Continuando...
O
irmão que já ia saindo da estrada de chão, para entrar na BR, parou imediatamente
a carreta. Ansioso meteu a mão dentro do envelope e puxou a nota fiscal, que com
ela veio um pequeno papel, onde estava escrito o preço do frete. Pegou-o e leu.
No mesmo instante ficou com a cara emburrada. Olhou para o irmão e torceu a
boca. Em seguida passou a mão raivosamente na cabeça, mais de uma vez, deixando
os cabelos todo desgrenhado.
- Toni, isso é sacanagem, não é? Só pode
ser! Volta lá e desfaz o negócio! Assim não dá! – gritou, soltando fumaça pelas
ventas - Só pode ser sacanagem!
- Pera por aí, Quim! Ficou histérico? Mano,
era isso ou nada. Nem sei se a gente ia poder recusar, depois de termos entrado
no galpão.
- Então o cara é bandido mesmo? Como você foi
entrar nessa furada? É perigoso, mano?
- Sei lá. Não posso afirmar. Na hora, eu tive
uma sensação estranha que eu vi claramente que não tínhamos saída.
-
Toni, que bosta! Parece que estava adivinhando quando eu vi aquela mixaria de
garrafas. Mano, me deu um mal-estar na hora. Fiquei logo com a pulga atrás da
orelha. Pensei: vem merda por aí.
- Mas vamos tentar tirar proveito disso.
Vamos ver pelo lado bom: isso pode ser o nosso passaporte. Pensa bem. Isso é que
é importante. O caminhão não está cheio, mas é um frete. A gente tentar passar com
o caminhão vazio, com certeza, ia levantar suspeita.
- Levantar suspeita de quê? A gente pode
viajar pelo Brasil todo sem transportar nada, não pode?
- É... – fez uma pausa – Escuta só: o meu nome
e a placa do caminhão já devem estar em todos os postos da patrulha rodoviária.
Além, você se esqueceu, de termos aqueles bandidos no nosso calcanhar. Eles não
vão nos deixar em paz. Nosso nome vai passar de boca em boca. Mas temos que
torcer para chegarmos na patrulha da fronteira, antes que eles passem o rádio.
Até chegarem onde aconteceu o acidente e olharem aquele estrago todo, já
estaremos dentro de outro estado. Se Deus quiser! – erguendo as mãos para o céu
- A carga limpa, deve nos ajudar. Só tenho
uma preocupação: será que os patrulheiros de lá serão realmente policiais de
verdade? Vamos torcer para que sejam. Se outros bandidos tomaram conta do
posto, a gente vai estar numa tremenda enrascada.
- Vamos rezar! Vamos rezar para que o
posto não esteja não mão dos bandidos!
- Você falando em rezar, Quim? Mas... Vamos
rezar mesmo!
- Mas, mas! Quem ouvir você falar isso, vai
achar que eu sou ateu! Para com isso, mano!
- Tá bom! Eu sei que você é temente a
Deus!
-Toni, estava conversando com os meus
botões... – dá uma pausa e deixa brotar um leve sorriso, como se estivesse
satisfeito com a frase – Mano, - continua, mas sério - a gente nunca
transportou uma carga desse tipo e rendendo tão pouca grana, certo?
- Certo. E daí? Aonde você quer chegar com
esse papo?
- Eu quero chegar - você interrompeu o meu
pensamento, mano! – dá um muxoxo, mas rapidamente continua – Como eu estava
dizendo, que quero chegar no seguinte ponto: eu estive pensando em que preço
essas garrafas vão chegar lá em Tocantins. Pelo que eu pude ver, vão chegar
caríssimas. Eu não sei o que eles vão botar dentro delas, tudo bem, mas se for
refrigerante já deve tá mais alto do que esses refrigerantes vagabundos que a
gente encontra por essa estrada afora.
- Por
um acaso você já fez a conta?
- Toni, não precisa nem ser bom em
matemática. Só dei uma olhada rápida na nota e fiz uma conta de cabeça. Dá uma
olhada no valor. – estica o braço e entrega a nota para o irmão.
- Deixa eu ver. Tá dez mil reais. Mais o
que ele vai nos pagar. O que é que tem isso?
- Olha a quantidade de garrafas pet.
- Já vi, Quim.
- Quantas tem?
- Tem dez mil garrafas. E daí?
- Toni, como você é cabeça dura! E daí? Você
não percebeu que deve ter armação com o transporte dessa carga? Presta atenção.
Cada garrafa já está saindo a um real.
Bota o valor do transporte – é uma merreca, mas soma mais o que vai dentro
dela, mais a mão de obra... Vai ser um refrigerante muito caro. Você não acha
estranho?
- Que estranho o quê, Quim! Pode ser outras coisas pra botar dentro das
garrafas! Por exemplo, mel.
- Que mel o quê, Toni! Eu nunca vi mel em
garrafa pet! Por um acaso você já viu?
- Não. Nunca vi. Mas se for?
- Toni, você está delirando!
- Delirando, nada!
- A não ser que você esteja vendo o que eu não
vejo. Como você é um paranormal, vê além da imaginação.
- Para com isso, Quim! Já vem você com esse
papo de novo? Esquece essa história! Você teima com isso! O fantasma que eu vi,
você também viu!
- Mas você é que me chamou várias vezes disso
aí. Tá bom mano. Então aproveita a sua mediunidade e cura esse garoto. Vai! –
sorri, com um rasgo de deboche.
- Vai rindo! Vai rindo! Quero ver se aparecer
outro fantasma pela sua frente, se você vai rir! Aí é que vou saber se você é machão
mesmo! Quero ver você debochar do fantasma! Quim, você se faz de esquecido, mas
foi você que viu a menina em pé na estrada. E, se não me engano, quase se
borrou de medo.
- Eu não, Toni! Não vem com esse papo não!
Esquece isso, tá legal?
- Tá com medo?
- Que medo o quê. Esquece esse negócio de
fantasma. Como eu já te disse, isso não aconteceu. Foi só fruto da nossa
imaginação. Olha o menino: é o melhor que você faz. Só estamos perdendo tempo
aqui parado. Vamos pra BR.
- Tá bom. Vamos esquecer aquilo tudo. É melhor
mesmo. Vou olhar o guri. Ele já está há
muito tempo apagado. Isso é preocupante.
Continua Semana que vem!