Continuando...
O garoto já estava deitado atrás do banco. Nem parecia que tivesse encarado alguma dificuldade. Pelo jeito o menino era preparado para a adversidade. Esticou-se, fechou os olhos, fingia que dormia ou tinha pegado no sono mesmo e sonhava com alguma coisa boa, pois de vez em quando deixava aparecer um leve sorriso. Quim notou e comentou com o irmão:
- Toni, olha só. Nem parece que a gente encarou pedregulho no mato. Observa o sorriso que traz nos lábios. Que menino é esse?
- O negócio foi terrível?
- Um pouquinho. Mano eu pensei que você estivesse preso. Demorou muito. Realmente nós passamos maus pedaços dentro do mato. Caímos até dentro de um espinheiro.
- Não brinca!
- Sério. Estamos todo arranhado. Coitadinho do menino. Mas sabe que ele não reclamou? Garoto valente taí. Mas você não sabe da maior. Quer saber?
- Claro! O que foi?
- Aquela menina apareceu.
- Que menina, Quim?
- Que menina? O fantasma!
- Não! Não acredito!
- Mas pode acreditar que foi verdade. Falou até com o garoto.
- Caramba! E o que é que ela queria?
- Ajudar a gente. Foi ela que me orientou, senão eu ia ficar ali pertinho. Ela então mandou que nós andássemos mais. Por isso é que saímos aqui.
- E cadê ela?
- Trouxe a gente até aqui e depois sumiu.
- Viu só! E você dizendo que a gente tinha sonhado! Que aquilo não tinha existido! Quim não pode brincar com essas coisas não!
- É. Depois dessa, não brinco mais.
- Quim, o importante é que vocês estão bem e com a ajuda dela. Viu só! É o nosso fantasma camarada!
- Tá brincando? Na hora eu quase me borrei! Levei o maior susto!
- Mas já passou, Quim. Agora tá tudo bem. E eu não estou brincando não. Quando ela apareceu vocês já tinham caído no espinheiro?
- Já. Foi logo que entramos no mato. Depois desse sufoco ela apareceu.
- Pelo jeito vocês não caíram só no espinheiro, não. Devem ter caído também dentro de algum esgoto. Ou pode ter pisado em alguma bosta! – disse rindo Toni.
- Que bosta o quê! Fica rindo! Fica rindo! Mano, nós passamos o maior susto com uma cobra também. Se não fosse a menina a gente estava era frito. Ela é que tirou aquele bicho peçonhento do nosso caminho.
- Cobra? Caraca! E eu aqui brincando!
- Eu nunca tive um medo tão grande na minha vida. Mas você sabe que o garoto disse que a cobra não era venenosa? Como ele conhece? E eu ali assustado pra caramba. E preocupado com ele. Ele até riu de mim. E a garota também.
- Então foi isso, Quim?
- Isso o quê?
- Você não caiu dentro do esgoto e muito menos pisou numa bosta. Acho que você se cagou de medo! – riu até quase perder o fôlego.
- Ih Toni! Para com isso! E eu sou homem pra me sujar assim! Para de rir da desgraça alheia! Mano, agora vamos falar sério. Como é que foi lá com os patrulheiros?
- Desgraça alheia. Engraçado isso. Então Quim, foi muito estranho. Muito estranho mesmo.
- Então conta. Deixa de suspense. Vamos, conta logo. Estou curioso.
- Quim, o garoto está ferrado de novo no sono.
- Está cansado. É melhor ele ficar dormindo. Eu também vou acabar tirando um soninho. Mas antes que eu durma, conta a sua história.
- Você sabe que eles liberaram todos os caminhões e carros de passeio, menos o nosso caminhão? Eles vieram com determinação em cima de mim. Já estavam com a placa do nosso caminhão, escrita num pedaço de papel. Um dos patrulheiros, que não tinha a cara de bons amigos, foi mandando logo eu descer. Eu notei que tinha algo errado, pois nem pediram a nota fiscal da mercadoria e nem a minha habilitação. Enquanto o outro já estava do meu lado com a mão na arma. Ele então já foi vasculhando tudo à procura de alguma coisa. Ou do garoto. Mas enquanto ele revirava o caminhão, eu entreguei ao outro patrulheiro, de nome Ivan, a nota fiscal, os documentos do caminhão e a minha habilitação. Sabe que o cara nem olhou?
Continua Semana que vem!

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