quinta-feira, 11 de junho de 2026

Pensamento de Poeta - Pena de Morte

 

 

Pena de Morte
- José Timotheo - 

 

Fatos

Fetos

Feto é um fato

Não é uma notícia

É uma dor

O coração bate macio

Outros, de pedra

Decidem

“Não sentem dor”

O coração, na primeira batida

Mostra que é vida pura

Pureza de alma, presente

Coração e mente

O futuro vai cobrar

Sou mais um feto

Por que um desafeto?

Nem um abraço na luz

Quem me deu a vida

Deixou-me dar

Simplesmente me condenou à morte

Ia descortinar o mundo

Que ser sem sorte

Não era a minha mãe

Eu sou apenas mais um feto

Desafeto que vai povoar a sua mente

Fui tirado do ventre

Mas enterrado na sua cabeça

Vou ser gerado por toda a sua vida

                                                    fim

terça-feira, 9 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 30

 


Continuando...

          - Não vem com essa não. A história não foi bem essa. Eu sonhei com ele sim. Agora eu ter falado com o defunto, é outra história. E eu não me lembro de ter falado isso pra você, não. É diferente. Isso já é coisa da sua cabeça. É invenção sua.

          - Que invenção minha! Toni, você falou sim. E se eu sou paranormal, você também é.  Eu falei com a menina sim, mas você também falou. Você conversou mais com a filha do Betão que eu. Esqueceu? Está me zoando? Tá de gracinha, né? Eu te conheço! Isso é hora pra brincadeira, Toni?

         - Puxa, Quim. Você está muito sério. A gente não pode nem brincar. Tem que relaxar, mano. Vou te confessar que eu estava nervoso também. Estava não, estou ainda. A nossa situação é complicada. Mas agora estou até um pouquinho menos tenso. Só com essa possibilidade de atravessarmos para outro estado, relaxei um pouco. Eu sei que vamos sair dessa encrenca. Nós sempre conseguimos sair de todas as enrascadas que entramos, não foi? Então, acho que essa não vai ser diferente. Vamos conseguir virar mais essa página sinistra.

          - Você acha mesmo? Página sinistra. Falou bonito, Toni.

          - Achou? E é com certeza que digo que vamos tirar esse pedregulho do nosso caminho. Mano, quando a gente chegar no Acre, tudo vai voltar ao normal. Em Rio Branco, vamos encontrar a saída. Agora... – dando uma olhadinha para trás - acorda o garoto aí e vai jogando zerinho ou um com ele. Coitadinho, Quim! - Toni termina a frase, sorri e faz uma careta.

           - Como? Esqueceu que eu estou dirigindo?

           - Que dirigindo? Quem está no volante sou eu!

           - Estou de copiloto. E você não acha que fico o tempo todo passando marcha, apertando freio... tudo imaginário, mas acha que não cansa?

           - Você é engraçadinho mesmo, né seu Quim? E também maluco! Nem fala nisso mais não. Esquece esses jogos. Nada de jogar zerinho ou um, porrinha e sei lá mais o quê! Isso é castigo! Mas se quiser jogar, fica à vontade. Não se esqueça que zerinho ou um, com dois não dá. Vai ter que ser par ou ímpar. – Toni termina de falar e começa a rir.

                   A viagem continua sem nenhum incidente. Já tinham parado e deixado à carga em Barreiras. Mas antes de voltar para a BR, entraram num posto de gasolina e abasteceram o caminhão. Aproveitaram e fizeram uma refeição rápida. Como o garoto continuava dormindo, compraram uma quentinha para ele. Entretanto, quando retornaram para o caminhão, Quim assinalou para o irmão a sua preocupação, em relação ao menino:

           - Toni, estou achando muito estranho esse garoto dormir tanto. Isso não é normal. Está dormindo à beça. Praticamente ele não acordou. Nem pra fazer xixi. Ninguém fica tanto tempo sem mijar.

           - Fica tranquilo, Quim. Ele só está ferradinho no sono. Ele devia estar a muito tempo sem dormir. A gente nem imagina o que ele deve ter passado. Mamãe sempre dizia que dormir bem alimenta. Lembra? Então, ele está alimentado. Passei a mão na testa dele: está fresquinha. Não tem febre não. É só sono mesmo.

          - Mas nem mijar ele mija!

          - Ah, Quim. Como é que ele vai mijar, se não bebeu água!?

          - Bebeu sim.

          - Esqueci que ele ficou jogando com a gente. Nessa hora ele bebeu água sim. Ele deve ter feito xixi e a gente não viu.

          - É! Pode ser! Toni, estou pensando numa coisa aqui.

          - O que é?

          - A gente vai encontrar a Polícia Rodoviária, antes de entrar em Tocantins. Certo?

         - E daí?

         - E daí?  O que é que a gente vai dizer para o policial? Vamos ser parados de qualquer jeito.

        - Eu sei. Mas dizer o quê, Quim?

        - Presta atenção, Toni. Primeiro problema: estamos sem carga. Segundo: a placa é do RJ. Terceiro: o que é que a gente vai fazer em Tocantins? Quarto: não vamos pegar nenhuma carga. Quinto: como vamos explicar a presença do garoto com a gente. E sexto: e aí?

        - Puxa, Quim! Você falou pra caramba! Mas você está certo. Estou pensando numa coisa. De repente é uma saída.

        - Qual é a saída? Fala logo, antes da gente pegar estrada.

        - Quim, se lembra daquele senhor que eu estava conversando?

