terça-feira, 29 de setembro de 2015

UM NÁUFRAGO EM ALGUM LUGAR DA BAÍA - Parte 1

Vamos juntos começar mais uma aventura...


UM NÁUFRAGO EM ALGUM LUGAR DA BAÍA

                                                     - JoséTimotheo -


          Eu fui um náufrago, mas não um náufrago qualquer.  Não sou parecido com nenhum desses que a história já contou. Não fiquei trinta anos desaparecido. Nem meses. Nem dias.  Na verdade até hoje, não sei direito se realmente sumi. A minha memória ficou com um tremendo buraco. Foi um dia? Dois? Quantos? É um mistério para mim e meus amigos. Até hoje ninguém tem certeza de nada. Cada um tem uma versão diferente. Falam de uma ventania. Isso até que me lembro. E é uma unanimidade. Parece que fui jogado no mar. Uns dizem que sim, enquanto outros discordam.  Acho que me encontraram, no dia seguinte, no cais. Uns falam que não foi assim. Que fui encontrado numa ilhota, algumas horas depois de ter caído na água, e que tinha sido resgatado por um casal de pescadores. Mas o comandante garante que não sai do barco. Realmente ninguém sabe explicar o que aconteceu. É um mistério. Mas vou contar o que acho que aconteceu. Ou não aconteceu?
         A primavera corria a toda, quase alcançando o verão. Uns amigos resolveram fazer uma pescaria. Alugaram uma traineira, mas em cima da hora um desistiu. Sobrou uma vaga. Convidaram-me e lá fui eu. Sei que fui como tapa buraco, mas aceitei sem o menor constrangimento. O importante é que fui lembrado. Eles sabiam que nunca fui pescador. Sou daqueles que joga a linha na água e reza para que algum peixe belisque a isca. Se não pegar nada, tá bom também. Algumas vezes consegui até fisgar algum, mas a maioria foi saco plástico. Pelo menos estou ajudando o meio ambiente, limpando a Baia de Guanabara. Se conseguisse limpar a cabeça de algumas pessoas, seria melhor. Mas um saco a menos, é sempre bom.
          Encontrei o grupo num clube náutico, no Bairro de Jurujuba. Éramos todos amigos de longa data. Enquanto alguns arrumavam a embarcação, peguei um jornal do comandante e desfolhei algumas páginas até encontrar as informações necessárias para aquele dia, na coluna sobre o tempo. Mas antes que começasse a ler alguma coisa, alguém gritou da outra extremidade do barco:
- Não precisa ler! Hoje o dia vai ser excelente! Só depois das cinco (17 horas) é que poderá ventar um pouco! Está preocupado com chuva? Pode ficar tranquilo que temos noventa por cento de chance, de não acontecer! Tá bom pra você? Pra mim está ótimo! Ah! Ah! Ah!
        Não dei ouvido para o comentário e continuei procurando as informações que precisava. E não tirei os olhos do jornal até encontrar o que eu queria. Estava lá: - Pode ventar um pouco. E tem uma chance mínima de chover, mas pode acontecer. Mas só a partir das dezessete hora. – Não sei por que isso me preocupou, mesmo sabendo que tínhamos até às cinco da tarde para ficarmos despreocupados. E era de simples solução: voltar antes das cinco. E isso ficou combinado. Mas mesmo assim estava desconfortável. Alguma coisa estava me deixando intranquilo. Lembrei-me até de algumas pescarias que participei e saímos antes das cinco da tarde. Preocupar-me então por quê? Mas assim mesmo li e reli várias vezes o que estava escrito sobre o tempo naquele dia e do dia seguinte. Queria saber principalmente de onde vinha o vento. Estava escrito norte. Se fosse sudoeste, descia na hora. Mesmo dizendo que vinha depois das cinco, não acreditaria. O sudoeste me assusta. Se viesse antes? O vento vai se ligar em horário?
          Todo mundo sentiu a minha apreensão. Alguém me perguntou o porquê da minha preocupação.
          -Tá com medo de quê? Relaxa! A pescaria vai ser ótima!
          Mesmo sem muita convicção, respondi que estava tudo bem. Mas sei que não convenci a ninguém e muito menos a mim.

