terça-feira, 21 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 36

 


Continuando...

        Quim desce primeiro do caminhão, às gargalhadas, zombando do irmão. Toni acabou rindo também. Só o menino é que continuou sério. Nenhum dos dois comentou a cara sisuda do menino. Toni apenas, orientou o garoto a urinar em cima do mato.  Aí o garoto questionou:

          - Por quê?

          - Quim por quê?

          - E eu sei lá! Foi você que falou!

          - Deve ser então pra gente urinar bem longe? Urinar no acostamento não é legal. É isso, né mano?

          - Você tá certo, Toni. Tem que ensinar a coisa correta.

                  Aí acabam os três urinando um ao lado do outro, forçando quem lançava o jato de urina mais longe. Para surpresa dos irmãos, o garoto urinou mais distante. Quim olhou para Toni e comentou baixinho:

          - Porra, mano! Até no mijo à distância o garoto ganha da gente!

          - O que se há de fazer? O garoto mija muito! Temos que exercitar mais, Quim. Ele é apenas um menino e a gente já está mais para velho.

         - Velho, só se for você. Eu ainda sou um jovem, esqueceu? Você tem idade até para ser meu pai.

          - Essa é demais, Quim. Idade para ser seu pai? Sei que tenho uns aninhos a mais que você. Até aí, tudo bem.  Agora, ser pai de um burro velho, está muito longe. Mano, tenho que rir com os seus desvarios.

                   O irmão apenas dá um muxoxo, mas não procura alimentar aquela conversa que, com certeza, não ia chegar a lugar algum. Então mudando o curso da conversa, prefere falar sobre o menino.

          - Mano, estou achando o menino com cara de fome. Oferece a ele alguma coisa para comer.

                   Toni percebeu a tática do irmão, deu um sorriso discreto e não levou o assunto adiante, para não o deixar constrangido ou talvez magoado.  Aceitou então a sua sugestão.

          - Carlos, vamos fazer uma boquinha?

          - Boquinha? O que é boquinha? Por um acaso é uma boca pequena?

          - Não. É só uma forma de dizer. Estou te convidando pra comer um pouquinho. Eu estou com fome e acho que você também deve estar. Acertei?

           - Estou com fome sim. Mas depois a gente pode brincar um pouquinho?

           - Brincar de quê? Se for daquela brincadeira, estou fora. Perdi todas. E nem de mijo à distância eu brinco mais. Você não dá chance pra gente.

           - Puxa Toni, brinca um pouquinho com ele. Coitadinho. – Quim termina de falar e deixa uma gargalhada no ar.

          - E vai sobrar pra mim? Tô fora! Joga você!

          - Toni, eu vou continuar no volante. Você precisa descansar. E não tem coisa melhor do que se distrair, jogando com o menino.

          - Quim, você é engraçadinho. Mas vou topar o desafio. Só estou cansado, mas sem sono. Então menino, vamos jogar? Vou deixar claro:  só se for porrinha. Quim, esse garoto é adivinho ou sei lá o quê. Mas dessa vez, vou ganhar.

          - Quero ver. Quim já podemos ir? Está faltando pouco pra gente entrar em Tocantins. Vamos encarar o Posto da Patrulha Rodoviária e, se não me engano, tem também dois postos fiscais, um em cada estado, da Secretaria de Fazenda.

          - É isso aí. Mas não estou preocupado com os fiscais, estou preocupado com os policiais. Corrigindo: os falsos policiais. Esses sim a gente tem que ter cuidado. Vamos fazer mágica para esconder o garoto. Se encontrarem ele, vamos ser acusados de sequestro. Vamos pagar o pato, com certeza.

           - Só se formos pegos por policiais verdadeiros. Os falsos serão capazes de darem cabo da gente e pegar o garoto. Quim, a gente vai conseguir. Fé em Deus. Vamos indo?

           - Ei menino! Vamos? Sobe lá. Sobe lá. Se quiser dormir mais um pouquinho, pode deitar. Depois que você descansar, voltamos a jogar. Agora não dá. Fiquei preocupado com a nossa situação.

Continua Semana que vem!

 

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 35

 


 Continuando...

                  Toni soltou o cinto de segurança, para poder se virar para trás. Ajoelhou-se no banco e foi espiar o menino. Mal colocou olhos em cima da criança, ela se mexeu. Depois deu uma boa espreguiçada, para confirmar que acabara de acordar. Toni sorriu e comentou entusiasmado.

          - Quim, acho que o garoto está acordando. Acho não, tenho certeza. Até se espreguiçou. Agora estou aliviado! – Toni diz com uma ponta de entusiasmo.

          - Acordou? É mesmo? Puxa mano, já era tempo. É realmente um alívio. Assim fica a certeza que ele vai viver.

          - Claro. Agora só falta ele abrir os olhos para completar a nossa esperança. Olha Quim! Acabei de falar e ele abriu os olhos no mesmo instante! – Toni falou emocionado -  Oi menino, tudo bem? Você dormiu pra caramba. Meu coração está até disparou. Já nem sabemos mais o tempo que você está dormindo. Estou falando por mim e pelo meu irmão Quim.

          - Oi rapazinho! – falou Quim, virando a cabeça rapidamente para trás – Parece que você dormiu por um ano! Caramba!

                  O garoto ainda sem saber em que lugar estava, olhou espantado para os dois e falou:

          - Ainda estou com sono.

