Continuando...
Quim desceu com o caminhão ainda em movimento, demonstrando muita ansiedade. Toni até sorriu com o pulo dado pelo irmão, que pisou no asfalto meio desequilibrado. Mas do jeito que desceu rápido, voltou mais rápido ainda. Toni comentou:
- O que é isso mano? Calma! Parece que vai tirar o pai da forca!
Quim fez uma careta e entrou no caminhão num pulo.
- Mano, o cara falou pra gente - deu uma respirada - entrar na segunda rua à direita, depois entrar na terceira à esquerda. Disse que é um galpão logo na esquina.
- Então vamos lá, Quim. Mas fica calmo. Calmo, tá?
- Estou calmo, mano. Só um pouco ansioso. Um pouquinho agitado.
Toni vai fazendo o percurso que o borracheiro indicou. Não demorou quase nada, pois em mais ou menos cinco minutos já estavam no destino, local que foi logo avistado por Quim, que demonstrando ansiedade falou:
- Mano, mano! É ali! Olha só! É ali!
- Calma, Quim. Então, vou parar bem em frente daquele portão. Você faz, como fez lá no posto: vai num pé e volta no outro. Mas não se esqueça de apertar a campainha.
- Tudo bem, engraçadinho. Mas pra eu voltar rápido, tenho que ser atendido rápido. Você não acha? Vou apertar a campainha e esperar. - termina a frase e faz uma careta para o irmão – Agora falando sério. Mano bateu uma coisa aqui na minha cabeça. Uma cisma.
- Qual é a cisma?
- Sei lá se é realmente cisma. Mas eu só sei que temos que manter o garoto escondido. Só isso. Alguém assoprou aqui no meu ouvido. E olha só: mais de uma vez.
- Isso é coisa de fantasma, Quim.
- Que fantasma nada! Tudo pra você agora é para-normalidade!
- Estou brincando, mano. Está bom, mas vai logo lá. Deixa que eu falo com o menino.
- Trata disso. Estou indo.
Toni olha para o menino, que estava deitado de lado, e fala em um tom um pouco ríspido:
- Olha só menino! Não podemos arriscar! Não vai entornar o caldo, tá legal? Se cobre aí pra ninguém te ver! Não pode falar, não pode tossir, não pode fazer nada! Se tiver que fazer xixi ou coco, faz na calça! Mas não sai daí! Você tem que ficar escondido! Nós prometemos que vamos entregar você ao seu pai e vamos cumprir! Mas também tem que ter a sua cooperação! Está entendido?
O garoto se virou, deu um sorriso, se cobriu e se virou para o outro lado novamente. Nisso Quim já estava retornando. Tinha apertado à campainha, mas ninguém tinha atendido. Entrou na cabine e quando ia falar o que tinha acontecido, o irmão disparou:
- Ih Quim! O portão agora está se abrindo!
- Então mano, entra direto!
- Já estou indo.
Quando iam embicando o caminhão, surgiu um rapaz, aparentando uns vinte e cinco anos, que levantou a mão direita sinalizando para que parassem. Toni pisou rapidamente no freio parando o caminhão. Em seguida ouviu quando o rapaz gritou para outra pessoa:
- Diba! Avisa ao patrão que a mercadoria chegou!
- Lino, já avisei! – respondeu o amigo - Ele mandou o caminhão entrar e disse que não demora!
- Tudo ok.
- E disse pra levar os dois lá pra cozinha. Serve alguma coisa pra eles comerem, que devem estar cheios de fome.
- Já entendi.
Toni entra com o caminhão e para no pátio. Em seguida desce ele e o irmão e seguem o funcionário Lino, até um pequeno refeitório. Enquanto fazem uma refeição leve, oferecida por Lino, chega o patrão, que olha para eles, dá um sorriso e pergunta:
- Tudo bem? – e continua – Já olhamos o caminhão e a carga chegou intacta. Muito bom trabalho. Gostei do tempo de entrega. Soube até que tiveram uns imprevistos. E que só estava um no caminhão.
- É. Foi isso mesmo. O meu mano, Quim, teve um probleminha de saúde, mas conseguiu ficar bem e deu tempo de encontrar comigo. O tempo que fiquei na Patrulha Rodoviária, foi o suficiente para ele pegar uma carona e ir me encontrar. Acabou dando tudo certo. Ele chegou primeiro do que eu. Como é bom o celular, pra certas horas, né?
- É. O senhor então é Toni?
- Sim, sou eu. Prazer. – esticando a mão para cumprimentar – O senhor deve ser Tadeu.
- Sim, sou eu. O Honório me falou que você estava querendo carga para o Acre, é isso mesmo?
- Sim senhor. Será que o senhor arranja alguma coisa pra gente?
- Claro Toni! Um pedido de Honório é uma ordem! Temos pra amanhã à tarde. Topam?
- Claro! Não é Toni? – falou Quim, nem esperando que o irmão respondesse ao Tadeu.
- É tudo que a gente precisa. – respondeu Toni, com um sorriso de canto de boca.
- Então vocês podem deixar o caminhão aqui mesmo. Logo cedo a gente carrega ele.


