terça-feira, 20 de outubro de 2026

O Filho do Poder - Parte 49

 


Continuando...

                  Mal Quim abriu a nota, dobrada em quatro, confirmou as suspeitas do irmão.

           - É a mesma nota, sem dúvida. Olha só aqui: acrescentaram, depois de garrafa pet, xarope de graviola. Xarope de graviola?

           - Quim você já viu isso?

           - Eu não. Esquisito mesmo.

           - Tadeu disse, mas eu não engoli, que é lançamento. No mínimo tem sonegação fiscal na história. Olha só o endereço aí.

           - Tô vendo.  Acrescentaram, depois de Palmas, Tocantins, Rio Branco, Acre. E tá rasurada. Toni acho que vão pegar a gente. Você viu a mercadoria direito?

          - Claro. Quim as embalagens estão certinhas. As garrafas estão lacradas e com rótulos. E o rótulo é bonito. Tadeu me garantiu que ninguém vai parar a gente.

          - Toni tem coisa podre por trás disso.

          - Eu também sinto isso. Aparentemente está tudo certo, mas tem alguma coisa fedorenta no ar. Sinto sujeira por trás disso tudo. Não é só o caso da nota não. A gente até sabe que é a mesma nota, mas dá até pra passar. Sabe quanto ele pagou?

          - Não. Nem desconfio. A mesma coisa?

          - Que o quê, Quim. Ele pagou três vezes mais. E ainda me disse que o cara que vai receber a mercadoria, vai nos pagar mais alguma coisa. Ele disse que é um prêmio. E tem mais: já tem carga garantida pra volta.

          - Toni, assim tá muito mole, né? Quando pobre vê muita esmola, logo desconfia.

          - Tadeu falou pra gente não se preocupar com nada, porque carga dele não tem problema. É só seguir à risca os horários.

          - Que horários?

          - É a passagem nos postos da Patrulha Rodoviária. Olha só a lista de postos e os horários que podemos passar. É daqui até o Acre. Ele disse que não tem problema nenhum, se a gente seguir o cronograma.

          - E tem cronograma?

          - Quim, a gente tem que seguir o horário, só isso. Ele deixou claro se não der para passar no posto naquela hora, é melhor deixar para o dia seguinte. E tem mais: a gente não fica no prejuízo. Não é mole demais?

          - E você aceitou isso?

          - Tive que aceitar, mano. Primeiro, porque esse é o nosso passaporte. E segundo, porque eu desconfio que iam dar cabo da gente. Ficamos entre a cruz e a espada. 

          - Caramba, Toni! E não tem jeito de recuar?

          - Recuar? Como? Ainda mais que já estamos dentro!

          - Tamo ferrado! – diz Quim cheio de medo.

          - Mas eu acho que se a gente fizer tudo dentro do esquema, não corremos perigo. Nós temos é que deixar transparecer que não desconfiamos de nada. Pra gente, a carga é limpa.

          - Toni, eu estou me sentindo como se estivesse dentro de um barco, atravessando o rio Amazonas. Aí o barco começa a afundar. Aquele mundo de água querendo engolir a gente. E temos duas saídas: tentar chegar a qualquer margem nadando, sem salva vidas, com possibilidade zero de se salvar. Ou, com salva vidas, mas com uma chance de um por cento de não morrer. Traduzindo: estamos ferrados! O que você acha disso?

Continua na Semana que vem! 

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

O Filho do Poder - Parte 48

 


Continuando...

                  Toni pega a nota, olha de cabo a rabo e fica surpreso.

           - Ué seu Tadeu! É a mesma carga!

           - Mais ou menos.

           - Deixa eu dar uma olhadinha?

          - Está desconfiando da gente, seu Toni?

           - Não se trata disso. Já que eu vou transportar, acho que eu devo olhar. O senhor não acha que eu devo conferir?

           - Claro! Vamos lá! – batendo nas costas de Toni.

                  Um dos empregados abre a porta do baú e Toni fica boquiaberto com o que vê e comenta:

          - Ué, elas estão cheias! – fez uma pausa com a surpresa - Está escrito xarope de graviola. Nunca vi xarope de graviola.

