terça-feira, 17 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 18


 

Continuando...

               Imediatamente começam a brincar. A ansiedade do menino é grande. Parece que só brincou disso a vida toda. Era uma vitória atrás da outra. Nunca saía. Aprendeu par ou ímpar e quando ficava ele com um dos dois, ganhava. O tempo passava e Quim foi deixando claro que já estava ficando aborrecido. O seu modo de ser, o irmão conhecia de sempre. A sua transformação ao perder, vinha num crescente quase que incontrolável. Toni percebeu e num gesto de mãos mandou-lhe relaxar. Mas depois de mais três partidas, Quim que não resistiu mais.

           - Toni. Já estamos jogando a uma porção de tempo e nada da memória do garoto voltar. E o pior, é que um de nós dois sempre perde. Olha só. Ganhou mais uma. Toni, esse garoto está roubando a gente! Assim não dá!

          - Que roubando o quê, Quim.

          - Se fosse palitinho, eu queria ver se ele ia me ganhar. Aí menino, vamos jogar palitinho?

          - Palitinho? Não conheço não! – respondeu, sem dar muita importância para a proposta de Quim.

         - Para com isso, Quim. Isso é jogo para se ensinar a uma criança? - repreendeu-o Toni.

        - Porra, mano. Já estou cansado de apanhar!

        - Segura a língua, Quim. Que boca suja! Eu também perdi, mas não disse palavrão. Qual o problema de se perder? 

               Quim só faz uma careta, mas não responde. A brincadeira então recomeça. Após a segunda rodada, Toni, usando um pretexto para sair do jogo, diz que precisava urinar. Claro que Quim não engoliu a desculpa do irmão, mas preferiu aceita-la sem contestar, já que ia aproveitar para mudar de jogo. Sabia que zerinho ou um, que já estava de saco cheio, joga-se com mais de dois. Então ensinou rapidinho o jogo do palitinho para o menino. Entretanto antes de começar, deixou brotar um sorriso de vitória.

               Depois de algumas partidas Quim não está mais com a cara de      bons amigos. O azedume era claro na sua expressão facial. Estava deixando a amostra a sua insatisfação. Não aguentou mais e chamou pelo irmão:

          - Toni! Aonde está você? Que mijada longa!

                O irmão que estava do outro lado do caminhão, responde:

          - O que é Quim? Já estou indo.

               Toni vai chegando devagar, mas vai prendendo o riso. Bota a mão na frente da boca para não deixar escapá-lo. Quim quando vê a cara do irmão cheia de risos, contesta:

          - Ué, por que o riso? Tá de sacanagem comigo?

          - Que sacanagem, o quê! Eu só estou com vontade de rir. Só isso.

          - Eu te conheço! Eu te conheço! Olha só. Já estou cansado de apanhar. Você caiu fora. Você está pensando que me enganou? Coisa nenhuma! Coisa nenhuma! Eu mudei de jogo, fomos para o palitinho, que ele disse que não sabia, então... eu me ferrei! Não ganhei nenhuma mão! E não ri, não!

          - Tá bom, Quim. Vou ficar sério. Mas tá difícil! Tá difícil!! - risos -   Eu vi de lá que você só perdia. – continua rindo.

          - Vai! Vai rindo! Vai rindo! Vou parar de jogar. Não dá mais. Pra mim, chega.

               Quim olha para o menino, engole em seco e passa a mão no seu cabelo.

           - Menino, vamos parar tá legal? – fala sem intenção de querer resposta - Eu reconheço que você é muito bom, nisso também. Então, não dá pra continuar.

           - Só mais um pouquinho! Por favor!

           - Quim, faz à vontade dele. Coitadinho! – risos.

           - Coitadinho de mim. Continua rindo, né? Você faz gracinha e esquece que a gente está com uma batata quente não mão. Vamos fazer uma coisa?

           - Que coisa, Quim?

           - É o seguinte. Percebeu o tempo que perdemos aqui parado? Estamos dando chance ao azar. Então, só temos uma opção: pegar estrada, já! E eu dirijo. – dá um sorriso - Aí você vai distraindo o garoto. Tem muito tempo pra jogar par ou ímpar. Tá legal, Toni?

           - Pegou pesado. Mas tá legal. Vou enfrentar o sacrifício. Você sempre bota dificuldade nas coisas, mesmo. Então vou aceitar o desafio.

           - Eu boto dificuldade? Tá brincando! Sacrifício. Eu me sacrifiquei à beça. Agora desafio... Você não vai ter chance de desafiar o menino. Quero ver a surra que você vai levar. Vou rir bastante. Vamos embora, mano.

           - Tá bom, Quim. Vamos pra estrada. No primeiro posto de gasolina, a gente para. Aproveitamos e fazemos uma boquinha.

           - Boquinha, Toni! Com a fome que eu estou, como até pedra!

           - Você é guloso mesmo. O garoto deve estar também cheio de fome. Aquela barrinha não deve ter dado nem pra encher o buraco do dente.  Minha barriga já roncou. Vamos indo.

           - Mas vai brincando com o garoto. Eu quero ver esse exercício para ativar a memória dele. Pode começar. Estou saindo.

