Continuando...
Toni interrompeu-o, fazendo com que o irmão ficasse sem graça e ao mesmo tempo com a cara assustada.
- Eles não! Eles não! Você tá maluco?
- O que foi isso, Toni? Você me deu o maior susto! Me interrompeu bruscamente! Não tô te entendendo! Por que isso?
- Ah desculpe. Mas também tem hora que você parece que é maluco. Não se liga nas coisas. Você lembra o que a mulher falou?
- Sei lá o que ela falou. Falou tanta coisa, mas não registrei nada. Também como é que eu ia registrar, se eu estava incomodado com as pessoas mortas?
- Incomodado? Você estava é com medo!
- Medo uma ova!
- Então tá, você não estava com medo. – Toni falou com ar de conciliação.
- Escuta só. Ela mandou a gente entregar o garoto somente ao pai. Não entregar a mais ninguém. Isso inclui a mãe também. Coitadinha. Morrer daquele jeito.
Toni, depois que falou na mulher, fez o sinal da cruz. E olhou para o irmão com os olhos cheios de lágrimas. Quim sorriu e zombou.
- Ih. Nunca vi você tão emotivo. E religioso. Nem sabia que você sabia fazer o sinal da cruz.
- Quim, isso é hora pra brincadeira? Porra você parece que não cresceu! Me lembrei da mulher e fiquei pensando no seu sofrimento. Acabei ficando emocionado.
- Foi mal, mano. Desculpe. Concordo com você. A gente fala com o pai. Liga pra ele, diz aonde a gente está e pronto. Ele manda alguém buscar ou vem ele mesmo pegar o filho. Viu como é simples?
- Ah bom. Colocando a situação assim desse jeito, aí fica fácil. Então vamos perguntar ao garoto o telefone do pai.
O garoto estava parado ao lado de Quim. Do jeito que ele foi colocado ali, ali ficou feito uma estátua. Só movimentava os olhos e isso já era o bastante para não o confundir com uma escultura de mármore. Os dois olhavam-no, penalizados. Quim colocou uma das mãos em cima do seu ombro e olhou-o dentro dos olhos.
- Oi menino. - falou com docilidade - Tudo bem? Meu nome é Quim. O do meu irmão é Toni. Você sofreu um acidente e nós conseguimos salvá-lo. Mas nós precisamos saber o seu nome e do seu pai, pra gente poder ligar pra ele. Ele deve estar muito preocupado com você.
O menino, parado estava e parado continuou. Nem uma palavra saiu da sua boca. Apenas continuou com os olhos fixos nos de Quim. Toni que observava de perto, teve a sensação que o olhar do menino furava o do irmão. Se sentiu incomodado e se virou para não continuar fitando-o. Discretamente se afastou um pouco dos dois.
Quim começou a ficar também desconfortável com o silêncio do menino e o seu olhar penetrante. Não sabia mais o que falar com ele. Percebeu que o irmão tinha se afastado um pouco e tratou logo de pedir socorro.
- Mano. Mano. Não foge não. Vem cá.
Toni olhou para o irmão, fez uma careta e deu de ombros.
- Nada disso! Vem cá nada! Você é bom nisso! Tenta que você consegue tirar alguma coisa dele! Vai com fé!
- Tirar o quê? Que fé? Ele tá com esse olhar perdido no nada! Você já falou e ele deu a mínima pra você! Desistiu e jogou pra cima de mim! Volta aqui! Não me deixa sozinho nessa enrascada, não!
- Mano, mas não custa tentar. De repente com você ele se abre.
- Tá bom. Você está me saindo um cara metido a esperto. Mas tá bom, vou tentar. – coçou a cabeça e deu um sorriso meio sem graça - Menino, pode ficar tranquilo que você está entre amigos. Nós só queremos saber o seu nome e o do seu pai. No caso, o telefone dele também. Diz pra mim: você está se sentindo bem?
O menino pela primeira vez se mexeu. Finalmente deu sinal que ia falar alguma coisa. Depois daquele tempo todo quase uma estátua, mostrou que estava vivo. Em seguida coçou a cabeça e balbuciou:
- Eu acho que estou bem. Que lugar é esse? Aonde é que eu estou?
Continua na Semana que vem!



