terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 14

 


Continuando...

                   Enquanto Quim falava com o menino, Toni retornou para a boleia do caminhão. Chegou e ficou olhando o irmão tentar trocar algumas palavras com o menino, mas percebeu que o garoto só olhava e não esboçava qualquer reação às suas palavras. Sugeriu então que o pegasse e descesse com ele para o asfalto. Então Quim fez o que o irmão sugeriu.

                   Já no acostamento, os três em pé, olhavam para o nada em total silêncio. Quim, demonstrando certo nervosismo, começou a andar de um lado para o outro. Já Toni voltou os seus olhos para o menino e percebeu que ele estava estranho, pois balançava o corpo de um modo esquisito e mantinha os olhos perdidos no horizonte, sem sequer pisca-los. Imediatamente sinalizou para o irmão, pedindo para que se aproximasse. Quim olhou o garoto e também constatou que ele se comportava estranhamente.

          - Toni, será que é a fome que pode estar causando isso? –  comentou quase sussurrando - Parece que estar bem fraquinho. – diz colocando a mão de um lado da boca.

          - Será? Quim ele tá muito estranho. Ele pode também estar tonto. Segura o braço dele. Não larga não, senão ele pode cair. Coitadinho, está fraquinho mesmo. Mano, vou fazer um cafezinho pra gente.

          - E você vai dar um cafezinho pra ele? Ele tem é que comer!

          - Qual é o problema Quim? Isso pode reanima-lo. E a gente também está precisando. Depois daquela confusão toda, um café não vai bem? Pega uma barra de cereais pra ele forrar o estômago.    

         - Toni, tá legal. Eu vou pegar. Você venceu. Mas a história do cafezinho quer dizer que você não sabe o que vai fazer com ele, não é?

         - Você sabe... Ah Quim! Você está embananado também! Pelo menos com o café, a gente pensa, né? Mas o garoto não está nada bem. Isso me preocupa.

        - É mesmo. Eu já pensei, Toni.

        - Pensou? Pensou em quê?

        - O que eu falei antes.

        - E você falou o quê? Eu não me lembro.

        - Eu sempre tenho que repetir tudo pra você, Toni? Eu falei que era só perguntar ao garoto aonde ele mora e pronto. Aí tá tudo resolvido. Entregamos ele ao pai e pronto.

       - Pronto. Pronto. E o que é que tem isso com a tonteira do garoto?

       - Com a do garoto nada, mas com a nossa, sim.

       - Quim, que tonteira nossa?

       - E você não está tonto? Claro que estamos tontos! Não sabemos o que fazer! Mas pensando um pouquinho, eu acho que a situação não é tão caótica assim.

       - Como não é difícil? Ah! É! Fácil assim? Você esqueceu que a mulher falou que o garoto mora no Acre? Por um acaso você sabe aonde nós estamos?

      - Claro Toni. Claro. E qual é o problema?

               O irmão olha-o com a cara de quem não está acreditando no que ouvia. Deu um muxoxo e sorriu um sorriso sem graça.

       - Você é engraçado. Tem situação que eu apresento pra você – às vezes pequenininha -, aí você transforma num problemão. Bota às maiores dificuldades. Arranja justificativas inimagináveis.

          - Gostei disso que você falou: inimagináveis! – interrompeu-o, Quim - Mano, tá letrado!

          - Tá de gozação? Você pensa que eu não estudei? A gente convivendo na estrada, por tantos e tantos anos, acaba aprendendo o linguajar de várias regiões do Brasil.

          - Estudou o quê? Não saiu do primeiro grau. E o que que essa palavra tem a ver com o linguajar de várias regiões do Brasil? 

         - Quim, não enche! Quem te disse que fiz só o primeiro grau? Deixa disso! Agora me deixa concluir o que eu estava falando? Veja só. Nesse momento estamos com um problemão, mas você acha que não é nada demais. Acorda mano! Quim, nós estamos na Bahia!

        - Toni, você não entendeu o meu ponto de vista.

        - Que ponto de vista? Você não me apresentou nada.

        - Escuta só. Eu não estou falando de distância, mano. Estou falando da situação. Presta atenção. A coisa é simples. É só pedir ao garoto o telefone dos pais dele. Aí...

 Continua Semana que vem!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 13

 


Continuando...

        O irmão balançou a cabeça concordando. Depois se virou e olhou para a criança que estava deitada atrás do banco. Viu que ela continuava de olhos fechados num sono profundo. Até aquele momento, desde que foi colocado ali, ainda permanecia imóvel. Mas o importante, observou Quim, é que o seu coração batia e que a respiração estava normal. Acabou deixando aflorar um sorriso de alívio e falou para o irmão:

         - Ei Toni, ele continua dormindo. Tá apagadão, mas o importante é que o coração tá batendo firme. Tá até roncando, ouve só. Mas coitadinho do menino. Mano, não deve ter mais de dez anos, não é? Tão novo e já passando por isso tudo.

