domingo, 19 de novembro de 2017

MISTURA



Publicado a dois dias no Youtube e já ouviram e viram o vídeo, mais de 60 vezes. Muito legal. Vai lá conferir também!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 9

Continuando...
           A porta da sala do delegado Carlos estava encostada. PC bate levemente antes de entrar. O delegado olha, mas como estava no telefone, fez um sinal com uma das mãos, para ele entrar. Lucinha veio logo atrás. O delegado sorriu e mandou um beijo com as pontas dos dedos pra ela. Em seguida apontou para duas cadeiras, convidando-os a se sentarem.
           PC estava ansioso. Aqueles minutinhos que o delegado estava no telefone, pareciam que iam se estender por horas. Levantou-se algumas vezes. Numa dessas, Lucinha puxou-o pela camisa. Finalmente o delegado largou o telefone e fez questão de deixa-lo fora do gancho. Saiu detrás da sua mesa e foi falar com os amigos. Deu um aperto de mão em MD e beijou Lucinha. Em seguida disse:
           - Vamos sentar. Temos que conversar bastante. Parece que as coisas estão clareando.  A conexão só foi feita por causa do papel que estava com o seu nome. Se não fosse isso, ia ser mais um caso de tráfico de drogas. Mas a coisa é maior.
           - O meu nome no papel, dizendo que eu estava marcado pra morrer. É isso mesmo?
          - Com todas as letras. Dia e hora, para darem cabo de você. Você nasceu de novo, meu irmão.
          - Não foi mole, não! Mas estou aqui! Firme e forte!
          - PC acredito piamente que estamos a um passo de desmantelarmos o tráfico de drogas na cidade. Pode botar fé que finalmente, vamos poder começar a mexer com as pedras do tabuleiro de xadrez. O tráfico, sem sombra de dúvida, é de uma rede internacional. Eu sei que foi apenas um peão que saiu do jogo. Mas esse peão, quem sabe, pode nos levar até o final do jogo, com um xeque mate nosso!
         - Delegado, não quero ser pessimista. Mas a perda de um peão, pra quem sabe jogar, não quer dizer muita coisa, não! Às vezes se sacrifica uma peça, para depois derrubar outras do adversário! O rei têm muitas peças a protegê-lo! Agora, poço ver esse peão que está fora do jogo? Posso conversar com ele?
        - Claro, PC. Vê o que você consegue, porque com a gente ele nada falou. Por enquanto fomos com educação. Aí nem o nome ele disse. Mas depois vamos dar uns apertos nele. Vamos ver se vai falar ou não!
            O delegado chama os dois e se encaminham para a cela, que está guardando o bandido. Lucinha, antes de chegar até o local, pede para ficar por ali. Disse que não estava com estômago para olhar aquele marginal. O delegado então sugere que ela volte para a sua sala.
           PC vai passando, junto com o delegado, cela por cela. Estavam todas ocupadas e com lotação máxima. Somente a última estava com um único bandido.  O delegado bate com um porrete na grade, para chamar a atenção do traficante. Do jeito que ele estava, continuou: cabeça baixa. PC então fala:
           - Ô cara! Será que pode me responder alguma pergunta?
              O prisioneiro vai levantando a cabeça vagarosamente. Quando fixa o seu olhar no de PC, se levanta e fala cheio de ódio:
           - Cara! Mexeste em casa de marimbondo! Tiveste sorte da última vez, mas com certeza vais levar uma ferroada! E com bastante veneno! Repórter xereta! A tua sentença foi decretada! Eu falhei, mas outros não falharão!
              O bandido voltou para onde estava sentado, arriou a cabeça e ficou calado. E nada mais se conseguiu dele. PC então sugere ao delegado para que saíssem dali.
          - Delegado, vamos sair um pouco. Vamos dar um tempo pra esse pilantra pensar. Depois nós voltamos. Pode ser que resolva falar.
            O delegado concorda. Porém faz uma observação:
           - Tudo bem. Mas anota aí: dentro de meia hora a gente volta. Se nada for conseguido por bem, vamos conseguir por mal. Eu te garanto que, se preciso for, arrancaremos a pele do safado.
               Quando estavam de volta, um prisioneiro, que estava com a cara encostada na grade, esperou o delegado passar e deu-lhe uma cusparada. Rapidamente o delegado deu com o bastão na grade. Mas o bandido conseguiu se afastar e se misturar aos outros. O carcereiro se aproximou do Dr. Carlos e perguntou o que tinha acontecido. Ele então respondeu:
             - Juventino. Quantos nessa cela foram presos com aquele traficante?
            - Doutor. Tem dois aí dentro. 
             - Então arranca os caras daí e leva-os para sala de terapia intensiva. Vou mandar Berto e Jonas para vir ajudar. Qualquer probleminha manda chumbo. Depois, se não houver dificuldade, me chamem, mas só quando já estiverem com os dois lá dentro. Ok?  PC vai querer assistir a terapia?
          - Não doutor. Estou fora.   
          - Ah! Ah! Ah! Continua sensível!
          - Sensível? Não! Não se trata disso!
          - Vamos indo, PC. Lucinha está a nossa espera.
          - Ela sim, é sensível. Mas na hora que tem que ser dura, ela ultrapassa qualquer expectativa. Aquele docinho pode surpreender a gente. Cuidado delegado!
          - Ah! Já estou com medo! Vamos logo!
            Entram na sala e encontram a repórter sentada na cadeira do delegado. Rapidamente ela se levanta, mas Carlos a impede:
          - Não. Pode ficar aí. Sabe que você fica bem nesta cadeira? De repente você seria uma boa delegada. Quem sabe você não muda de profissão?
          - Estou fora, doutor! A cadeira é confortável, mas a função é bem desconfortável!
             Enquanto conversam, o carcereiro entra na sala gritando e com a cara assustada:
          - Doutor! Doutor! O prisioneiro... O prisioneiro da última cela...

