terça-feira, 14 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 35

 


 Continuando...

                  Toni soltou o cinto de segurança, para poder se virar para trás. Ajoelhou-se no banco e foi espiar o menino. Mal colocou olhos em cima da criança, ela se mexeu. Depois deu uma boa espreguiçada, para confirmar que acabara de acordar. Toni sorriu e comentou entusiasmado.

          - Quim, acho que o garoto está acordando. Acho não, tenho certeza. Até se espreguiçou. Agora estou aliviado! – Toni diz com uma ponta de entusiasmo.

          - Acordou? É mesmo? Puxa mano, já era tempo. É realmente um alívio. Assim fica a certeza que ele vai viver.

          - Claro. Agora só falta ele abrir os olhos para completar a nossa esperança. Olha Quim! Acabei de falar e ele abriu os olhos no mesmo instante! – Toni falou emocionado -  Oi menino, tudo bem? Você dormiu pra caramba. Meu coração está até disparou. Já nem sabemos mais o tempo que você está dormindo. Estou falando por mim e pelo meu irmão Quim.

          - Oi rapazinho! – falou Quim, virando a cabeça rapidamente para trás – Parece que você dormiu por um ano! Caramba!

                  O garoto ainda sem saber em que lugar estava, olhou espantado para os dois e falou:

          - Ainda estou com sono.

          - Se quiser dormir mais um pouco, pode dormir. Né Quim?

          - Claro. Puxa mais um ronco aí, que temos muita estrada pela frente. Sabe que nós descobrimos o seu nome? Você ainda não se lembra, não é?

          - Não lembro de nada. Nem  do meu nome.

          - Quim, será que não vai confundir mais a cabeça dele, se você falar?

          - Vai nada, Toni. Ele tem que saber. Menino o seu nome é Carlos. Ih esqueci o resto! Você se lembra, Toni?

          - Lembro não. Agora me deu um branco. Nem sei se eu falei.

          - Falou sim. Depois eu me lembro. Esse nome diz alguma coisa pra você, menino?

                  O menino ficou olhando para o alto, depois esfregou a ponta dos dedos na cabeça, parecendo que desfolhava o pensamento, e balançou a cabeça mais de uma vez.

          - Não sei não. – disse quase sussurrando - Carlos? É um nome bonito. Eu gostei.

          - Ei Toni, isso já é um bom sinal, você não acha? – Quim falou demonstrando otimismo.

          - Vamos torcer. Vamos torcer. Até que você concordou comigo, hein mano!

                  Toni não contestou a colocação do irmão. Repousou a cabeça no encosto do banco, tombou-a para o lado e ficou em silêncio. Parecia cansado. Em poucos minutos já estava dormindo profundamente. Quim olhou para o irmão, balançou a cabeça e sorriu.

               O menino também voltou para o seu soninho, depois de comer um pouco e beber um copo d’água, que Toni lhe dera. Só Quim permaneceu aceso na direção. Já dirigia há muito tempo e o silêncio começou a incomodá-lo. Olhou para o irmão e achou que estava na hora de acordá-lo, já que os seus roncos, mesmo que espaçados, estavam ficando irritativos também. Não sabia se o silêncio era mais chato do que o ronco do irmão. Ou o contrário. Como estava se sentindo incomodado, resolveu acorda-lo. Só que Toni, parecendo que tinha adivinhado, despertou antes que o irmão chamasse por ele.

          - Ué Quim, acho que apaguei. Já andamos muito?

          - Se andamos muito? Bota muito nisso. Daqui a pouco escurece.

          - Já?

          - Mais ou menos. Acho que você está de olho fechado.

          - Que de olho fechado, o quê! Mano, você deve tá é cansado. Vamos dar uma paradinha, aí depois eu vou pra direção.

          - Mas não tem nenhum posto por perto. Acredito que em menos de uma hora possamos encontrar um.  

          - Qual o problema? A gente para agora e depois para de novo no posto. Quim, é só pra gente esticar um pouquinho às pernas. E, claro!, dar uma chegadinha no mato. Depois a gente come uns salgadinhos que comprei e toma um cafezinho. Você nem viu quando eu comprei os salgadinhos e enchi a garrafa de café. Foi na saída que lembrei. Comprei também pro garoto, pro lanche dele. Ele comeu tão pouco a quentinha, pode ser que abra o apetite pro lanche.