       - Que brabeira. Coitadinho mesmo. Criança não devia sofrer, não é?

          - É isso mesmo, mano. Pior que tem uma porção por aí sofrendo, e muito. Vamos parar de pensar nisso, que vou acabar chorando.

          - Chorando? Nunca te vi chorar!

          - Só choro escondido. Não divulgo as minhas emoções.

          - Gostei, Quim, está falando bonito.

          - É. Agora falando sério. Mano, você já contou em quantas confusões a gente já entrou?

         - Não. Acho que não foram muitas.

         - Não importa a quantidade, né? Pra você, nunca é nada demais.

         - Não é assim. Em todas as encrencas eu tive medo. Mas não quero nem me lembrar da quantidade. Já passou.

        - Toni, passou uma ova! Já estamos entrando em outra! Me dá medo só de pensar. Será que dessa vez vamos conseguir sair inteiros? Das outras, nos safamos. E dessa?

        - Ei Quim! Afasta esse pensamento negativo pra lá! Nem sabemos se estamos entrando em uma fria! Exorciza os maus pensamentos. Fica tranquilo que a gente vai resolver esse probleminha rapidinho. Vamos esperar só o garoto acordar.

        - Pronto, já estou light. Não estou pensando mais em coisas ruins. Nesse momento já estou pensando na Verinha.

        - Verinha? Eu não sabia que você tinha alguma namorada naquela biboca que a gente vai. Ela é de lá mesmo?

         - Tenho nada, Toni. Verinha é só um nome e uma esperança. Mas já estou até sonhando com ela. A gatinha que vou encontrar lá, eu já batizei de Verinha.

         - Quim, você é um cara muito convencido, hem! Já até idealizou uma mulher, que nem sabe se vai encontrar! Uma garota que você vai ficar – gostou do ficar? Sou um cara moderno! Tá pensando o quê! – lá no posto de gasolina do Mano Alê!

         - Mas eu...

               Quim interrompe o que ia responder ao irmão, porque o garoto no exato momento se mexe e solta um gemido. Ele olha para trás e fala para Toni:

        - Mano. Você ouviu? O garoto está recobrando os sentidos. O que é que a gente faz?

          - Olha ele. Vê se está de olho aberto.

          - Não. O olho continua fechado. Você não acha melhor a gente dar uma paradinha? Já que estamos andando há muito tempo, vai ser bom pra dar uma relaxada. De repente eu pego a direção. Não vai ter problema a gente parar. A estrada continua vazia, vazia. Toni, eu não me lembro quando foi a última vez que pegamos uma estrada tão deserta. Vamos parar? Para fora da estrada, por precaução.

               Toni passa a mão no queixo, olha para trás rapidamente. Depois mira o retrovisor do lado direito e depois o do seu lado e respira aliviado, ao constatar que não vinha nenhum carro. Como viu que a estrada estava livre, respondeu ao irmão:

          - Acho que não tem problema algum a gente parar no acostamento. O acostamento aqui é bem espaçoso. Vou parar agora mesmo. Depois a gente vai direto, se der, e só para no posto do Mano Alê.

                  Ele foi diminuindo a velocidade até parar no acostamento. Antes de descer pede ao irmão para olhar o garoto. Disse que ia descer primeiro para aliviar a bexiga. Quim então colocou a mão na testa do menino. Mas mal encostou, o menino arregalou os olhos. Ele emocionado gritou para o irmão:

           - Toni! Toni! O garoto abriu os olhos! Vem cá ver!

           - Calma Quim! Me deixa terminar de fazer as minhas necessidades!

 Continua Semana que vem!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Pensamento de Poeta - Quero Falar...Continuar

Quero Falar...Continuar

- José Timotheo - 

A palavra

Quanto tempo o homem levou para falar?

Ninguém sabe. Só suposições

Viemos engatinhando, levantamos e falamos

Quantos milênios nos arrastamos até o primeiro balbuciar?

Que vitória!

Essa foi a maior conquista do homem, com certeza

E é esse um direito eterno

Outorgado pelo criador 

Quem é que tem o poder de me mandar calar, a não ser Ele?

Ninguém pode nos emudecer

Seria o maior retrocesso

Que a humanidade poderia sofrer

As opiniões são muitas

E têm que ser respeitadas

Eu falo e cada um pode e deve falar

Se eu não ofendo, não posso ser recriminado

Podem me recriminar, desde que não me ofendam

Vivemos para falar, pensar

Sem isso, não criaremos nada

O mundo para

Se não criamos

Voltamos a engatinhar

E aí? Vão continuar?

Se assim for

Já vou procurar a minha caverna

                                                                     fim