          - É o suco concentrado. É novo na praça. Você olhou a nota direito? Tá lá escrito garrafas pets cheias com o nosso produto, que é uma exclusividade nossa. Está com uma cara de preocupação. Pode ficar tranquilo que o senhor não vai ter problema nenhum. Quando o senhor veio teve algum problema?

         - Não, graças a Deus!

         - Graças a Honório, graças a mim e graças... Vamos? Você veio sozinho de novo? E Quim?

         - Vou pegar ele lá no hotel. É passagem, né? Eu fiz o meu rango primeiro e me adiantei. Ele ainda estava tomando banho.

         - Não quero atraso.

         - Não vamos nos atrasar não. Ele é responsável. Ele ia fechar a conta também. O senhor falou pra gente pegar estrada três horas, e será nesse horário que estaremos comendo asfalto. Pode confiar.

          - Tudo bem. O endereço pra entrega está aí preso na nota fiscal. Procura Carlos Bonsai, tá escrito aí, ele é um japonês pequenininho. Ele vai pagar a vocês.

          - Ué, o senhor já nos pagou!

          - É só um agrado. Um prêmio, caso vocês cheguem com uma boa folga.

          - Valeu. Obrigado. Sabendo disso, vou pisar um pouquinho mais, mas sem passar do limite, claro!

          - Vocês têm algum negócio pra revolver por lá?

          - Não é bem um negócio. Vamos visitar uns parentes que temos por lá. Uma irmã da minha mãe está muito doente. E o marido morreu há quinze dias. Não tem filhos. Só tem mesmo a gente. É um caso complicado, mas o que se há de fazer, né? Acho que vamos pegá-la e levar ela pra ficar com a nossa mãe. Isso se a saúde dela permitir.

          - Na volta, se você quiser, pega uma carga lá com o japonês, ok? É o mesmo esquema. Vem de lá pra cá e daqui pra Honório. É dinheiro certo, sem risco. O pagamento pode ser aqui. Ou aqui e lá.

          - Obrigado. Eu falo com ele.

          - Então pode ir, pra não se atrasar.

                 Toni pega o caminhão e se dirige para o hotel. Próximo de uma árvore, já na saída do posto, avista o irmão com as duas pequenas malas.  Para o veículo e espera-o entrar. Quando ele abre a porta, Toni não vendo o menino fala pra ele, demonstrando total preocupação:

          - Quim, o que houve? O que foi feito do menino? Pegaram ele?

          - Ei! Ei! Calma! Não aconteceu nada não! Por precaução escondi ele atrás daquela moita ali! Mano você precisa ver a cara que você fez. Assim você vai enfartar. A sua idade já não ajuda muito.

          - Que idade! Que idade! Você brinca na hora errada, isso sim! Chama logo o garoto pra gente sair daqui! Como é que você trouxe ele sozinho?

          - Ele é levinho. Antes que você pergunte, eu escondi os pés dele. 

          - Tá! Tá! Calma! Manda garoto entrar rapidinho.

                  Toni resmunga alguma coisa que o irmão não intende e, antes de botar o caminhão em movimento, espera o garoto entrar na boleia para então pegar estrada. Depois de um trecho em silêncio, Quim, curioso, pergunta:

          - E aí Toni, descobriu se os caras são bandidos mesmo?

          - Descobri nada. Mas são estranhos.

          - E a carga, estava certinha?

          - Quim, tá tudo certo, mas muito esquisito.

          - Como assim, esquisito? Esquisito em quê?

          - Mano eu olhei a nota, mas estou achando que ela é fria. Olha ela só. Toma. Vê se não é a mesma nota que Honório deu pra gente.

Continua na Semana que vem! 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Filho do Poder - Parte 47

 


Continuando...

           Toni saiu do galpão e foi caminhando sem pressa, até chegar ao posto de gasolina, trajeto esse que gastou menos de dez minutos. Antes de subir para o quarto, trocou meia dúzia de palavras com um frentista, perguntando a ele sobre Tadeu. O rapaz não respondeu de imediato, parecendo que estava procurando alguma coisa pra dizer. Depois de vasculhar a memória, simplesmente falou:

          - Seu Tadeu? Seu Tadeu é cliente nosso. Ele... Ele, não sei muito bem, dizem que é boa gente. Mas...

