O SOCIALISTA BURGUÊS NAS ELEIÇÕES DE 2022
- José Timotheo -
O sol ainda não tinha repousado no horizonte. Em cima da montanha um tom
avermelhado escondia um pedaço do azul do céu, enquanto um amarelo fraquinho se
esfregava nas bordas de uma nuvem clara. Eu estava parado numa estrada de barro
vermelho, que parecia sem fim, com o olhar e os pensamentos perdidos nesse
falecer de tarde. Esse lugar, era próximo à pousada onde me hospedara, no dia
anterior.
Fim de semana é sempre bom viajar e ir deixando pelas estradas as
preocupações acumuladas, as escamas dos aborrecimentos semanais. Estava ali
sozinho. Havia deixado a família na pousada. Queria um momento de sossego e fui
esticar as pernas naquele caminho de barro, que margeava um pequeno riacho de
águas cristalinas. Rezava baixinho, pedindo a Deus que não botasse ninguém
naquele caminho. Aquele silêncio quase me fazia flutuar. Pensei no silêncio
absoluto. Mas depois me dei conta de que vinha um som do riacho. Era quase
imperceptível, eu sei, mas não deixava de ser um leve barulho. Barulho esse que
não feria em nada o meu bem-estar. A leveza da minha alma não estaria
comprometida de jeito nenhum. Esse almejado silêncio absoluto, que não existe,
beirava a um sossego que deixava os meus pensamentos sem ruídos.
O lugarejo, era longe do centro nervoso da capital. – “ Era o fim do
mundo? ” – De jeito nenhum. Se o fim do mundo fosse naquele molde, poderia
dizer que a Terra é o paraíso, sem tirar nem pôr. Acreditava piamente que ali
era o lugar mais harmônico do planeta. O que poderia desarmonizar aquele lugar
abençoado? Senti que Deus morava ali pela redondeza.
Para não ter dúvida de que estava num lugar abençoado, apontei meus olhos para
todos os lados. Girei 360 graus e realmente só vi beleza. Não encontrei defeito
na natureza. A perfeição fez dali a sua morada. Procurei, então, colar no meu
olhar cada pedaço daquela paisagem. Nem o cocô de algum boi, que eu acabara de
enfiar o pé, causou qualquer anomalia no meu humor. A leveza me abraçou. E leve
queria continuar.
Era tempo de eleições, e que já se aproximava. Queria e precisava ficar um
pouco distante desse conflito de opiniões. Ora verdadeiramente mentirosas, ora
mentirosamente verdadeiras. Aliviava um pouco, não precisarmos escolher
prefeitos e vereadores. Acho que já fizeram assim, para que não chegássemos a
um colapso nervoso generalizado. Aposto que não sobreviveria uma alma
sequer para apontar os vencedores. Pelo menos, me senti livre das tensões
eleitorais temporariamente.
Fiz um trato com a minha mulher que seria zero tv. Nem desenho animado
veríamos. Vai que Pernalonga, Pica pau, Peppa, Mickey... se candidatassem? Não
podia correr esse risco. Era ficar por ali afastado de tudo. Eu sei que era
inevitável votar. Uma hora ia ter que voltar para o sacrifício. Mas... de
repente meus pensamentos foram interrompidos. Ué!? Que som era aquele que
chegava até aos meus ouvidos? Não queria acreditar. Fui ficando tenso. Isso não
podia estar acontecendo. Esse som, em especial, sempre me deixou irritado. A
natureza estava em perigo. Olhei para o fundo da estrada e vi uma luz, que ora
aparecia, ora sumia. Cento e oitenta graus de visibilidade. Logo uma nuvem
avermelhada cobriu o fundo da estrada e um som mais que alucinante entrou pelos
meus ouvidos. E em frações de segundo já estava completamente desnorteado e
envolvido por uma densa nuvem vermelha, e a um passo de ficar surdo.
Não conseguia ver um palmo na frente do nariz. Junto com a poeira,
de repente, voltou o silêncio novamente. Fiquei como uma estátua. Sentia apenas
um calor próximo às minhas pernas. Uma brisa veio me salvar. A poeira foi sendo
dissipada lentamente. Mas quando a visibilidade voltou, veio o susto. Quase no
meu nariz estava uma boca com um sorriso escancarado. Era ele. Há quatro anos
que não nos víamos: o Socialista Burguês. Estava ali na minha frente, em cima
de uma moto do ano. A maior que já tinha visto. Rapidamente pulou e veio me
abraçar. Puxou-me com cuidado, pois estava com a roda quase embaixo do meu
saco. Deu-me um abraço apertado e sussurrou:
- Grande amigo! Há quanto tempo! Quando foi? Ontem? Não sei bem. Mas essa
data de hoje é que é a mais importante. Está perto de mais uma eleição.