          - O quê houve,  Juventino? O safado fugiu?   
      Continua semana que vem... 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 8

Continuando...
          - PC, por onde você andou cara? Estamos há um tempão tentando falar com você! Eu sei que o liberei! Mas...
          - Fica calmo chefe! Meus olhos ainda estão no lugar! Não vai ser muito fácil eles me agarrarem, não! PC é um osso duro de roer!
             Quando ele termina de adentrar a sala, Souza se assusta com o estado dele e fala:
          - Meu Deus! Cara, você está todo sujo! Todo rasgado! Você está com a cara... De quem está com ressaca?
          - Não chefe! Ressaca não!
            Nisso Lucinha entra nervosa. Quando depara com PC naquele estado, fica assustada. Ao invés de demonstrar preocupação, dá a maior bronca no repórter:
         - Porra PC! Você está de sacanagem com a gente? Todos nós preocupados e você me chega desse jeito! Ainda está de porre? Cara! Procuramos você por toda a cidade! Falamos com o delegado Carlos e fomos até no necrotério! Falamos com Deus e o diabo!
         - Calma meu anjo.
         - Calma? Já são três horas da tarde!
         - Deixa-me explicar? Estou vivo por milagre. Entrei numa tremenda fria ontem. Quatro caras me cercaram. Eles quase me atropelaram. Pegou-me de leve, cheguei até a cair, mas consegui me levantar e correr. Por sorte veio um taxi e consegui fugir. Pedi para o cara me levar para longe aqui do centro. No meio do caminho lembrei de que o melhor lugar para me esconder, seria numa delegacia. E assim fui parar na delegacia do delegado Adolfo. Mas ele não estava naquela hora, estava o adjunto. Contei a história para ele e rapidamente já estávamos na rua: eu e dois policiais civis. Rodamos a madrugada toda, procurando pelos bandidos, mas não achamos ninguém. Fiquei com medo de ir para casa, então pedi ao delegado um lugar para dormir. E dormi tudo que tinha direito e mais um bônus. Há muito tempo que não dormia tanto. Mas agora não sei pra onde vou. Voltar pra casa, nem pensar! Os caras sabem onde moro! Foi pertinho do edifício que alguém tentou me apagar! Chefe essa é a minha história!
            Todos os amigos estavam impressionados com o relato de PC. Dessa vez acreditaram na história dele. Tendo em vista que estavam presentes quando ele foi ameaçado pelo maníaco dos olhos azuis. De outras vezes, quando chegava molambento, era confusão com mulheres.  Contava umas histórias de cerca Lourenço, para ficar bem na fita. De vez em quando repetia a mesma história. Brigou com pivete, na saída de um bar; salvou uma velhinha que tinha sofrido um acidente e etc. etc. Mas sempre quem parecia acidentado era ele mesmo.
           Souza esperou PC fazer todo o seu relato. No final pediu para ele colocar a história no papel. Em seguida anunciou que ia dar uma notícia boa. PC que ainda estava cabisbaixo, assim mesmo deixou escapar um leve sorriso. Depois pediu para que ele desse a tal notícia. Souza sentou-se e disse:
          - Senta aí, PC. Pode relaxar. A notícia é boa. Esse foi o motivo de termos procurado você. Acreditamos que o caso será, finalmente, esclarecido.
