terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 43

 


Continuando...

           - Até que enfim você falou uma coisa boa.

           - Deixa de bobeira. Eu estou cansado também. Vou te segredar: visualizo um jantar decente. E depois, de barriga cheia, dormir bem.

           - Eu também, Toni. Mas a segunda parte, vou deixar para depois. Já visualizo umas menininhas...

           - Já vem você. Cara, tem hora que eu acho que você é tarado.

           - Que tarado o quê, Toni! Há quantos dias que não vejo uma gatinha? E você... Você parece um anacoreta!

           - Ih! O quê que é isso, mano? Não sou isso aí não! Falou, mas aposto que nem sabe o que é isso!

           - Sei sim. Eu li em algum lugar. São aquelas pessoas que ficam isoladas e só rezando, rezando. Só fazem isso. Mulher, nem pensar! É você!

           - Deixa de história, Quim. E eu não tenho os meus cachos? Eu não sou igual a você, que não pode ver um rabo de saia. Qualquer dia vai acabar pegando um padre. – diz Toni e cai na gargalhada.

          - Eu não me engano! Mulher é mulher! Vou pelo cheiro!

                 Os dois acabam caindo na gargalhada juntos. E a viagem dali para frente fica mais tranquila, sem nenhum incidente. Aos poucos o silêncio pousa na cabine, enquanto apreciam a paisagem, que margeia a estrada e se alonga pela planície até se perder de vista.

                  Uma vegetação rala se misturava com alguns arbustos que se esfregava no acostamento. Em algumas fazendas, que encontraram pelo caminho, o gado se espalhava até quase sumir no horizonte, parecendo pedras brancas enterradas no solo, deixando só um pedaço de fora. Depois de muito tempo em silêncio, Quim falou:

          - Aí mano, bonita essa paisagem. Não é como a do Estado do Rio, mas é bonita. É diferente, não é?

          - Muita coisa, Quim. A nossa é a mata Atlântica, aqui é cerrado. Mas que é bonito é. É diferente, mais não deixa de ter a sua beleza.

          - Toni, tá demorando à beça, não tá?

          - Já estamos chegando. Mano, só foi você falar e olha lá a placa.

          - Graças a Deus. Tô cansado, Toni. Tô cansado. Vamos procurar logo um local pra gente dormir.

          - Ué, vai dormir? E o jantar e depois as gatinhas? Só rindo, mano. Mas pode ficar tranquilo que é a primeira coisa que vou fazer. Estou um bagaço também. Mas vamos comer logo em seguida.

          - Mano, de Barreiras até aqui já tem mais de três horas de chão. Nem paramos.

          - Chora não. A gente bebe uma cerveja geladinha, quando chegar lá. Tá bom?

          - Aí já me animei.

                 Entraram onde indicava a seta. Dali até um posto de gasolina foi pouco tempo trafegando. Pararam, abasteceram e conversaram com o frentista sobre algum hotelzinho bom e barato. Ele indicou o hotel do próprio posto e permitiu que estacionassem o caminhão ali mesmo. Pegaram o garoto, que ainda estava sonolento, coisa que estavam achando muito estranho, e foram até o hotel e reservaram um quarto com três camas. Depois foram até o restaurante, tomaram a tão esperada cerveja gelada e jantaram. O menino a princípio recusou a refeição, mas Toni pegou assim mesmo e colocou o prato na sua frente. Ele ficou olhando para a comida até dar a primeira garfada, aí se animou e comeu tudo com uma velocidade impressionante. Toni e Quim acharam muito engraçado, pois não imaginavam que o garoto estivesse tão esfomeado. Olharam para o prato limpo e riram. A criança pareceu um pouco constrangida, mas agradeceu pelo prato de comida. Toni então ofereceu outra refeição, mas o menino recusou.

                   Depois da segunda cerveja Toni comentou:

          - Quim, acho que já está de bom tamanho. A gente para nessa segunda cerveja, tá bom? Não podemos esquecer que até Palmas tem muito chão. São seis, sete horas de viagem, ou até mais. É bom que a gente esteja de pé bem cedinho.

          - Pô Toni! Tão cedo assim? Não faz isso comigo, mano!

          - Deixa de ser preguiçoso, Quim. O que é que o garoto vai achar da gente?

          - Mas Toni, a gente quase não descansou! Só foi pauleira! E o sufoco que passamos? Não conta não? Foi só desgaste!

          - Tá bom. Saímos às oito horas, tá bom?

          - Assim já melhorou. Posso até arranjar uma gatinha.

          - Nem pensar! Depois dessa cerveja, vamos é dormir!

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 42

 


Continuando...

          - Verdade? E aí, Toni! O que aconteceu daí pra frente?

