terça-feira, 30 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 33

 


 Continuando...

            Enquanto o empresário ligava para o amigo, Toni se levanta e vai  até a porta, que ainda estava aberta, e viu que o empregado da empresa carregava a sua carreta. E pelo jeito, era o último amarrado. Coçou a cabeça e percebeu que não tinha mais como desistir do frete. Era aquilo ou aquilo mesmo. Voltou desanimado para a sua cadeira, quase se jogando no assento.  Neste instante o empresário já tinha terminado de falar com o amigo e antes que Toni perguntasse alguma coisa, ele foi logo falando:

          - É Toni. Alguém já levou a carga. Mas não tem problema não, quando você chegar à capital, em Palmas, fala com Tadeu que ele tem sempre carga para ser transportada. Eu vou ter que ligar para ele mesmo, então eu já recomendo você. Com certeza já vai ter frete te esperando pra qualquer lugar que quiser. Pode ficar tranquilo. Até o seu retorno para o Rio de Janeiro, vai estar garantido.

         - Verdade? Pra qualquer lugar mesmo? Até para o Acre?

         - Vocês topam pra qualquer lugar, então?

         - Claro que sim. Se tiver pra China, a gente vai! – sorrir sem muita convicção.

        - Olha que eu arranjo pra lá também! – concluiu Honório, com um sorriso debochado. 

        - Brincadeira, seu Honório. Brincadeira. Pra China não dá pé. É só um modo de falar.

        - Mesmo dispensando a China, eu gostei de você. Eu gosto de gente que não rejeita trabalho. Você é dos meus. Vocês vão chegar lá e vão encontrar carga para transportar. Pode levar fé.

        - Claro que eu levo. Muito obrigado. O senhor nem imagina como está ajudando a gente.

        - Você é que não sabe como está me ajudando. É uma mão lavando a outra. Não é assim que se fala? Boa viagem. Na volta, espero vocês.

        - Até mais ver, seu Honório.

               Toni falou e foi saindo do escritório, mas não percebeu que o empresário saiu logo atrás dele, indo em direção ao seu funcionário que já se postava no portão esperando que os caminhoneiros saíssem, para em seguida fecha-lo.

                Mal Toni abriu a porta do carona, encontrou o irmão cuspindo ansiedade.

          - E aí mano, o que é que ele falou? Disse direitinho o preço? Quanto foi? Mas vou deixar registrado: não fui com a cara do cara que entupiu a nossa carreta de garrafa pet vazia. Ele tem cara de bandido.

          - Calma Quim. Calma. Você vê fantasma em tudo que é lugar. Às vezes o cara é gente boa. E sobre o negócio com o seu Honório, a gente fala depois.

          - Mas como vai falar depois? Por que o segredo?

          - Tá tudo certo. Depois eu explico sobre o valor do frete. Só vou dizer que fui obrigado a aceitar. Mas vamos ser compensados quando deixarmos essa carga. Já tem outro frete esperando a gente.

          - Legal, Toni. Muito legal.

          - Não fica murcho não. Vamos embora, pois já ficamos mais tempo do que o necessário. Tem muito chão pela frente. Bota o caminhão em movimento. – Toni disse a última frase com a preocupação estampada no rosto.

                 Quim liga a carreta e vai saindo bem devagar de ré. Faz a manobra e coloca a dianteira no vão do portão. Ao passar, Toni acena para o empresário e também para o empregado. Do lado de fora, dá um suspiro profundo e faz o sinal da cruz. O irmão achou estranho e indagou:

          - Ué, o que houve? Esquisito isso.

          - Tudo bem.

          - Tudo bem? Está tudo bem, uma ova! Não gostei nada, nada o que o empregado lá do homem fez! Mal você entrou no escritório, ele foi colocando as garrafas na carroceria! Fiquei olhando pra ele e ele deu a mínima pra mim! Você não ia ver o preço primeiro?

          - Ia. Vi e aceitei o preço. Mas também não ia ser diferente. Lá dentro cheguei à conclusão que não podíamos mais desistir. Ele me deu até a opção da desistência, mas senti que era da boca pra fora.

          - Será que ele é barra pesada?

          - Sei lá. Mas fiquei com medo.

          - E qual foi o preço?

          - Quim, olha dentro do envelope. – Toni estica o braço e passa o envelope para Quim.

 Continua na Semana que vem!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pensamento de Poeta - Enxergo Para Não Ver

 


Enxergo Para Não Ver

- José Timotheo - 

Águas turvas

Vista embaçada

Estamos quase cegos

Vejo para não acreditar

Acredito para não ver

Não sei como estamos

Indo ou vindo

Quando o céu clareia

Penso que é o sol

E lá vem chuva grossa

Me engano facilmente

Facilmente somos enganados

A história no planeta se repete

De tempos em tempos

As narrativas brotam como ervas daninhas

Acreditamos até nas ervas danadas

A solução para a insensatez

E vem bomba e mais bomba

Uma atrás da outra

Ninguém vê... Ninguém viu

Não caiu na minha casa, essa é a questão

Conta mais uma história

E mais outras, até eu me cansar

Um dia acredito num poema

A poesia pode nos livrar da burrice

Um dia, um dia

Quem sabe?

