terça-feira, 14 de abril de 2026

O Filho do Poder - Parte 22

 


 Continuando...

        Nisso Toni, com cara de assustado, surpreso com o que ouvira, foi se afastando da porta e ao virar-se, para sair dali o mais rápido possível, tropeçou numa lata de lixo, causando com isso um tremendo barulho. Rapidamente a porta foi aberta e apareceram os dois falsos patrulheiros, que o interpelaram:

          - O que o senhor deseja?

                Toni que já tremia dos pés à cabeça pensou rápido.

          - Agora é que estamos fritos! O que é que vou fazer? Ferrou!

                O falso patrulheiro, Pereira, fica olhando para aquela figura na sua frente, mais branca do que uma folha de papel. Mira-o de cima a baixo, com uma expressão de desdém, e fala ríspido:

           - Ei, cara! Engoliu a língua? Já fizemos uma pergunta! Quer que repita?

           - Eu, eu – Toni gaguejando – eu queria ir ao banheiro. Só isso. Será que dá?

           - Aqui não é bar, cara! – Blanco falou com um tom grosseiro – Você estava aqui há muito tempo?

          - Não. Não senhor. Claro que não. Acabei de chegar. Só estou apertado pra ir ao banheiro.

          - Blanco, acho que esse cara estava xeretando.

          - Eu. Eu não, senhor. Como disse, só estava querendo ir ao banheiro.

          - Você ouviu alguma coisa? – perguntou Blanco.

          - Não. Só estava chegando e derrubei a lata de lixo. Ouvi nada não.

          - Pereira esse cara não está me convencendo não. Vamos dar uma olhadinha na documentação do caminhão? Vamos ver o que o amigo está carregando.

          - Cara o que você tem aí? Qual é a carga?

          - Senhor...

          - Pereira, é meu nome.

          - A nossa carga é de fogões. – disse Toni com a voz trêmula.

                Enquanto isso, na carreta, Quim conversa com o garoto.

          - Oh menino! Está tudo bem com você?

          - Tudo. Só estou cansado e o corpo doendo.

          - Mas isso vai passar. Escuta só. Como Toni está demorando, acho melhor à gente ir até lá. Você aproveita e vai ao banheiro. Tenho que ver o que está acontecendo. Essa demora não me agrada nada.

          - Vou ficar aqui. Não estou com vontade de ir ao banheiro, não.

          - Mas eu não posso deixar você aqui sozinho. Você vai ter que ir comigo. Vamos lá.

               Mal Quim sai do caminhão e espera o garoto descer, Toni olha na sua direção e fica desesperado. Os pensamentos brotam na sua cabeça:

          - Meu Deus! Agora é que o bicho vai pegar! E agora, o que é que eu faço? Quim, olha pra cá! Olha!

                Os falsos patrulheiros cochicham, virados para a cabine do posto. E isso veio a calhar, pois assim não viram Quim descer do caminhão. E na mesma hora, parecendo uma comunicação por telepatia, o irmão olha na sua direção. Toni então gesticula para ele, que imediatamente entende o sinal e volta rapidamente para dentro do caminhão.

           - Graças a Deus! - Toni se distrai e fala, mesmo baixinho, mas os patrulheiros ouvem alguma coisa, mesmo não entendendo. Pereira então interroga-o imediatamente:

           - Ei cara!  Você está falando com quem?  

           - Eu... Eu só estava olhando para o caminhão e acenei para o meu irmão Quim. Ele está na boleia. Só falei mano, na hora que acenei.

           - Pereira você vai lá?

           - Vou. Deixa comigo. Vamos descolar algum pro leitinho das crianças.

          - Pereira, dá uma vasculhada legal. Essa turma está sempre errada. A documentação nunca bate certinha. Mesmo quando está certa, errada está. Vou rápido ao banheiro, alguma coisa não bateu bem aqui dentro.

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 7 de abril de 2026

O Filho do Poder - Parte 21

 


Continuando...

        Com a dúvida, se deveria bater ou não, ele segurou a maçaneta e encostou a cabeça na porta. De repente começou a ouvir uma conversa entre dois patrulheiros. O diálogo era o seguinte:

          - Pereira. Olha só o que chegou aqui. Dá uma olhadinha na tela do computador.

