terça-feira, 9 de junho de 2026

O Filho do Poder - Parte 30

 


Continuando...

          - Não vem com essa não. A história não foi bem essa. Eu sonhei com ele sim. Agora eu ter falado com o defunto, é outra história. E eu não me lembro de ter falado isso pra você, não. É diferente. Isso já é coisa da sua cabeça. É invenção sua.

          - Que invenção minha! Toni, você falou sim. E se eu sou paranormal, você também é.  Eu falei com a menina sim, mas você também falou. Você conversou mais com a filha do Betão que eu. Esqueceu? Está me zoando? Tá de gracinha, né? Eu te conheço! Isso é hora pra brincadeira, Toni?

         - Puxa, Quim. Você está muito sério. A gente não pode nem brincar. Tem que relaxar, mano. Vou te confessar que eu estava nervoso também. Estava não, estou ainda. A nossa situação é complicada. Mas agora estou até um pouquinho menos tenso. Só com essa possibilidade de atravessarmos para outro estado, relaxei um pouco. Eu sei que vamos sair dessa encrenca. Nós sempre conseguimos sair de todas as enrascadas que entramos, não foi? Então, acho que essa não vai ser diferente. Vamos conseguir virar mais essa página sinistra.

          - Você acha mesmo? Página sinistra. Falou bonito, Toni.

          - Achou? E é com certeza que digo que vamos tirar esse pedregulho do nosso caminho. Mano, quando a gente chegar no Acre, tudo vai voltar ao normal. Em Rio Branco, vamos encontrar a saída. Agora... – dando uma olhadinha para trás - acorda o garoto aí e vai jogando zerinho ou um com ele. Coitadinho, Quim! - Toni termina a frase, sorri e faz uma careta.

           - Como? Esqueceu que eu estou dirigindo?

           - Que dirigindo? Quem está no volante sou eu!

           - Estou de copiloto. E você não acha que fico o tempo todo passando marcha, apertando freio... tudo imaginário, mas acha que não cansa?

           - Você é engraçadinho mesmo, né seu Quim? E também maluco! Nem fala nisso mais não. Esquece esses jogos. Nada de jogar zerinho ou um, porrinha e sei lá mais o quê! Isso é castigo! Mas se quiser jogar, fica à vontade. Não se esqueça que zerinho ou um, com dois não dá. Vai ter que ser par ou ímpar. – Toni termina de falar e começa a rir.

                   A viagem continua sem nenhum incidente. Já tinham parado e deixado à carga em Barreiras. Mas antes de voltar para a BR, entraram num posto de gasolina e abasteceram o caminhão. Aproveitaram e fizeram uma refeição rápida. Como o garoto continuava dormindo, compraram uma quentinha para ele. Entretanto, quando retornaram para o caminhão, Quim assinalou para o irmão a sua preocupação, em relação ao menino:

           - Toni, estou achando muito estranho esse garoto dormir tanto. Isso não é normal. Está dormindo à beça. Praticamente ele não acordou. Nem pra fazer xixi. Ninguém fica tanto tempo sem mijar.

           - Fica tranquilo, Quim. Ele só está ferradinho no sono. Ele devia estar a muito tempo sem dormir. A gente nem imagina o que ele deve ter passado. Mamãe sempre dizia que dormir bem alimenta. Lembra? Então, ele está alimentado. Passei a mão na testa dele: está fresquinha. Não tem febre não. É só sono mesmo.

          - Mas nem mijar ele mija!

          - Ah, Quim. Como é que ele vai mijar, se não bebeu água!?

          - Bebeu sim.

          - Esqueci que ele ficou jogando com a gente. Nessa hora ele bebeu água sim. Ele deve ter feito xixi e a gente não viu.

          - É! Pode ser! Toni, estou pensando numa coisa aqui.

          - O que é?

          - A gente vai encontrar a Polícia Rodoviária, antes de entrar em Tocantins. Certo?

         - E daí?

         - E daí?  O que é que a gente vai dizer para o policial? Vamos ser parados de qualquer jeito.

        - Eu sei. Mas dizer o quê, Quim?

        - Presta atenção, Toni. Primeiro problema: estamos sem carga. Segundo: a placa é do RJ. Terceiro: o que é que a gente vai fazer em Tocantins? Quarto: não vamos pegar nenhuma carga. Quinto: como vamos explicar a presença do garoto com a gente. E sexto: e aí?

        - Puxa, Quim! Você falou pra caramba! Mas você está certo. Estou pensando numa coisa. De repente é uma saída.

        - Qual é a saída? Fala logo, antes da gente pegar estrada.

        - Quim, se lembra daquele senhor que eu estava conversando?

        - Sim. E daí?

        - E daí é que ele me ofereceu uma carga. Recusei porque não era grande coisa.  Mas agora pode ser a nossa salvação.

        - Então Toni, vai lá e procura ele.

        - Vou até lá. Mas reza para que ele não tenha passado para outro. Vou tirar o caminhão daqui.

       - Vou rezar, mano. Eu sabia que você ia achar uma saída. Até que você pensa, hein!

      - Engraçadinho.

 Continua Semana que vem!

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