Continuando...
- Pediu e daí! O que é que a gente vai fazer? Estamos numa tremenda enrascada, mano. Não temos saída. Pensa aí: a gente pode entrar numa tremenda fria. A mulher não falou em traficantes?
- Eu sei. Eu sei que ela falou. Mas vou pensar mais um pouquinho.
- Pensa logo. De repente a gente é parado na Patrulha... Pensou nessa possibilidade? Então, como a gente vai explicar esse garoto aqui na boleia? Vamos ficar enrascado! Isso sim!
- Depois das suas ponderações...
- Aí Toni, tá falando difícil!
- Deixa de bobeira. Isso não é hora para brincadeira. Então, depois do que você falou, pensei, pensei aqui com meus botões e começo a dar razão a você.
- Viva! Até que enfim você concordou comigo! Puxa vida, hem!
- Você está engraçadinho. Pensei o seguinte: eles foram sequestrados por traficantes, certo? Então – vou falar no seu ouvido – o pai do guri deve ser traficante também, certo? Isso está cheirando a guerra de gangues.
- Então, você chegou aonde eu cheguei. É isso aí, Toni. Pronto está resolvido. A gente entrega o garoto à polícia. Os policiais vão cuidar dele direitinho. A polícia não é para isso? Não é pra proteger o cidadão?
- É Quim, você tem razão. Vamos nessa. Vamos resolver logo isso. Pisa mais um pouco. Mas sem ultrapassar a velocidade permitida. Ouviu?
- Tá bem! Tá bem! Mas o quê que a gente vai dizer pra eles sobre o garoto?
- A gente diz que achamos o garoto andando pela estrada. Não é melhor assim? Simples assim. A gente não precisa entrar em detalhes, Quim.
- Mas se eles perguntarem pelo acidente?
- Será que eles não sabem do acidente? Estou apostando na possibilidade de não saberem ainda. Até agora não passou ninguém pela gente. Você viu algum movimento, Quim?
- Não. Toni, isso é estranho, não é?
- O que é estranho?
- O estranho, é porque toda vez que a gente entra numa roubada nunca passa ninguém. Nunca notou isso?
- Sei lá, Quim. Acho que nunca prestei atenção.
- Mas eu estou sempre ligado. Com aquele fantasma então! Aquela menina não sai da minha cabeça. Posso te falar um negócio?
- O que é?
- Toni, aquela história foi tão louca que eu tenho dúvida se existiu.
- Mas como não existiu?
- Sei lá, mano. Duvido se a gente consegue achar aquela estrada. Acho que nem existe.
- Claro que existe. Se não existisse a gente não tinha ido lá.
- Mas Toni, será que fomos lá mesmo?
- Ah! Deixa isso pra lá! Vai acabar dando um nó na minha cabeça! Esquece! Já passou! Agora temos é que resolver esse problema que temos nas mãos.
- É, Toni. E que problemão. Mano, se prepara.
- Me preparar para quê?
- A Patrulha está depois daquela curva lá.
- É mesmo. A gente para e entrega o garoto.
Quim trafegou por mais quinhentos metros e encostou a carreta. Depois falou para o irmão:
- Toni, deixa que eu vou até lá. Fica aqui com o garoto. Não sei o porquê, mas bateu um negócio aqui na cuca, me mandando ir sozinho. Vou sondar. Depois aceno pra você. Tá bom?
- Não, deixa que eu vou até lá. Fica aqui esperando. Como você está cansado de falar, eu sou o mais velho. Então vou eu.
- Tudo bem, você manda. – respirou como tivesse se livrando de um problema - Mas conversa direitinho com os policiais.
- Claro que eu vou conversar numa boa.
Toni desceu do caminhão, foi andando, sem muita pressa, quase arrastando os pés, em direção ao posto da patrulha. Dava a impressão de que não queria demonstrar o quanto estava ansioso. No fundo estava com medo da missão que se encarregara. Deu uma parada, parecendo que ia desistir, mas respirou fundo e foi em frente. Chegou até a porta e ficou parado em frente sem nada fazer. Depois, mesmo com a indecisão de plantão, ameaçou bater na porta. Chegou até a levantar o braço, com o punho fechado, porém acabou abortando o movimento. Teve a sensação de que alguma coisa segurou o seu braço. Isso ele segredou depois ao irmão.
Continua na Semana que vem!