          - Como é que é? Será que escutei direito? Pode repetir chefinho?
          - A polícia conseguiu botar a mão em um dos bandidos. O delegado Carlos me disse que o cara é quente. Não é coisa pequena, não! Ele falou que foi pura casualidade a prisão do meliante. O detetive Duílio estava na pista de um traficante. Pegaram o cara e uma quantidade imensa de cocaína. Só que a cocaína é, nesse momento, a coisa menos importante.
        - Por quê?
         - Por quê? O delegado me ligou a menos de meia hora e disse que quer falar com você. Vou adiantar, mais ou menos, o motivo da sua presença: o seu nome estava num papel que acharam com o traficante. E você estava marcado pra morrer.
        - Caraca!  Cheguei a me arrepiar! Então esse pode ser um dos que atentaram contra a minha vida? Só pode ser! Chefe! Vou já, já pra delegacia! Lucinha se prepara que hoje você vai comigo! Barcos ao mar! Vamos zarpar que vem tempo de calmaria!
          - Mas desse jeito? PC você está parecendo um mendigo! Não vai tirar esse trapo, não?
           - Puxa! É mesmo! Vamos passar lá em casa rapidinho! Ih! Perdi até o medo! Vamos lá Lucinha? Não. É melhor você esperar aqui em embaixo. Na volta eu te pego.
           - E você acha que estou com medo? Pode tirar o cavalinho da chuva! Estou contigo e não abro! Vou junto! Já que Marcão não veio hoje, estou dentro!
          - A nossa doce menina! Que de doce não tem nada! Tudo bem! Vamos nessa!
             PC passou no seu apartamento, tomou um bom banho e encontrou com Vermelho e Lucinha que estavam a sua espera, na frente do edifício. Entrou no carro e a repórter começou a espirrar. O seu perfume paraguaio tomou conta do veículo. Lucinha saiu do carro reclamando:
         - Porra PC! Além do uísque paraguaio - aquela droga! – e, agora, essa bosta de perfume! Que pelo jeito, também é paraguaio!      
         - Caraca Lucinha! Rejeição pelos produtos daqueles hermanos? Até parece que essa droga que você usa é francês! Deve ser também chinês! A procedência é a mesma, só que o meu passou pelo Paraguai!  
         - Como é que eu vou entrar nesse carro?
         - Vai a pé? Não vai! Então entra e bota a cara pra fora da janela!
         - Também vou espirrar em cima de você!
         - Você acostuma! Até parece que é a primeira vez que acontece isso! Esqueceu que você achava bom?
         - Vamos parar por aqui, tá legal? Isso foi há muito tempo! Agora o tempo é outro! 
            Finalmente Lucinha entra no carro, apesar dos protestos, mas bota a cara na janela. Ela acabou aceitando a sugestão de PC. Vermelho dá partida no carro e vai rumo à delegacia. Naquele momento, só o motor fazia barulho. O silêncio estava selado entre eles. PC olha para os seus rabiscos, que às vezes não entende, mas que consegue decifrar mergulhando na memória.  E foram até o destino sem trocar uma palavra sequer. Parecia que estavam brigados, mas era sempre assim. Não demorava muito e lá estava ela soltando farpas, com as suas provocações. 