 Continua Semana que vem!

sexta-feira, 13 de março de 2026

Pensamento de Poeta - Mais uma Insanidade


 

Mais uma Insanidade

- José Timotheo - 

Era um dia como qualquer outro

O céu cheio de estrelas

Em pleno sol

As estrelas caíam com ódio

O chão vermelho

Sonhos espalhados e agonizantes

Esperanças

Sem sobreviventes

Mundo torto

Entortado, é mais certo

O horizonte enfumaçado

Marcando mais um ponto de dor

Viajantes que somos

Deixando um rastro de bestialidade

Em cada ponto do universo

Sem mais prosas ou versos

O poeta vai morrendo de tristeza

Por não conseguir deixar mais um poema                                     

Desculpa poeta

A poesia morreu   

Do céu agora, só caem bombas

E mais bombas

Menos   

A inspiração     

                                          fim

 

terça-feira, 10 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 17

 


Continuando...

               Ele então faz mais uma tentativa com o menino, para ver se ele se lembrava de alguma coisa. Com cautela, para não o assustar tentou manter uma conversa sem causar-lhe qualquer desconforto, procurando evitar que ele ficasse ansioso. Então pegou-o pela mão e convidou-o a sentarem-se no meio fio. A criança foi conduzida sem demonstrar qualquer constrangimento. Toni sentou-se primeiro e em seguida o menino. Quim continuou em pé apenas observando para ver qual a estratégia que o irmão iria usar.  

                 Depois de acomodados Toni iniciou a conversação.

           - Meu filho, então você é do Acre. Foi uma pessoa que estava com você no carro, que me falou. Você se lembra que estava no carro, junto com uma moça e mais alguns homens? E que esse carro bateu num caminhão?

 Você se lembra?

           - Não me lembro de carro nenhum. E não me lembro de ninguém junto comigo.

          - Você não se lembra de nada?

          - Não.

          - Ih Toni! Estamos ferrados mesmo! Lascou-se!

          - Bota ferrado nisso, mano! O que é que a gente faz? Se formos pra polícia, a gente bota o garoto em risco de vida, segundo aquela senhora. Será que é isso mesmo? Mas porque ela mentiria? Não sei o que pensar.

         - Toni, eles foram sequestrados, com certeza. Aí eu tô com a mulher. Não podemos levar ele pra polícia, não. Vai que ele aparece no jornal. Aí vai dá encrenca mesmo. Aposto como vem rapidinho bandido atrás dele. Com certeza os pilantras vão chegar primeiro do que os pais. Mano, agora estou com mais pena do garoto. O que é que a gente faz?

          - Isso eu já te perguntei isso! Vai jogar pra cima de mim?

          - Ué Toni! Em cima de mim é que não dá! Oh! Resolve você! Você é o mais velho!

          - Para com isso, Quim! Mais velho... Não. Assim não. Então vamos decidir nós dois, tá legal? E para com isso de me chamar de velho!

          - Tá bom. Não vou te chamar mais de velho. Tá bom assim? Mas então... Mano, o que é que a gente vai fazer?

          - De novo, não! Eu perguntei primeiro!

          - Viu só! Eu sabia que você estava querendo é jogar no meu colo a decisão! Você não falou, nós dois? Então, se não for assim, a bomba vai cair no meu colo. Assim não dá. Mano, você é um grande enrolador. Mas eu já pensei numa coisa.

          - O que é? Que coisa é essa?

          - É simples. A gente tira par ou ímpar.

          - Quim, que coisa mais antiga! Par ou ímpar! Agora, é zerinho ou um.

          - Zerinho ou um tem que ter mais de dois. E é um jogo muito sem graça.

               O garoto que não tirava os olhos de cima dos dois, quando Toni acabou de falar, disse:

           - Eu gosto de brincar de zerinho ou um.

           - E você se lembra como joga isso? – perguntou Quim.

           - Claro. Eu não me esqueci. – respondeu o garoto prontamente.

           - Aí Quim, de repente o negócio não é tão sério assim. De uma hora pra outra ele acaba se lembrando de tudo. Vamos brincar um pouquinho com ele. Às vezes isso pode estimular a sua memória.

          - Toni, escuta só. A gente tá com um tremendo pepino na mão e você está pensando em jogar par ou ímpar?

         - Quim, não é par ou ímpar. Par ou ímpar são só dois. E isso ele nem sabe o que é. O que ele disse que sabe é zerinho ou um.

        - Eu me enrolei. É zerinho ou um. Qual o problema?

          - Nenhum. Vamos jogar um pouquinho. Sem reclamações, tá bom? E não faz essa cara assim não. Tá contrariado? Então deixa que... Não pode. Tem que ser no mínimo três.

          - Toni, eu não vou fugir da raia não. Vamos lá. Mas só mais uma coisinha: a gente não pode marcar bobeira por aqui não. Eu acho que a gente tinha que ter ido embora. Parava lá no posto e ficava por lá, até resolver essa questão.

         - Relaxa. Ninguém vai pegar a gente não. Eles não vão nem desconfiar que o garoto está aqui. Vamos jogar um pouquinho e depois vamos embora. Vamos lá, garotão?

 Continua Semana que vem!