Continuando...
Ele então faz mais uma tentativa com o menino, para ver se ele se lembrava de alguma coisa. Com cautela, para não o assustar tentou manter uma conversa sem causar-lhe qualquer desconforto, procurando evitar que ele ficasse ansioso. Então pegou-o pela mão e convidou-o a sentarem-se no meio fio. A criança foi conduzida sem demonstrar qualquer constrangimento. Toni sentou-se primeiro e em seguida o menino. Quim continuou em pé apenas observando para ver qual a estratégia que o irmão iria usar.
Depois de acomodados Toni iniciou a conversação.
- Meu filho, então você é do Acre. Foi uma pessoa que estava com você no carro, que me falou. Você se lembra que estava no carro, junto com uma moça e mais alguns homens? E que esse carro bateu num caminhão?
Você se lembra?
- Não me lembro de carro nenhum. E não me lembro de ninguém junto comigo.
- Você não se lembra de nada?
- Não.
- Ih Toni! Estamos ferrados mesmo! Lascou-se!
- Bota ferrado nisso, mano! O que é que a gente faz? Se formos pra polícia, a gente bota o garoto em risco de vida, segundo aquela senhora. Será que é isso mesmo? Mas porque ela mentiria? Não sei o que pensar.
- Toni, eles foram sequestrados, com certeza. Aí eu tô com a mulher. Não podemos levar ele pra polícia, não. Vai que ele aparece no jornal. Aí vai dá encrenca mesmo. Aposto como vem rapidinho bandido atrás dele. Com certeza os pilantras vão chegar primeiro do que os pais. Mano, agora estou com mais pena do garoto. O que é que a gente faz?
- Isso eu já te perguntei isso! Vai jogar pra cima de mim?
- Ué Toni! Em cima de mim é que não dá! Oh! Resolve você! Você é o mais velho!
- Para com isso, Quim! Mais velho... Não. Assim não. Então vamos decidir nós dois, tá legal? E para com isso de me chamar de velho!
- Tá bom. Não vou te chamar mais de velho. Tá bom assim? Mas então... Mano, o que é que a gente vai fazer?
- De novo, não! Eu perguntei primeiro!
- Viu só! Eu sabia que você estava querendo é jogar no meu colo a decisão! Você não falou, nós dois? Então, se não for assim, a bomba vai cair no meu colo. Assim não dá. Mano, você é um grande enrolador. Mas eu já pensei numa coisa.
- O que é? Que coisa é essa?
- É simples. A gente tira par ou ímpar.
- Quim, que coisa mais antiga! Par ou ímpar! Agora, é zerinho ou um.
- Zerinho ou um tem que ter mais de dois. E é um jogo muito sem graça.
O garoto que não tirava os olhos de cima dos dois, quando Toni acabou de falar, disse:
- Eu gosto de brincar de zerinho ou um.
- E você se lembra como joga isso? – perguntou Quim.
- Claro. Eu não me esqueci. – respondeu o garoto prontamente.
- Aí Quim, de repente o negócio não é tão sério assim. De uma hora pra outra ele acaba se lembrando de tudo. Vamos brincar um pouquinho com ele. Às vezes isso pode estimular a sua memória.
- Toni, escuta só. A gente tá com um tremendo pepino na mão e você está pensando em jogar par ou ímpar?
- Quim, não é par ou ímpar. Par ou ímpar são só dois. E isso ele nem sabe o que é. O que ele disse que sabe é zerinho ou um.
- Eu me enrolei. É zerinho ou um. Qual o problema?
- Nenhum. Vamos jogar um pouquinho. Sem reclamações, tá bom? E não faz essa cara assim não. Tá contrariado? Então deixa que... Não pode. Tem que ser no mínimo três.
- Toni, eu não vou fugir da raia não. Vamos lá. Mas só mais uma coisinha: a gente não pode marcar bobeira por aqui não. Eu acho que a gente tinha que ter ido embora. Parava lá no posto e ficava por lá, até resolver essa questão.
- Relaxa. Ninguém vai pegar a gente não. Eles não vão nem desconfiar que o garoto está aqui. Vamos jogar um pouquinho e depois vamos embora. Vamos lá, garotão?
Continua Semana que vem!