           Na porta da delegacia tinha uma vaga, que parecia ter sido guardada para eles. Vermelho parou, mas preferiu não sair. Com certeza ia tirar uma soneca. PC olhou para Lucinha e os dois riram. Com o riso, já tinham voltado às boas. E PC coloca a mão no ombro dela e entram os dois na delegacia. 
                 Continua na semana que vem...

sábado, 4 de novembro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 7

Continuando...
E lá foi ele pela calçada abraçando a noite. Parecia que estava se escorando na escuridão, já que a iluminação estava deficiente e não ajudava muito a sua caminhada. Mesmo sendo lua cheia, a claridade não chegava onde ele estava. De repente ele percebeu que o silêncio era a sua única companhia. Até aquele momento, realmente, não havia passado qualquer veículo ou transeunte. Não sabia a hora e aparentemente estava se lixando para isso. De repente um poste desenhou-se à sua frente. Rapidamente abraçou-o. Um dos dois tinha balançado. Na dúvida, agarrou-o para que não lhe caísse em cima. Naquele momento o silêncio foi quebrado. Alguma coisa se arrastou atrás de si. Teve a sensação que fossem passos. Instintivamente se virou. Mas nada viu. E o silêncio retornou. De repente o coração deu uma acelerada. E com ele, veio um medo que trouxe junto um suor frio. Lembrou-se do par de olhos azuis na caixinha e imediatamente ficou todo arrepiado. Sentiu vontade de correr. Mas as pernas não ajudavam muito. Mesmo assim largou o poste e saiu a passos largos. Mal começou a caminhar e a sensação de que alguém o seguia, voltou. Parou novamente e olhou para trás, mas nada viu. Uma grande parte do trajeto foi assim. Isso deve ter acontecido umas cinco vezes. Na última, já que estava bem próximo de casa, resolveu sair correndo mesmo. Mas ao tentar atravessar a rua, quase foi atropelado por um veículo que entrou em disparada e por um tris não o pegou. Chegou a cair com o susto, mas conseguiu se levantar rapidamente. Parecia que não tinha bebido nada. Quem o visse poderia afirmar que estava sóbrio. Ficou em pé no meio fio, sem se balançar. Com certeza não era o mesmo homem de minutos atrás. O álcool evaporou com o susto. Enquanto tentava tirar a poeira da calça, olhava ao redor. Viu que o carro estava parado a alguns metros à frente. Dele saíram dois homens encapuzados. Virou-se para correr, mas já tinha mais dois, também encapuzados, que vinham chegando por trás. Sem muita opção, atravessou a rua correndo. Por sorte apontou um taxi.  Fez sinal e ele parou. Então se jogou dentro do carro e assim conseguiu escapar. Naquele momento não sabia para onde ir.  Mas pediu para o taxista sair o mais rápido possível dali. Depois de se sentir mais aliviado, conseguiu pensar. Mas só veio na cabeça um único lugar: a delegacia. E foi pra lá que o taxista rumou. Na mais próxima ele ficou. Conhecia todo mundo ali. Com certeza esse era o lugar mais seguro. Conversou com o delegado de plantão, deixando-o a par de tudo que aconteceu com ele. O delegado ficou pensativo por algum tempo, mas rapidamente liberou uma viatura com dois policiais fortemente armados. E em pouco tempo já estavam na rua atrás dos bandidos. Os dois atravessaram a madrugada toda vasculhando cada rua, cada buraco, cada ponto que reuniam bandidos. Entraram em cada boca de fumo conhecidas por eles. Viraram a cidade de pernas para o ar. Procuraram informantes escondidos na noite, mas nada de achar o quarteto. Ninguém conhecia esses bandidos. 
A manhã tinha chegado. PC, os dois policiais e o motorista voltaram para a delegacia.  O repórter estava receoso de voltar para casa. Falou com o delegado e arranjou um lugar para tirar uma soneca. Só que essa soneca virou um sono profundo. Quando PC despertou, o relógio marcava quatorze horas e cinco minutos. O plantão da delegacia já tinha trocado. Levantou meio sem jeito, tomou um café que o delegado Adolfo lhe ofereceu, agradeceu pela estadia, saiu da delegacia e pegou um taxi que estava parado na porta. Pediu para seguir até a redação do jornal. Antes de descer, deu uma olhadinha no espelho interno do carro e não gostou muito com o que viu. Entrou no prédio da redação do jornal e subiu os andares pela escada. Ficou meio sem jeito em pegar o elevador. Parou na porta da redação. Como fazia sempre, abriu-a devagarzinho. Uma voz lá de dentro ecoou:
                 Continua semana que vem...