Acertei?
Eu não sabia o que falar. Estava em estado de choque. Ainda sentia o calor do
pneu entre as minhas pernas. Tremia todo, não vou negar. Se ele tivesse errado
por um milímetro, não estaria mais aqui. Só de pensar nisso, quase me borrei.
Tirei os óculos para poder vê-lo com mais
clareza. As lentes estavam completamente cobertas com a poeira vermelha. Na
verdade, não eram só os óculos que estavam cobertos de barro, eu estava
vermelho dos pés à cabeça. Para falar alguma coisa, tive que cuspir uma saliva
que parecia sangue. Mas antes que eu tentasse emitir qualquer som, ele foi logo
me atropelando.
- Amigo! Estou aqui em campanha! Hoje sou da direita da esquerda.
Mas também da esquerda da direita. Meu amigo, finalmente consegui entender tudo
o que o meu mestre deixou escrito. Você sabe quem é, não sabe? Isso! Já li seu
pensamento: Marx! Só pode ser ele! Não existe outro!
Não consegui responder nada. Ele perguntou e respondeu. A princípio
achei que continuava a mesma pessoa. Mas o meu coração não concordou. Ele tinha
piorado. Pela sua cara, depois que tirou os óculos, constatei as minhas
suspeitas: as suas feições transmitiam um desequilíbrio acentuado.
O meu amigo estava envelhecido, assim como eu. Mas isso não era justificativa
para os seus atos. A sua aparência exterior não me preocupava, mas sim o que
vinha de dentro. Olhei-o em silêncio por algum tempo. E ele, por incrível que
pareça, ficou também me olhando dos pés à cabeça. Depois de analisá-lo, percebi
que ele ainda trazia um livro preso no sovaco. –“ É o livro de Marx? “ –
Perguntei, demonstrando uma certa incredulidade.
- E podia ser outro? É o meu livro de cabeceira! – Respondeu-me, com um sorriso
de satisfação.
Eu então provoquei: - Você quis dizer, de axila? – Mas naquele exato momento
não me respondeu. Mas intuitivamente eu sabia que estavam a caminho coisas do arco da velha na sua retórica.
Senti que a sua empolgação ainda não
o tinha abandonado. Continuava a se deliciar com a convivência de anos com
Marx. Mesmo com o corte que dera na sua fala, não o tirei do prumo. Só pelo
fato de ele acariciar aquele livro ensebado que trazia há décadas debaixo do
braço, percebi que realmente eu não lhe tinha causado qualquer tipo de abalo.
Ainda em silêncio, gesticulou, como se estivesse fazendo um
discurso em pensamento. No alto da empolgação, levantou os dois braços, o mais
alto que pode. Aí a surpresa me pegou de jeito: o livro não soltou do seu
sovaco. Ele percebeu o meu espanto e sorriu de orelha a orelha. Nunca se dava
por vencido. Para que eu não continuasse a falar, abriu a mão e tapou a minha
boca. Em seguida disse:
- “ Sem sombra de
dúvidas. ” Amigo, quando penso nessa frase, aí é que me encho de certezas
duvidosas. Há sempre sombra. É ou não é? Sobram interrogações no horizonte. No
que é para ser simples, a complicação brota sempre entre vírgulas. Aí vem a
tensão, a ansiedade e nesse contexto, quase único, é que não sobram dúvidas,
pois vem a certeza que a pressão vai aumentar. E aumenta. Quando eu penso “sem
sombra de dúvidas”, acho que a dúvida não existe. Acredito que a numerologia
explica a sombra. A dúvida eu não tenho certeza. Já as interrogações, cabem
dentro do contexto. Ou do texto? Até agora sigo com a minha meta: não duvido da
dúvida. Pensa bem. Pensou? Eu ainda não. Olha só. Olhou? Eu ainda não. Lembra
de Marx? Eu não tiro ele debaixo do sovaco. Estive pensando na sua candidatura.
...............Acaba semana que vem!!