          - Olha só, mano. Acordou também. E aí Carlos, está com fome? Ei menino, estou falando com você. Se liga, o seu nome é Carlos!

          - Moço, eu estou com fome sim.  Mas também eu quero ir ao banheiro.

          - Meu nome não é moço. Meu nome é Quim. E o meu irmão é Toni. Gravou?

          - Quim e Toni.

          - É isso aí. Mas agora o banheiro que você vai, é no mato. No momento, é só esse banheiro que a gente tem. Mas pode ficar tranquilo que temos papel higiênico aqui.

          - Não preciso de papel não. Só vou dar uma mijada.

          - Quim, eu pensei que ele fosse falar xixi. O cabra falou forte: vou dar uma mijada! E eu vou também.

          - Vai mijão! Olha lá Toni, não vai pegar o meu banheiro não! O meu é da esquerda! Ei, deixa eu parar primeiro. Não quero ser responsável pela morte de um velhinho, não.

          - Engraçadinho. Você acha que a gente ia se jogar? Aí menino, vai se acostumando com as gracinhas do meu irmão. Ele é assim mesmo: um palhação.

          - Palhação, uma ova! Vamos lá, parei! Viu só? Você não precisou de descer do caminhão em movimento. Acho melhor eu te pegar, porque você não está em idade para descer sozinho de um caminhão. Não é velhinho?

          - Velhinho é uma ova! Vamos descer logo, antes que eu mije na calça!

 Continua Semana que vem!

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Pensamento de Poeta - Dom Pixote e as Manchas




 

Dom Pixote e as Manchas

- José Timotheo - 

Há de haver saída

Desse labirinto secular

Pintaram portas e janelas

Num concreto armado

Ilusão

Amassaram sonhos

E trançaram as esperanças

Feito ferragens

O concreto da ignorância

Endurece a vida

Sem salva-vidas

Sem mar, sem ar, sem som

Borbulhas

Dá o tom, maestro

Só notas sem melodia

Carregam malas

Viagens, mudanças

E a gente dança

Sem salão de festas

Só testas de ferro

Onde a riqueza da minha terra?

Nos deixaram a pirita

Que não mata a fome

Mas a fome mata

Somos tolos

Socorro

Infelizmente só temos um

Dom Pixote

Que nem temos mais

Sem defesas

Sem pão

Sem mesa

Esperando, esperando

É aqui a minha terra?

Será que aterrissei em aeroporto errado?

                                            fim

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

O Filho do Poder - Parte 34

 


 Continuando...

        O irmão que já ia saindo da estrada de chão, para entrar na BR, parou imediatamente a carreta. Ansioso meteu a mão dentro do envelope e puxou a nota fiscal, que com ela veio um pequeno papel, onde estava escrito o preço do frete. Pegou-o e leu. No mesmo instante ficou com a cara emburrada. Olhou para o irmão e torceu a boca. Em seguida passou a mão raivosamente na cabeça, mais de uma vez, deixando os cabelos todo desgrenhado.

           - Toni, isso é sacanagem, não é? Só pode ser! Volta lá e desfaz o negócio! Assim não dá! – gritou, soltando fumaça pelas ventas - Só pode ser sacanagem!

          - Pera por aí, Quim! Ficou histérico? Mano, era isso ou nada. Nem sei se a gente ia poder recusar, depois de termos entrado no galpão.

         - Então o cara é bandido mesmo? Como você foi entrar nessa furada? É perigoso, mano?

         - Sei lá. Não posso afirmar. Na hora, eu tive uma sensação estranha que eu vi claramente que não tínhamos saída.

         - Toni, que bosta! Parece que estava adivinhando quando eu vi aquela mixaria de garrafas. Mano, me deu um mal-estar na hora. Fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Pensei: vem merda por aí.

         - Mas vamos tentar tirar proveito disso. Vamos ver pelo lado bom: isso pode ser o nosso passaporte. Pensa bem. Isso é que é importante. O caminhão não está cheio, mas é um frete. A gente tentar passar com o caminhão vazio, com certeza, ia levantar suspeita.

         - Levantar suspeita de quê? A gente pode viajar pelo Brasil todo sem transportar nada, não pode?

