terça-feira, 12 de maio de 2026

O Filho do Poder - Parte 26

 


Continuando...

          - Quim, vamos rezar pra que tudo tenha virado cinzas. Agora o melhor que a gente tem pra fazer é se afastar o máximo daqui. Temos que tentar salvar o garoto e a nós também. A gente tá encrencado. Encrencado pra cacete! E acho que devemos parar na próxima patrulha rodoviária e contar o que aconteceu aqui.

          - Esquece isso, Toni. E se nesse outro posto os bandidos tiverem invadido também?

          - Será, mano? Não acredito. É muita ousadia.

          - Não vamos pagar pra ver, Toni.

          - É. Concordo com você. Vamos pedir para a sorte ficar do nosso lado.

          - Pedir a quem?

          - A Deus! Ele é o único que pode nos ajudar! Não tem outro! Tem Quim?

          - Mas quem tem que fazer tudo, somos nós. Deixa Deus de fora, mano.

          - Quim, tem hora que você parece que é ateu. Eu hein!

          - Que ateu o quê! É claro que acredito em Deus! Mas não podemos achar que ele vai resolver tudo pra gente, não é? Nós é que vamos salvar o garoto e a gente também. Se ele der uma mãozinha, é claro que eu não vou dispensar.

           - Tá bom, herói da baixada. Tem um ditado que papai falava: o que não tem remédio, remediado está.

           - Você lembrou! É isso mesmo! Ele falava isso a toda hora. Mas o que que isso tem a ver com nos salvar, Toni?

           - Ah! Sei lá, Quim! Falei por falar!

          - Aí eu tenho que rir. Toni, tem hora que seus pensamentos não batem bem.

          - Para com isso. Vamos falar de coisa séria.

          - Tá bom. Vou falar do que interessa. O único ser pensante aqui sou eu mesmo.

          - Até parece.

          - Toni, já jogamos conversa fora à beça. Agora vamos para o que interessa. Então, já que sabemos quem é o pai do menino, vamos leva-lo até ele. Mas primeiro vamos entregar a carga, já que estamos no caminho. Depois seguimos para o Acre.

          - É, vamos dar a volta ao mundo. Se prepara que é muito chão, Quim. Ainda temos que parar para alimentar o garoto e a gente também. A barriga aqui tá roncando.

         - Você só vive com fome, Toni. – Quim coloca a mão na frente da boca, para esconder o riso - Mano, a minha barriga já roncou uma porção de vezes também. E bem antes da sua.

         - E eu é que só vivo com fome. Faz-me rir. Só dando gargalhadas para as besteiras que você fala, Quim. Mano, sem gracinhas agora. Como é que está o garoto?

          - Continua dormindo. Coitadinho, passou maus bocados. Vamos torcer para que ele acorde com a memória normal.

          - A cabeça da gente é uma coisa de louco. Pode ser que a cabecinha dele volte ao normal, mais rápido do que a gente pensa. Mas também, pode não voltar nunca mais.

          - Ih Toni! Vira essa boca pra lá! Pensa positivo!   

                Enquanto os dois ficam discutindo sobre a volta ou não da memória do garoto, os falsos patrulheiros chegam ao local do acidente. Descem do carro começam a vasculhar os restos dos veículos incendiados, tentando achar algum corpo, principalmente o do menino, e mais alguma coisa que pudesse comprovar que ele estivera ali. Rodaram várias vezes, fazendo caretas e balançando a cabeça em sinal de negação. Depois de alguns minutos em silêncio, Pereira toca no ombro no amigo.

          - Blanco, está tudo torrado. Há muito tempo que não via uma destruição desse tamanho. Olha só essas armas! – apontando para o que tinha sobrado de duas escopetas, que agora era só um monte de metal quase todo derretido. - As que ficaram do lado de fora é que estão em bom estado. São escopetas mesmo. O cara falou certo.

          - Colega, não dá pra identificar nada. O fogo destruiu todos os corpos. Pereira, o garoto deve ter virado um monte de cinzas. Cara, eu não quero nem pensar no que aconteceu aqui. Como o garoto deve ter sofrido. O que é que a gente faz com esses dois corpos que estão aqui fora?  

          - Blanco, sem sentimentalismo. Deixa do jeito que está. Isso pra gente não tem a menor importância. Quem está aqui dentro ou fora, já era. Eu não posso fazer nada e você também não. Então vamos pensar no que a gente pode ganhar com isso. Esses dois caras aí, – apontando para os corpos estirados no asfalto – a gente de repente queima eles.

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Filho do Poder - Parte 25

 


Continuando...

            Enquanto os bandidos pegavam a estrada, na direção oposta ao dos caminhoneiros, Toni se afasta do posto da Patrulha Rodoviária Federal o máximo que pode. De vez em quando dá uma olhadinha pelo retrovisor. Era visível a sua tensão.

                Quim acha estranho ele entrar, pegar o volante e sair sem falar nada. E nem sequer olhar para ele. Já estava a mais de quinze minutos dirigindo e ainda continuava mudo. Quim começa a torcer a boca, demonstrando um certo desagrado. Encara o irmão fixamente, esperando que ele solte a língua, mas nada. Toni ignora-o. Ou talvez, devido a sua preocupação, não percebe que está sendo olhado insistentemente por Quim. Parece até que está sozinho na carreta. Mas a verdade é que o irmão desconhece o fato dele estar agindo assim.  A preocupação era grande para ele não tirar os olhos do retrovisor. Tinha que vigiar a estrada, principalmente a retaguarda. Mas pelo olhar de Quim, dava para ver que a sua paciência já estava chegando no limite. E foi o que aconteceu: deu um soco no braço de Toni.