          - E aí, acho que foi pura sorte. Ele estava com a nota fiscal, a minha habilitação e a os documentos da carreta encostados no joelho. Não sei o que fez ele olhar para a nota fiscal. Só pode ter sido Deus. Ele que me protegeu. Eu estava olhando para ele na hora em que ele olhou para tudo que estava na sua mão e viu o nome do senhor Honório. Aí mudou completamente o panorama. Ele chamou o outro patrulheiro, o que estava vasculhando tudo, e disse que ia suspender a busca. Aí é que vem o x da questão: escutei quando eles falaram no nome de Pereira.

          - Pereira é o nome do patrulheiro lá de Barreiras, não é? É aquele filho de uma égua! O filho da mãe não perdeu tempo e ligou pra esses caras nos pegarem!

          - Quim, alguma coisa deu errado. Mas eles não falaram o que estavam procurando.  Desconfiei que era o garoto.

          - Toni, será que Pereira descobriu, ou só deduziu que a gente está com o garoto? Acredito que foi por causa da manta que ficou no chão. Mas eles não falaram mesmo na criança?

          - Depois falaram sim na criança e em você. Abriram o caminhão e deram uma geral. Se não fosse o nome de Honório, a gente estava frito. Ou melhor, eu estaria sendo fritado em óleo fervente.

          - Sem exagero, Toni! Sem exagero! Você faz logo um drama!

          - Exagero? Drama? A verdade, mano, é que eles iam acabar comigo. Não tenho certeza se eram patrulheiros ou bandidos. Torci para que fossem policiais de verdade. O negócio ali é muito grande. Entramos em briga de cachorro pitbull. E nós somos apenas dois vira-latas.

          - Eles falaram alguma coisa da carga?

          - Nada demais. O patrulheiro Ivan me perguntou se eu ia entregar a carga pra Tadeu. Quando eu ia saindo, ele mandou lembranças para o cara.

          - Toni, e você não achou estranho não?

          - Que tudo é estranho, não tenho dúvidas. E daí! Essa carga, a gente acha estranha desde que pegamos, mas foi graças a ela que a gente se livrou de entrar numa fria. Foi ou não foi? 

          - Pior que foi. Toni isso parece uma gang. Essa amizade de policiais com os donos de cargas suspeitas...

          - Mas Quim, esses policiais, pensando agora friamente, parecem gente de bem. Não vi nada de errado no procedimento deles. Eles não sabem, com certeza, que os colegas deles, do outro posto, foram feitos prisioneiros.

          - Isso é horrível. Esses bandidos não têm limites. Será que a gente não consegue avisá-los?

          - De repente quando a gente entregar a carga, contamos a história para Tadeu. Aí a gente deixa que ele avisa ao Ivan, já que parecem ser bons   amigos.

          - É isso mesmo, Toni. Não podemos colocar o nosso na reta. É só perigo rondando a gente. Vamos nos afastar o mais rápido possível dessa turma. Corremos perigo mesmo!

           - Bota perigo nisso. A gente não sabe quem é quem. Quim - o que é que você queria? - nesse nosso país do mensalão, mensalinho, lava jato e etc, só podia dar nisso. E a corrupção não para. Será que não vai ter fim?  É fogo que a nossa juventude vai tendo uma formação capenga. Quem é o herói e quem é o bandido? Continuamos votando errado. Aí dá nisso. E a gente que viaja muito, vê isso em cada canto desse país. Mas, felizmente, não é a maioria. Graças a Deus ainda tem muita gente honesta.

          - Toni, em todo lugar tem gente boa e ruim. Honesto ou desonesto, isso está dentro do ser humano. Parece que já chega com ele quando nasce.

          - É Quim. Mas o homem pode ser moldado. Pode ser levado para o bem ou para o mal. Entretanto, com todo o ensinamento, a pessoa parece que se sente atraída pelo caminho ruim. É mano, a coisa tá feia! Mas, mesmo assim, temos que ter esperança. E torcer para que o Brasil seja uma grande nação. Ninguém pode e nem deve torcer contra.

          - Verdade, Toni. Estou com você. Agora me diz uma coisa: aonde nós vamos dormi hoje?

          - Estamos precisando mesmo descansar. Vamos parar antes de escurecer. Arranjamos algum hotelzinho pra gente se hospedar, né? Mas se não tiver, a gente dorme no caminhão mesmo.

          - Mas Toni, dormir no caminhão de novo?

          - Não reclama não, Quim! Aonde você encosta já está dormindo! Se bobear dorme até em pé!

          - E você não? Toni você dorme mais rápido do que eu. Também você é mais velho, né?

          - Ih! Já vem você com esse papo de novo! Mais velho? Sou mais velho, mas não estou velho. É diferente. Deixa de história, mano. Quim, que município a gente está?

          - Deixa eu olhar aqui no mapa. É Ponte Alta do bom Jesus. Já estamos na rodovia 040, em Tocantins.

          - Quim, eu também estou muito cansado. A gente vai para o centro do município. Parece que é um lugar de poucos habitantes. Não sei nada desse lugar. Nunca fui lá, mas um amigo que já esteve por essas bandas, disse que é bonito. Mas acho que temos que pegar outra estrada.

