá lá escrito:
leite de magnésia. Essa deve ter sido a confusão. – termina de falar e sorrir.
- Tá rindo de quê?
- Nada. Nada. Menino, qual o seu nome?
- Meu nome? – ficou em silêncio, enquanto os
irmãos esperavam ansiosos pela sua resposta.
- Não sei. – falou depois de quase um minuto em
silêncio - Não sei quem eu sou. Estou com a cabeça doendo.
- Chi Quim! Agora que o bicho vai pegar! Olha
a cabeça dele!
- Só tem um galinho. Nada demais. Será que
ele está com aquilo que falei errado?
- Acho que sim, Quim. O garoto está com
amnésia.
- Toni, agora é que a coisa vai ficar preta.
Só vejo problema pela frente. O que é que a gente vai fazer? A gente vai se
ferrar em verde e amarelo!
- Calma mano.
- Calma? Como ficar calmo?
Depois
dessa pergunta, que Quim não obteve resposta de Toni, ficaram, em boca miúda,
tentando encontrar alguma saída. Falavam tão baixo que se podia ouvir uma mosca
voando. O que diziam dentro de cada orelha, ninguém poderia saber. A discussão
ocorreu em segredo de estado. Em dado momento pararam os cochichos. Cada um
ficou de um lado da criança. Pelas caras conclui-se que não chegaram a nenhuma
solução do problema.
Toni olhava para a criança, e era claro
que sabia que estavam num beco sem saída. Ele coçou a cabeça, passou os dedos
no bigode, se esticou, tossiu uma tosse nervosa e depois demonstrou uma
expressão de que tinha tomado uma decisão. O irmão achou que ele finalmente
tinha encontrado uma solução. Deixou até escapar um sorriso leve, fazendo par
com um olhar que beirava a emoção. Só que Toni só fez a sua mise-en-scène e
ficou por ali mesmo, calado sem saber o que fazer. Quim então, já tirando do olhar
a esperança, falou ríspido:
- Pô Toni! Você fez uma presepada danada,
parecendo que tinha descoberto o que tinha nascido primeiro, o ovo ou galinha e
no fundo, queria só aparecer!
- Eu aparecer? Você parece que não me conhece
nada. Nós falamos um no ouvido do outro e não chegamos à conclusão nenhuma.
Como de repente eu encontro uma solução? Você está viajando, Quim! Olha só o
garoto. Ele deve estar achando que os salvadores dele são dois malucos.
- O maluco, com certeza, não sou eu. Me
tira dessa, Toni. Olha só. Você é o líder.
- Agora eu sou o líder, Quim? Você é muito
engraçado. Então está bem. Vamos ver se o menino nos ajuda.
Continua Semana que vem!