          - Ei Toni, o que é que está havendo? – indagou raivoso - Você entrou mudo, pegou o volante e até agora não falou nada! Parece até que está fugindo da polícia!

          - Puxa Quim! O que é isso? Que soco! Tá maluco?

          - Desde que entrou no carro não falou nada! O que está havendo? Respondeu o que te perguntei? Não, né?

          - Estou fugindo da polícia, sim! Gostou de saber?

           - Como assim? Você foi lá para resolver o negócio do garoto e de repente me fez um sinal, me mandando voltar para o caminhão. Eu não sei o que houve, mas resolvi descer primeiro e depois pegar o garoto.

           - Fez bem. Fez muito bem. Sorte que você entendeu o meu sinal e deixou o garoto escondido. Você nem sabe o que eu escutei.

           - O que foi. Conta logo! Vai, conta logo!

           - Foi a maior sorte não ter levado o garoto. Escuta só. Quando eu ia chegando na porta, os patrulheiros – falsos patrulheiros -  estavam falando sobre o sequestro do garoto. Escutei o nome do menino. Quer saber?

           - Claro! Mas me explica primeiro esse negócio de falsos patrulheiros.

           - Mano, aqueles caras são bandidos! Os verdadeiros patrulheiros estão presos lá dentro da cabine! São três bandidos. Aqueles dois foram até o acidente para ver se encontram o menino.

           - Verdade, mano? Invadiram o posto e tomaram o lugar dos patrulheiros? Que fria que entramos! E aí, como é o nome do menino?

           - Ele se chama Carlos Hernandes. Ele é filho de um traficante. Um tal de Pablo.

           - Chi! Que enrascada a gente está entrando, Toni!

           - Também acho. Acho que já entramos e isso é o pior. Eu descobri que o negócio é briga de gangues. Mas você não sabe da maior.

         - O quê? Fala logo!

         - Vê se o garoto está dormindo.

               Quim gira a cabeça e olha para trás, e observa que o garoto está de barriga para cima e ressonando. Então avisa ao irmão:

          - Toni, pode falar, pois ele está na maior soneca. Ficar desligadão assim deve ser bom, né? Está tudo desabando e nem percebe nada.

          - Sei lá se é bom. O garoto foi sequestrado, quase morreu num acidente e depois tem outros querendo pegar ele de novo. Como isso pode ser bom?

          - Quem está querendo sequestrar ele?

          - Então, eu escutei os falsos patrulheiros falarem que vão pegar o garoto e pedir um resgate por ele.

          - O quê que é isso? O coitadinho já foi sequestrado, passou por momentos difíceis e agora vêm esses falsos policiais querendo fazer mais essa maldade! Isso não pode, Toni. O garoto ia ser sequestrado por outros sequestradores. Sequestrado duas vezes?

               Como é que pode homens da lei serem criminosos? Infelizmente é isso que a gente vê: uma minoria de maus policiais sujando o nome da corporação.

          - Mas eles não são policiais, Quim. São bandidos.

          - Esqueci, Toni.

          - Quim, sabe que eles vinham para olhar a documentação e a carga? E descaradamente ainda falaram que iam arrancar uma grana da gente?

          - Pilantras!

          - Pior que iam achar o garoto.

          - Ih! Iam mesmo! Por que desistiram?

          - De repente veio na minha cabeça – só pode ser coisa de Deus – o acidente. Pra eles ficarem mais animados, falei das armas que estavam no carro.

          - Toni, e agora? Acho que você não devia ter falado nada.

          - Se eu não tivesse falado do acidente, ia ser pior. Se achassem o garoto aqui? A gente estava fritinho da silva. Você está pensando que eles iam deixar a gente em pé? Oh. Quim. A gente ia esticar as canelas, isso sim. Pensa bem. O que é que eles vão achar no acidente? Nada. Nada, Quim. Explodiu tudo. Não foi isso?

          - Com certeza. Mas realmente espero que não achem nada. Senão, estamos fritos mesmo.

 Continua Semana que vem!

sábado, 2 de maio de 2026

Pensamento de Poeta - Buraco Negro


Buraco Negro

- José Timotheo -  


Aonde está o caminho?

Só vejo atalhos

Estradas partidas

E afogadas de dúvidas

E dívidas

Uma via sem passantes

Mas congestionadas de intrigantes

Embriagando-se às margens do mundo

Ou submundo

Comemorando nada

Ou a dor dos peregrinos

Não moram debaixo de sonhos

Não dão chances a esperança

Abraçam uma vida nua

Nas sombras das tristezas de quem sonha

Voam, voam

Atacam os bolsos alheios

Mesmo na claridade do dia

Não precisam da escuridão

Essa é a verdade

Pois já são a própria treva

Bolso vazio, para onde seguir?

Miro o firmamento, já não tão firme assim

Mas olho, mesmo sem sonhos e esperanças

E continuo olhando até não poder mais

Não paro um segundo de rezar

Já é um pedido de socorro: SOS

Mas ninguém nos socorre

Corre! Corre

É só isso que nos resta?

Depois de tantas súplicas

Concluo que estamos num buraco negro

Da nossa história, já cheia de histórias duvidosas

Mestre! Mestre

Em quem acreditar agora?

                                              fim