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A RUGA - Música nova no Youtube.

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 6

Continuando...


          A agitação tomou conta dos repórteres, menos de PC.  A sexta feira já iniciava e até aquele momento nenhum presunto, faltando os olhos, apareceu. Foi uma semana sem crime de morte. Depois da semana anterior que jorrou sangue pela cidade, atravessar aqueles cinco dias de tranquilidade, era um presente dos céus. Não para os repórteres amigos de PC, mas somente para ele essa situação agradava. Quem estava vivendo aos sobressaltos, aqueles poucos dias foram como se tivesse tido o fim de uma guerra. Não se sentiu predisposto a qualquer momento repórter. Estava fora do contesto. Quem o conhecia, mesmo sabendo do seu sufoco, estranhou aquele seu comportamento. Era sempre o mais agitado. Mas naquela sexta feira, ele, depois de muitos dias, tinha conseguido respirar mais solto. Mas foi um dia de cada vez, até chegar aquele momento. O cansaço assim mesmo tomou conta dele. Não é fácil se achar, todo dia, que poderá ser a próxima vítima. E mesmo sendo um cara destemido, o peso era muito para se carregar. Podia estar até mais leve, mas mesmo assim estava no limite. Sentiu vontade de ir para casa. Olhou para o relógio de parede e viu que os ponteiros ainda não tinham chegado às 15 horas. Mesmo assim, pegou a sua bolsa a tira colo, jogou-a em cima do ombro e foi em direção à mesa de Souza. Comunicou ao chefe que ia pra casa e que só voltaria segunda feira. O chefe, como tinha acompanhado todo o seu sufoco, liberou-o, sem tecer qualquer comentário. Ele deu tchau para o amigo e saiu sem falar com mais ninguém. Queria ficar o final de semana sozinho, para refazer-se totalmente daqueles dias pesados. Com certeza voltaria na semana seguinte completamente recuperado. E livre do fantasma de ser mais um na lista dos mortos sem olhos.
            Era horário de verão. A noite chegou mais tarde. O calor estava quase derretendo o termômetro. PC repousava na sua cama. Tinha chegado por volta das 16 horas. E Isso era coisa rara. Tirou uma soneca, como há muito tempo na fazia. Acordou por volta das 19 horas. Mas sentiu que não acordou relaxado. Estava incomodado. Porém continuou deitado. De vez em quando, olhava para o relógio. Não sabia por quê. Mas estava agoniado. Olhou mais uma vez. Agora estava lá: vinte horas e um pouquinho. Levantou-se e botou uma dose de scotch. Com aquele calor, o falso malte desceu quadrado. Foi até a geladeira, abriu-a e não encontrou nenhuma cerveja. Esqueceu que Marcão tinha bebido as três. Bateu com força a porta da geladeira, meio invocado. Foi até o quarto, tirou o short, colocou uma bermuda e uma camiseta e desceu para a noite. Tinha que refrescar o corpo e a mente. Entrou no primeiro bar que encontrou. O dono era seu conhecido. De vez em quando pousava ali, antes de ir para casa. Quando passou pela porta, se lembrou da cerveja. Passou os dedos no bigode e falou baixinho para si:
          - Uma cervejinha até que vai bem!
            Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. O dono, seu Geovani, veio logo ao seu encontro, deu-lhe um aperto de mão e rapidinho arrumou a mesa. Antes que o dono do bar perguntasse o que ele ia querer, pediu rapidamente uma cerveja estupidamente gelada. Seu Geovani trouxe, além da cerveja, uma porção de jiló. Tomou à primeira, a segunda... Depois caiu na real: achava que era a primeira vez que bebia uma cerveja sem uma companhia feminina. Olhou ao redor e encontrou uma mesa com uma menina sozinha. As outras mesas, ou só estavam com homens, ou com mulheres acompanhadas. Ficou olhando fixamente para essa mesa. A menina levantou a cabeça. Ele quase pensou alto:
           - Que menina linda! Que pedaço! Que lindos olhos azuis! Lindos? Oh! Meu Deus! O que é isso?
              PC levanta-se rapidamente, vai até ao seu Geovani e pede a conta. O dono do bar bate no ombro dele e fala:
           - PC a sua conta já foi paga. Ainda têm algumas cervejas no seu crédito.
             Ele olha em volta e pergunta:
          - Geovane, quem pagou?
          - Aqueles senhores lá na ponta.
            Mas quando o dono do bar se vira para mostrar, não os encontra. Faz uma careta e diz:
          - Ih, PC! Acho que já foram embora! Sumiram rapidinho!
          - Estranho, não acha? Ah! Tudo bem! Pior se tivessem deixado a conta deles pra eu pagar! É ou não é? Deve ter sido algum amigo, com certeza! Achou melhor não me perturbar! Mas se tivesse chegado, seria bem vindo! Geovani estou indo!
            PC pegou a sua bolsa a tira colo, que estava pendurada nas costas da cadeira, bebeu o último gole de cerveja e tomou o rumo da porta. Chegou à calçada, olhou para o céu e viu uma imensa lua cheia, que clareava o alto dos edifícios. Pensou:
          - Acho que nunca vi a lua tão de perto. Será que bebi tanto, que fiquei tão alto a ponto de chegar próximo dela? Chi! Acho que estou meio bêbado! Vou caminhar pra expulsar o álcool!
                      Continua semana que vem...