     O barco saiu se arrastando, no seu toc, toc, toc característico. Era um bom barco. Não andava rápido, mas sempre chegava ao seu destino e voltava com segurança. O nosso pesqueiro preferido ficava nas ilhas Cagarras, fora da Baía de Guanabara. E até lá chegar, levávamos mais de uma hora. Isso quando não parávamos no caminho, arriscando alguma pescaria incerta. De repente conseguindo se dá bem por ali, não precisaríamos perder tanto tempo. Nesse dia o comandante avisou que iríamos arriscar próximo ao “Pão de Açúcar”. Foi informado que tinha chegado um cardume de peixe vermelho, por ali. – Quem sabe não precisamos sair da Baía! – disse ele. Aceleramos os preparativos. Rapidamente os molinetes já estavam arrumados. O camarão e a sardinha congelados já estavam espalhados em cima de uma tábua, só esperando para serem fisgados nos anzóis. Avistamos um congestionamento de barcos. Alguém gritou ansioso. – É ali! É ali! – Com muito custo encontramos um espaço para encostarmos o barco, próximo de uma laje: uma pedra chata e comprida. Os barqueiros tinham que ter muita habilidade para não bater com o fundo do barco. A maior parte da pedra ficava submersa. Acima da linha d’água, devia ficar a vista, com a maré baixa, aproximadamente um metro de altura. E era o que nos apresentava nesse momento, com a maré começando a encher. Fiquei emocionado só em ver a fartura de pescado. Enquanto colocávamos as iscas nos anzóis, observei que os pescadores quando recolhiam a linha, era raro não vir de três a quatro peixes fisgados. Todosos barcos, sem exceção, já estavam abarrotados de peixes. Jogamos os nossos anzóis n’água. Nenhuma beliscada nos primeiros cinco minutos. Os outros continuavam a retirar peixes do mar. Na primeira meia hora, nada. Aos quarenta minuto alguém gritou que tinha fisgado alguma coisa. E começou a puxar a linha. Estávamos todos atentos. O esforço era grande. – Será que é um peixão? – falou alguém quase sussurrando. Acho que estava com medo de assustar o peixe. Esperamos. Finalmente saiu da água: um bagre, que não tinha mais de dez centímetros. As caras de decepção se abraçaram mudas. Voltamos a prestar a atenção nas nossas linhas. O silêncio tomou conta do nosso barco. Enquanto a alegria girava nas outras embarcações, a tristeza misturada com a decepção embalava a nossa pescaria. Ficamos por ali aproximadamente duas horas. Além de pegarmos apenas o único bagre, perdemos alguns anzóis que ficaram presos nas pedras. Esqueci de informar corretamente que pescamos alguma coisa além do bagre. E que soltamos ele. Recolhemos sacolas de plásticos, algumas garrafas pet, uma caixa de papelão... Isso mesmo, papelão! Que papelão...

                                               Continua semana que vem...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Pensamento de Poeta - Vida: Uma Grande Comédia

   
 Vida: Uma Grande Comédia

                                                            - José Timotheo -                              

Vida! Vida!
Encenação? Fita?
Onde vai dar
Esse rio caudaloso?
Como vai ser o final
Dessa grande comédia?
Vida! Vida!
És realmente de morte!
Só quero ver
Se, por sorte ou azar,
Estarei na primeira fila

Para aplaudir ou vaiar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Pensamento de Poeta - Pelos Bares


Pelos Bares

                                                                    - José Timotheo -
Como encontramos verdades
Em frases tatuadas
Nas mesas dos bares
Como há verdades na solidão
Dos copos vazios
Transbordando de segredos
Como ficam as cadeiras amassadas
De dor e ilusão
E em você
Brotam mistérios em cada golada
De chope ou cachaça com limão
Podem até apontar a paz
Mas é demais vê-los sem verdades
E em cada passagem de língua
Semear a dúvida
Demais também, é deixar as frases
Aparentemente sem sentido
Esquecidas entre cervejas e chopes
E entre a vontade de poder desejar
Os olhos cheios de saudades
Saudades! Saudades! Verdades
Mas... Mas
Mesmo assim, não se esqueça
De procurar-me nos copos e garrafas
Vazias
Orbitando  entre mesas solitárias
Não me esqueça
Me procure
Quem sabe, entre frases sem sentido
Você encontre um eu te amo
                                              fim


terça-feira, 1 de setembro de 2015

FESTA DE SÃO JOÃO - Parte 7

continuando...
           
