Continuando...
Enquanto Pereira se comunica com os postos da Patrulha Rodoviária Federal, com os estados fronteiriços com a Bahia, Toni e Quim estão focados num único objetivo: entregar o garoto ao seu pai, no Acre.
Trafegavam pela BR 242. Era visível a tensão que Toni trazia nas marcas faciais. Quim observou que o irmão segurava o volante como se tivesse pegando um saco de cimento, então comentou:
- O que houve, mano? Tá aí atracado com o volante. Vai acabar arrancando ele. Relaxa. Você está muito tenso.
- Relaxar? Como? Quim temos que sair da Bahia o mais rápido possível. Alguma coisa está me dizendo que os patrulheiros vêm atrás da gente.
- Vem não, Toni. Vem não. Eles não são patrulheiros. Não vêm atrás da gente. Eles não vão se arriscar em se apresentar, ao vivo, como patrulheiros.
- Como você tem certeza disso?
- Certeza, certeza eu não tenho, entretanto tem outra coisa a nosso favor: a distância. Toni, é muito chão que eles terão que percorrer até pegar a gente. E, tem mais, até eles descobrirem que o garoto está vivo, vai demorar muito.
- Ih, Quim! Pensei numa coisa aqui!
- O que foi? Fala logo, mano!
- Estou pensando... Você pegou a coberta que estava no chão?
- Não. Pensei que você fosse pegar, Toni.
- Peguei nada! Como pude me esquecer disso!
- Então mano, eles já devem ter descoberto a coberta e deduzido que o garoto está vivo. E o pior, com a gente.
- Chi! É mesmo! Agora ferrou! Pisa fundo, Toni! Pisa fundo!
- Mas também não precisamos nos desesperar. Temos que manter a calma. Aproveita e olha se o menino já acordou.
- Ainda não. O bichinho deve estar muito cansado. Mas também não é pra menos, né?
- Então não vou parar mesmo. Vou pisar fundo, mano. Vamos direto até Barreiras e entregar a mercadoria num pé e sair no outro. Já estamos até dentro do município. Daqui até lá é um pulo. Depois a gente entra o mais rápido possível em Tocantins. Aí lá sim, a gente para, enche o bucho, dá uma descansadinha e ruma pra Mato Grosso.
- É chão que não acaba mais! Já pensou a gente ter que atravessar todo o estado de Mato Grosso, depois Rondônia e mais o Acre, até Rio Branco? Não vai ser mole não! Você já pensou no tempo que vamos levar?
- Não pensa nisso não, Quim. Você deve estar pensando no prejuízo. Eu estou aqui preocupado é com o garoto.
- Eu também. Estou igual a você, em relação ao menino. Estou aqui pensando, além na situação do garoto, no tempo que vamos gastar nessa empreitada. – diz Quim com um ar de preocupação.
- Que empreitada? Não vamos ganhar nada. Sobre isso, não vale a pena ficar encucado.
- Mas você falou que eu estou preocupado com o prejuízo. Não falou? - ponderou Quim.
- Eu só falei em dinheiro por falar, mano. Você sabe disso. Foi falta de assunto. – fez uma pausa - Mano...
- O que é? – pergunta Quim, parecendo assustado.
- Calma, Quim. Você está com os nervos à flor da pele. É só uma coisa que pensei. E na verdade, já pensei pra caramba. O pior é que não encontrei um jeito pra gente se comunicar com o pai do garoto. Está difícil, porque não podemos correr risco, essa é a verdade. O cara é traficante, já pensou a gente sair por aí perguntando por ele? Acho que vai ser uma furada. Mas por outro lado, temos que levar o garoto até ele. O que fazer? E aí, mano?
- E aí? É que nós temos que ter precaução mesmo. Não podemos botar a nossa cara assim – virou o rosto para o irmão – pra qualquer um bater. Mas...
- Eu não quero que ninguém bata em mim, não!
- Toni, isso é modo de dizer! Eu também não quero levar nenhuma bolacha, não!
- Eu sei mano. Então Quim, você pensou em alguma coisa? Teve alguma ideia?
- Eu? Eu não. Toni a gente tá num mato sem cachorro. Essa é a minha conclusão.
- Ué, e o mas...? Você dizer mais alguma coisa.
-Sei lá, Toni!
- Sei lá Toni! É só isso que você tem pra dizer? Falando sério, mano. Eu sei que você é capaz. Bota esses dois neurônios aí pra funcionar.
- Tá de sacanagem comigo, Toni?
- Sacanagem, nada! Só quero que você pense num jeito aí da gente sair dessa enrascada, Quim. Arranja alguma coisa. Você não é criativo? Então, é até paranormal! Fala aí com algum espírito.
- De onde você arranjou isso, Toni? Que papo é esse? Que paranormal coisa nenhuma! Você é que é paranormal! Você viu o defunto e até falou com ele!
Continua Semana que vem!

