segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Pensamento de Poeta - Quero Falar...Continuar

Quero Falar...Continuar

- José Timotheo - 

A palavra

Quanto tempo o homem levou para falar?

Ninguém sabe. Só suposições

Viemos engatinhando, levantamos e falamos

Quantos milênios nos arrastamos até o primeiro balbuciar?

Que vitória!

Essa foi a maior conquista do homem, com certeza

E é esse um direito eterno

Outorgado pelo criador 

Quem é que tem o poder de me mandar calar, a não ser Ele?

Ninguém pode nos emudecer

Seria o maior retrocesso

Que a humanidade poderia sofrer

As opiniões são muitas

E têm que ser respeitadas

Eu falo e cada um pode e deve falar

Se eu não ofendo, não posso ser recriminado

Podem me recriminar, desde que não me ofendam

Vivemos para falar, pensar

Sem isso, não criaremos nada

O mundo para

Se não criamos

Voltamos a engatinhar

E aí? Vão continuar?

Se assim for

Já vou procurar a minha caverna

                                                                     fim

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 12

 


Continuando...

               Toni olha para ele e sorri meio incrédulo.

         - Você garante? Garante mesmo? Então tá! - já apresentando uma expressão mais otimista - Então vamos nessa!

               Liga o caminhão e sai cautelosamente do acostamento, passando por cima do capinzal, com o coração aos pulos, mesmo depositando total confiança na análise do irmão. Continua trafegando bem devagar pelo terreno desconhecido, até conseguir sair com segurança, a mais de cinquenta metros à frente. Olha para o irmão, dá uma respirada profunda e em seguida, um tapa na sua perna.

               Já no asfalto, para o caminhão e olha a reta a sua frente, aparentemente, sem fim. Respira novamente profundamente e dá uma olhadinha para trás, botando a cabeça para fora da janela, entortando o pescoço, para ver pela última vez aquele desastre, que pelo jeito, nunca mais sairia da sua cabeça.

               Antes de colocar o veículo em movimento, dá uma espiada para os dois lados da estrada e fica apreciando aquela bela planície, mas com a sensação de que essa seria a última vez que faria isso. Um lugar assim, é para não se esquecer nunca. E é isso que Toni está tentando tatuar na sua mente. Depois de ficar alguns minutos parados, ele olha para o irmão, esfrega as mãos e diz:

          - Quim, vamos sair logo daqui. Acho que já demoramos muito. Mas, por favor, não me peça para pisar o acelerador até o fundo, não. Ok? Vamos manter a velocidade limite, pra não chamar a atenção. É última coisa que precisamos, no momento, é sermos notados.

               O irmão olha pra ele, dá um sorriso de deboche e fala:

         - Não vou nem falar nada. Sabe por que eu não vou falar? Porque você sabe que é uma roda presa. Só por isso. Andar na velocidade limite! Não ser notado! Roda presa!

         - Roda presa é uma ova! Você é que é sem noção! Tem hora que eu não te entendo. É bom motorista, mas é vacilão.

         - Pô mano, é assim que você pensa de mim? Pegou pesado. Magoou.

         - Vai chorar?

        - Que chorar o quê! Vamos andando, mano! Você demorou muito a sair da cena do crime. Não sei o que tanto você olhava de um lado para o outro. Parecia que procurava alguma coisa. Vamos roda presa!

             Toni olha para o irmão, mas não fala nada. Apenas observa um sorriso gozador que ele deixa escapar.  Sorri também e em seguida dá um tapa na sua perna.

             Foram se distanciando da cena do acidente. A viagem se mantinha em silêncio. Até o rádio estava mudo. Parecia que o tempo estava congelado. Já tinham rodado por mais de trinta minutos. Esse silêncio todo acabou incomodando Quim, um tagarela nato. Não se controlando mais, acabou com aquele silêncio tumular que tinha invadido a cabine do caminhão.

       - Tô pensando mano. Tô pensando. – diz do nada.

       - Pensando em quê? – pergunta Toni.

       - Mano, estou aqui com os meus pensamentos cochichando. A mulher pediu pra gente não levar o garoto pra polícia, certo? Mas não sabemos a causa de não levarmos ele para o primeiro posto policial. Mas conclui que temos que levar, sim. A polícia é a única que vai saber onde achar a família dele. E também vamos nos livrar dessa encrenca. Ficar com esse garoto, me cheira a confusão. Temos que deixar o menino na primeira Patrulha Rodoviária que encontrarmos.

         - Sei não, Quim. Tudo bem que é uma forma cômoda da gente se livrar do problema. Mas a mulher foi clara, não foi?

         - Foi. Eu sei. Inclusive disse pra não levarmos ele nem para hospital. Entendi tudo que ela falou. Todas essas recomendações. Porém... Tem um porém nisso tudo. A encrenca dos outros, vai cair no colo da gente.     

        - De repente você está com a razão. Mas Quim, temos que pensar um pouco. É a vida de uma criança que está em jogo.

        - Eu sei, mano. O negócio deve ser muito brabo mesmo. Não poder levar pra polícia e nem para o hospital, é muito estranho.  Aí tem cachorro morto no mato.

