terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 8

 


Continuando...

                   Quim mete quase a metade do corpo para dentro do carro e encontra o botão para destravar a porta. Feita a operação, com a cabeça ainda dentro do veículo, sinaliza para o irmão com o polegar levantado, dando o ok. Ele sai e os dois se preparam para puxar a porta.

                     Toni combina que no número três puxariam juntos. Quim faz uma careta de deboche, mas concorda.

           - Quim vamos ver agora. Vou contar. No três a gente puxa junto. Ok? Vamos lá: um, dois, três.

            Mal começam a puxar a porta, Toni grita:

          - Para! Para Quim! Ela está solta. A dobradiça está quebrada.

          - Como foi isso? Fizemos força pra caramba e ela não deu o menor sinal que ia sair.

          - Eu sei lá! Isso acontece! Graças a Deus aconteceu. Deixa que eu tiro à porta. Viu. Saiu fácil.

         - É. Parece mágica.

         - Que mágica o quê. Foi a mão divina.

         - Eu não vi mão nenhuma, Toni.

         - Já vem você com gracinha. Vamos resolver logo isso. Estamos perdendo tempo. Puxa vida!

        - O que foi?

        - O que foi? Olha só que coisa feia. Acho que vou sonhar a vida inteira com essa cara. Não tive coragem de olhar para a mulher, agora estou vendo uma coisa pior. Nem sei direito qual é a pior visão.

        - Viu só, quem mandou correr da raia! Você tem que ter mais coragem. Coragem mano!

        - Coragem? Quim, ele parece que está olhando pra mim.

        - Toni, fecha os olhos e puxa logo ele para fora. É só não encarar o dito cujo.

        - Está bem. Mas como eu vou enxergar de olho fechado?

        - Deixa de bobeira e puxa logo.

        - Tá bom. Mas me ajude também. Isso. Vamos puxar logo.

                  Toni puxa as pernas do morto até ele ficar descolado do teto do carro. Mal o corpo desce, tomba para fora do carro. Depois arrastaram-no pelo asfalto, deixando-o a alguns metros do veículo. Em seguida Toni coloca o seu corpo dentro do carro, deixando só as pernas de fora, até chegar à criança, que está envolvida por uma manta. A única parte descoberta é o rosto.                       

               Quim está tenso. Tem o ímpeto de pegar o irmão pelas pernas e tirá-lo do caminho, e ele mesmo tirar a criança logo dali. Mas se conteve no momento em que o irmão virou a cabeça.

           - Quim. – falou com um ar tristonho - Esse garoto está amarrado também. Coitado. Eles só aliviaram o rosto dele. Vou tirar a corda e desenrolar a manta que está até o seu pescoço. Coitadinho.

           - Toni anda rápido!

           - Calma mano. O garoto está imprensado entre os dois bancos. Calma aí. Consegui desenrolar. Mano você não sabe...

           - Não sabe o quê?

           - O garoto está com os braços e as pernas amarrados! Quim, isso está cheirando a sequestro.

           - Sequestro?

           - Isso. Acho que essa criança e a mulher foram sequestradas. Vou tirar ele com cuidado daqui. Aparentemente ele não está machucado. Mas está apagadinho.

           - Toni ele pode estar em coma. Me dá ele aqui, que eu vou leva-lo para o outro lado.

           - Leva essa manta que o envolvia. Bota ele deitado em cima dela. Acho que está só desmaiado. Está respirando normalmente, sente só. Agora vou lá ver a mulher. Mas você é que vai tirar ela de dentro do saco.

           - Por que eu?

           - Você é mais magro.

           - O que é que tem eu ser magro? É sempre uma desculpa para me jogar na fogueira. Sempre eu! Sempre eu! Eu já fiquei uma porção de tempo com ela.

          - Então, você já tem até intimidade.

          - Intimidade. Só faltava essa agora.

          - Tira logo a coitadinha de dentro do saco. Não vamos ficar aqui jogando conversa fora, enquanto a mulher está precisando sair pra respirar ar puro.

Continua Semana que vem!

 

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