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Caso dos Olhos Azuis - Parte 5

Continuando...
O delegado segura o pequeno embrulho e coloca na palma da mão. Fica olhando, mas custa a decidir em abri-lo. PC demonstrando ansiedade, cobra ligeireza do Doutor:
        - Delegado! Abre logo isso aí! Estou morrendo de curiosidade!
           Dr. Carlos finalmente começa a tirar a fita adesiva que estava envolvendo o embrulho. Quando consegue tirar a ultima camada de papel, aparece uma pequena caixa de metal. Ao abri-la, o delegado arregala os olhos e grita:
          - Meu Deus! O que é isso aqui?
             O comissário Bira, PC e Marcão olham para dentro da pequena caixa e com as caras assustadas, ficam mudos com o que estavam vendo: um par de olhos azuis. Tinham certeza que não eram de vidro. O assassino fez questão de pousar os olhos em cima de uma poça de sangue. O delegado, com a voz embargada, fala:
          - Gente! Isso não é coisa de ser humano! O diabo enlouqueceu de vez!  PC o que é isso? Parece pesadelo! Temos que pegar esse desgraçado de qualquer jeito! Nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida! Por um acaso esse doido falou com você alguma vez?
          - Falou sim. Ele ligou lá pra redação. Falou uma porção de coisas desconexas. O papo foi o seguinte: ele disse que...
             PC relata tudo para o delegado. Meia hora depois já estava na Rua com Marcão, a procura de Vermelho. Marcão avista o carro a poucos metros de delegacia. Como já era de costume o motorista dormia dentro do veículo. PC bate no vidro do carro e Vermelho, com o susto, bate com a cabeça no teto. Com a cara amarrotada, abaixa o vidro e reclama:
            - Porra PC! De novo! Já perdi a conta de tanta cabeçada que já dei! Bate com carinho!
           - Abre isso aí e vamos embora! Nunca vi um cara pra dormir tanto!