                                              fim

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 32

 


Continuando...

                  Toni, sentindo bem mais leve, caminha em direção ao caminhão, assobiando uma canção que só ele sabia qual era. Deu a volta no caminhão e entrou no lado do carona. Mal entrou na cabine, o irmão, que também era uma ansiedade só, foi logo perguntando acerca do frete.

          - Aí Toni, conseguiu? O frete é nosso?

          - Claro! E o quê que eu não consigo? Mano, as coisas estão caminhando bem. Se continuar assim, a gente entrega o garoto são e salvo e ainda de lambuja a gente ganha umas cargas. Vamos unir o útil ao agradável.

          - Eu escutei bem? Você falou umas cargas?

          - É! Eu falei! Você não escutou? Então, eu consegui! Só que...

          - Já vem bomba! Só o quê?

          - Só que uma carga é bem pequena. São garrafas pet. A outra, ainda não sei. O seu Honório vai ligar para um empresário amigo dele, aqui de perto, e saber sobre a carga. Vamos torcer para que o cara não tenha arranjado ninguém para fazer o transporte.

           - Toni, o cara está fazendo sinal pra gente.

           - É pra gente segui-lo. Vamos nessa, Quim.

                  Quim liga o caminhão e vai seguindo o carro do empresário. Sai do posto e entra por uma rua de chão batido. A poucos metros avista um galpão, onde o carro de seu Honório já está parado em frente. Lá chegando, encontra o portão já escancarado e um rapaz sinalizando para que ele entrasse. Já dentro do galpão, Quim observa um monte de garrafas pet amarradas, olha para o irmão e comenta baixinho:

            - Toni, você sabe a quantidade de garrafas?

            - Ainda não. Só com a nota fiscal na mão é que vamos saber.

          - Toni, se for só essa quantidade, tá explicado porque ninguém quis pegar. E pelo jeito você nem sabe o valor que ele vai nos pagar, sabe?

          - Ainda não.

          - Como é que você pega um negócio sem saber quanto a gente vai levar! Você está ficando gaga!

          - Ei, pega leve! Quer desistir? A gente sabe do valor e desiste em seguida, ok?

          - Vamos lá, Toni.

          - Quim, não vai se precipitar. O valor que vier, está bom. Pensa bem. Está vindo a calhar. Acho que caiu do céu. A gente não ia de carreta vazia? Então não reclama, tá? Aguenta aí firme que eu vou falar com ele. Sossega esse coração.

          - Mano, vamos torcer então para que tudo dê certo. Garrafa pet? É isso mesmo? Só você mesmo!  

                  Toni desce do caminhão e vai até ao escritório do empresário. Enquanto isso um empregado já começa, sem nem perguntar, a colocar os amarrados de garrafas dentro da carreta. Quim olha de cara emburrada para o funcionário e faz um esforço sobre humano para não engrossar com ele. Engoliu em seco a sua raiva momentânea, mas deu um soco no volante.   

                    A porta do escritório estava entre aberta, mas por educação Toni bate assim mesmo, porém levemente. Lá de dentro Honório manda-o   entrar. Toni respira fundo para espantar a tensão. Caminha com firmeza, querendo aparentar descontração, até ficar frente a frente com Honório. Depois senta-se numa cadeira em frente ao empresário, sem que este o convide. Em seguida cruza a perna e bate na bota para tirar um pouco de poeira esbranquiçada que cobria todo o couro. Depois desse pequeno ritual, sorrir amigavelmente para Honório, que não prestou atenção ou não viu.

          - Seu Honório, - pergunta aparentando calma - a nota está pronta?

          - A nota está aqui. – responde secamente Honório, esticando o braço e entregando lhe a nota fiscal - Procura Tadeu nesse endereço da entrega. Ele é a pessoa que vai te pagar.

          - Qual é o valor do frete?

          - Está escrito num papel junto com a nota fiscal.

                 Toni abre o envelope e encontra um papel dobradinho. Custou tanto abri-lo que parecia que estava com medo do que ia encontrar. Mal botou os olhos em cima do valor, fez uma torção na boca que demonstrou de cara a sua decepção. O seu Honório que estava atento comentou:

          - Pouquinho, né? Mas pode ficar à vontade, se não quiser, pode desistir.

          - Não é isso. O senhor falou também do seu amigo. Já confirmou com ele?

          - Não. Mas vou dar uma ligadinha agora. Espera um pouquinho.

Continua na Semana que vem!