         - Mas, o quê?

         - Mas... É melhor deixar pra lá.

         - Deixar pra lá? Pode falar amigo. Eu estou perguntando, porque só fui conhecê-lo ontem.  Vou levar uma carga pra ele até o Acre. Gostaria de saber alguma coisa sobre ele. Não pode falar?

           - Acho que não devo. Mas não é nada demais. São só boatos.

           - O amigo está me deixando preocupado. Se são só boatos, você pode dizer alguma coisa. Boato chega, boato vai. Boato é boato. Vamos lá, diz alguma coisa desse boato!

           - Não comenta com ninguém, está bem?

           - Pode contar com o meu silêncio.

           - O certo é que ninguém tem certeza. Mas chegou até a gente que ele pode ser amigo de um traficante muito conhecido. Não sei o nome. É só isso. De resto ele é um cara legal. Desde que ele chegou aqui, se dá bem com todo mundo. Quando vem abastecer, dá até uma gorjeta gorda pra gente. Não comenta com ninguém, está bem?

           - Pode deixar. Segredo é segredo.

                  Toni subiu para o quarto do hotelzinho e entrou meio pensativo. Quim estava deitado vendo televisão, enquanto o menino estava em outra cama debaixo de um lençol, coberto até a cabeça. Entrou em silêncio e não falou nada, coisa que não era do seu feitio. O irmão notou e indagou:

           - O que é que houve, Toni? Tá calado. Algum problema lá com o seu Tadeu? Ele desistiu de dá o frete pra gente?

           - Não. Não é nada disso não. Está tudo em cima. Duas e meia a gente pega o caminhão carregado. É... Acho que é só cisma.

           - O que foi? Desembucha.

           - Eu conversei com um frentista aqui do posto... Sabe mano, estava curioso para saber alguma coisa desse Tadeu. Aí perguntei a ele sobre o cara. Ele me enrolou, me enrolou, mas depois da minha insistência ele soltou que o cara, disse que pode ser boato, é amigo de um traficante conhecido.

           - Ele disse o nome do traficante?

           - Ele não falou. Mas também isso não é problema nosso. Se ele é amigo do cara, o problema é só dele, você não acha?

           - Desde que ele não coloque droga pra gente levar, tudo bem.

           - É isso aí. É só a gente olhar a carga que ele botar no caminhão e pronto.

           - Toni, não vamos esquentar a cuca. Mano, acho que você tem que ir sozinho, de novo, buscar o caminhão. Eu fico aqui com o garoto. Acho arriscado deixar o menino aqui sozinho, pra depois a gente pegar ele. Sei lá! Vai que ele some! Como ele está com a memória prejudicada, pode resolver fugir. Aí mano, a gente tá frito. Você vai e na volta pega a gente.

           - Fugir nada! Vira essa boca pra lá!

           - Quim a gente vai fazer o mesmo lance pra levar o garoto pro caminhão. Até que deu certo a sua ideia de enrolar ele no tapete.

           - Sou um gênio.

           - Um gênio. Mas por sorte não tinha ninguém perto pra ver os pés do garoto. Não podemos bobear dessa vez. Mas chama a atenção. Em outras paradas a gente vai usar outra coisa pra transportar ele. Tem que ser alguma coisa que não chame muito a atenção.

           - Mas o tapete chama muito a atenção?

           - Muito. Alguém pode achar estranho, dois barbados levando um tapete para um hotel. Se fosse pra vender, tudo bem. Mas a gente traz ele de volta pro caminhão, aí fica esquisito.

           - É mesmo. Tudo bem.  

                  Na hora marcada, Toni chegou no galpão. Foi recebido pelo próprio empresário Tadeu, que já estava com a documentação toda na mão. Cumprimentou-o e disse eufórico:

           - É isso! Muito bom! O amigo é realmente uma pessoa de palavra. Eu gosto é de gente assim. Agora vamos aos negócios. O outro frete já paguei, certo? Agora tenho aqui o outro envelope, com o pagamento dessa carga. Gosto de pagar adiantado. Não abre o envelope agora. Ele está gordinho, não é? A nota está aqui. Essa é mais do triplo da outra.

           - O triplo, seu Tadeu? 

Continua Semana que vem!