Continuando...
- Quim, vamos rezar pra que tudo tenha virado cinzas. Agora o melhor que a gente tem pra fazer é se afastar o máximo daqui. Temos que tentar salvar o garoto e a nós também. A gente tá encrencado. Encrencado pra cacete! E acho que devemos parar na próxima patrulha rodoviária e contar o que aconteceu aqui.
- Esquece isso, Toni. E se nesse outro posto os bandidos tiverem invadido também?
- Será, mano? Não acredito. É muita ousadia.
- Não vamos pagar pra ver, Toni.
- É. Concordo com você. Vamos pedir para a sorte ficar do nosso lado.
- Pedir a quem?
- A Deus! Ele é o único que pode nos ajudar! Não tem outro! Tem Quim?
- Mas quem tem que fazer tudo, somos nós. Deixa Deus de fora, mano.
- Quim, tem hora que você parece que é ateu. Eu hein!
- Que ateu o quê! É claro que acredito em Deus! Mas não podemos achar que ele vai resolver tudo pra gente, não é? Nós é que vamos salvar o garoto e a gente também. Se ele der uma mãozinha, é claro que eu não vou dispensar.
- Tá bom, herói da baixada. Tem um ditado que papai falava: o que não tem remédio, remediado está.
- Você lembrou! É isso mesmo! Ele falava isso a toda hora. Mas o que que isso tem a ver com nos salvar, Toni?
- Ah! Sei lá, Quim! Falei por falar!
- Aí eu tenho que rir. Toni, tem hora que seus pensamentos não batem bem.
- Para com isso. Vamos falar de coisa séria.
- Tá bom. Vou falar do que interessa. O único ser pensante aqui sou eu mesmo.
- Até parece.
- Toni, já jogamos conversa fora à beça. Agora vamos para o que interessa. Então, já que sabemos quem é o pai do menino, vamos leva-lo até ele. Mas primeiro vamos entregar a carga, já que estamos no caminho. Depois seguimos para o Acre.
- É, vamos dar a volta ao mundo. Se prepara que é muito chão, Quim. Ainda temos que parar para alimentar o garoto e a gente também. A barriga aqui tá roncando.
- Você só vive com fome, Toni. – Quim coloca a mão na frente da boca, para esconder o riso - Mano, a minha barriga já roncou uma porção de vezes também. E bem antes da sua.
- E eu é que só vivo com fome. Faz-me rir. Só dando gargalhadas para as besteiras que você fala, Quim. Mano, sem gracinhas agora. Como é que está o garoto?
- Continua dormindo. Coitadinho, passou maus bocados. Vamos torcer para que ele acorde com a memória normal.
- A cabeça da gente é uma coisa de louco. Pode ser que a cabecinha dele volte ao normal, mais rápido do que a gente pensa. Mas também, pode não voltar nunca mais.
- Ih Toni! Vira essa boca pra lá! Pensa positivo!
Enquanto os dois ficam discutindo sobre a volta ou não da memória do garoto, os falsos patrulheiros chegam ao local do acidente. Descem do carro começam a vasculhar os restos dos veículos incendiados, tentando achar algum corpo, principalmente o do menino, e mais alguma coisa que pudesse comprovar que ele estivera ali. Rodaram várias vezes, fazendo caretas e balançando a cabeça em sinal de negação. Depois de alguns minutos em silêncio, Pereira toca no ombro no amigo.
- Blanco, está tudo torrado. Há muito tempo que não via uma destruição desse tamanho. Olha só essas armas! – apontando para o que tinha sobrado de duas escopetas, que agora era só um monte de metal quase todo derretido. - As que ficaram do lado de fora é que estão em bom estado. São escopetas mesmo. O cara falou certo.
- Colega, não dá pra identificar nada. O fogo destruiu todos os corpos. Pereira, o garoto deve ter virado um monte de cinzas. Cara, eu não quero nem pensar no que aconteceu aqui. Como o garoto deve ter sofrido. O que é que a gente faz com esses dois corpos que estão aqui fora?
- Blanco, sem sentimentalismo. Deixa do jeito que está. Isso pra gente não tem a menor importância. Quem está aqui dentro ou fora, já era. Eu não posso fazer nada e você também não. Então vamos pensar no que a gente pode ganhar com isso. Esses dois caras aí, – apontando para os corpos estirados no asfalto – a gente de repente queima eles.
Continua Semana que vem!