          - O que foi Blanco?

          - Vem cá! É lá do Acre! É briga de cachorro grande! Mas a gente vai se dar bem nessa.  

          - É isso aí? Eu já sabia. Tem um camarada meu, de lá, que já me bateu toda a história. Ele faz uns servicinhos para um chefão do cartel e pra mim também. Faz jogo duplo. O traficante é um tal de Pablo. Dizem que o cara é quente. Tem dinheiro que não acaba mais. É realmente um homem forte do tráfico.

         - Pereira, o garoto que foi sequestrado é filho desse cara?

         - É sim. Não disseram não, mas é filho desse Pablo. Eu só não sei o nome do traficante que mandou sequestrar o garoto. Mas esse meu informante vai descobrir e vai me avisar. Ele só sabe, e já me falou, que os sequestradores trouxeram o garoto aqui pra Bahia. Por isso o chefe mandou a gente invadir esse posto. É por aqui que eles vão passar.

          - Eles já estão aqui? Não acredito!

          - Sabe qual é o nome do garoto?

          - Não. Nem desconfio.

          - Estou informado. Bem informado. O meu camarada disse que o nome do garoto é Carlos Hernandes.  Confere aí.

         - É sim, Pereira. Você está bem informado mesmo, hem! É! Mas você deve ter visto o nome do garoto aqui na tela, não foi

        - Vi nada! Eu sou é bem informado! Eu tenho é que me virar, meu irmão. Com esse salariozinho, não dá nem pra comprar o leitinho das crianças.

       - Ué! Você está se sentindo um policial, Pereira? Os caras estão lá atrás amarrados, esqueceu?

       - Claro que não, Blanco. Só estou exercitando.  Não se esqueça que esses nomes não nos pertencem.

       - Tudo bem. Não podemos tirar os olhos dos crachás para não esquecer os nossos novos nomes.

      - Tá certo. Escuta só. Quando chegar a informação de quem sequestrou, a gente age. Se eles vieram pra cá, é porque a base é aqui.  Certo? Então, só temos realmente que saber quem é.  Aí a gente monitora e pega o garoto.

       - Pereira, será que foi o grupo do Ramiro? Esse também é quente, né? E eu sei onde fica uma das fazendas dele. Eu e Nestor já demos cobertura a ele, antes de ficar com Rufo.

       - Nem me falou nada, hem!

       - Foi o Nestor que me botou nessa.

       - Tudo bem. Se for ele, aí vai ser mole, né? A gente toma o garoto dele. Depois eu falo com esse meu amigo e ele fica como intermediário na transação. Mas vamos ter que falar com o chefe. Vamos ter que arranjar um local para guardar o menino.

       - Isso é fácil. Deixa comigo.

       - Tudo bem.

       - Pereira, tem uma coisa.

       - O que é?

        - Nada demais. Sobre o Nestor junto na jogada. Fala você com o chefe, ele te escuta mais.  

        - Mas ele é de confiança mesmo?

        - É. Total.

        - Blanco. Escuta meu irmão. Nós não devemos nos arriscar. Segredo é só pra um.  Já somos três e você tá querendo botar mais um. Não sei não, hem! Acho que é um furada!

         - Ele é pedra noventa, Pereira. Pode deixar. É da mesma escola nossa. Além, que é uma grande vantagem, do cara conhecer todos os passos do Ramiro.

         - Então, tá legal. Tem ele com Ramiro e o meu amigo do Acre com Pablo. Fechou bem. Já tinha falado com Rufo sobre ele, agora falo sobre Nestor. Daqui a pouco dou uma ligada para o chefe.

 Continua na Semana que vem!

terça-feira, 31 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 20

 


 Continuando...

       - Pediu e daí! O que é que a gente vai fazer? Estamos numa tremenda enrascada, mano. Não temos saída. Pensa aí: a gente pode entrar numa tremenda fria. A mulher não falou em traficantes?

       - Eu sei. Eu sei que ela falou. Mas vou pensar mais um pouquinho.

