terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Filho do Poder - Parte 38

 


Continuando...

        Toni procura manter-se o mais calmo possível, até chegar próximo do policial que sinaliza para que ele encoste a carreta. Toni então ligou a seta e saiu da fila. Parou e esperou o patrulheiro chegar. Sabia que ia ter que descer, mas as suas pernas não estavam ajudando muito. Com a chegada do policial, deixou aflorar um leve sorriso e perguntou:

          - Algum problema, patrulheiro? Quer que eu desça?

          - Sim, desça por favor. – respondeu, mas ainda foi até a frente do caminhão e olhou mais uma vez o número da placa, como se tivesse se certificando da numeração. Em seguida gritou para o colega:

          - Ivan, a placa confere!

                 O colega veio rapidamente, liberando todo o transito, e foi logo falando:

           - Ferreira, dá uma geral! Vira, se preciso, o caminhão de cabeça pra baixo!

           - Deixa comigo!

            Toni, não conseguindo mais segurar a ansiedade, se dirige para o patrulheiro Ivan:

           - Está pegando alguma coisa, senhor? Estou com a documentação toda certinha, aqui comigo. Está aqui, dá uma olhada. Meus documentos também. Está tudo em ordem.

           - Está nervoso? – perguntou o policial Ferreira.

           - Não. Claro que não. Eu só fiquei preocupado quando o seu colega disse que ia virar o caminhão de cabeça pra baixo.  

           Os policiais não responderam nada, apenas abriram as portas da carreta e olharam para dentro da cabine. Depois o policial Ferreira entrou e olhou atrás dos bancos. Como não tinha achado nada de importante, acenou para o amigo Ivan, que imediatamente mandou Toni abrir a carroceria. Ele pegou a chave, mas antes de abri a porta entregou a nota fiscal ao policial, que arregalou os olhos ao ver o nome que estava lançado. Em seguida gritou para o amigo:

           - Ferreira, vem cá. A mercadoria é de Honório. A carga está sempre batendo com a nota fiscal. Pelo que eu conheço o amigo, ele não ia contratar um traficante para levar a mercadoria dele.

           - Pereira não pediu pra gente segurar ele? 

          - Ele pediu. Mas...

                 O patrulheiro Ivan tirou os óculos escuros, coçou a cabeça e ficou com o olhar perdido na nota fiscal, por um bom tempo e em total silêncio. Depois desviou o seu olhar e encarou Toni, que sentiu um tremor no corpo. Talvez de medo, devido ao olhar gelado de Ivan.

                 O patrulheiro, era visível a sua indecisão, mastigava a sua dúvida e com isso custava a falar alguma coisa para o caminhoneiro. Já Toni foi ficando cada vez mais incomodado com a situação, porque não imaginava qual seria o desfecho. Qual seria a causa daquele silêncio? Se perguntou. Teve vontade de falar alguma coisa para acabar com aquele mal-estar. Acabou ficando na vontade, porque o patrulheiro venceu o mutismo.

          - Me diz uma coisa: o senhor está viajando sozinho?

          - Estou sim. Estou sim. – respondeu Toni.

          - Ferreira, Pereira disse que eram dois caras e uma criança. Confere? – falou o policial Ivan, olhando por cima dos óculos escuros.

          - Confere, Ivan.

          - Onde está o seu parceiro e a criança? – se dirigindo novamente para Toni.

          - O meu irmão, que é meu sócio, ficou em Barreiras. Ele teve um piriri e acabamos achando melhor ele ficar por lá. Combinei de pegar ele na volta.

          - E a criança?

          - Não sei nada de criança. Eu nem tenho filho pequeno e muito menos o meu irmão.  Que criança é essa?

          - Aqui quem faz as perguntas sou eu. Ferreira chega aqui. E o senhor faz um favor de abrir o caminhão. – apontando para Toni.

          - Pois não.

          - Ferreira, dá uma geral na carroceria. Vou olhar de novo dentro da cabine, pra ver se tem algum vestígio, que não percebemos.

          - Ivan, não precisa não. Já olhei duas vezes.

          - Você garante? Então está tudo certo. 

Continua na Semana que vem! 

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pensamento de Poeta - Transgressões e o Jeitinho Brasileiro

 
Transgressões e o Jeitinho Brasileiro

- José Timotheo -  

Sinal vermelho

Já passei

Calçada sem obstáculos

Já deixei duas rodas em cima

Proibido parar

Fecho os olhos

Dei um jeitinho

Assim vou levando a vida

Tombei

Emergência

Esperar o atendimento?