         - É... – fez uma pausa – Escuta só: o meu nome e a placa do caminhão já devem estar em todos os postos da patrulha rodoviária. Além, você se esqueceu, de termos aqueles bandidos no nosso calcanhar. Eles não vão nos deixar em paz. Nosso nome vai passar de boca em boca. Mas temos que torcer para chegarmos na patrulha da fronteira, antes que eles passem o rádio. Até chegarem onde aconteceu o acidente e olharem aquele estrago todo, já estaremos dentro de outro estado. Se Deus quiser! – erguendo as mãos para o céu -  A carga limpa, deve nos ajudar. Só tenho uma preocupação: será que os patrulheiros de lá serão realmente policiais de verdade? Vamos torcer para que sejam. Se outros bandidos tomaram conta do posto, a gente vai estar numa tremenda enrascada.

          - Vamos rezar! Vamos rezar para que o posto não esteja não mão dos bandidos!

          - Você falando em rezar, Quim? Mas... Vamos rezar mesmo!

          - Mas, mas! Quem ouvir você falar isso, vai achar que eu sou ateu! Para com isso, mano!

     - Tá bom! Eu sei que você é temente a Deus!

     -Toni, estava conversando com os meus botões... – dá uma pausa e deixa brotar um leve sorriso, como se estivesse satisfeito com a frase – Mano, - continua, mas sério - a gente nunca transportou uma carga desse tipo e rendendo tão pouca grana, certo?

          - Certo. E daí? Aonde você quer chegar com esse papo?

          - Eu quero chegar - você interrompeu o meu pensamento, mano! – dá um muxoxo, mas rapidamente continua – Como eu estava dizendo, que quero chegar no seguinte ponto: eu estive pensando em que preço essas garrafas vão chegar lá em Tocantins. Pelo que eu pude ver, vão chegar caríssimas. Eu não sei o que eles vão botar dentro delas, tudo bem, mas se for refrigerante já deve tá mais alto do que esses refrigerantes vagabundos que a gente encontra por essa estrada afora.

          - Por um acaso você já fez a conta?

          - Toni, não precisa nem ser bom em matemática. Só dei uma olhada rápida na nota e fiz uma conta de cabeça. Dá uma olhada no valor. – estica o braço e entrega a nota para o irmão.

          - Deixa eu ver. Tá dez mil reais. Mais o que ele vai nos pagar. O que é que tem isso?

         - Olha a quantidade de garrafas pet.

         - Já vi, Quim.

         - Quantas tem?

         - Tem dez mil garrafas. E daí?

         - Toni, como você é cabeça dura! E daí? Você não percebeu que deve ter armação com o transporte dessa carga? Presta atenção. Cada garrafa já está saindo a um real.  Bota o valor do transporte – é uma merreca, mas soma mais o que vai dentro dela, mais a mão de obra... Vai ser um refrigerante muito caro. Você não acha estranho?

          - Que estranho o quê, Quim! Pode ser outras coisas pra botar dentro das garrafas! Por exemplo, mel.

          - Que mel o quê, Toni! Eu nunca vi mel em garrafa pet! Por um acaso você já viu?

          - Não. Nunca vi. Mas se for?

          - Toni, você está delirando!

          - Delirando, nada!

          - A não ser que você esteja vendo o que eu não vejo. Como você é um paranormal, vê além da imaginação.

          - Para com isso, Quim! Já vem você com esse papo de novo? Esquece essa história! Você teima com isso! O fantasma que eu vi, você também viu!

          - Mas você é que me chamou várias vezes disso aí. Tá bom mano. Então aproveita a sua mediunidade e cura esse garoto. Vai! – sorri, com um rasgo de deboche.

          - Vai rindo! Vai rindo! Quero ver se aparecer outro fantasma pela sua frente, se você vai rir! Aí é que vou saber se você é machão mesmo! Quero ver você debochar do fantasma! Quim, você se faz de esquecido, mas foi você que viu a menina em pé na estrada. E, se não me engano, quase se borrou de medo.

          - Eu não, Toni! Não vem com esse papo não! Esquece isso, tá legal?

          - Tá com medo?

          - Que medo o quê. Esquece esse negócio de fantasma. Como eu já te disse, isso não aconteceu. Foi só fruto da nossa imaginação. Olha o menino: é o melhor que você faz. Só estamos perdendo tempo aqui parado. Vamos pra BR.

          - Tá bom. Vamos esquecer aquilo tudo. É melhor mesmo.  Vou olhar o guri. Ele já está há muito tempo apagado. Isso é preocupante.

 Continua Semana que vem!