        - O quê que tem isso?

        - Oh Toni! Tô dizendo que não está cheirando bem. E acho que vai ser mais uma fria que a gente vai entrar.

        - Não conheço esse ditado, não. Mas... Deixa pra lá. Mano, dessa vez eu concordo com você. Pode ser uma fria, mesmo. Tem hora que você exagera, mas dessa vez você está coberto de razão. A mulher falou de traficante, não foi?

        - Isso mesmo. Ela disse pra gente levar o menino e entregar ao pai. Só ao pai. Estranho, não é?

        - Bota estranho nisso, Quim. Sabe de um negócio: a gente espera o garoto acordar e depois resolve o que a gente vai fazer.

        - Tá certo mano.

        - Quim, vamos nos afastar o máximo possível. Acho que estamos até com sorte. Percebeu que até agora não passou nenhum carro pela gente? Isso já é um bom sinal. Vamos rezar para que continue assim.

Continua Semana que vem!

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 11

 


Continuando...

            Quim toma à dianteira e vai pegar o garoto. Mas antes estica a coluna. Toni observa o gesto do irmão e interroga-o:

           - Quim, você está sentindo dor na coluna? A explosão jogou você longe. Temos que ver isso aí.

           - Fica tranquilo mano. Isso foi só pra alongar. Não estou sentindo nada não. Pra me tirar de circulação, só uma explosão atômica.

          - Você quis dizer atômica, não é?

          - Ih! Vai me corrigir?

          - Anda logo Quim! Anda logo!

               Enquanto Quim subia com o garoto na boleia do caminhão, Toni deu a última olhada para o carro que ainda estava em chamas e soltando uma fumaça mais escura que o asfalto.  

          - Que coisa triste. – diz Toni, enquanto espalha o olhar pelos destroços - As pessoas já devem ter virado carvão. Meu Deus, quem são essas pessoas? Não somos nada mesmo. Por que será que Ele deixa as pessoas se acabarem assim?

               Quim acomodou a criança com cuidado e cobriu-o com uma coberta. Instintivamente colocou as costas da mão na sua testa. Deu um leve sorriso ao constatar que o menino não tinha febre. Virou-se para falar com o irmão, mas ficou surpreso que ele ainda não tinha subido. Então meteu a cabeça pelo vão da janela.

          - Toni, vamos embora! – gritou Quim para o irmão - Que lerdeza é essa? A gente vai acabar se encrencando!

          - Calma. Já estou indo. – respondeu com uma tranquilidade anormal, frente aquele sinistro - Fique calmo que aqui é o fim do mundo, até à polícia chegar a essas bandas, bota tempo, bota tempo nisso.

          - É? Acredita nisso? Vai acreditando. Você está muito calmo para essa situação catastrófica.

               Toni entra no caminhão e pega a direção. Antes de dar a partida no veículo, olha de novo para os dois carros incendiando e faz o sinal da cruz. Depois olha para o local onde estava o menino deitado, bate na perna do irmão e diz:

          - Mano, vamos nessa. Vamos sumir daqui.

          - Agora sim, tá voltando ao normal. Parece até que você estava incorporado.

          - Sabe que tinha me sentido assim. Fiquei estranho. Parece que sentia a menina do meu lado.

          - Ih. Para com isso, Toni. Para com isso. Vamos embora. Vai que ela aparece aqui. Enfia o pé, vamos. Corre para deixarmos ela pra trás.  

               Toni vai saindo devagar pelo acostamento, mas não consegue andar quase nada, devido aos pedaços de ferragens espalhados pela pista e pelo acostamento. Ele para o caminhão e olha para o irmão.

         - Quim, - fala com um ar preocupado - acho que vamos ter que voltar.

         - Que voltar o quê! Tá maluco? Que cara é essa? Toni temos que ir em frente. Nada de voltar. Sai da estrada e passa por cima do capim.

         - Que capim? A gente nem sabe se ali tem buraco! Mano, ali pode ter uma tremenda cratera e engolir o caminhão. Não pensou nisso? Se a gente ficar preso aqui, estamos fritos, Quim!

          - Toni, você só pensa coisa negativa! Vou te contar, hem!

               Quim bota a mão no queixo, balança a cabeça, depois leva a mão à maçaneta, abre a porta do carona e desce do caminhão. Caminha por fora do acostamento e analisa se o caminhão consegue passar por cima do capim que margeia a estrada. Como é do seu feitio invade o capinzal e vai analisando se o terreno é firme o suficiente para aguentar o peso do caminhão. Caminha até um ponto em que o veículo poderá passar sem risco, até voltar à estrada. O irmão fica olhando-o a se aventurar daquele jeito, em um lugar desconhecido, colocando a vida na mão de Deus. Mas como o conhece muito bem, sabe que ele é dado a desafios sem necessidade alguma, - coisas da juventude - balança a cabeça e deixa escapar um sorriso pelos lábios entreabertos.

                Depois de algum analisando o terreno, Quim volta acelerado, sobe na boleia e fala ofegante:

         - Mano. Cansei. Mas pode meter a carreta por cima do capinzal, sem medo! O terreno é firme feito uma rocha!

 Continua Semana que vem!