Continuando...
Toni
olha para ele e sorri meio incrédulo.
-
Você garante? Garante mesmo? Então tá! - já apresentando uma expressão mais
otimista - Então vamos nessa!
Liga o caminhão e sai cautelosamente do
acostamento, passando por cima do capinzal, com o coração aos pulos, mesmo depositando
total confiança na análise do irmão. Continua trafegando bem devagar pelo
terreno desconhecido, até conseguir sair com segurança, a mais de cinquenta metros
à frente. Olha para o irmão, dá uma respirada profunda e em seguida, um tapa na
sua perna.
Já no asfalto, para o caminhão e olha a
reta a sua frente, aparentemente, sem fim. Respira novamente profundamente e dá
uma olhadinha para trás, botando a cabeça para fora da janela, entortando o
pescoço, para ver pela última vez aquele desastre, que pelo jeito, nunca mais
sairia da sua cabeça.
Antes de colocar o veículo em
movimento, dá uma espiada para os dois lados da estrada e fica apreciando
aquela bela planície, mas com a sensação de que essa seria a última vez que
faria isso. Um lugar assim, é para não se esquecer nunca. E é isso que Toni
está tentando tatuar na sua mente. Depois de ficar alguns minutos parados, ele
olha para o irmão, esfrega as mãos e diz:
- Quim, vamos sair logo daqui. Acho que já
demoramos muito. Mas, por favor, não me peça para pisar o acelerador até o
fundo, não. Ok? Vamos manter a velocidade limite, pra não chamar a atenção. É
última coisa que precisamos, no momento, é sermos notados.
O irmão olha pra ele, dá um sorriso de
deboche e fala:
- Não vou nem falar nada. Sabe por que eu não
vou falar? Porque você sabe que é uma roda presa. Só por isso. Andar na
velocidade limite! Não ser notado! Roda presa!
- Roda presa é uma ova! Você é que é sem
noção! Tem hora que eu não te entendo. É bom motorista, mas é vacilão.
- Pô mano, é assim que você pensa de mim? Pegou
pesado. Magoou.
- Vai chorar?
- Que chorar o quê! Vamos andando,
mano! Você demorou muito a sair da cena do crime. Não sei o que tanto você
olhava de um lado para o outro. Parecia que procurava alguma coisa. Vamos roda
presa!
Toni olha para o irmão, mas não fala nada.
Apenas observa um sorriso gozador que ele deixa escapar. Sorri também e em seguida dá um tapa na sua perna.
Foram se distanciando da cena do acidente. A
viagem se mantinha em silêncio. Até o rádio estava mudo. Parecia que o tempo
estava congelado. Já tinham rodado por mais de trinta minutos. Esse silêncio
todo acabou incomodando Quim, um tagarela nato. Não se controlando mais, acabou
com aquele silêncio tumular que tinha invadido a cabine do caminhão.
- Tô pensando mano. Tô pensando. – diz
do nada.
- Pensando em quê? – pergunta Toni.
- Mano, estou aqui com os meus
pensamentos cochichando. A mulher pediu pra gente não levar o garoto pra
polícia, certo? Mas não sabemos a causa de não levarmos ele para o primeiro
posto policial. Mas conclui que temos que levar, sim. A polícia é a única que vai
saber onde achar a família dele. E também vamos nos livrar dessa encrenca. Ficar
com esse garoto, me cheira a confusão. Temos que deixar o menino na primeira
Patrulha Rodoviária que encontrarmos.
-
Sei não, Quim. Tudo bem que é uma forma cômoda da gente se livrar do problema.
Mas a mulher foi clara, não foi?
- Foi. Eu sei. Inclusive disse pra não
levarmos ele nem para hospital. Entendi tudo que ela falou. Todas essas
recomendações. Porém... Tem um porém nisso tudo. A encrenca dos outros, vai
cair no colo da gente.
- De repente você está com a razão. Mas Quim,
temos que pensar um pouco. É a vida de uma criança que está em jogo.
- Eu sei, mano. O negócio deve ser muito brabo
mesmo. Não poder levar pra polícia e nem para o hospital, é muito estranho. Aí tem cachorro morto no mato.
- O quê que tem isso?
- Oh Toni! Tô dizendo que não está cheirando
bem. E acho que vai ser mais uma fria que a gente vai entrar.
- Não conheço esse ditado, não. Mas... Deixa
pra lá. Mano, dessa vez eu concordo com você. Pode ser uma fria, mesmo. Tem hora
que você exagera, mas dessa vez você está coberto de razão. A mulher falou de
traficante, não foi?
-
Isso mesmo. Ela disse pra gente levar o menino e entregar ao pai. Só ao pai.
Estranho, não é?
- Bota estranho nisso, Quim. Sabe de um
negócio: a gente espera o garoto acordar e depois resolve o que a gente vai
fazer.
- Tá certo mano.
- Quim, vamos nos afastar o máximo possível.
Acho que estamos até com sorte. Percebeu que até agora não passou nenhum carro
pela gente? Isso já é um bom sinal. Vamos rezar para que continue assim.
Continua Semana que vem!