terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 11

 


Continuando...

            Quim toma à dianteira e vai pegar o garoto. Mas antes estica a coluna. Toni observa o gesto do irmão e interroga-o:

           - Quim, você está sentindo dor na coluna? A explosão jogou você longe. Temos que ver isso aí.

           - Fica tranquilo mano. Isso foi só pra alongar. Não estou sentindo nada não. Pra me tirar de circulação, só uma explosão atômica.

          - Você quis dizer atômica, não é?

          - Ih! Vai me corrigir?

          - Anda logo Quim! Anda logo!

               Enquanto Quim subia com o garoto na boleia do caminhão, Toni deu a última olhada para o carro que ainda estava em chamas e soltando uma fumaça mais escura que o asfalto.  

          - Que coisa triste. – diz Toni, enquanto espalha o olhar pelos destroços - As pessoas já devem ter virado carvão. Meu Deus, quem são essas pessoas? Não somos nada mesmo. Por que será que Ele deixa as pessoas se acabarem assim?

               Quim acomodou a criança com cuidado e cobriu-o com uma coberta. Instintivamente colocou as costas da mão na sua testa. Deu um leve sorriso ao constatar que o menino não tinha febre. Virou-se para falar com o irmão, mas ficou surpreso que ele ainda não tinha subido. Então meteu a cabeça pelo vão da janela.

          - Toni, vamos embora! – gritou Quim para o irmão - Que lerdeza é essa? A gente vai acabar se encrencando!

          - Calma. Já estou indo. – respondeu com uma tranquilidade anormal, frente aquele sinistro - Fique calmo que aqui é o fim do mundo, até à polícia chegar a essas bandas, bota tempo, bota tempo nisso.

          - É? Acredita nisso? Vai acreditando. Você está muito calmo para essa situação catastrófica.

               Toni entra no caminhão e pega a direção. Antes de dar a partida no veículo, olha de novo para os dois carros incendiando e faz o sinal da cruz. Depois olha para o local onde estava o menino deitado, bate na perna do irmão e diz:

          - Mano, vamos nessa. Vamos sumir daqui.

          - Agora sim, tá voltando ao normal. Parece até que você estava incorporado.

          - Sabe que tinha me sentido assim. Fiquei estranho. Parece que sentia a menina do meu lado.

          - Ih. Para com isso, Toni. Para com isso. Vamos embora. Vai que ela aparece aqui. Enfia o pé, vamos. Corre para deixarmos ela pra trás.  

               Toni vai saindo devagar pelo acostamento, mas não consegue andar quase nada, devido aos pedaços de ferragens espalhados pela pista e pelo acostamento. Ele para o caminhão e olha para o irmão.

         - Quim, - fala com um ar preocupado - acho que vamos ter que voltar.

         - Que voltar o quê! Tá maluco? Que cara é essa? Toni temos que ir em frente. Nada de voltar. Sai da estrada e passa por cima do capim.

         - Que capim? A gente nem sabe se ali tem buraco! Mano, ali pode ter uma tremenda cratera e engolir o caminhão. Não pensou nisso? Se a gente ficar preso aqui, estamos fritos, Quim!

          - Toni, você só pensa coisa negativa! Vou te contar, hem!

               Quim bota a mão no queixo, balança a cabeça, depois leva a mão à maçaneta, abre a porta do carona e desce do caminhão. Caminha por fora do acostamento e analisa se o caminhão consegue passar por cima do capim que margeia a estrada. Como é do seu feitio invade o capinzal e vai analisando se o terreno é firme o suficiente para aguentar o peso do caminhão. Caminha até um ponto em que o veículo poderá passar sem risco, até voltar à estrada. O irmão fica olhando-o a se aventurar daquele jeito, em um lugar desconhecido, colocando a vida na mão de Deus. Mas como o conhece muito bem, sabe que ele é dado a desafios sem necessidade alguma, - coisas da juventude - balança a cabeça e deixa escapar um sorriso pelos lábios entreabertos.

                Depois de algum analisando o terreno, Quim volta acelerado, sobe na boleia e fala ofegante:

         - Mano. Cansei. Mas pode meter a carreta por cima do capinzal, sem medo! O terreno é firme feito uma rocha!

 Continua Semana que vem!

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Filho do Poder - Parte 10

 


 Continuando...

             A mulher demonstrando muita força volta a falar.

          - Entreguem a criança ao pai. Só ao pai. Vocês não podem levar ele pro hospital e nem pra polícia. Principalmente pra polícia. Ninguém pode saber que ele está aqui. Vocês prometem? Vocês prometem? O menino é esperto. Quando ele acordar...

               Ela interrompeu o que estava falando porque uma quantidade grande de sangue saiu pela boca em borbotões, seguido de uma tosse intermitente, causada pelo engasgo.  Mas depois de alguns segundos, ao cessar a tosse, conseguiu voltar a respirar com um pouco mais de facilidade.

