Continuando...
Imediatamente começam a brincar. A ansiedade do menino é grande. Parece que só brincou disso a vida toda. Era uma vitória atrás da outra. Nunca saía. Aprendeu par ou ímpar e quando ficava ele com um dos dois, ganhava. O tempo passava e Quim foi deixando claro que já estava ficando aborrecido. O seu modo de ser, o irmão conhecia de sempre. A sua transformação ao perder, vinha num crescente quase que incontrolável. Toni percebeu e num gesto de mãos mandou-lhe relaxar. Mas depois de mais três partidas, Quim que não resistiu mais.
- Toni. Já estamos jogando a uma porção de tempo e nada da memória do garoto voltar. E o pior, é que um de nós dois sempre perde. Olha só. Ganhou mais uma. Toni, esse garoto está roubando a gente! Assim não dá!
- Que roubando o quê, Quim.
- Se fosse palitinho, eu queria ver se ele ia me ganhar. Aí menino, vamos jogar palitinho?
- Palitinho? Não conheço não! – respondeu, sem dar muita importância para a proposta de Quim.
- Para com isso, Quim. Isso é jogo para se ensinar a uma criança? - repreendeu-o Toni.
- Porra, mano. Já estou cansado de apanhar!
- Segura a língua, Quim. Que boca suja! Eu também perdi, mas não disse palavrão. Qual o problema de se perder?
Quim só faz uma careta, mas não responde. A brincadeira então recomeça. Após a segunda rodada, Toni, usando um pretexto para sair do jogo, diz que precisava urinar. Claro que Quim não engoliu a desculpa do irmão, mas preferiu aceita-la sem contestar, já que ia aproveitar para mudar de jogo. Sabia que zerinho ou um, que já estava de saco cheio, joga-se com mais de dois. Então ensinou rapidinho o jogo do palitinho para o menino. Entretanto antes de começar, deixou brotar um sorriso de vitória.
Depois de algumas partidas Quim não está mais com a cara de bons amigos. O azedume era claro na sua expressão facial. Estava deixando a amostra a sua insatisfação. Não aguentou mais e chamou pelo irmão:
- Toni! Aonde está você? Que mijada longa!
O irmão que estava do outro lado do caminhão, responde:
- O que é Quim? Já estou indo.
Toni vai chegando devagar, mas vai prendendo o riso. Bota a mão na frente da boca para não deixar escapá-lo. Quim quando vê a cara do irmão cheia de risos, contesta:
- Ué, por que o riso? Tá de sacanagem comigo?
- Que sacanagem, o quê! Eu só estou com vontade de rir. Só isso.
- Eu te conheço! Eu te conheço! Olha só. Já estou cansado de apanhar. Você caiu fora. Você está pensando que me enganou? Coisa nenhuma! Coisa nenhuma! Eu mudei de jogo, fomos para o palitinho, que ele disse que não sabia, então... eu me ferrei! Não ganhei nenhuma mão! E não ri, não!
- Tá bom, Quim. Vou ficar sério. Mas tá difícil! Tá difícil!! - risos - Eu vi de lá que você só perdia. – continua rindo.
- Vai! Vai rindo! Vai rindo! Vou parar de jogar. Não dá mais. Pra mim, chega.
Quim olha para o menino, engole em seco e passa a mão no seu cabelo.
- Menino, vamos parar tá legal? – fala sem intenção de querer resposta - Eu reconheço que você é muito bom, nisso também. Então, não dá pra continuar.
- Só mais um pouquinho! Por favor!
- Quim, faz à vontade dele. Coitadinho! – risos.
- Coitadinho de mim. Continua rindo, né? Você faz gracinha e esquece que a gente está com uma batata quente não mão. Vamos fazer uma coisa?
- Que coisa, Quim?
- É o seguinte. Percebeu o tempo que perdemos aqui parado? Estamos dando chance ao azar. Então, só temos uma opção: pegar estrada, já! E eu dirijo. – dá um sorriso - Aí você vai distraindo o garoto. Tem muito tempo pra jogar par ou ímpar. Tá legal, Toni?
- Pegou pesado. Mas tá legal. Vou enfrentar o sacrifício. Você sempre bota dificuldade nas coisas, mesmo. Então vou aceitar o desafio.
- Eu boto dificuldade? Tá brincando! Sacrifício. Eu me sacrifiquei à beça. Agora desafio... Você não vai ter chance de desafiar o menino. Quero ver a surra que você vai levar. Vou rir bastante. Vamos embora, mano.
- Tá bom, Quim. Vamos pra estrada. No primeiro posto de gasolina, a gente para. Aproveitamos e fazemos uma boquinha.
- Boquinha, Toni! Com a fome que eu estou, como até pedra!
- Você é guloso mesmo. O garoto deve estar também cheio de fome. Aquela barrinha não deve ter dado nem pra encher o buraco do dente. Minha barriga já roncou. Vamos indo.
- Mas vai brincando com o garoto. Eu quero ver esse exercício para ativar a memória dele. Pode começar. Estou saindo.
Continua Semana que vem!

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