terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 9

 


Continuando...

          Quim dá um muxoxo e fica olhando para o saco sem saber direito o que fazer. O irmão percebe a sua indecisão.

          - Quim. Ela não tem muito tempo e nem a gente. Anda rápido. Estou preocupado, porque tem combustível espalhado pelo chão. Anda logo.

           - Tá. Tá. Vou tirar esse capuz da cabeça dela. Ela tá apagada. Mas respira ainda. Vou abaixar o saco, bem devagar. Tá muito apertado. Tem que ser com cuidado, senão ela vai sentir muita dor. Ih! Acho que ela tá toda quebrada mesmo. – fazendo uma cara de compaixão - Devem ter quebrado as pernas dela pra botar ela dentro do saco. Meu Deus. Por que tanta maldade?

           - Vamos leva-la para mais longe daqui, Quim.

           - Acho que não vai dar. Tem muito sangue aqui. Acho melhor deixa-la quietinha. Pelo jeito, não vai resistir por muito tempo. É melhor ligar para Polícia Rodoviária.

           - Mas pelo menos desamarra às mãos dela, mano.

           - Toni pelo jeito os braços também estão quebrados. Qualquer pressão que eu fizer para desamarrar, ela vai sentir muita dor.

           - Mas Quim, ela está apagada. Não vai sentir dor nenhuma. Mas vai com jeito. Pega seu canivete e corta a corda.

           - Vou fazer isso. – enquanto mete a mão no bolso e saca um canivete bem envelhecido.

           - E aí?

           - Calma Toni, não força a barra. Estou conseguindo. Pronto já tirei a corda. Agora vai na carreta e passa um rádio.

                    Mas mal Toni se vira para ir até a carreta, Quim grita.

           - Toni! Toni! Ela segurou o meu braço! Ela acordou! Pensei que o braço estivesse quebrado! Acho que me enganei! – respira fundo e em seguida assopra o ar para fora - E está segurando com muita força, Toni. Agora está falando alguma coisa que não dá para entender.

          - Vê se consegue pescar alguma coisa que ela diz.

                A mulher apenas sussurra algumas palavras ininteligíveis. Completamente debilitada, nem consegue levantar a cabeça.  Parece que as suas últimas reservas de energia ela está direcionando só para tentar se comunicar. Quim arriou a cabeça e se aproximou o máximo que pode da boca da moribunda, quase encostando a sua orelha nos lábios dela.

           - E o menino? – perguntou ela - Onde está ele? Ele está bem?  

                 Interrompe a fala devido a um acesso de tosse. Depois de algum tempo, consegue continuar a falar, mesmo engolindo saliva ou sangue, pois escorria algum no canto da boca, que atrapalhava um pouco a sua emissão de voz. Mesmo assim, com muito esforço, ela segue em frente.  

           - Eu sou a babá dele. – faz uma pausa - Mas é como se ele fosse meu filho.

           - Calma senhora. O menino está bem. Ele está só dormindo. Está aqui pertinho, deitado na manta que o cobria. – Quim tentando sossega-la.

                A mulher apertou com mais força o seu braço e disse mais alguma coisa. Só que ele não entendeu, pois havia afastado um pouco a orelha da sua boca. Pediu então para que ela repetisse o que tinha dito. A senhora, com um esforço hercúleo, sussurrou:

          - Você precisa ajudar o menino. Tem que salvá-lo.

          - Pode deixar que eu e meu irmão Toni vamos cuidar disso. Meu irmão vai passar um rádio para a polícia, pedindo socorro para a senhora e a criança.

          - Polícia não! Polícia não! Ninguém pode saber que ele está aqui não! Ele tem que chegar em casa, senão vão mata-lo.

               A agonia dela era muita. Mesmo com toda a dor que devia estar sentindo, ela conseguiu se movimentar. Ficou agitada. Quim então falou carinhosamente.

        - Fica calma. Fica calma. – alisando os cabelos da mulher - Por que não podemos avisar a polícia?

         - Eles vão divulgar e... Ninguém pode saber. E... – a sua voz foi sumindo.

         - Calma senhora. – falou Toni - Pode ficar tranquila que ninguém vai fazer mal ao garoto não. Me explica qual é o problema. Quem sabe a gente pode ajudar.

