Continuando...
Toni acomoda a criança e se prepara para começar a brincadeira. O garoto então esfrega as mãos, demonstrando ansiedade, e fala:
- Vamos jogar zerinho ou um?
- Não dá. – responde Toni – Você sabe que com dois, o jogo não rola. É de três pra cima.
- Então vai ser par ou ímpar?
- Aí sim. É isso aí. Vamos começar? Pode pedir.
- Eu ímpar – escolheu o garoto.
Mal Toni bota os dedos, Quim dá uma gargalhada.
- Viu Só? Já perdeu a primeira! – querendo engolir o riso.
- Vai rindo! Vai rindo! Essa foi só a primeira! Essa agora e as outras vão ser só minhas!
- Quero ver.
- Puxa vida. Ganhou de novo. Puxa garoto, só dá você. Que sorte danada. – diz Toni um pouco sem graça.
- Tá reclamando, Toni? – Quim se dirige ao irmão com uma ponta de deboche -Tenta de novo. Vai tentando! Vai tentando!
- Vou sim! Vou sim! E não estou reclamando coisa nenhuma! Eu só quero ganhar pelo menos uma, né?
- Começou agora e já está chiando? Garoto, dá uma surra nele!
- Surra! Ah! Você vai ver a minha reação!
A viagem transcorria com tranquilidade, permeada de risos e reclamações de Toni, que demonstrava claramente a sua insatisfação em tentar distrair o garoto, já que não acontecia a tal reação. Depois de um breve silêncio, ele explodiu:
- Assim não dá! Assim não dá! Cansei! Porra, até agora não ganhei nem uma!
- Ué! Você não riu de mim? Agora aguenta! Joga mais umazinha, joga. E lava essa boca suja!
- Boca suja? Desculpa, garoto. Mas jogar? Você está maluco. Mano, escuta aqui. Vou falar no seu ouvido. Esse garoto é bruxo. Isso não é normal. Ele adivinha quantos dedos eu vou botar. Ele ganhou todas de você e de mim. Isso é normal? Chega. Não jogo mais. Vamos esperar a memória dele, voltar sozinha. Vamos dar tempo ao tempo, senão quem vai ficar sem memória sou eu.
- Calma. Mano, relaxa. Você não ganhou porque tem um agravante.
- Que agravante?
- A sua idade. Você está ficando velhinho! – Quim dá um riso debochado.
- Velho uma ova! Quem está velho com trinta e cinco anos?
- Você além de ancião, é um tremendo mentiroso!
- Ah! Vai plantar batata, Quim!
O tempo foi passando e nada da memória do garoto voltar. Nesse momento ele estava deitado atrás dos bancos e não dava nenhum sinal de que estivesse com a sua memória em ordem. Desde que Toni não quis mais jogar, ele voltou ao seu mutismo. De vez em quando Toni perguntava alguma coisa sobre a sua família, mas sempre vinha como resposta um não sei. Depois da última pergunta, Quim falou:
- Toni, esse negócio de esperar a memória dele voltar, está dando nos nervos. Vamos cair na real, mano. Esse negócio de amnésia, – agora acertei! - pode demorar muito tempo. Eu sei que tem caso que a memória volta rápido, mas em outros casos demora uma eternidade.
- Mas o caso dele, pode voltar sem a gente menos esperar. Vamos aguardar mais um pouco, pacientemente. – diz Toni, querendo injetar um pouco de esperança no irmão.
- Esse um pouco, quer dizer quanto tempo? Um dia, dois dias, três dias... um mês, um ano e, às vezes nunca mais?
- Ih! Deixa de ser pessimista, Quim. A esperança é a última que morre. Alguém disse isso e eu levo fé na esperança.
- Não é o caso de não ter esperança, não é isso. Não sou aquele cara totalmente pessimista. Mas, mano, a verdade é que nós não sabemos nada de amnésia. A gente só ouve falar. Não somos médicos, Toni. Um médico é que poderá analisar o caso do menino.
- O que é que você sugere?
- Eu sugiro que a gente leve ele até um posto da Patrulha Rodoviária.
Lá eles vão saber o que fazer. Se não me engano tem um posto próximo.
- Você fala em médico e quer levar para a polícia. Não entendi. Quim, a moça pediu...
Continua na Semana que vem!

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