terça-feira, 2 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 29

 


 Continuando...

               Enquanto Pereira se comunica com os postos da Patrulha Rodoviária Federal, com os estados fronteiriços com a Bahia, Toni e Quim estão focados num único objetivo: entregar o garoto ao seu pai, no Acre.

                Trafegavam pela BR 242. Era visível a tensão que Toni trazia nas marcas faciais. Quim observou que o irmão segurava o volante como se tivesse pegando um saco de cimento, então comentou:

          - O que houve, mano? Tá aí atracado com o volante. Vai acabar arrancando ele. Relaxa. Você está muito tenso.

          - Relaxar? Como? Quim temos que sair da Bahia o mais rápido possível. Alguma coisa está me dizendo que os patrulheiros vêm atrás da gente.

          - Vem não, Toni. Vem não. Eles não são patrulheiros. Não vêm atrás da gente. Eles não vão se arriscar em se apresentar, ao vivo, como patrulheiros.

          - Como você tem certeza disso?

          - Certeza, certeza eu não tenho, entretanto tem outra coisa a nosso favor: a distância. Toni, é muito chão que eles terão que percorrer até pegar a gente. E, tem mais, até eles descobrirem que o garoto está vivo, vai demorar muito.

           - Ih, Quim! Pensei numa coisa aqui!

           - O que foi? Fala logo, mano!

           - Estou pensando... Você pegou a coberta que estava no chão?

           - Não. Pensei que você fosse pegar, Toni.

           - Peguei nada! Como pude me esquecer disso!

           - Então mano, eles já devem ter descoberto a coberta e deduzido que o garoto está vivo. E o pior, com a gente.

           - Chi! É mesmo! Agora ferrou! Pisa fundo, Toni! Pisa fundo!

           - Mas também não precisamos nos desesperar. Temos que manter a calma. Aproveita e olha se o menino já acordou.

           - Ainda não. O bichinho deve estar muito cansado. Mas também não é pra menos, né?

           - Então não vou parar mesmo. Vou pisar fundo, mano. Vamos direto até Barreiras e entregar a mercadoria num pé e sair no outro. Já estamos até dentro do município. Daqui até lá é um pulo. Depois a gente entra o mais rápido possível em Tocantins. Aí lá sim, a gente para, enche o bucho, dá uma descansadinha e ruma pra Mato Grosso.

          - É chão que não acaba mais! Já pensou a gente ter que atravessar todo o estado de Mato Grosso, depois Rondônia e mais o Acre, até Rio Branco? Não vai ser mole não! Você já pensou no tempo que vamos levar?

         - Não pensa nisso não, Quim. Você deve estar pensando no prejuízo. Eu estou aqui preocupado é com o garoto.

         - Eu também. Estou igual a você, em relação ao menino. Estou aqui pensando, além na situação do garoto, no tempo que vamos gastar nessa empreitada. – diz Quim com um ar de preocupação.

         - Que empreitada? Não vamos ganhar nada. Sobre isso, não vale a pena ficar encucado.

         - Mas você falou que eu estou preocupado com o prejuízo. Não falou? - ponderou Quim.

         - Eu só falei em dinheiro por falar, mano.  Você sabe disso. Foi falta de assunto. – fez uma pausa - Mano...

          - O que é? – pergunta Quim, parecendo assustado.

          - Calma, Quim. Você está com os nervos à flor da pele. É só uma coisa que pensei. E na verdade, já pensei pra caramba. O pior é que não encontrei um jeito pra gente se comunicar com o pai do garoto. Está difícil, porque não podemos correr risco, essa é a verdade. O cara é traficante, já pensou a gente sair por aí perguntando por ele? Acho que vai ser uma furada. Mas por outro lado, temos que levar o garoto até ele. O que fazer? E aí, mano?

           - E aí? É que nós temos que ter precaução mesmo. Não podemos botar a nossa cara assim – virou o rosto para o irmão – pra qualquer um bater. Mas...

          - Eu não quero que ninguém bata em mim, não!

          - Toni, isso é modo de dizer! Eu também não quero levar nenhuma bolacha, não!

          - Eu sei mano. Então Quim, você pensou em alguma coisa? Teve alguma ideia?

          - Eu? Eu não. Toni a gente tá num mato sem cachorro. Essa é a minha conclusão.

          - Ué, e o mas...? Você dizer mais alguma coisa.

          -Sei lá, Toni!

          - Sei lá Toni! É só isso que você tem pra dizer? Falando sério, mano. Eu sei que você é capaz. Bota esses dois neurônios aí pra funcionar.

          - Tá de sacanagem comigo, Toni?

          - Sacanagem, nada! Só quero que você pense num jeito aí da gente sair dessa enrascada, Quim. Arranja alguma coisa. Você não é criativo? Então, é até paranormal! Fala aí com algum espírito.

         - De onde você arranjou isso, Toni? Que papo é esse? Que paranormal coisa nenhuma! Você é que é paranormal! Você viu o defunto e até falou com ele!

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 26 de maio de 2026

O Filho do Poder - Parte 28

 


Continuando...

            Mal Pereira se despede do amigo, Blanco grita:

          - Pereira! Pereira! Dá uma chegada aqui! Olha o que eu achei!

          - O que foi? Achou o quê?

          - Vem e olha. Tem uma coberta aqui no chão.

