Continuando...
Toni, sentindo bem mais leve, caminha em direção ao caminhão, assobiando uma canção que só ele sabia qual era. Deu a volta no caminhão e entrou no lado do carona. Mal entrou na cabine, o irmão, que também era uma ansiedade só, foi logo perguntando acerca do frete.
- Aí Toni, conseguiu? O frete é nosso?
- Claro! E o quê que eu não consigo? Mano, as coisas estão caminhando bem. Se continuar assim, a gente entrega o garoto são e salvo e ainda de lambuja a gente ganha umas cargas. Vamos unir o útil ao agradável.
- Eu escutei bem? Você falou umas cargas?
- É! Eu falei! Você não escutou? Então, eu consegui! Só que...
- Já vem bomba! Só o quê?
- Só que uma carga é bem pequena. São garrafas pet. A outra, ainda não sei. O seu Honório vai ligar para um empresário amigo dele, aqui de perto, e saber sobre a carga. Vamos torcer para que o cara não tenha arranjado ninguém para fazer o transporte.
- Toni, o cara está fazendo sinal pra gente.
- É pra gente segui-lo. Vamos nessa, Quim.
Quim liga o caminhão e vai seguindo o carro do empresário. Sai do posto e entra por uma rua de chão batido. A poucos metros avista um galpão, onde o carro de seu Honório já está parado em frente. Lá chegando, encontra o portão já escancarado e um rapaz sinalizando para que ele entrasse. Já dentro do galpão, Quim observa um monte de garrafas pet amarradas, olha para o irmão e comenta baixinho:
- Toni, você sabe a quantidade de garrafas?
- Ainda não. Só com a nota fiscal na mão é que vamos saber.
- Toni, se for só essa quantidade, tá explicado porque ninguém quis pegar. E pelo jeito você nem sabe o valor que ele vai nos pagar, sabe?
- Ainda não.
- Como é que você pega um negócio sem saber quanto a gente vai levar! Você está ficando gaga!
- Ei, pega leve! Quer desistir? A gente sabe do valor e desiste em seguida, ok?
- Vamos lá, Toni.
- Quim, não vai se precipitar. O valor que vier, está bom. Pensa bem. Está vindo a calhar. Acho que caiu do céu. A gente não ia de carreta vazia? Então não reclama, tá? Aguenta aí firme que eu vou falar com ele. Sossega esse coração.
- Mano, vamos torcer então para que tudo dê certo. Garrafa pet? É isso mesmo? Só você mesmo!
Toni desce do caminhão e vai até ao escritório do empresário. Enquanto isso um empregado já começa, sem nem perguntar, a colocar os amarrados de garrafas dentro da carreta. Quim olha de cara emburrada para o funcionário e faz um esforço sobre humano para não engrossar com ele. Engoliu em seco a sua raiva momentânea, mas deu um soco no volante.
A porta do escritório estava entre aberta, mas por educação Toni bate assim mesmo, porém levemente. Lá de dentro Honório manda-o entrar. Toni respira fundo para espantar a tensão. Caminha com firmeza, querendo aparentar descontração, até ficar frente a frente com Honório. Depois senta-se numa cadeira em frente ao empresário, sem que este o convide. Em seguida cruza a perna e bate na bota para tirar um pouco de poeira esbranquiçada que cobria todo o couro. Depois desse pequeno ritual, sorrir amigavelmente para Honório, que não prestou atenção ou não viu.
- Seu Honório, - pergunta aparentando calma - a nota está pronta?
- A nota está aqui. – responde secamente Honório, esticando o braço e entregando lhe a nota fiscal - Procura Tadeu nesse endereço da entrega. Ele é a pessoa que vai te pagar.
- Qual é o valor do frete?
- Está escrito num papel junto com a nota fiscal.
Toni abre o envelope e encontra um papel dobradinho. Custou tanto abri-lo que parecia que estava com medo do que ia encontrar. Mal botou os olhos em cima do valor, fez uma torção na boca que demonstrou de cara a sua decepção. O seu Honório que estava atento comentou:
- Pouquinho, né? Mas pode ficar à vontade, se não quiser, pode desistir.
- Não é isso. O senhor falou também do seu amigo. Já confirmou com ele?
- Não. Mas vou dar uma ligadinha agora. Espera um pouquinho.
Continua na Semana que vem!


