terça-feira, 3 de novembro de 2026

O Filho do Poder - Parte 51

 


Continuando...

        Toni faz uma cara de desagrado, mas prefere interromper a conversa. Quim, com o silêncio do irmão, deixa escapar um leve sorriso, pensando que depois dessa conversa, o irmão ia esquecer de vez a menina: o anjo da boleia.  Então vira-se para trás e olha o menino.

          - E aí? – pergunta Toni.

          - Não abriu os olhos, Toni. Parece que continua dormindo. Mano acho melhor a gente ir logo para o hotel. Aí eu fico com ele lá e você vai se informar do endereço para entregar a mercadoria.

          - Tudo bem. Vamos então parar ali no posto e se informar sobre o hotel e o tal endereço para entregar a carga. Não tem lugar melhor para se obter informações.  

          - Tá bom. Estou doido para descansar o esqueleto e se livrar logo dessa mercadoria. Quanto mais rápido, melhor.

          - Então vamos resolver logo, Quim.

                  Toni que já mantinha a velocidade do caminhão no mínimo permitido, ligou a seta e foi entrando no posto de gasolina. O irmão saiu rápido e foi colher informações sobre os endereços. Voltou sem muita demora com tudo resolvido. O local de entrega ficava um pouco afastado, mas o hotel era ali mesmo. Toni estacionou a veículo num local indicado pelo frentista, que já era uma vaga cativa da empresa. Desceram os dois e se dirigiram para a recepção. O garoto continuou dentro do caminhão. Pegaram a chave e subiram. Antes de entrar no quarto Toni comentou:

           - Mano isso aqui tá parecendo que é um tremendo pulgueiro. Mas do jeito que a gente tá cansado, e é de graça, tá muito bom, né?  

           - Tá reclamando das pulgas? Pra você tá tudo sempre bom! 

           - Porque é 0800. – Toni diz com um sorriso sem graça.

           - Não vai pagar nada, aí você rir!

           - Pelo menos temos que sentir graça em alguma coisa de vez em quando. Depois de um stress atrás do outro, o que é que você queria? Tive uma chance, então ri!  E vou rir de novo!

           - Pô Quim. Que riso sem graça. Deixa de baixo astral. Assim você só atrai coisa ruim. Vamos lá, aonde é o lugar que a gente vai entregar a carga?

           - Baixo astral, não. Sou é realista. O lugar até que não é muito longe. Enquanto você fazia gracinha, eu olhei o mapa, juntei com a informação que o frentista me deu e fiz um rabisco rápido. Ele me disse que não passa de vinte minutos até lá.

           - Então é pertinho. Se fosse na estrada era rápido, mas como é aqui na cidade, com o transito travado, gasta mais tempo.

           - Toni, eu senti uma sensação muito estranha. Precisava ver as caras das pessoas quando perguntei pelo Carlos Bonsai. Primeiro quando falei no nome do cara, todo mundo olhou pra mim. Uns com a cara assustada. Outros com um sorriso estranho. Mas teve alguns que só faltaram me bater. Precisava ver os olhos desses: era puro ódio. Olha, me senti mal mesmo.

           - Estranho. Agora estou me lembrando que lá em baixo tive a sensação que todo mundo me olhava. Eu acho que já tem uma porção de olhos em cima da gente. Parece que passa por essas paredes.

           - Para com isso, Toni! Para com isso! Agora estou preocupado com o garoto. Garotinho bom, obediente. Por que será que querem pegar ele?

           - Quim, isso é coisa do pai. O cara é barra pesada. Então tem gente querendo se vingar dele, pegando o menino. Será que tem gente por aqui que é do lado dos sequestradores?

           - Toni, vira essa boca pra lá. Agora vamos fazer o seguinte: quando a gente sair, leva um cobertor, enrola o menino nele e coloca a minha touca na cabeça dele. Depois você pega ele no colo e traz até aqui.

           - Ih Quim! Botar ele no colo vai chamar muita atenção! Além dele ser   pesadinho, né!

           - Que o quê, Toni! Pesadinho nada! O menino está mirradinho! Dizer que vai chamar a atenção é desculpa. Ele não deve ter dez anos. E se tiver, é pequeno pra idade. Se não fosse a minha coluna, eu pegava ele sozinho.

           - E desde quando você tem problema de coluna? Você já carregou o menino sozinho e ainda disse que ele parecia uma pena. Tá bom, não precisa fazer cara feia. Até parece que está sentindo dor. Está bem, você arruma o garoto. Vou até o banheiro dar uma mijada, depois te encontro lá no caminhão. Deixa ele prontinho.

               Toni sai do quarto e se dirige para um banheiro coletivo no final do corredor. Quando ele já está no mictório, entram dois sujeitos. Um fica na porta, segurando a maçaneta e o outro se posta ao seu lado. Toni olha para o sujeito e sente um tremor no corpo. O medo era evidente. Estava assustado com o sujeito grandalhão olhando-o incessantemente. A vontade tanta de urinar foi interrompida. A urina simplesmente parou de sair. E o sujeito continuava com os olhos cravados em cima dele.

          - O senhor que é Toni? Pode terminar de urinar. Não precisa ficar constrangido. – falou calmamente o estranho.

          - Já estou constrangido. Nem consigo mijar mais. Sim, sou Toni. E quem é você?

          - Eu e meu amigo, que está na porta, somos amigos de Bonsai.  Ele nos mandou para levar vocês dois até ele. Nós vamos espera-los na Estrada da Chaminé.

          - Mas eu não conheço nada por aqui, não!

          - Não tem como errar. Segue essa rua até o final. Lá, dobra à direita e segue em frente. Vai até o final dessa rua também. Depois dobra a esquerda. É essa a estrada. É de chão batido. Em meia hora, a gente espera vocês lá. Ok?

          - Tudo bem. Tudo bem. Vamos estar lá. 

Continua na Semana que vem!