quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 13

 


Continuando...

        O irmão balançou a cabeça concordando. Depois se virou e olhou para a criança que estava deitada atrás do banco. Viu que ela continuava de olhos fechados num sono profundo. Até aquele momento, desde que foi colocado ali, ainda permanecia imóvel. Mas o importante, observou Quim, é que o seu coração batia e que a respiração estava normal. Acabou deixando aflorar um sorriso de alívio e falou para o irmão:

         - Ei Toni, ele continua dormindo. Tá apagadão, mas o importante é que o coração tá batendo firme. Tá até roncando, ouve só. Mas coitadinho do menino. Mano, não deve ter mais de dez anos, não é? Tão novo e já passando por isso tudo.

       - Que brabeira. Coitadinho mesmo. Criança não devia sofrer, não é?

          - É isso mesmo, mano. Pior que tem uma porção por aí sofrendo, e muito. Vamos parar de pensar nisso, que vou acabar chorando.

          - Chorando? Nunca te vi chorar!

          - Só choro escondido. Não divulgo as minhas emoções.

          - Gostei, Quim, está falando bonito.

          - É. Agora falando sério. Mano, você já contou em quantas confusões a gente já entrou?

         - Não. Acho que não foram muitas.

         - Não importa a quantidade, né? Pra você, nunca é nada demais.

         - Não é assim. Em todas as encrencas eu tive medo. Mas não quero nem me lembrar da quantidade. Já passou.

        - Toni, passou uma ova! Já estamos entrando em outra! Me dá medo só de pensar. Será que dessa vez vamos conseguir sair inteiros? Das outras, nos safamos. E dessa?

        - Ei Quim! Afasta esse pensamento negativo pra lá! Nem sabemos se estamos entrando em uma fria! Exorciza os maus pensamentos. Fica tranquilo que a gente vai resolver esse probleminha rapidinho. Vamos esperar só o garoto acordar.

        - Pronto, já estou light. Não estou pensando mais em coisas ruins. Nesse momento já estou pensando na Verinha.

        - Verinha? Eu não sabia que você tinha alguma namorada naquela biboca que a gente vai. Ela é de lá mesmo?

         - Tenho nada, Toni. Verinha é só um nome e uma esperança. Mas já estou até sonhando com ela. A gatinha que vou encontrar lá, eu já batizei de Verinha.

         - Quim, você é um cara muito convencido, hem! Já até idealizou uma mulher, que nem sabe se vai encontrar! Uma garota que você vai ficar – gostou do ficar? Sou um cara moderno! Tá pensando o quê! – lá no posto de gasolina do Mano Alê!

         - Mas eu...

               Quim interrompe o que ia responder ao irmão, porque o garoto no exato momento se mexe e solta um gemido. Ele olha para trás e fala para Toni:

        - Mano. Você ouviu? O garoto está recobrando os sentidos. O que é que a gente faz?

          - Olha ele. Vê se está de olho aberto.

          - Não. O olho continua fechado. Você não acha melhor a gente dar uma paradinha? Já que estamos andando há muito tempo, vai ser bom pra dar uma relaxada. De repente eu pego a direção. Não vai ter problema a gente parar. A estrada continua vazia, vazia. Toni, eu não me lembro quando foi a última vez que pegamos uma estrada tão deserta. Vamos parar? Para fora da estrada, por precaução.

               Toni passa a mão no queixo, olha para trás rapidamente. Depois mira o retrovisor do lado direito e depois o do seu lado e respira aliviado, ao constatar que não vinha nenhum carro. Como viu que a estrada estava livre, respondeu ao irmão:

          - Acho que não tem problema algum a gente parar no acostamento. O acostamento aqui é bem espaçoso. Vou parar agora mesmo. Depois a gente vai direto, se der, e só para no posto do Mano Alê.

                  Ele foi diminuindo a velocidade até parar no acostamento. Antes de descer pede ao irmão para olhar o garoto. Disse que ia descer primeiro para aliviar a bexiga. Quim então colocou a mão na testa do menino. Mas mal encostou, o menino arregalou os olhos. Ele emocionado gritou para o irmão:

           - Toni! Toni! O garoto abriu os olhos! Vem cá ver!

           - Calma Quim! Me deixa terminar de fazer as minhas necessidades!

 Continua Semana que vem!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Pensamento de Poeta - Quero Falar...Continuar

Quero Falar...Continuar

- José Timotheo - 

A palavra

Quanto tempo o homem levou para falar?

Ninguém sabe. Só suposições

Viemos engatinhando, levantamos e falamos

Quantos milênios nos arrastamos até o primeiro balbuciar?

Que vitória!

Essa foi a maior conquista do homem, com certeza

E é esse um direito eterno

Outorgado pelo criador 

Quem é que tem o poder de me mandar calar, a não ser Ele?

Ninguém pode nos emudecer

Seria o maior retrocesso

Que a humanidade poderia sofrer

As opiniões são muitas

E têm que ser respeitadas

Eu falo e cada um pode e deve falar

Se eu não ofendo, não posso ser recriminado

Podem me recriminar, desde que não me ofendam

Vivemos para falar, pensar

Sem isso, não criaremos nada

O mundo para

Se não criamos

Voltamos a engatinhar

E aí? Vão continuar?