          - Blanco deixa eu ver. Parceiro parece que alguém se deitou aqui. Olha só, até um travesseiro improvisado tem. Pelo tamanho, foi uma criança... Caraca, Blanco! Aquele caminhoneiro passou a perna na gente! Filho de uma égua! Será que ele ouviu a gente conversando?

           - Pode ser. Eu achei que ele estava meio assustado.

           - Desgraçado! Blanco, de repente ele ia deixar a criança com a gente. Mas como ouviu o nosso papo, desistiu. Só pode ser isso. Eles estão com o garoto. Acho que ninguém mais passou por aqui. O filho de Pablo só pode estar com eles.

               Pereira terminou de falar e deu um soco no ar. Depois caminhou em direção à carreta, contornou-a e continuou, sem parar, até o carro também incendiado. Blanco olhava-o atento. Como conhecia o amigo, sabia que ele tentava botar as ideias no lugar. Só quando ele parasse é que alguma luz tinha entrado naquela cabeça irrequieta. Ele andava de um lado para o outro, até que abriu a porta da viatura policial e sentou-se no banco, com as pernas viradas para o lado de fora. Aí sim é que Blanco se aproximou do parceiro e perguntou:

          - E aí Pereira, achou alguma solução?

          - Blanco, eu estava andando, mas não era para achar uma solução, não.  Eu estava tentando entender como um cara malandro como eu, foi ser enrolado por um caminhoneiro. Só estava acalmando a minha raiva.

           - Pereira, se temos que fazer alguma coisa, tem que ser rápido.

           - Só temos um jeito. E você sabe qual.

           - Passar um rádio? Certo?

           - É isso aí. Já que não temos um helicóptero.

          - Vou passar agora mesmo. Quem sabe a gente não pega eles.

          - Mas tem que ser aqui dentro do estado. Se entrarem em Tocantins, fica difícil.

          - Então vamos passar logo o rádio.

          - Calma, Blanco. Estou pensando aqui numa coisa. Pode ficar tranquilo que eles ainda estão bem distantes da fronteira. Você se lembra de Deco?

          - Aquele seu amigo antigão? Amigo de infância?

          - Ele mesmo. Ele já virou até patrimônio da PRF.

          - E então? O que tem ele, Pereira?

          - Se ele estiver de plantão lá no posto da fronteira, aí fica tudo bem pra gente. Ele não sabe da minha vida. Ele pensa que eu trabalho no Rio de Janeiro, na polícia civil.

          - Vai se identificar como Luca? Ele é dos nossos?

          - Não Blanco.

          - Então vai ficar difícil. E se ele desconfiar?

          - É Blanco, é um risco. É mais uma parada dura pra gente enfrentar. Mas pode ser que cole o meu papo.

          - Pereira como é que você vai explicar a sua presença aqui na Bahia?

          - Não pensei nisso. Então não posso usar o meu nome verdadeiro. Vou me identificar como Pereira mesmo.

          - Então, Pereira, inventa qualquer coisa. E temos que nos livrar dessas roupas e do carro. Vamos voltar lá no posto e pegar um carro de um daqueles policiais e colocar as nossas roupas. Vamos passar por policial civil.

          - É isso, Blanco. Vamos logo. Já até pensei no que vou falar: estamos na cola dos caras por tráfico de drogas. Fomos avisados que iam passar por aqui. Simples assim.

          - Boa! É isso! Mas só se o seu amigo não estiver lá, certo?  A gente pede para os patrulheiros segurarem os caras pra gente. 

          - Sei não. A coisa tá complicada. Tem uns caras muito desconfiados. Mas a gente tenta jogar que estamos na cola deles há algum tempo. Pedindo humildemente, a ajuda deles, pode ser que faça essa gentileza. Mas se Deco estiver lá, você vai sozinho.

         - Por quê, Pereira?

         - Eu não posso aparecer para ele como Pereira.

             - Não pensei nisso. Você está certo. Então vamos torcer para que seja outro patrulheiro de serviço.

             - Blanco, vamos apostar nisso. Mas pra descobrirmos, só ligando pra lá. E, como falei, pedimos a ajuda deles, com uma condição dos caminhoneiros ficarem com a gente. Como troca de gentileza.

            - Será que vai dar certo? Vamos apostar nisso, Pereira. – Blanco fica em silêncio por alguns segundos, com uma expressão interrogativa - Mas estou pensando aqui numa coisa: e se os caras forem para o Piauí?

            - Não. Acho isso improvável, Blanco. Vão procurar o caminho mais curto para o Acre.

            - Mas se eles não souberem que o menino é do Acre?

            - Estou levando em conta que o cara escutou o nosso papo.  Blanco, mas por via das dúvidas, vou ligar para o pessoal da fronteira. Digo, das fronteiras. Passo um rádio para os postos de Goiás, Piauí, Minas, Espirito Santo... Sei lá! Vou ligar pra todo mundo! A gente não pode perder esses caras!

            - E o quê que você vai dizer?

            - O que é que eu vou dizer? Acabei de dizer que vou falar que os dois caminhoneiros são suspeitos de trabalhar para o tráfico. E que a gente está no calcanhar deles. Vou pegar aqui no bolso o número da placa do caminhão. Quase que deixei passar.

 Continua Semana que vem!