terça-feira, 24 de março de 2026

O Filho do Poder - Parte 19

 


 Continuando...

                Toni acomoda a criança e se prepara para começar a brincadeira. O garoto então esfrega as mãos, demonstrando ansiedade, e fala:

          - Vamos jogar zerinho ou um?

          - Não dá. – responde Toni – Você sabe que com dois, o jogo não rola. É de três pra cima.

          - Então vai ser par ou ímpar?

          - Aí sim. É isso aí. Vamos começar? Pode pedir.

          - Eu ímpar – escolheu o garoto.

     Mal Toni bota os dedos, Quim dá uma gargalhada.

          -  Viu Só? Já perdeu a primeira! – querendo engolir o riso.

          - Vai rindo! Vai rindo! Essa foi só a primeira! Essa agora e as outras vão ser só minhas!

          - Quero ver.

          - Puxa vida. Ganhou de novo. Puxa garoto, só dá você. Que sorte danada. – diz Toni um pouco sem graça.

          - Tá reclamando, Toni? – Quim se dirige ao irmão com uma ponta de deboche -Tenta de novo. Vai tentando! Vai tentando!

          - Vou sim! Vou sim! E não estou reclamando coisa nenhuma!  Eu só quero ganhar pelo menos uma, né?

           - Começou agora e já está chiando? Garoto, dá uma surra nele!

           - Surra! Ah! Você vai ver a minha reação!

                A viagem transcorria com tranquilidade, permeada de risos e reclamações de Toni, que demonstrava claramente a sua insatisfação em tentar distrair o garoto, já que não acontecia a tal reação. Depois de um breve silêncio, ele explodiu:

          - Assim não dá! Assim não dá! Cansei! Porra, até agora não ganhei nem uma!  

          - Ué! Você não riu de mim? Agora aguenta! Joga mais umazinha, joga. E lava essa boca suja!   

          - Boca suja? Desculpa, garoto. Mas jogar? Você está maluco. Mano, escuta aqui. Vou falar no seu ouvido. Esse garoto é bruxo. Isso não é normal. Ele adivinha quantos dedos eu vou botar. Ele ganhou todas de você e de mim. Isso é normal? Chega. Não jogo mais. Vamos esperar a memória dele, voltar sozinha. Vamos dar tempo ao tempo, senão quem vai ficar sem memória sou eu.

          - Calma. Mano, relaxa. Você não ganhou porque tem um agravante.

          - Que agravante?

          - A sua idade. Você está ficando velhinho! – Quim dá um riso debochado.

          - Velho uma ova! Quem está velho com trinta e cinco anos?

          - Você além de ancião, é um tremendo mentiroso!

          - Ah! Vai plantar batata, Quim!

               O tempo foi passando e nada da memória do garoto voltar. Nesse momento ele estava deitado atrás dos bancos e não dava nenhum sinal de que estivesse com a sua memória em ordem. Desde que Toni não quis mais jogar, ele voltou ao seu mutismo. De vez em quando Toni perguntava alguma coisa sobre a sua família, mas sempre vinha como resposta um não sei. Depois da última pergunta, Quim falou:

          - Toni, esse negócio de esperar a memória dele voltar, está dando nos nervos. Vamos cair na real, mano. Esse negócio de amnésia, – agora acertei! -  pode demorar muito tempo. Eu sei que tem caso que a memória volta rápido, mas em outros casos demora uma eternidade.

          - Mas o caso dele, pode voltar sem a gente menos esperar. Vamos aguardar mais um pouco, pacientemente. – diz Toni, querendo injetar um pouco de esperança no irmão.

          - Esse um pouco, quer dizer quanto tempo? Um dia, dois dias, três dias... um mês, um ano e, às vezes nunca mais?

          - Ih! Deixa de ser pessimista, Quim. A esperança é a última que morre. Alguém disse isso e eu levo fé na esperança.

          - Não é o caso de não ter esperança, não é isso. Não sou aquele cara totalmente pessimista. Mas, mano, a verdade é que nós não sabemos nada de amnésia. A gente só ouve falar. Não somos médicos, Toni. Um médico é que poderá analisar o caso do menino. 

         - O que é que você sugere?

         - Eu sugiro que a gente leve ele até um posto da Patrulha Rodoviária. 

    Lá eles vão saber o que fazer. Se não me engano tem um posto próximo.

        - Você fala em médico e quer levar para a polícia. Não entendi. Quim, a moça pediu...

 Continua na Semana que vem!

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