Se assim for

Já vou procurar a minha caverna

                                                                     fim

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 12

 


Continuando...

               Toni olha para ele e sorri meio incrédulo.

         - Você garante? Garante mesmo? Então tá! - já apresentando uma expressão mais otimista - Então vamos nessa!

               Liga o caminhão e sai cautelosamente do acostamento, passando por cima do capinzal, com o coração aos pulos, mesmo depositando total confiança na análise do irmão. Continua trafegando bem devagar pelo terreno desconhecido, até conseguir sair com segurança, a mais de cinquenta metros à frente. Olha para o irmão, dá uma respirada profunda e em seguida, um tapa na sua perna.

               Já no asfalto, para o caminhão e olha a reta a sua frente, aparentemente, sem fim. Respira novamente profundamente e dá uma olhadinha para trás, botando a cabeça para fora da janela, entortando o pescoço, para ver pela última vez aquele desastre, que pelo jeito, nunca mais sairia da sua cabeça.

               Antes de colocar o veículo em movimento, dá uma espiada para os dois lados da estrada e fica apreciando aquela bela planície, mas com a sensação de que essa seria a última vez que faria isso. Um lugar assim, é para não se esquecer nunca. E é isso que Toni está tentando tatuar na sua mente. Depois de ficar alguns minutos parados, ele olha para o irmão, esfrega as mãos e diz:

          - Quim, vamos sair logo daqui. Acho que já demoramos muito. Mas, por favor, não me peça para pisar o acelerador até o fundo, não. Ok? Vamos manter a velocidade limite, pra não chamar a atenção. É última coisa que precisamos, no momento, é sermos notados.

               O irmão olha pra ele, dá um sorriso de deboche e fala:

         - Não vou nem falar nada. Sabe por que eu não vou falar? Porque você sabe que é uma roda presa. Só por isso. Andar na velocidade limite! Não ser notado! Roda presa!

         - Roda presa é uma ova! Você é que é sem noção! Tem hora que eu não te entendo. É bom motorista, mas é vacilão.

         - Pô mano, é assim que você pensa de mim? Pegou pesado. Magoou.

         - Vai chorar?

        - Que chorar o quê! Vamos andando, mano! Você demorou muito a sair da cena do crime. Não sei o que tanto você olhava de um lado para o outro. Parecia que procurava alguma coisa. Vamos roda presa!

             Toni olha para o irmão, mas não fala nada. Apenas observa um sorriso gozador que ele deixa escapar.  Sorri também e em seguida dá um tapa na sua perna.

             Foram se distanciando da cena do acidente. A viagem se mantinha em silêncio. Até o rádio estava mudo. Parecia que o tempo estava congelado. Já tinham rodado por mais de trinta minutos. Esse silêncio todo acabou incomodando Quim, um tagarela nato. Não se controlando mais, acabou com aquele silêncio tumular que tinha invadido a cabine do caminhão.

       - Tô pensando mano. Tô pensando. – diz do nada.

       - Pensando em quê? – pergunta Toni.

       - Mano, estou aqui com os meus pensamentos cochichando. A mulher pediu pra gente não levar o garoto pra polícia, certo? Mas não sabemos a causa de não levarmos ele para o primeiro posto policial. Mas conclui que temos que levar, sim. A polícia é a única que vai saber onde achar a família dele. E também vamos nos livrar dessa encrenca. Ficar com esse garoto, me cheira a confusão. Temos que deixar o menino na primeira Patrulha Rodoviária que encontrarmos.

         - Sei não, Quim. Tudo bem que é uma forma cômoda da gente se livrar do problema. Mas a mulher foi clara, não foi?

         - Foi. Eu sei. Inclusive disse pra não levarmos ele nem para hospital. Entendi tudo que ela falou. Todas essas recomendações. Porém... Tem um porém nisso tudo. A encrenca dos outros, vai cair no colo da gente.     

        - De repente você está com a razão. Mas Quim, temos que pensar um pouco. É a vida de uma criança que está em jogo.

        - Eu sei, mano. O negócio deve ser muito brabo mesmo. Não poder levar pra polícia e nem para o hospital, é muito estranho.  Aí tem cachorro morto no mato.

        - O quê que tem isso?

        - Oh Toni! Tô dizendo que não está cheirando bem. E acho que vai ser mais uma fria que a gente vai entrar.

        - Não conheço esse ditado, não. Mas... Deixa pra lá. Mano, dessa vez eu concordo com você. Pode ser uma fria, mesmo. Tem hora que você exagera, mas dessa vez você está coberto de razão. A mulher falou de traficante, não foi?

        - Isso mesmo. Ela disse pra gente levar o menino e entregar ao pai. Só ao pai. Estranho, não é?

        - Bota estranho nisso, Quim. Sabe de um negócio: a gente espera o garoto acordar e depois resolve o que a gente vai fazer.

        - Tá certo mano.

        - Quim, vamos nos afastar o máximo possível. Acho que estamos até com sorte. Percebeu que até agora não passou nenhum carro pela gente? Isso já é um bom sinal. Vamos rezar para que continue assim.

Continua Semana que vem!