          Ao apagar das luzes os noivos caminharam para os pontos determinados. Caminhavam praticamente pelo extinto. Iam escorregando pelo meio do povo. Batia em um.  Chocava-se com outro. Mas não podiam emitir nenhum som. Era todo mundo mudo. Uma pisada aqui, outra ali, e o infeliz contemplado com uma pisada, tinha que agüentar firme.
          Todos a postos, a cortina se abriu. Imediatamente as luzes do galpão se acenderam. A expectativa estava no ar. Centenas e mais centenas de olhos grudavam no palco. Ninguém se lembrava de olhar em volta para ver quem não estava mais ali. De repente uma voz cortou o ar. Era o Sr. Zeca da Padaria, o outro membro da comissão.
           - Sras., Srs., meninos, meninas... Vocês vão conhecer agora os noivos da nossa festa. Em seguida vamos começar o nosso tradicional e único casamento da roça. O mais original que existe. E com certeza vai ser um sucesso, como foram todos os outros. Primeiramente vou anunciar o nome, ainda o fictício, da noiva e pedir para que ela retire a capa e o capuz que a está cobrindo. Em seguida ela anunciará o seu verdadeiro nome. Tudo explicado e lá foi ele: Abelhinha solitária!
          A menina subiu ao palco.  Retirou a capa que cobria todo o seu corpo e em seguida o capuz, que escondia quase que totalmente o seu rosto. Por baixo ela já estava vestida com a roupa de noiva. E bastante maquiada, que não dava quase para ser reconhecida. Finalmente anunciou o seu nome.
          - O meu nome é Maria. A Abelhinha Solitária, inscrição nº322.
         Quem já conhecia a menina, aplaudia com bastante entusiasmo. Os outros apenas por educação. Isso devido à frustração de não terem sidos contemplados. Mas mesmo assim foi uma bela saudação.
          Em seguida foi anunciado o noivo.
         - Dono da Esperança.
          Lentamente um rapaz foi subindo a escada que dava para se chegar ao palco. Pisava timidamente. Um calafrio tomou conta do seu corpo. Teve vontade de voltar atrás e sair dali. A noiva tinha subido quase que correndo. Mas ele vacilava. Se arrastava. Os pés pareciam que pesavam toneladas.  Entretanto alguma coisa empurrava-o.  Algo dizia dentro dele para não desistir. Finalmente conseguiu pisar em cima do palco. Ficou algum tempo em silêncio. Mas acabou falando. Se bem que quase balbuciando.
          - Meu nome é Raimundo.
          - O Sr. podia falar mais alto? - pediu o Sr. Zeca. Ele foi e repetiu com mais vontade. – Meu nome e Raimundo Donato! O Dono da Esperança. Nº12. - João foi o primeiro a reconhecer o amigo. Gritou e aplaudiu ao mesmo tempo. Os irmãos seguiram-no com o mesmo entusiasmo. O restante da platéia ficou em silêncio. Ninguém reconhecia o moço. Foi preciso o Sr. Zeca pedir uma salva de palmas para o noivo. Foi um aplauso caloroso, mas mecânico. Entretanto Mundinho nem percebeu se aplaudiam somente com a mão ou se também com o coração. Naquela altura não fazia muita diferença. 
          Começaram a armar o casamento. Mundinho tomou o seu lugar. Mas parado feito estátua e com a cabeça enterrada no chão. A noiva que havia descido subiu com o pai de brincadeira. Lentamente foi se aproximando do noivo. O padre já estava a postos. Os padrinhos também. O delegado marcava a sua presença, mas meio escondidinho, esperava a sua hora de entrar em cena. E assim todo o elenco já estava pronto. A noiva continuou a sua caminhada em direção a Mundinho. Este finalmente, depois de um toque do padre, levantou a cabeça. Quando os seus olhos se cruzaram com os da noiva, o seu coração quase saiu pela boca. Da parte da noiva foi a mesma emoção. Como imã um se chegou ao outro. Mundinho finalmente conseguiu balbuciar alguma coisa - Das Graças! Meu amor! - E o mesmo aconteceu com a menina: - Mundinho é você mesmo? Meu bom Deus, eu não acredito! Amor da minha vida! É você?