       - Pensa logo. De repente a gente é parado na Patrulha... Pensou nessa possibilidade? Então, como a gente vai explicar esse garoto aqui na boleia? Vamos ficar enrascado! Isso sim!

      - Depois das suas ponderações...

      - Aí Toni, tá falando difícil!

      - Deixa de bobeira. Isso não é hora para brincadeira. Então, depois do que você falou, pensei, pensei aqui com meus botões e começo a dar razão a você.

     - Viva! Até que enfim você concordou comigo! Puxa vida, hem!

     - Você está engraçadinho. Pensei o seguinte: eles foram sequestrados por traficantes, certo? Então – vou falar no seu ouvido – o pai do guri deve ser traficante também, certo? Isso está cheirando a guerra de gangues.

     - Então, você chegou aonde eu cheguei. É isso aí, Toni. Pronto está resolvido. A gente entrega o garoto à polícia. Os policiais vão cuidar dele direitinho. A polícia não é para isso? Não é pra proteger o cidadão?

    - É Quim, você tem razão. Vamos nessa. Vamos resolver logo isso. Pisa mais um pouco. Mas sem ultrapassar a velocidade permitida. Ouviu?

          - Tá bem! Tá bem! Mas o quê que a gente vai dizer pra eles sobre o garoto?

          - A gente diz que achamos o garoto andando pela estrada. Não é melhor assim? Simples assim. A gente não precisa entrar em detalhes, Quim.

         - Mas se eles perguntarem pelo acidente?

         - Será que eles não sabem do acidente? Estou apostando na possibilidade de não saberem ainda. Até agora não passou ninguém pela gente. Você viu algum movimento, Quim?

        - Não. Toni, isso é estranho, não é?

        - O que é estranho?

        - O estranho, é porque toda vez que a gente entra numa roubada nunca passa ninguém. Nunca notou isso?

        - Sei lá, Quim. Acho que nunca prestei atenção.

        - Mas eu estou sempre ligado. Com aquele fantasma então! Aquela menina não sai da minha cabeça. Posso te falar um negócio?

        - O que é?

        - Toni, aquela história foi tão louca que eu tenho dúvida se existiu.

        - Mas como não existiu?

        - Sei lá, mano. Duvido se a gente consegue achar aquela estrada. Acho que nem existe.

       - Claro que existe. Se não existisse a gente não tinha ido lá.

      - Mas Toni, será que fomos lá mesmo?

      - Ah! Deixa isso pra lá! Vai acabar dando um nó na minha cabeça! Esquece! Já passou! Agora temos é que resolver esse problema que temos nas mãos.

  - É, Toni. E que problemão. Mano, se prepara.

  - Me preparar para quê?

  - A Patrulha está depois daquela curva lá.

  - É mesmo. A gente para e entrega o garoto.

                    Quim trafegou por mais quinhentos metros e encostou a carreta. Depois falou para o irmão:

          - Toni, deixa que eu vou até lá. Fica aqui com o garoto. Não sei o porquê, mas bateu um negócio aqui na cuca, me mandando ir sozinho. Vou sondar. Depois aceno pra você. Tá bom?

          - Não, deixa que eu vou até lá. Fica aqui esperando. Como você está cansado de falar, eu sou o mais velho. Então vou eu.

          - Tudo bem, você manda. – respirou como tivesse se livrando de um problema - Mas conversa direitinho com os policiais.

          - Claro que eu vou conversar numa boa.

                Toni desceu do caminhão, foi andando, sem muita pressa, quase arrastando os pés, em direção ao posto da patrulha. Dava a impressão de que não queria demonstrar o quanto estava ansioso. No fundo estava com medo da missão que se encarregara. Deu uma parada, parecendo que ia desistir, mas respirou fundo e foi em frente. Chegou até a porta e ficou parado em frente sem nada fazer. Depois, mesmo com a indecisão de plantão, ameaçou bater na porta. Chegou até a levantar o braço, com o punho fechado, porém acabou abortando o movimento. Teve a sensação de que alguma coisa segurou o seu braço. Isso ele segredou depois ao irmão.

 Continua na Semana que vem!