Continuando...
A mulher demonstrando muita força volta a falar.
- Entreguem a criança ao pai. Só ao pai. Vocês não podem levar ele pro hospital e nem pra polícia. Principalmente pra polícia. Ninguém pode saber que ele está aqui. Vocês prometem? Vocês prometem? O menino é esperto. Quando ele acordar...
Ela interrompeu o que estava falando porque uma quantidade grande de sangue saiu pela boca em borbotões, seguido de uma tosse intermitente, causada pelo engasgo. Mas depois de alguns segundos, ao cessar a tosse, conseguiu voltar a respirar com um pouco mais de facilidade.
- Quando ele acordar vai guiar vocês até ao pai. – falou, quase sussurrando, deixando escapulir mais uma golfada de sangue.
- Senhora, ele não tem mãe não? – Quim pergunta com a voz embargada.
- Pra mãe não! Pra mãe não! Só pro pai! – de repente a mulher puxa uma força que já parecia extinta. A voz sai forte e clara, mesmo mergulhada no medo, e arregalando os olhos desmesuradamente.
- Quim, estou sentindo um cheiro forte de gasolina. – Toni interrompe a conversa. - Vamos sair daqui rápido. Puxa ela pra cá. Vamos tirá-la daqui.
Quando Quim se prepara para puxar a mulher, ela volta a falar:
- Vocês têm que saber de uma coisa: quem sequestrou o menino foi o traficante...
Ela para de falar e a cabeça tomba para o lado, parecendo já sem vida. Quim olha para o irmão e balança a cabeça. Nisso Toni estica o olhar para o banco da frente e, deixando-o surpreso, vê no exato momento em que o cano da arma de um dos bandidos, que está no banco do carona, se move.
- Quim! Sai daí rápido! – grita para o irmão, assustado - O cara do banco do carona está vivo! Ele vai atirar!
Quim, nem quis questionar com o irmão e sai rapidamente de perto do carro, em disparada, nos calcanhares dele. Mas antes de chegar à carreta, ouve um tiro e em seguida uma explosão. Toni que já tinha chegado antes, estava olhando para o carro no momento que aconteceu o estampido, seguido da explosão. Tudo aconteceu numa fração de segundos. Para Toni, que já tinha se distanciado bastante, a explosão não o alcançou. Entretanto para Quim o deslocamento de ar jogou-o ao chão. O irmão correu ao seu socorro, mas quando lá chegou, ele já estava se levantando e tirando a poeira do corpo. Toni olhou para o céu e fez o sinal da cruz. Em seguida esticou a mão e acabou de levantar o irmão. Engoliu em seco, passou as costas da mão nos olhos, para enxugar uma poça de lágrimas que brotara sem ele perceber.
- Puxa mano. – disse com a voz embargada - Estou até engasgado.
- Ih! Tá chorando!
- Que chorando o quê. Quim, essa foi por pouco. Você está bem?
Eu vi você voando.
- Viu? Mas estou vivo. Vim voando igual ao Super-Homem. Toni, falando sério, depois dessa acho que não morro mais.
- Temos que agradecer a Deus. Agradecer por nós dois.
- Toni, por nós dois não. Por nós três.
Quim terminou de falar, se virou e apontou para o garoto que estava deitado no acostamento, ao lado da carreta. Toni balançou a cabeça, olhou na direção que o irmão apontara e deixou um leve sorriso aflorar dos lábios um pouco descorado.
- Isso. – disse, meio sem jeito - Por um momento tinha me esquecido do menino. E agora Quim, o que é que a gente vai fazer com essa criança?
- Mano, antes de mais nada, vamos dar no pé daqui. Depois a gente vê o que a gente faz.
- Mas...
- Nem mais nem menos. Vamos colocar o garoto pra dentro do caminhão e pular fora. Vamos rápido, porque daqui a pouco isso aqui vai ficar cheio de polícia. Com essa explosão então, todo mundo já deve estar a caminho. Vai por mim. Vai por mim.
- Você está certo. Vamos subir com ele. Depois que estiver acordado, a gente vê o que faz.
Continua Semana que vem!

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