segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 45

 


Continuando...

        Quim desceu com o caminhão ainda em movimento, demonstrando muita ansiedade. Toni até sorriu com o pulo dado pelo irmão, que pisou no asfalto meio desequilibrado. Mas do jeito que desceu rápido, voltou mais rápido ainda. Toni comentou:

          - O que é isso mano? Calma! Parece que vai tirar o pai da forca!

                  Quim fez uma careta e entrou no caminhão num pulo.

          - Mano, o cara falou pra gente -  deu uma respirada - entrar na segunda rua à direita, depois entrar na terceira à esquerda. Disse que é um galpão logo na esquina.

          - Então vamos lá, Quim. Mas fica calmo. Calmo, tá?

          - Estou calmo, mano. Só um pouco ansioso. Um pouquinho agitado.

                  Toni vai fazendo o percurso que o borracheiro indicou. Não demorou quase nada, pois em mais ou menos cinco minutos já estavam no destino, local que foi logo avistado por Quim, que demonstrando ansiedade falou:

          - Mano, mano!  É ali! Olha só! É ali!

          - Calma, Quim. Então, vou parar bem em frente daquele portão.  Você faz, como fez lá no posto: vai num pé e volta no outro. Mas não se esqueça de apertar a campainha.

          - Tudo bem, engraçadinho. Mas pra eu voltar rápido, tenho que ser atendido rápido. Você não acha? Vou apertar a campainha e esperar. - termina a frase e faz uma careta para o irmão – Agora falando sério. Mano bateu uma coisa aqui na minha cabeça. Uma cisma.

          - Qual é a cisma?

          - Sei lá se é realmente cisma. Mas eu só sei que temos que manter o garoto escondido. Só isso. Alguém assoprou aqui no meu ouvido. E olha só: mais de uma vez.

          - Isso é coisa de fantasma, Quim.

          - Que fantasma nada! Tudo pra você agora é para-normalidade!

          - Estou brincando, mano.  Está bom, mas vai logo lá. Deixa que eu falo com o menino.

          - Trata disso. Estou indo.

                  Toni olha para o menino, que estava deitado de lado, e fala em um tom um pouco ríspido:

          - Olha só menino! Não podemos arriscar! Não vai entornar o caldo, tá legal? Se cobre aí pra ninguém te ver! Não pode falar, não pode tossir, não pode fazer nada! Se tiver que fazer xixi ou coco, faz na calça! Mas não sai daí! Você tem que ficar escondido! Nós prometemos que vamos entregar você ao seu pai e vamos cumprir! Mas também tem que ter a sua cooperação! Está entendido?

               O garoto se virou, deu um sorriso, se cobriu e se virou para o outro lado novamente. Nisso Quim já estava retornando. Tinha apertado à campainha, mas ninguém tinha atendido. Entrou na cabine e quando ia falar o que tinha acontecido, o irmão disparou:

          - Ih Quim! O portão agora está se abrindo!

          - Então mano, entra direto!

          - Já estou indo.

                 Quando iam embicando o caminhão, surgiu um rapaz, aparentando uns vinte e cinco anos, que levantou a mão direita sinalizando para que parassem. Toni pisou rapidamente no freio parando o caminhão. Em seguida ouviu quando o rapaz gritou para outra pessoa:

          - Diba! Avisa ao patrão que a mercadoria chegou!

          - Lino, já avisei! – respondeu o amigo - Ele mandou o caminhão entrar e disse que não demora!

          - Tudo ok.

          - E disse pra levar os dois lá pra cozinha. Serve alguma coisa pra eles comerem, que devem estar cheios de fome.

          - Já entendi.

                 Toni entra com o caminhão e para no pátio. Em seguida desce ele e o irmão e seguem o funcionário Lino, até um pequeno refeitório. Enquanto fazem uma refeição leve, oferecida por Lino, chega o patrão, que olha para eles, dá um sorriso e pergunta:

          - Tudo bem? – e continua – Já olhamos o caminhão e a carga chegou intacta. Muito bom trabalho. Gostei do tempo de entrega. Soube até que tiveram uns imprevistos. E que só estava um no caminhão.

          - É. Foi isso mesmo. O meu mano, Quim, teve um probleminha de saúde, mas conseguiu ficar bem e deu tempo de encontrar comigo. O tempo que fiquei na Patrulha Rodoviária, foi o suficiente para ele pegar uma carona e ir me encontrar. Acabou dando tudo certo. Ele chegou primeiro do que eu. Como é bom o celular, pra certas horas, né?

        - É. O senhor então é Toni?

        - Sim, sou eu. Prazer. – esticando a mão para cumprimentar – O senhor deve ser Tadeu.

          - Sim, sou eu. O Honório me falou que você estava querendo carga para o Acre, é isso mesmo?

          - Sim senhor. Será que o senhor arranja alguma coisa pra gente?

          - Claro Toni! Um pedido de Honório é uma ordem! Temos pra amanhã à tarde. Topam?

          - Claro! Não é Toni? – falou Quim, nem esperando que o irmão respondesse ao Tadeu.

          - É tudo que a gente precisa. – respondeu Toni, com um sorriso de canto de boca.

         - Então vocês podem deixar o caminhão aqui mesmo. Logo cedo a gente carrega ele.