         - Ele foi sequestrado. – disse com esforço a desconhecida - O pai deve estar desesperado.

         - Toni, pergunta de onde eles são.

         - Eu escutei. Somos do Acre.

         - Do Acre? Toni eles estão muito longe de casa!

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 8

 


Continuando...

                   Quim mete quase a metade do corpo para dentro do carro e encontra o botão para destravar a porta. Feita a operação, com a cabeça ainda dentro do veículo, sinaliza para o irmão com o polegar levantado, dando o ok. Ele sai e os dois se preparam para puxar a porta.

                     Toni combina que no número três puxariam juntos. Quim faz uma careta de deboche, mas concorda.

           - Quim vamos ver agora. Vou contar. No três a gente puxa junto. Ok? Vamos lá: um, dois, três.

            Mal começam a puxar a porta, Toni grita:

          - Para! Para Quim! Ela está solta. A dobradiça está quebrada.

          - Como foi isso? Fizemos força pra caramba e ela não deu o menor sinal que ia sair.

          - Eu sei lá! Isso acontece! Graças a Deus aconteceu. Deixa que eu tiro à porta. Viu. Saiu fácil.

         - É. Parece mágica.

         - Que mágica o quê. Foi a mão divina.

         - Eu não vi mão nenhuma, Toni.

         - Já vem você com gracinha. Vamos resolver logo isso. Estamos perdendo tempo. Puxa vida!

        - O que foi?

        - O que foi? Olha só que coisa feia. Acho que vou sonhar a vida inteira com essa cara. Não tive coragem de olhar para a mulher, agora estou vendo uma coisa pior. Nem sei direito qual é a pior visão.

        - Viu só, quem mandou correr da raia! Você tem que ter mais coragem. Coragem mano!

        - Coragem? Quim, ele parece que está olhando pra mim.

        - Toni, fecha os olhos e puxa logo ele para fora. É só não encarar o dito cujo.

        - Está bem. Mas como eu vou enxergar de olho fechado?

        - Deixa de bobeira e puxa logo.

        - Tá bom. Mas me ajude também. Isso. Vamos puxar logo.

                  Toni puxa as pernas do morto até ele ficar descolado do teto do carro. Mal o corpo desce, tomba para fora do carro. Depois arrastaram-no pelo asfalto, deixando-o a alguns metros do veículo. Em seguida Toni coloca o seu corpo dentro do carro, deixando só as pernas de fora, até chegar à criança, que está envolvida por uma manta. A única parte descoberta é o rosto.                       

               Quim está tenso. Tem o ímpeto de pegar o irmão pelas pernas e tirá-lo do caminho, e ele mesmo tirar a criança logo dali. Mas se conteve no momento em que o irmão virou a cabeça.

           - Quim. – falou com um ar tristonho - Esse garoto está amarrado também. Coitado. Eles só aliviaram o rosto dele. Vou tirar a corda e desenrolar a manta que está até o seu pescoço. Coitadinho.

           - Toni anda rápido!

           - Calma mano. O garoto está imprensado entre os dois bancos. Calma aí. Consegui desenrolar. Mano você não sabe...

           - Não sabe o quê?

           - O garoto está com os braços e as pernas amarrados! Quim, isso está cheirando a sequestro.

           - Sequestro?

           - Isso. Acho que essa criança e a mulher foram sequestradas. Vou tirar ele com cuidado daqui. Aparentemente ele não está machucado. Mas está apagadinho.

           - Toni ele pode estar em coma. Me dá ele aqui, que eu vou leva-lo para o outro lado.

           - Leva essa manta que o envolvia. Bota ele deitado em cima dela. Acho que está só desmaiado. Está respirando normalmente, sente só. Agora vou lá ver a mulher. Mas você é que vai tirar ela de dentro do saco.

           - Por que eu?

           - Você é mais magro.

           - O que é que tem eu ser magro? É sempre uma desculpa para me jogar na fogueira. Sempre eu! Sempre eu! Eu já fiquei uma porção de tempo com ela.

          - Então, você já tem até intimidade.

          - Intimidade. Só faltava essa agora.

          - Tira logo a coitadinha de dentro do saco. Não vamos ficar aqui jogando conversa fora, enquanto a mulher está precisando sair pra respirar ar puro.

Continua Semana que vem!

