terça-feira, 15 de setembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 44

 


Continuando...

                  Toni acabou levantando mais cedo, um pouco depois das cinco. Levantou ansioso, pensando na estrada que tinha pela frente. Queria sair logo do hotel, mesmo sem o café da manhã, entrar no caminhão e varar a madrugada na estrada. Teve vontade de acordar o irmão e o menino, mas conseguiu controlar a ansiedade, já que prometera a Quim que iriam sair às oito horas. Não conseguiu entender porque ficara daquele jeito. Mas acabou sossegando o coração.

 

               O caminho era longo até Palmas e quanto mais cedo chegasse lá seria melhor. Entretanto não estava querendo se preocupar com o destino final, que era o estado do Acre, pois tinha medo de ser tentado a desistir, porque sabia de antemão que era muito chão até lá. Então não queria correr o risco de ser pego pelo desânimo, tendo em vista que não cogitava abandonar a promessa que fizera a senhora, de entregar a criança sã e salva ao pai.  

                O irmão e o menino roncavam. Toni chegou mais de uma vez perto deles, com o propósito de sacudi-los e acordá-los, mas preferiu sair um pouco do quarto e ficar apreciando o dia raiar. Amanhã acordava com o canto de alguns pássaros, mas ele não conseguiu identificar nenhum deles. Voltou para o quarto e viu que o irmão se espreguiçava, aí não se controlou, chamou-o e sacudiu-o fortemente para acordá-lo de vez:

          - Quim. Quim. Já está na hora. Ainda temos que tomar café. É um estirão até Palmas. Termina de se espreguiçar lavando a cara. Vou acordar o menino. Vamos logo, deixa de preguiça.

                   O irmão levantou assustado, mas não teve nem força para contestar, só fez mesmo uma cara feia. Já o garoto foi mais tranquilo, só foi Toni encostar a mão no seu ombro e num pulo ficou de pé.

                    Antes das oito horas, os três já estavam na lanchonete tomando o café. Fizeram um desjejum reforçado, parecendo quase um almoço. Toni foi o primeiro a se levantar. Pagou rapidamente as despesas e foi se encaminhado para o caminhão. O irmão e o menino não tiveram outra escolha: foram atrás dele. Quim ao emparelhar com o irmão falou:

          - Pô Toni, você tá apressadinho! Parece que vai tirar o pai da forca!

          - Apressadinho? Você é que está um molengão!

          - Molengão não. Porque não foi você que encarou aquele mato. Pra mostrar a você que não sou devagar, vou pegar a direção.

          - Tudo bem. Assim é que se fala. Agora senti firmeza.

                 Depois de horas de viagem ininterrupta, Toni comentou:

          - Quim, já estamos andando há mais de quatro horas. Acho bom a gente parar no próximo posto. Almoçamos e descansamos um pouco.  Depois eu pego o volante. Certo?

         - Você é quem manda, mano.

                 Já passava das doze horas. O sol estava abrasador. Estavam doidos para comerem alguma coisa e esticarem as canelas. Mesmo com o descanso do dia anterior, ainda estavam cansados. A ansiedade era evidente no semblante dos irmãos, mas na do garoto não. Não pedia nem água, só bebia se lhe oferecessem.  Eles nunca sabiam se ele estava com fome ou não. Quando perguntado, aí sim ele se expressava. Para uma criança, ele tinha um controle maior do que muitos adultos. E Toni chegou até a questionar isso com o irmão:

          - Quim, já percebeu como esse garoto se mantém firme? Não reclama de nada. Parece que foi preparado para adversidade.  Acho que se deixar ele num cantinho, fica sem beber água e sem comer o dia todo, sobrevive numa boa. Ele deve ter sido preparado para suportar aquele mundo cão que ele vive com o pai.

          - Pode ser Toni. Que é estranho é. Mano, olha lá. A placa está indicando um posto daqui a um quilômetro. 

                   Chegaram rápido. Almoçaram, descansaram um pouco e pernas para quem te quer. Toni pegou a direção e rapidamente já estavam a caminho de Palmas. O menino foi almoçar calado e voltou para o caminhão trocando apenas algumas palavras com os dois.

          - Muito obrigado pelo almoço.

          - Não tem de quê. – respondeu Toni sorridente.

                  A viagem até Palmas transcorreu tranquilamente. Mas antes de chegar na entrada da capital do Tocantins, Toni comentou:

          - Quim, dizem que o lugar é bonito. Não me lembro de já ter vindo aqui com o velho. Não me lembro mesmo. Aproveita e vê o endereço aí na nota.

          - Mas a nota está aí no seu bolso. Manda pra mim.

          - É. Tinha esquecido. Seu Honório disse que fica logo na estrada. A gente pode perguntar aonde fica.

          - Toni dá uma paradinha ali que eu pergunto no borracheiro. Eles devem conhecer até a pessoa que vai receber a mercadoria.

 Continua Semana que vem!

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