          - Se quiser dormir mais um pouco, pode dormir. Né Quim?

          - Claro. Puxa mais um ronco aí, que temos muita estrada pela frente. Sabe que nós descobrimos o seu nome? Você ainda não se lembra, não é?

          - Não lembro de nada. Nem  do meu nome.

          - Quim, será que não vai confundir mais a cabeça dele, se você falar?

          - Vai nada, Toni. Ele tem que saber. Menino o seu nome é Carlos. Ih esqueci o resto! Você se lembra, Toni?

          - Lembro não. Agora me deu um branco. Nem sei se eu falei.

          - Falou sim. Depois eu me lembro. Esse nome diz alguma coisa pra você, menino?

                  O menino ficou olhando para o alto, depois esfregou a ponta dos dedos na cabeça, parecendo que desfolhava o pensamento, e balançou a cabeça mais de uma vez.

          - Não sei não. – disse quase sussurrando - Carlos? É um nome bonito. Eu gostei.

          - Ei Toni, isso já é um bom sinal, você não acha? – Quim falou demonstrando otimismo.

          - Vamos torcer. Vamos torcer. Até que você concordou comigo, hein mano!

                  Toni não contestou a colocação do irmão. Repousou a cabeça no encosto do banco, tombou-a para o lado e ficou em silêncio. Parecia cansado. Em poucos minutos já estava dormindo profundamente. Quim olhou para o irmão, balançou a cabeça e sorriu.

               O menino também voltou para o seu soninho, depois de comer um pouco e beber um copo d’água, que Toni lhe dera. Só Quim permaneceu aceso na direção. Já dirigia há muito tempo e o silêncio começou a incomodá-lo. Olhou para o irmão e achou que estava na hora de acordá-lo, já que os seus roncos, mesmo que espaçados, estavam ficando irritativos também. Não sabia se o silêncio era mais chato do que o ronco do irmão. Ou o contrário. Como estava se sentindo incomodado, resolveu acorda-lo. Só que Toni, parecendo que tinha adivinhado, despertou antes que o irmão chamasse por ele.

          - Ué Quim, acho que apaguei. Já andamos muito?

          - Se andamos muito? Bota muito nisso. Daqui a pouco escurece.

          - Já?

          - Mais ou menos. Acho que você está de olho fechado.

          - Que de olho fechado, o quê! Mano, você deve tá é cansado. Vamos dar uma paradinha, aí depois eu vou pra direção.

          - Mas não tem nenhum posto por perto. Acredito que em menos de uma hora possamos encontrar um.  

          - Qual o problema? A gente para agora e depois para de novo no posto. Quim, é só pra gente esticar um pouquinho às pernas. E, claro!, dar uma chegadinha no mato. Depois a gente come uns salgadinhos que comprei e toma um cafezinho. Você nem viu quando eu comprei os salgadinhos e enchi a garrafa de café. Foi na saída que lembrei. Comprei também pro garoto, pro lanche dele. Ele comeu tão pouco a quentinha, pode ser que abra o apetite pro lanche.

          - Olha só, mano. Acordou também. E aí Carlos, está com fome? Ei menino, estou falando com você. Se liga, o seu nome é Carlos!

          - Moço, eu estou com fome sim.  Mas também eu quero ir ao banheiro.

          - Meu nome não é moço. Meu nome é Quim. E o meu irmão é Toni. Gravou?

          - Quim e Toni.

          - É isso aí. Mas agora o banheiro que você vai, é no mato. No momento, é só esse banheiro que a gente tem. Mas pode ficar tranquilo que temos papel higiênico aqui.

          - Não preciso de papel não. Só vou dar uma mijada.

          - Quim, eu pensei que ele fosse falar xixi. O cabra falou forte: vou dar uma mijada! E eu vou também.

          - Vai mijão! Olha lá Toni, não vai pegar o meu banheiro não! O meu é da esquerda! Ei, deixa eu parar primeiro. Não quero ser responsável pela morte de um velhinho, não.

          - Engraçadinho. Você acha que a gente ia se jogar? Aí menino, vai se acostumando com as gracinhas do meu irmão. Ele é assim mesmo: um palhação.

          - Palhação, uma ova! Vamos lá, parei! Viu só? Você não precisou de descer do caminhão em movimento. Acho melhor eu te pegar, porque você não está em idade para descer sozinho de um caminhão. Não é velhinho?

          - Velhinho é uma ova! Vamos descer logo, antes que eu mije na calça!

 Continua Semana que vem!

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Pensamento de Poeta - Dom Pixote e as Manchas




 

Dom Pixote e as Manchas

- José Timotheo - 

Há de haver saída

Desse labirinto secular

Pintaram portas e janelas

Num concreto armado

Ilusão

Amassaram sonhos

E trançaram as esperanças

Feito ferragens

O concreto da ignorância

Endurece a vida

Sem salva-vidas

Sem mar, sem ar, sem som

Borbulhas

Dá o tom, maestro

Só notas sem melodia

Carregam malas

Viagens, mudanças

E a gente dança

Sem salão de festas

Só testas de ferro

Onde a riqueza da minha terra?

Nos deixaram a pirita

Que não mata a fome

Mas a fome mata

Somos tolos

Socorro

Infelizmente só temos um

Dom Pixote

Que nem temos mais

Sem defesas

Sem pão

Sem mesa

Esperando, esperando

É aqui a minha terra?

Será que aterrissei em aeroporto errado?

                                            fim