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 7

 


Continuando...

         O silêncio de repente tomou conta do ambiente. Quim não recebendo mais nenhuma palavra do irmão, ficou preocupado e parou de mexer na mulher acidentada. Tentou olhar por alguma nesga para ver se via Toni, mas o teto do lado oposto estava completamente destruído. Chamou de novo por ele e nada de resposta. Então pensou em dar a volta no carro para ver o que tinha acontecido. Mal se movimentou, Toni, que estava de frente para a porta do motorista, gritou:

          - Quim! Quim! O motorista está todo arrebentado também! Meu Deus! Nossa mãe! O cano da arma furou a sua garganta! Ih! Tem outro! Esse está com as ferragens entalada até o gogo! Mano, vem cá! Vem rápido! Meu Deus!

         - Calma Toni! Para de gritar, que eu não sou surdo! Estou vendo. Estou aqui. Estou vendo se cuido da senhora que está dentro do saco, já que ela está viva.

         - Depois ajudamos ela, já que sabemos que está viva. Mas agora vem aqui!  Vem logo! Tem uma criança aqui também. Ela está imprensada entre o cara e as ferragens.  

         - Ela está viva? Bota a mão em cima do coração. Estou indo.

         - Vou tentar entrar. Vou esticar o meu corpo até onde der. Abrir a porta, é impossível. Vou pela janela, que está com o vidro arriado. Acho que é o único que não estava fechado. À droga é que vou ter que me esfregar nesse cara todo ensanguentado. Acho que o miolo dele tá até pra fora. Que nojo, mano!

         - Tá com medinho?

         - Que medinho o quê! Está bom. Vou virar a cara para o outro lado. Já estou indo. Agora dá pra botar a mão nele. Bom sinal, Quim. O coração está batendo. O coitadinho parece que está dormindo, mano. Está até ressonando.

          - Que dormindo o quê! Ele deve estar é desmaiado! Espera que eu vou até aí te ajudar.

                    Quim vai até onde está o irmão, que nesse momento já está com a metade do corpo dentro do veículo, deixando apenas as pernas para o lado de fora. Ele chega, olha para dentro do veículo e bota uma das mãos na perna esquerda do irmão.

          - Toni, - fala com um ar de autoridade -  temos que tirar logo essa criança aí de dentro. Estou preocupado com esse caminhão que está incendiando. Se explodir, vai pegar aqui no carro também. Não sei como ainda não explodiu.

          - Mas é claro, sabichão. Temos que ser rápido. Viu como ele está imprensado? Percebeu, não?

          - Claro, gênio! Sei que tirar ele pela janela vai ser muito difícil! Vamos tentar abrir a porta. Acho mais viável. Mas esse cara aqui – apontando para o cadáver do homem na direção – tem que sair primeiro, pra gente poder tirar o garoto. Vamos lá?

          - Quim, - já tirando o seu corpo do veículo – é claro. Mas será que a porta vai abrir? Ela tá pra lá de emperrada. Está toda empenada. Olha só que tortura.  É difícil pra você entender, mano?  Mas, como você já falou, se não tentarmos, não vamos saber. Tem que ser macho! Força, mano!

         - Macho. Até parece.

         - Até parece o quê? Não se garante? Eu me garanto! – batendo no peito.

         - Ih! Que papo estranho é esse, Quim? Claro que me garanto!

         - Então mãos à obra! – Quim solta um riso forçado.

                      Os dois se empenham ao máximo. Força não é o que falta. Toni demonstrando o seu esgotamento, respira fundo, mas diz para o irmão que não vai desistir:

          - Quim, não vamos fugir da raia. Temos que tirar esse garoto daqui de qualquer jeito. Me deixa respirar mais um pouquinho. Ufa! Já estou pronto de novo. Mas antes, mete a mão por dentro e destrava à porta.

          - Mas do jeito que ela está emperrada, essa trava não adianta mais de nada.

          - Mas destrava. Vamos lá.

          - Está bem. Você entende de tudo, né?

          - Deixa de besteira. Mete a mão dentro do carro. Eu não quero nem olhar pra cara desse sujeito todo arrebentado.

         - Tá com medinho, né?

          - Que medinho o quê. Não insiste com isso. Deixa de bobeira. Estamos perdendo é tempo.

 Continua Semana que vem!