Continuando...
Toni pega a nota, olha de cabo a rabo e fica surpreso.
- Ué seu Tadeu! É a mesma carga!
- Mais ou menos.
- Deixa eu dar uma olhadinha?
- Está desconfiando da gente, seu Toni?
- Não se trata disso. Já que eu vou transportar, acho que eu devo olhar. O senhor não acha que eu devo conferir?
- Claro! Vamos lá! – batendo nas costas de Toni.
Um dos empregados abre a porta do baú e Toni fica boquiaberto com o que vê e comenta:
- Ué, elas estão cheias! – fez uma pausa com a surpresa - Está escrito xarope de graviola. Nunca vi xarope de graviola.
- É o suco concentrado. É novo na praça. Você olhou a nota direito? Tá lá escrito garrafas pets cheias com o nosso produto, que é uma exclusividade nossa. Está com uma cara de preocupação. Pode ficar tranquilo que o senhor não vai ter problema nenhum. Quando o senhor veio teve algum problema?
- Não, graças a Deus!
- Graças a Honório, graças a mim e graças... Vamos? Você veio sozinho de novo? E Quim?
- Vou pegar ele lá no hotel. É passagem, né? Eu fiz o meu rango primeiro e me adiantei. Ele ainda estava tomando banho.
- Não quero atraso.
- Não vamos nos atrasar não. Ele é responsável. Ele ia fechar a conta também. O senhor falou pra gente pegar estrada três horas, e será nesse horário que estaremos comendo asfalto. Pode confiar.
- Tudo bem. O endereço pra entrega está aí preso na nota fiscal. Procura Carlos Bonsai, tá escrito aí, ele é um japonês pequenininho. Ele vai pagar a vocês.
- Ué, o senhor já nos pagou!
- É só um agrado. Um prêmio, caso vocês cheguem com uma boa folga.
- Valeu. Obrigado. Sabendo disso, vou pisar um pouquinho mais, mas sem passar do limite, claro!
- Vocês têm algum negócio pra revolver por lá?
- Não é bem um negócio. Vamos visitar uns parentes que temos por lá. Uma irmã da minha mãe está muito doente. E o marido morreu há quinze dias. Não tem filhos. Só tem mesmo a gente. É um caso complicado, mas o que se há de fazer, né? Acho que vamos pegá-la e levar ela pra ficar com a nossa mãe. Isso se a saúde dela permitir.
- Na volta, se você quiser, pega uma carga lá com o japonês, ok? É o mesmo esquema. Vem de lá pra cá e daqui pra Honório. É dinheiro certo, sem risco. O pagamento pode ser aqui. Ou aqui e lá.
- Obrigado. Eu falo com ele.
- Então pode ir, pra não se atrasar.
Toni pega o caminhão e se dirige para o hotel. Próximo de uma árvore, já na saída do posto, avista o irmão com as duas pequenas malas. Para o veículo e espera-o entrar. Quando ele abre a porta, Toni não vendo o menino fala pra ele, demonstrando total preocupação:
- Quim, o que houve? O que foi feito do menino? Pegaram ele?
- Ei! Ei! Calma! Não aconteceu nada não! Por precaução escondi ele atrás daquela moita ali! Mano você precisa ver a cara que você fez. Assim você vai enfartar. A sua idade já não ajuda muito.
- Que idade! Que idade! Você brinca na hora errada, isso sim! Chama logo o garoto pra gente sair daqui! Como é que você trouxe ele sozinho?
- Ele é levinho. Antes que você pergunte, eu escondi os pés dele.
- Tá! Tá! Calma! Manda garoto entrar rapidinho.
Toni resmunga alguma coisa que o irmão não intende e, antes de botar o caminhão em movimento, espera o garoto entrar na boleia para então pegar estrada. Depois de um trecho em silêncio, Quim, curioso, pergunta:
- E aí Toni, descobriu se os caras são bandidos mesmo?
- Descobri nada. Mas são estranhos.
- E a carga, estava certinha?
- Quim, tá tudo certo, mas muito esquisito.
- Como assim, esquisito? Esquisito em quê?
- Mano eu olhei a nota, mas estou achando que ela é fria. Olha ela só. Toma. Vê se não é a mesma nota que Honório deu pra gente.
Continua na Semana que vem!