          - Vamos encontrar alguma seta indicativa.  

          - Com certeza, Quim. Chegando lá, deve ter algum posto de gasolina. Deixamos o caminhão guardado e vamos procurar um lugar decente pra dormir. Estão bom assim?

 Continua Semana que vem!

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Filho do Poder - Parte 41

 


 Continuando...

        O garoto já estava deitado atrás do banco. Nem parecia que tivesse encarado alguma dificuldade. Pelo jeito o menino era preparado para a adversidade. Esticou-se, fechou os olhos, fingia que dormia ou tinha pegado no sono mesmo e sonhava com alguma coisa boa, pois de vez em quando deixava aparecer um leve sorriso. Quim notou e comentou com o irmão:

          - Toni, olha só. Nem parece que a gente encarou pedregulho no mato. Observa o sorriso que traz nos lábios. Que menino é esse?

          - O negócio foi terrível?

          - Um pouquinho. Mano eu pensei que você estivesse preso. Demorou muito. Realmente nós passamos maus pedaços dentro do mato. Caímos até dentro de um espinheiro.

          - Não brinca!

          - Sério. Estamos todo arranhado. Coitadinho do menino. Mas sabe que ele não reclamou? Garoto valente taí. Mas você não sabe da maior. Quer saber?

          - Claro! O que foi?

          - Aquela menina apareceu.

          - Que menina, Quim?

          - Que menina? O fantasma!

          - Não! Não acredito!

         - Mas pode acreditar que foi verdade. Falou até com o garoto.

         - Caramba! E o que é que ela queria?

         - Ajudar a gente. Foi ela que me orientou, senão eu ia ficar ali pertinho. Ela então mandou que nós andássemos mais. Por isso é que saímos aqui.

        - E cadê ela?

        - Trouxe a gente até aqui e depois sumiu.

        - Viu só! E você dizendo que a gente tinha sonhado! Que aquilo não tinha existido! Quim não pode brincar com essas coisas não!

       - É. Depois dessa, não brinco mais.

       - Quim, o importante é que vocês estão bem e com a ajuda dela. Viu só! É o nosso fantasma camarada!

       - Tá brincando? Na hora eu quase me borrei! Levei o maior susto!

       - Mas já passou, Quim. Agora tá tudo bem. E eu não estou brincando não. Quando ela apareceu vocês já tinham caído no espinheiro?

       - Já. Foi logo que entramos no mato. Depois desse sufoco ela apareceu.

       - Pelo jeito vocês não caíram só no espinheiro, não. Devem ter caído também dentro de algum esgoto. Ou pode ter pisado em alguma bosta! – disse rindo Toni.

          - Que bosta o quê! Fica rindo! Fica rindo! Mano, nós passamos o maior susto com uma cobra também.  Se não fosse a menina a gente estava era frito. Ela é que tirou aquele bicho peçonhento do nosso caminho.

          - Cobra? Caraca! E eu aqui brincando!

          - Eu nunca tive um medo tão grande na minha vida. Mas você sabe que o garoto disse que a cobra não era venenosa? Como ele conhece? E eu ali assustado pra caramba. E preocupado com ele. Ele até riu de mim. E a garota também.

         - Então foi isso, Quim?

         - Isso o quê?

          - Você não caiu dentro do esgoto e muito menos pisou numa bosta. Acho que você se cagou de medo! – riu até quase perder o fôlego.

          - Ih Toni! Para com isso! E eu sou homem pra me sujar assim! Para de rir da desgraça alheia! Mano, agora vamos falar sério. Como é que foi lá com os patrulheiros?

          - Desgraça alheia. Engraçado isso. Então Quim, foi muito estranho.  Muito estranho mesmo.

         - Então conta. Deixa de suspense. Vamos, conta logo. Estou curioso.

        - Quim, o garoto está ferrado de novo no sono.

        - Está cansado. É melhor ele ficar dormindo. Eu também vou acabar tirando um soninho. Mas antes que eu durma, conta a sua história.

        - Você sabe que eles liberaram todos os caminhões e carros de passeio, menos o nosso caminhão? Eles vieram com determinação em cima de mim. Já estavam com a placa do nosso caminhão, escrita num pedaço de papel. Um dos patrulheiros, que não tinha a cara de bons amigos, foi mandando logo eu descer. Eu notei que tinha algo errado, pois nem pediram a nota fiscal da mercadoria e nem a minha habilitação. Enquanto o outro já estava do meu lado com a mão na arma. Ele então já foi vasculhando tudo à procura de alguma coisa. Ou do garoto. Mas enquanto ele revirava o caminhão, eu entreguei ao outro patrulheiro, de nome Ivan, a nota fiscal, os documentos do caminhão e a minha habilitação. Sabe que o cara nem olhou?

 Continua Semana que vem!