Não deu para burlar

Dessa vez

Sentei e esperei

O bolso furado

Sem plano

Acho que morri

Se morri

Não tenho certeza

Mas assim mesmo

Vou planejar um lugar no céu

Eu posso: sou brasileiro

 

                                                fim

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 37

 


Continuando...

               A viagem foi tranquila até avistarem a Patrulha Rodoviária. As expressões de Toni e Quim mudaram radicalmente. Um ar de preocupação, porque não dizer de medo, tomou conta do sossego. Era evidente que o medo estava em primeiro lugar, pois não sabiam o que poderia acontecer com eles dois e o menino, já que brincaram com os brios dos falsos policiais, enganando-os sobremaneira. Toni, que estava na direção, - trocara com o irmão, em uma das paradas para usarem o “banheiro” da beira da estrada       - diminuiu a velocidade, devido a uma pequena retenção no trafego, e comentou com o irmão:

          - Quim, já viu onde estamos chegando?

          - Claro que vi.

          - Já estou ficando preocupado.

          - Preocupado com o quê?

          - E você pergunta, Quim? Você - vai me enganar! – está nervoso também!

          - É. Tô nervoso sim. Mas estamos com a documentação toda certa. Vai ficar tudo bem. – fez uma pausa – Caraca, Toni! – diz Quim carregado de preocupação.

          - O que foi, mano?

          - Toni, uma coisa bateu aqui agora: e se os falsos policiais se comunicaram, se passando pelos patrulheiros verdadeiros, com os patrulheiros daqui? Já devem estar esperando por nós, mano.

          - Mas já falei sobre isso. Vamos apostar na sorte. Mas se a sorte tiver partido, aí o bicho vai pegar, Quim. Eu sei que com a documentação não vai ser problema. A encrenca é o garoto. Se pararem a gente, como vamos explicar a presença do menino aqui? Nem sei a cana que dá para sequestro. Mas é o que vai sobrar pra gente. Estamos numa enrascada. Em que problemão a gente se meteu, hein!

           - Eu sei Toni que estamos com um problemão na mão. E não sei o que vamos fazer.  Será que se o menino ficar bem encostado nas costas do banco e se cobrir bem, vamos enganar os policiais? O menino é magrinho. Quem sabe? Só Deus pra nos ajudar.  Carlos, se estica aí e se cobre com a lona.

           - Tá calor! – contesta o menino.

           - Nós sabemos que está calor, mas você não pode ser visto. Tem que se esconder e bem, se não estamos fritos.

           - Olha só, Quim. – Toni aponta na direção do posto policial - O transito está lento, mas em compensação não estão parando ninguém. Acho que a gente está com sorte.

                  Quim olha atento para os policiais, mas fica calado, enquanto analisa a situação. Toni olha para o irmão e vê o momento em que ele coça a cabeça várias vezes. Isso era uma alerta para a chegada de algum problema.

           - O que foi, mano?       

           - Toni, eles querem a gente. Olha lá, mano. Um dos policiais está checando as placas dos caminhões. As carretas dão uma paradinha e depois o policial manda seguir em frente. Até agora não pediu documento de ninguém. Os carros de passeio nem param. Não estou gostando nada disso. Só pode ser a gente que eles querem.

           - Quim, um deles está vindo pra cá. Está mandando os carros de passeio saírem e só deixando os caminhões. Ih! Ele está apontando pra gente!

           - E agora? Sujou geral, Toni!

           - Escuta só. Ele pode não ter visto você. Vamos arriscar. Pega o garoto e desce com ele. Vou continuar na mesma marcha. Desce no acostamento e entra no mato. Vê se consegue sair, sem ser visto, bem lá na frente. Depois eu pego vocês. Mas procura se afastar o máximo das vistas dos policiais. Pula aqui pra frente menino. Isso. Quim abre a porta e depois pega o garoto.

                    Quim consegue descer sem chamar a atenção, pega o garoto no colo e entra por dentro do mato, que estava bem próximo do acostamento. 

                    O patrulheiro que havia apontado para o caminhão dos irmãos, para de caminhar, se vira e sinaliza para o colega, com um gesto de mão, para que ele libere todos os demais veículos. Só que os carros mantiveram a mesma velocidade, se tornando, com isso, numa grande ajuda para a fuga de Quim e do menino.

Continua Semana que vem!