            A noite está tão alta como PC. O sono não chegava. Bebericou algumas doses de whisky. Não se recordava da quantidade do paraguaio que tinha descido pela goela. Sonhava em pegar um scotch legítimo e saboreá-lo sem se preocupar com o dia seguinte.  Mas o problema naquela hora não era a bebida. O problema real era o maníaco. Esse era o problema. Nem o grilo tiraria o seu sono, como a perda dos seus olhos.  Não queria entregar os pontos, mas esse era o xis da questão. Tentava não baixar à guarda. Mas estava difícil. Tinha que dividir a sua insônia com alguém. Aí escolheu a sua amiga, a repórter Lucinha. Olhou para o relógio e pensou em não ligar. Era tarde. E daí! Para o repórter a noite é uma criança! Repartir a sua angustia com alguém era urgente! E esse alguém só podia ser a doce Lucinha. O dedo não respeitou a dúvida e discou o número dela. Do outro lado alguém tirou o telefone do gancho, mas não disse o tão tradicional alô. Em vez disso ouviu primeiramente o grito da amiga:
           - Mãe! O telefone tá tocando!
             Depois a mãe falou:
           - Já atendi! Isso é hora de ligarem? Onze horas da noite, é hora de se estar dormindo!
          - Mãe! Não reclama! Eu só vou dormir agora, porque estou pra lá de cansada! Saí cedo da redação, fui pra serra e voltei quase de noite! Só por isso que estou deitada! A senhora nem sabe direito o que a chuva fez de estrago lá na serra! Quem é que está no telefone?
          - Lu, é seu amigo PC!
          - O que ele quer?
          - Não sei! Ele não falou! Vem atender?
          - Ele não falou, porque a senhora não perguntou! Droga! Já vou indo! Já vou indo!
            A doce Lucinha desceu da cama, procurou o seu calçado, mas não encontrou. Depois se lembrou de que tinha deixado do outro lado. Deitou novamente na cama e rolou até o outro lado. Calçou as sandálias de qualquer jeito e foi atender o amigo.
          - Oi PC! O que foi que houve?
          - Pô! Lucinha desculpe! Já estava dormindo, né?
          - Só estava deitada! Pra você me ligar a essa hora, deve ter acontecido alguma coisa! O que foi?
             PC não respondeu de imediato. Olhou para o copo que estava em cima da mesa, esticou o braço e o pegou. Balanço-o, fazendo girar o gelo que ainda não estava totalmente derretido. Deu uma respirada funda e tomou todo o uísque numa golada só. Lucinha como já conhecia a peça, sabia que ele estava dando uma talagada no seu scotch paraguaio. Esperou até que ele tomasse folego novamente. Ele já restabelecido falou:
          - Lucinha, o cara resolveu brincar comigo!
          - Ele telefonou de novo?
          - Não! Agora foi pior!
          - Pior como?
          - Quando você saiu pra subir a serra, eu ainda fiquei mais um pouco na redação. Ia sair com vermelho pra fazer a ronda pelas delegacias. Mas Souza pediu pra ele comprar um lanche. O cara desceu e dois minutos depois o delegado Carlos ligou. Aí disse que tinha uma encomenda pra mim na delegacia. Só esperei Vermelho chegar e descemos. Marcão já estava esperando no carro. Não! Apaga tudo! Eu desci com Marcão! Vermelho já estava no carro! Tem lanche nenhum! É uma confusão só na minha cabeça!
         - Isso é o scotch paraguaio! Você falou em encomenda! Que encomenda é essa? Fala logo!
         - Calma! O único que tem direito de ficar nervoso, é o papai aqui! Aconteceu o seguinte: encontraram dois cadáveres sem os olhos. Em cima de um dos corpos tinha um bilhete. Depois encontraram um embrulho. O bilhete dizia que...

             Uma semana depois dessa conversa com Lucinha, PC voltou a apresentar uma expressão mais tranquila. Aparentemente não estava tão estressado. O sorriso, mesmo que esporádico, deu às caras. As velhas brincadeiras ainda não estavam tão engraçadas, porém se fizeram mais presentes. Mas ainda não era o mesmo PC. Faltava muita coisa. Mas pelo menos a redação voltou a ter vida. Com certeza deveu-se a normalidade que pairava na cidade e a melhora do estado de espírito de PC.  Naquele período não houve nenhum assassinato nas redondezas. Normalmente, para o jornal que ele escrevia, ficava um tremendo buraco, não falar sobre crimes. Esse jornal, como dizia na época, se espremesse saía sangue. Logo, os repórteres tiveram que correr atrás de notícias de outros municípios. Mas era uma situação atípica. O normal era todo dia aparecer algum presunto.
        Continua na semana que vem...