            Sem ninguém entender o que estava acontecendo, presenciaram um abraço longo e um beijo que parecia que não ia terminar nunca. A paixão explodia. Alguns já estavam até achando que aquela cena fazia parte do texto. Nem os amigos de Mundinho e nem de Das Graças sabiam o que estava se passando. Nunca houve em tempo algum um casamento da roça com tanta veracidade. Foi preciso que os organizadores interrompessem o colóquio amoroso. Depois das explicações ao pé do ouvido, foi dada continuidade a festa. O casamento foi um sucesso. Dizem que foi o mais bonito de todos os tempos. E os dois foram presenteados com os potros. Saíram do palco sem se desgrudarem. A mãe de Das Graças já estava esperando pela filha. Ao confirmar quem era o rapaz, com lágrimas nos olhos, se abraçou aos dois. Foi um chororô só. Nisso chegou João e os irmãos, sem entender ainda o que estava acontecendo. Quando foi lhe contada à história da vida dos dois, se emocionou também, juntamente com os irmãos. Tentaram esconder as lágrimas, mas a emoção foi mais forte. Ai a choradeira uniu a todos num único abraço. Quem estava de fora nada entendeu. Mas não precisava. O importante era o reencontro daquelas duas almas. Alguns anos de separação que eles arrastaram pareceram uma eternidade.   A alegria tomou conta de todo o grupo. Só precisavam mesmo era comemorar. Até o pau de sebo, comentado por João, ele nem ousou subir. Mais nada interessava a ele. Só mesmo ficar com Das Graças. – Essa era a graça da sua vida. - Riu quando pensou nesse trocadilho que pensara. A sua cabeça fervilhava de planos. E o plano principal era casar com a sua amada. Um casamento já havia feito, mesmo sendo de brincadeira para o público, mas pra ele sentiu como se tivesse sido verdadeiro. Aproveitou o ambiente que estava propício e pediu a mão de Das Graças para a sua mãe, Das Dores. Foi aceito. Ali mesmo ficaram noivos. Mesmo sem alianças, no meio dos seus amigos e dos amigos dela, o noivado foi verdadeiro e de fato.
        Depois desse dia, não se separaram mais. Meses depois, sem Mundinho comunicar ao pai, se casou com Das Graças. Deixaria para comunicar ao chegar à fazenda. E a sogra iria com eles. Já estava formado e era só assumir o trabalho na fazenda.
          Voltou à casa de João para pegar os potros, a sogra e se despedir dos amigos. O pai de João convidou-o, caso o pai não aceitasse o seu casamento, a trabalhar na fazenda dele. Um lugar estaria reservado para ele. E não seria só de empregado não! Com certeza seria também como um filho. Convite apoiado por todos, já que eles consideravam-no membro da família. A emoção foi muita. Num abraço gigantesco envolvendo toda a família, as lágrimas lavaram o chão e a alma daquele grupo irmanado na terra e no céu.
         Mundinho, depois das despedidas, pegou estrada rumo a sua casa, sem certeza se lá seria o seu lar.    
                                                     Fim                  
      