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Pensamento de Porta - Partidas e o Medo

 



Partidas e o Medo 

-  José Timotheo - 

 

Alguns amigos partiram

E eu nunca estive na estação

Não estava lá para acenar

Dar um adeus

Um até breve

Simplesmente nada

A coragem falhou

Não me encorajou

Acredito que só estarei na estação

Quando for o meu embarque

Bilhete na mão

Até lá...             

                                                    fim

terça-feira, 15 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 44

 


Continuando...

                  Toni acabou levantando mais cedo, um pouco depois das cinco. Levantou ansioso, pensando na estrada que tinha pela frente. Queria sair logo do hotel, mesmo sem o café da manhã, entrar no caminhão e varar a madrugada na estrada. Teve vontade de acordar o irmão e o menino, mas conseguiu controlar a ansiedade, já que prometera a Quim que iriam sair às oito horas. Não conseguiu entender porque ficara daquele jeito. Mas acabou sossegando o coração.

 

               O caminho era longo até Palmas e quanto mais cedo chegasse lá seria melhor. Entretanto não estava querendo se preocupar com o destino final, que era o estado do Acre, pois tinha medo de ser tentado a desistir, porque sabia de antemão que era muito chão até lá. Então não queria correr o risco de ser pego pelo desânimo, tendo em vista que não cogitava abandonar a promessa que fizera a senhora, de entregar a criança sã e salva ao pai.  

                O irmão e o menino roncavam. Toni chegou mais de uma vez perto deles, com o propósito de sacudi-los e acordá-los, mas preferiu sair um pouco do quarto e ficar apreciando o dia raiar. Amanhã acordava com o canto de alguns pássaros, mas ele não conseguiu identificar nenhum deles. Voltou para o quarto e viu que o irmão se espreguiçava, aí não se controlou, chamou-o e sacudiu-o fortemente para acordá-lo de vez:

          - Quim. Quim. Já está na hora. Ainda temos que tomar café. É um estirão até Palmas. Termina de se espreguiçar lavando a cara. Vou acordar o menino. Vamos logo, deixa de preguiça.

                   O irmão levantou assustado, mas não teve nem força para contestar, só fez mesmo uma cara feia. Já o garoto foi mais tranquilo, só foi Toni encostar a mão no seu ombro e num pulo ficou de pé.

                    Antes das oito horas, os três já estavam na lanchonete tomando o café. Fizeram um desjejum reforçado, parecendo quase um almoço. Toni foi o primeiro a se levantar. Pagou rapidamente as despesas e foi se encaminhado para o caminhão. O irmão e o menino não tiveram outra escolha: foram atrás dele. Quim ao emparelhar com o irmão falou:

          - Pô Toni, você tá apressadinho! Parece que vai tirar o pai da forca!

          - Apressadinho? Você é que está um molengão!

          - Molengão não. Porque não foi você que encarou aquele mato. Pra mostrar a você que não sou devagar, vou pegar a direção.

          - Tudo bem. Assim é que se fala. Agora senti firmeza.

                 Depois de horas de viagem ininterrupta, Toni comentou:

          - Quim, já estamos andando há mais de quatro horas. Acho bom a gente parar no próximo posto. Almoçamos e descansamos um pouco.  Depois eu pego o volante. Certo?

         - Você é quem manda, mano.

                 Já passava das doze horas. O sol estava abrasador. Estavam doidos para comerem alguma coisa e esticarem as canelas. Mesmo com o descanso do dia anterior, ainda estavam cansados. A ansiedade era evidente no semblante dos irmãos, mas na do garoto não. Não pedia nem água, só bebia se lhe oferecessem.  Eles nunca sabiam se ele estava com fome ou não. Quando perguntado, aí sim ele se expressava. Para uma criança, ele tinha um controle maior do que muitos adultos. E Toni chegou até a questionar isso com o irmão:

          - Quim, já percebeu como esse garoto se mantém firme? Não reclama de nada. Parece que foi preparado para adversidade.  Acho que se deixar ele num cantinho, fica sem beber água e sem comer o dia todo, sobrevive numa boa. Ele deve ter sido preparado para suportar aquele mundo cão que ele vive com o pai.

          - Pode ser Toni. Que é estranho é. Mano, olha lá. A placa está indicando um posto daqui a um quilômetro. 

                   Chegaram rápido. Almoçaram, descansaram um pouco e pernas para quem te quer. Toni pegou a direção e rapidamente já estavam a caminho de Palmas. O menino foi almoçar calado e voltou para o caminhão trocando apenas algumas palavras com os dois.

          - Muito obrigado pelo almoço.

          - Não tem de quê. – respondeu Toni sorridente.

                  A viagem até Palmas transcorreu tranquilamente. Mas antes de chegar na entrada da capital do Tocantins, Toni comentou:

          - Quim, dizem que o lugar é bonito. Não me lembro de já ter vindo aqui com o velho. Não me lembro mesmo. Aproveita e vê o endereço aí na nota.

          - Mas a nota está aí no seu bolso. Manda pra mim.

          - É. Tinha esquecido. Seu Honório disse que fica logo na estrada. A gente pode perguntar aonde fica.

          - Toni dá uma paradinha ali que eu pergunto no borracheiro. Eles devem conhecer até a pessoa que vai receber a mercadoria.

 Continua Semana que vem!