          - Quando ele acordar vai guiar vocês até ao pai. – falou, quase sussurrando, deixando escapulir mais uma golfada de sangue.

          - Senhora, ele não tem mãe não? –  Quim pergunta com a voz embargada.

          - Pra mãe não! Pra mãe não! Só pro pai! – de repente a mulher puxa uma força que já parecia extinta. A voz sai forte e clara, mesmo mergulhada no medo, e arregalando os olhos desmesuradamente.

         - Quim, estou sentindo um cheiro forte de gasolina. – Toni interrompe a conversa. - Vamos sair daqui rápido. Puxa ela pra cá. Vamos tirá-la daqui.

               Quando Quim se prepara para puxar a mulher, ela volta a falar:

          - Vocês têm que saber de uma coisa: quem sequestrou o menino foi o traficante...

              Ela para de falar e a cabeça tomba para o lado, parecendo já sem vida. Quim olha para o irmão e balança a cabeça. Nisso Toni estica o olhar para o banco da frente e, deixando-o surpreso, vê no exato momento em que o cano da arma de um dos bandidos, que está no banco do carona, se move.

          - Quim! Sai daí rápido! – grita para o irmão, assustado - O cara do banco do carona está vivo! Ele vai atirar!

               Quim, nem quis questionar com o irmão e sai rapidamente de perto do carro, em disparada, nos calcanhares dele. Mas antes de chegar à carreta, ouve um tiro e em seguida uma explosão.  Toni que já tinha chegado antes, estava olhando para o carro no momento que aconteceu o estampido, seguido da explosão. Tudo aconteceu numa fração de segundos. Para Toni, que já tinha se distanciado bastante, a explosão não o alcançou. Entretanto para Quim o deslocamento de ar jogou-o ao chão. O irmão correu ao seu socorro, mas quando lá chegou, ele já estava se levantando e tirando a poeira do corpo. Toni olhou para o céu e fez o sinal da cruz. Em seguida esticou a mão e acabou de levantar o irmão. Engoliu em seco, passou as costas da mão nos olhos, para enxugar uma poça de lágrimas que brotara   sem ele perceber.     

          - Puxa mano. – disse com a voz embargada - Estou até engasgado.

          - Ih! Tá chorando!

          - Que chorando o quê. Quim, essa foi por pouco. Você está bem?

 Eu vi você voando.

          - Viu? Mas estou vivo. Vim voando igual ao Super-Homem. Toni, falando sério, depois dessa acho que não morro mais.

          - Temos que agradecer a Deus. Agradecer por nós dois.

          - Toni, por nós dois não. Por nós três.

               Quim terminou de falar, se virou e apontou para o garoto que estava deitado no acostamento, ao lado da carreta. Toni balançou a cabeça, olhou na direção que o irmão apontara e deixou um leve sorriso aflorar dos lábios um pouco descorado.

          - Isso. – disse, meio sem jeito - Por um momento tinha me esquecido do menino. E agora Quim, o que é que a gente vai fazer com essa criança?

          - Mano, antes de mais nada, vamos dar no pé daqui. Depois a gente vê o que a gente faz.

          - Mas...

          - Nem mais nem menos. Vamos colocar o garoto pra dentro do caminhão e pular fora. Vamos rápido, porque daqui a pouco isso aqui vai ficar cheio de polícia. Com essa explosão então, todo mundo já deve estar a caminho. Vai por mim. Vai por mim.

          - Você está certo. Vamos subir com ele. Depois que estiver acordado, a gente vê o que faz.   

Continua Semana que vem!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pensamento de Poeta - Ainda Tenho Tempo?

 
Ainda Tenho Tempo?

- José Timotheo -  

Um lindo canário da terra

Brindava o amanhecer

Pulando entre galhos secos

O mundo sacudia

Mas não sei quem balançava mais

O galho ou o canário

Mas eu balançava junto

Não posso esquecer disso

Tanto é que tenho certeza

Do que via e sentia

E lá estava eu esperando e torcendo

Para alguma coisa se partir

(Isso é coisa do ser humano)

Tudo poderia se quebrar, na verdade

Mas uma única coisa não ia se partir

O pássaro

Ele tinha liberdade

O galho, coitado, já não tinha vida

E eu?

Só queria de volta a esperança

Simples assim

Mas era ela que balançava

Oscilava na dúvida

(Isso é coisa do homem)

Mas não deixei de sonhar

Sonhei com as asas do pássaro

Quem sabe não podia voar novamente

Mesmo depois de tanto tempo pousado?

Vou voar novamente?

Quero tanto, tanto alçar voo

Ainda há tempo?

Só mais uma chance

                                                                    fim