Continuando...
-
Até que enfim você falou uma coisa boa.
-
Deixa de bobeira. Eu estou cansado também. Vou te segredar: visualizo um jantar
decente. E depois, de barriga cheia, dormir bem.
- Eu também, Toni. Mas a segunda parte, vou
deixar para depois. Já visualizo umas menininhas...
- Já vem você. Cara, tem hora que eu acho
que você é tarado.
- Que tarado o quê, Toni! Há quantos dias que
não vejo uma gatinha? E você... Você parece um anacoreta!
-
Ih! O quê que é isso, mano? Não sou isso aí não! Falou, mas aposto que nem sabe
o que é isso!
- Sei sim. Eu li em algum lugar. São aquelas
pessoas que ficam isoladas e só rezando, rezando. Só fazem isso. Mulher, nem
pensar! É você!
- Deixa de história, Quim. E eu não tenho os
meus cachos? Eu não sou igual a você, que não pode ver um rabo de saia.
Qualquer dia vai acabar pegando um padre. – diz Toni e cai na gargalhada.
- Eu não me engano! Mulher é mulher! Vou
pelo cheiro!
Os dois acabam caindo na gargalhada
juntos. E a viagem dali para frente fica mais tranquila, sem nenhum incidente. Aos
poucos o silêncio pousa na cabine, enquanto apreciam a paisagem, que margeia a
estrada e se alonga pela planície até se perder de vista.
Uma vegetação rala se misturava com alguns arbustos que se esfregava no acostamento.
Em algumas fazendas, que encontraram pelo caminho, o gado se espalhava até
quase sumir no horizonte, parecendo pedras brancas enterradas no solo, deixando
só um pedaço de fora. Depois de muito tempo em silêncio, Quim falou:
-
Aí mano, bonita essa paisagem. Não é como a do Estado do Rio, mas é bonita. É
diferente, não é?
-
Muita coisa, Quim. A nossa é a mata Atlântica, aqui é cerrado. Mas que é bonito
é. É diferente, mais não deixa de ter a sua beleza.
- Toni, tá demorando à beça, não tá?
- Já estamos chegando. Mano, só foi você falar
e olha lá a placa.
- Graças a Deus. Tô cansado, Toni. Tô cansado.
Vamos procurar logo um local pra gente dormir.
- Ué, vai dormir? E o jantar e depois as
gatinhas? Só rindo, mano. Mas pode ficar tranquilo que é a primeira coisa que
vou fazer. Estou um bagaço também. Mas vamos comer logo em seguida.
-
Mano, de Barreiras até aqui já tem mais de três horas de chão. Nem paramos.
- Chora não. A gente bebe uma cerveja
geladinha, quando chegar lá. Tá bom?
- Aí já me animei.
Entraram onde indicava a seta. Dali até um
posto de gasolina foi pouco tempo trafegando. Pararam, abasteceram e
conversaram com o frentista sobre algum hotelzinho bom e barato. Ele indicou o
hotel do próprio posto e permitiu que estacionassem o caminhão ali mesmo.
Pegaram o garoto, que ainda estava sonolento, coisa que estavam achando muito
estranho, e foram até o hotel e reservaram um quarto com três camas. Depois
foram até o restaurante, tomaram a tão esperada cerveja gelada e jantaram. O
menino a princípio recusou a refeição, mas Toni pegou assim mesmo e colocou o
prato na sua frente. Ele ficou olhando para a comida até dar a primeira
garfada, aí se animou e comeu tudo com uma velocidade impressionante. Toni e
Quim acharam muito engraçado, pois não imaginavam que o garoto estivesse tão
esfomeado. Olharam para o prato limpo e riram. A criança pareceu um pouco
constrangida, mas agradeceu pelo prato de comida. Toni então ofereceu outra
refeição, mas o menino recusou.
Depois da segunda cerveja Toni comentou:
-
Quim, acho que já está de bom tamanho. A gente para nessa segunda cerveja, tá
bom? Não podemos esquecer que até Palmas tem muito chão. São seis, sete horas
de viagem, ou até mais. É bom que a gente esteja de pé bem cedinho.
- Pô
Toni! Tão cedo assim? Não faz isso comigo, mano!
- Deixa de ser preguiçoso, Quim. O que é
que o garoto vai achar da gente?
-
Mas Toni, a gente quase não descansou! Só foi pauleira! E o sufoco que
passamos? Não conta não? Foi só desgaste!
- Tá bom. Saímos às oito horas, tá bom?
- Assim já melhorou. Posso até arranjar
uma gatinha.
- Nem pensar! Depois dessa cerveja, vamos
é dormir!
Continua Semana que vem!