Continuando...
Toni faz uma cara de desagrado, mas prefere interromper a conversa. Quim, com o silêncio do irmão, deixa escapar um leve sorriso, pensando que depois dessa conversa, o irmão ia esquecer de vez a menina: o anjo da boleia. Então vira-se para trás e olha o menino.
- E aí? – pergunta Toni.
- Não abriu os olhos, Toni. Parece que continua dormindo. Mano acho melhor a gente ir logo para o hotel. Aí eu fico com ele lá e você vai se informar do endereço para entregar a mercadoria.
- Tudo bem. Vamos então parar ali no posto e se informar sobre o hotel e o tal endereço para entregar a carga. Não tem lugar melhor para se obter informações.
- Tá bom. Estou doido para descansar o esqueleto e se livrar logo dessa mercadoria. Quanto mais rápido, melhor.
- Então vamos resolver logo, Quim.
Toni que já mantinha a velocidade do caminhão no mínimo permitido, ligou a seta e foi entrando no posto de gasolina. O irmão saiu rápido e foi colher informações sobre os endereços. Voltou sem muita demora com tudo resolvido. O local de entrega ficava um pouco afastado, mas o hotel era ali mesmo. Toni estacionou a veículo num local indicado pelo frentista, que já era uma vaga cativa da empresa. Desceram os dois e se dirigiram para a recepção. O garoto continuou dentro do caminhão. Pegaram a chave e subiram. Antes de entrar no quarto Toni comentou:
- Mano isso aqui tá parecendo que é um tremendo pulgueiro. Mas do jeito que a gente tá cansado, e é de graça, tá muito bom, né?
- Tá reclamando das pulgas? Pra você tá tudo sempre bom!
- Porque é 0800. – Toni diz com um sorriso sem graça.
- Não vai pagar nada, aí você rir!
- Pelo menos temos que sentir graça em alguma coisa de vez em quando. Depois de um stress atrás do outro, o que é que você queria? Tive uma chance, então ri! E vou rir de novo!
- Pô Quim. Que riso sem graça. Deixa de baixo astral. Assim você só atrai coisa ruim. Vamos lá, aonde é o lugar que a gente vai entregar a carga?
- Baixo astral, não. Sou é realista. O lugar até que não é muito longe. Enquanto você fazia gracinha, eu olhei o mapa, juntei com a informação que o frentista me deu e fiz um rabisco rápido. Ele me disse que não passa de vinte minutos até lá.
- Então é pertinho. Se fosse na estrada era rápido, mas como é aqui na cidade, com o transito travado, gasta mais tempo.
- Toni, eu senti uma sensação muito estranha. Precisava ver as caras das pessoas quando perguntei pelo Carlos Bonsai. Primeiro quando falei no nome do cara, todo mundo olhou pra mim. Uns com a cara assustada. Outros com um sorriso estranho. Mas teve alguns que só faltaram me bater. Precisava ver os olhos desses: era puro ódio. Olha, me senti mal mesmo.
- Estranho. Agora estou me lembrando que lá em baixo tive a sensação que todo mundo me olhava. Eu acho que já tem uma porção de olhos em cima da gente. Parece que passa por essas paredes.
- Para com isso, Toni! Para com isso! Agora estou preocupado com o garoto. Garotinho bom, obediente. Por que será que querem pegar ele?
- Quim, isso é coisa do pai. O cara é barra pesada. Então tem gente querendo se vingar dele, pegando o menino. Será que tem gente por aqui que é do lado dos sequestradores?
- Toni, vira essa boca pra lá. Agora vamos fazer o seguinte: quando a gente sair, leva um cobertor, enrola o menino nele e coloca a minha touca na cabeça dele. Depois você pega ele no colo e traz até aqui.
- Ih Quim! Botar ele no colo vai chamar muita atenção! Além dele ser pesadinho, né!
- Que o quê, Toni! Pesadinho nada! O menino está mirradinho! Dizer que vai chamar a atenção é desculpa. Ele não deve ter dez anos. E se tiver, é pequeno pra idade. Se não fosse a minha coluna, eu pegava ele sozinho.
- E desde quando você tem problema de coluna? Você já carregou o menino sozinho e ainda disse que ele parecia uma pena. Tá bom, não precisa fazer cara feia. Até parece que está sentindo dor. Está bem, você arruma o garoto. Vou até o banheiro dar uma mijada, depois te encontro lá no caminhão. Deixa ele prontinho.
Toni sai do quarto e se dirige para um banheiro coletivo no final do corredor. Quando ele já está no mictório, entram dois sujeitos. Um fica na porta, segurando a maçaneta e o outro se posta ao seu lado. Toni olha para o sujeito e sente um tremor no corpo. O medo era evidente. Estava assustado com o sujeito grandalhão olhando-o incessantemente. A vontade tanta de urinar foi interrompida. A urina simplesmente parou de sair. E o sujeito continuava com os olhos cravados em cima dele.
- O senhor que é Toni? Pode terminar de urinar. Não precisa ficar constrangido. – falou calmamente o estranho.
- Já estou constrangido. Nem consigo mijar mais. Sim, sou Toni. E quem é você?
- Eu e meu amigo, que está na porta, somos amigos de Bonsai. Ele nos mandou para levar vocês dois até ele. Nós vamos espera-los na Estrada da Chaminé.
- Mas eu não conheço nada por aqui, não!
- Não tem como errar. Segue essa rua até o final. Lá, dobra à direita e segue em frente. Vai até o final dessa rua também. Depois dobra a esquerda. É essa a estrada. É de chão batido. Em meia hora, a gente espera vocês lá. Ok?
- Tudo bem. Tudo bem. Vamos estar lá.
Continua na Semana que vem!


