Continuando...
Toni saiu do galpão e foi caminhando sem pressa, até chegar ao posto de gasolina, trajeto esse que gastou menos de dez minutos. Antes de subir para o quarto, trocou meia dúzia de palavras com um frentista, perguntando a ele sobre Tadeu. O rapaz não respondeu de imediato, parecendo que estava procurando alguma coisa pra dizer. Depois de vasculhar a memória, simplesmente falou:
- Seu Tadeu? Seu Tadeu é cliente nosso. Ele... Ele, não sei muito bem, dizem que é boa gente. Mas...
- Mas, o quê?
- Mas... É melhor deixar pra lá.
- Deixar pra lá? Pode falar amigo. Eu estou perguntando, porque só fui conhecê-lo ontem. Vou levar uma carga pra ele até o Acre. Gostaria de saber alguma coisa sobre ele. Não pode falar?
- Acho que não devo. Mas não é nada demais. São só boatos.
- O amigo está me deixando preocupado. Se são só boatos, você pode dizer alguma coisa. Boato chega, boato vai. Boato é boato. Vamos lá, diz alguma coisa desse boato!
- Não comenta com ninguém, está bem?
- Pode contar com o meu silêncio.
- O certo é que ninguém tem certeza. Mas chegou até a gente que ele pode ser amigo de um traficante muito conhecido. Não sei o nome. É só isso. De resto ele é um cara legal. Desde que ele chegou aqui, se dá bem com todo mundo. Quando vem abastecer, dá até uma gorjeta gorda pra gente. Não comenta com ninguém, está bem?
- Pode deixar. Segredo é segredo.
Toni subiu para o quarto do hotelzinho e entrou meio pensativo. Quim estava deitado vendo televisão, enquanto o menino estava em outra cama debaixo de um lençol, coberto até a cabeça. Entrou em silêncio e não falou nada, coisa que não era do seu feitio. O irmão notou e indagou:
- O que é que houve, Toni? Tá calado. Algum problema lá com o seu Tadeu? Ele desistiu de dá o frete pra gente?
- Não. Não é nada disso não. Está tudo em cima. Duas e meia a gente pega o caminhão carregado. É... Acho que é só cisma.
- O que foi? Desembucha.
- Eu conversei com um frentista aqui do posto... Sabe mano, estava curioso para saber alguma coisa desse Tadeu. Aí perguntei a ele sobre o cara. Ele me enrolou, me enrolou, mas depois da minha insistência ele soltou que o cara, disse que pode ser boato, é amigo de um traficante conhecido.
- Ele disse o nome do traficante?
- Ele não falou. Mas também isso não é problema nosso. Se ele é amigo do cara, o problema é só dele, você não acha?
- Desde que ele não coloque droga pra gente levar, tudo bem.
- É isso aí. É só a gente olhar a carga que ele botar no caminhão e pronto.
- Toni, não vamos esquentar a cuca. Mano, acho que você tem que ir sozinho, de novo, buscar o caminhão. Eu fico aqui com o garoto. Acho arriscado deixar o menino aqui sozinho, pra depois a gente pegar ele. Sei lá! Vai que ele some! Como ele está com a memória prejudicada, pode resolver fugir. Aí mano, a gente tá frito. Você vai e na volta pega a gente.
- Fugir nada! Vira essa boca pra lá!
- Quim a gente vai fazer o mesmo lance pra levar o garoto pro caminhão. Até que deu certo a sua ideia de enrolar ele no tapete.
- Sou um gênio.
- Um gênio. Mas por sorte não tinha ninguém perto pra ver os pés do garoto. Não podemos bobear dessa vez. Mas chama a atenção. Em outras paradas a gente vai usar outra coisa pra transportar ele. Tem que ser alguma coisa que não chame muito a atenção.
- Mas o tapete chama muito a atenção?
- Muito. Alguém pode achar estranho, dois barbados levando um tapete para um hotel. Se fosse pra vender, tudo bem. Mas a gente traz ele de volta pro caminhão, aí fica esquisito.
- É mesmo. Tudo bem.
Na hora marcada, Toni chegou no galpão. Foi recebido pelo próprio empresário Tadeu, que já estava com a documentação toda na mão. Cumprimentou-o e disse eufórico:
- É isso! Muito bom! O amigo é realmente uma pessoa de palavra. Eu gosto é de gente assim. Agora vamos aos negócios. O outro frete já paguei, certo? Agora tenho aqui o outro envelope, com o pagamento dessa carga. Gosto de pagar adiantado. Não abre o envelope agora. Ele está gordinho, não é? A nota está aqui. Essa é mais do triplo da outra.
- O triplo, seu Tadeu?
Continua Semana que vem!