        - Sim. E daí?

        - E daí é que ele me ofereceu uma carga. Recusei porque não era grande coisa.  Mas agora pode ser a nossa salvação.

        - Então Toni, vai lá e procura ele.

        - Vou até lá. Mas reza para que ele não tenha passado para outro. Vou tirar o caminhão daqui.

       - Vou rezar, mano. Eu sabia que você ia achar uma saída. Até que você pensa, hein!

      - Engraçadinho.

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 2 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 29

 


 Continuando...

               Enquanto Pereira se comunica com os postos da Patrulha Rodoviária Federal, com os estados fronteiriços com a Bahia, Toni e Quim estão focados num único objetivo: entregar o garoto ao seu pai, no Acre.

                Trafegavam pela BR 242. Era visível a tensão que Toni trazia nas marcas faciais. Quim observou que o irmão segurava o volante como se tivesse pegando um saco de cimento, então comentou:

          - O que houve, mano? Tá aí atracado com o volante. Vai acabar arrancando ele. Relaxa. Você está muito tenso.

          - Relaxar? Como? Quim temos que sair da Bahia o mais rápido possível. Alguma coisa está me dizendo que os patrulheiros vêm atrás da gente.

          - Vem não, Toni. Vem não. Eles não são patrulheiros. Não vêm atrás da gente. Eles não vão se arriscar em se apresentar, ao vivo, como patrulheiros.

          - Como você tem certeza disso?

          - Certeza, certeza eu não tenho, entretanto tem outra coisa a nosso favor: a distância. Toni, é muito chão que eles terão que percorrer até pegar a gente. E, tem mais, até eles descobrirem que o garoto está vivo, vai demorar muito.

           - Ih, Quim! Pensei numa coisa aqui!

           - O que foi? Fala logo, mano!

           - Estou pensando... Você pegou a coberta que estava no chão?

           - Não. Pensei que você fosse pegar, Toni.

           - Peguei nada! Como pude me esquecer disso!

           - Então mano, eles já devem ter descoberto a coberta e deduzido que o garoto está vivo. E o pior, com a gente.

           - Chi! É mesmo! Agora ferrou! Pisa fundo, Toni! Pisa fundo!

           - Mas também não precisamos nos desesperar. Temos que manter a calma. Aproveita e olha se o menino já acordou.

           - Ainda não. O bichinho deve estar muito cansado. Mas também não é pra menos, né?

           - Então não vou parar mesmo. Vou pisar fundo, mano. Vamos direto até Barreiras e entregar a mercadoria num pé e sair no outro. Já estamos até dentro do município. Daqui até lá é um pulo. Depois a gente entra o mais rápido possível em Tocantins. Aí lá sim, a gente para, enche o bucho, dá uma descansadinha e ruma pra Mato Grosso.

          - É chão que não acaba mais! Já pensou a gente ter que atravessar todo o estado de Mato Grosso, depois Rondônia e mais o Acre, até Rio Branco? Não vai ser mole não! Você já pensou no tempo que vamos levar?

         - Não pensa nisso não, Quim. Você deve estar pensando no prejuízo. Eu estou aqui preocupado é com o garoto.

         - Eu também. Estou igual a você, em relação ao menino. Estou aqui pensando, além na situação do garoto, no tempo que vamos gastar nessa empreitada. – diz Quim com um ar de preocupação.

         - Que empreitada? Não vamos ganhar nada. Sobre isso, não vale a pena ficar encucado.

         - Mas você falou que eu estou preocupado com o prejuízo. Não falou? - ponderou Quim.

         - Eu só falei em dinheiro por falar, mano.  Você sabe disso. Foi falta de assunto. – fez uma pausa - Mano...

          - O que é? – pergunta Quim, parecendo assustado.

          - Calma, Quim. Você está com os nervos à flor da pele. É só uma coisa que pensei. E na verdade, já pensei pra caramba. O pior é que não encontrei um jeito pra gente se comunicar com o pai do garoto. Está difícil, porque não podemos correr risco, essa é a verdade. O cara é traficante, já pensou a gente sair por aí perguntando por ele? Acho que vai ser uma furada. Mas por outro lado, temos que levar o garoto até ele. O que fazer? E aí, mano?

           - E aí? É que nós temos que ter precaução mesmo. Não podemos botar a nossa cara assim – virou o rosto para o irmão – pra qualquer um bater. Mas...

          - Eu não quero que ninguém bata em mim, não!

          - Toni, isso é modo de dizer! Eu também não quero levar nenhuma bolacha, não!

          - Eu sei mano. Então Quim, você pensou em alguma coisa? Teve alguma ideia?

          - Eu? Eu não. Toni a gente tá num mato sem cachorro. Essa é a minha conclusão.

          - Ué, e o mas...? Você dizer mais alguma coisa.

          -Sei lá, Toni!

          - Sei lá Toni! É só isso que você tem pra dizer? Falando sério, mano. Eu sei que você é capaz. Bota esses dois neurônios aí pra funcionar.

          - Tá de sacanagem comigo, Toni?

          - Sacanagem, nada! Só quero que você pense num jeito aí da gente sair dessa enrascada, Quim. Arranja alguma coisa. Você não é criativo? Então, é até paranormal! Fala aí com algum espírito.

         - De onde você arranjou isso, Toni? Que papo é esse? Que paranormal coisa nenhuma! Você é que é paranormal! Você viu o defunto e até falou com ele!

 Continua Semana que vem!