Continuando...
Quim mete quase a metade do corpo para dentro do carro e encontra o botão para destravar a porta. Feita a operação, com a cabeça ainda dentro do veículo, sinaliza para o irmão com o polegar levantado, dando o ok. Ele sai e os dois se preparam para puxar a porta.
Toni combina que no número três puxariam juntos. Quim faz uma careta de deboche, mas concorda.
- Quim vamos ver agora. Vou contar. No três a gente puxa junto. Ok? Vamos lá: um, dois, três.
Mal começam a puxar a porta, Toni grita:
- Para! Para Quim! Ela está solta. A dobradiça está quebrada.
- Como foi isso? Fizemos força pra caramba e ela não deu o menor sinal que ia sair.
- Eu sei lá! Isso acontece! Graças a Deus aconteceu. Deixa que eu tiro à porta. Viu. Saiu fácil.
- É. Parece mágica.
- Que mágica o quê. Foi a mão divina.
- Eu não vi mão nenhuma, Toni.
- Já vem você com gracinha. Vamos resolver logo isso. Estamos perdendo tempo. Puxa vida!
- O que foi?
- O que foi? Olha só que coisa feia. Acho que vou sonhar a vida inteira com essa cara. Não tive coragem de olhar para a mulher, agora estou vendo uma coisa pior. Nem sei direito qual é a pior visão.
- Viu só, quem mandou correr da raia! Você tem que ter mais coragem. Coragem mano!
- Coragem? Quim, ele parece que está olhando pra mim.
- Toni, fecha os olhos e puxa logo ele para fora. É só não encarar o dito cujo.
- Está bem. Mas como eu vou enxergar de olho fechado?
- Deixa de bobeira e puxa logo.
- Tá bom. Mas me ajude também. Isso. Vamos puxar logo.
Toni puxa as pernas do morto até ele ficar descolado do teto do carro. Mal o corpo desce, tomba para fora do carro. Depois arrastaram-no pelo asfalto, deixando-o a alguns metros do veículo. Em seguida Toni coloca o seu corpo dentro do carro, deixando só as pernas de fora, até chegar à criança, que está envolvida por uma manta. A única parte descoberta é o rosto.
Quim está tenso. Tem o ímpeto de pegar o irmão pelas pernas e tirá-lo do caminho, e ele mesmo tirar a criança logo dali. Mas se conteve no momento em que o irmão virou a cabeça.
- Quim. – falou com um ar tristonho - Esse garoto está amarrado também. Coitado. Eles só aliviaram o rosto dele. Vou tirar a corda e desenrolar a manta que está até o seu pescoço. Coitadinho.
- Toni anda rápido!
- Calma mano. O garoto está imprensado entre os dois bancos. Calma aí. Consegui desenrolar. Mano você não sabe...
- Não sabe o quê?
- O garoto está com os braços e as pernas amarrados! Quim, isso está cheirando a sequestro.
- Sequestro?
- Isso. Acho que essa criança e a mulher foram sequestradas. Vou tirar ele com cuidado daqui. Aparentemente ele não está machucado. Mas está apagadinho.
- Toni ele pode estar em coma. Me dá ele aqui, que eu vou leva-lo para o outro lado.
- Leva essa manta que o envolvia. Bota ele deitado em cima dela. Acho que está só desmaiado. Está respirando normalmente, sente só. Agora vou lá ver a mulher. Mas você é que vai tirar ela de dentro do saco.
- Por que eu?
- Você é mais magro.
- O que é que tem eu ser magro? É sempre uma desculpa para me jogar na fogueira. Sempre eu! Sempre eu! Eu já fiquei uma porção de tempo com ela.
- Então, você já tem até intimidade.
- Intimidade. Só faltava essa agora.
- Tira logo a coitadinha de dentro do saco. Não vamos ficar aqui jogando conversa fora, enquanto a mulher está precisando sair pra respirar ar puro.
Continua Semana que vem!

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