terça-feira, 25 de agosto de 2015

FESTA DE SÃO JOÃO - Parte 6

Continuando...
             Enquanto esperavam pelo sorteio os cinco foram para o galpão onde já estava sendo iniciada oficialmente a festa, ou o pré - festejo, como eles gostavam de dizer.  Este galpão estava localizado num terreno bem tratado, que ficava por trás da praça, e lá foram eles se juntar a multidão que já rodeava as barracas de comes e bebes e de jogos. O povo já tomava conta de todo o espaço. Quem visse Mundinho não ia reconhecê-lo. Há muito tempo ele não se sentia tão à vontade. Estava tão descontraído que ele mesmo tomou a iniciativa e comprou cervejas e salgados para os amigos. Só Maria Isabel não aceitou a cerveja, preferiu tomar um licor de cerejas.
           Observando à distância, dava para sentir que a alegria estava de mãos dadas com a ansiedade. Mesmo a maioria participando de brincadeiras, a descontração não era muita. Com certeza o ambiente só iria ficar isento de tensão, depois do sorteio. Assim mesmo o fantasma da curiosidade não deixaria o galpão. E o horário do sorteio se aproximava. Algumas pessoas, que pareciam fazer parte da organização do evento, começavam a se dirigir para o palco. Os olhares quase não se desgrudavam da direção dessas pessoas. Só se revezavam com o relógio. Eram momentos finais nervosos. O som já começava a ser testado. Dois membros da comissão já se colocavam sentados em volta de uma mesa. Um pegou o microfone e anunciou que precisamente em cinco minutos o sorteio seria realizado. Após o anúncio dois rapazes trouxeram duas urnas cheias de envelopes. O conteúdo de cada urna foi derrubado em recipientes separados. Pareciam duas piscinas de plástico. Uma das mulheres e a outra dos homens.
             Um dos membros da comissão chamou ao palco o Sr. Tonico e Dona Dolores. Eram os dois mais idosos da cidade. Pessoas de famílias tradicionais e respeitadas. Cada um se postou em frente a uma piscina de plástico. Dona Dolores foi a primeira a tirar um envelope. Pegou e entregou ao Sr. Manoel Durão, um dos membros da comissão, que antes de abrir o envelope, olhou de ponta a ponta do galpão, imprimindo um ar de suspense. 
          - O nome da noiva é Abelhinha Solitária. Número 322. – Isso falando numa vagarosidade tal, que parecia que dizia letra por letra, deixando o público com os nervos a flor da pele. E aproveitando para olhar nas caras, principalmente que estivesse mais próxima, e observando se alguém iria se delatar.  Para o pessoal que lotava o galpão parecia que o Sr. Manoel estava olhando um por um. Ai os olhares se cruzavam, mas ninguém deixava escapar quem poderia ser a sorteada.
          O Sr. Tonico se abaixou e tirou também um envelope. O Sr. Manoel já estava próximo dele e pegou-o da sua mão. Abriu-o. Fez o mesmo procedimento anterior, um silêncio proposital, antes de anunciar o noivo. Ninguém despregava os olhos dele. Rasgou lentamente um lado e não satisfeito, o outro também. Finalmente retirou o papel onde estava escrito o candidato a noivo e anunciou o ganhador.
          - O nome do noivo é Dono da Esperança. Número 12.
          Como aconteceu com o sorteio na noiva, se repetiu com o do noivo. Era um silêncio tumular. Um buscava o olhar do outro para ver ser alguém se delatava. Mas nada. Eram somente olhares nervosos e ao mesmo tempo curiosos.
         O Sr. Manoel avisou para os sorteados que se apresentassem no dia seguinte, cinco minutos antes do início do casamento, que seria às dezessete horas, à comissão, com o comprovante da inscrição. O noivo entraria pela direita do palco e a noiva pela esquerda. Nisso Mundinho questionou o amigo.
          - João, me diz uma coisa: como vai ser mantido sigilo sobre a identidade dos noivos se cinco minutos antes eles têm que se apresentar? Você me disse que a gente só vai saber na hora que começar o casamento, é ou não é?
          - E vai ser isso mesmo! Acontece que quando faltar cinco minutos, a luz do galpão é apagada. Você vai ver o breu que vai ficar. Somente uma penumbra é mantida nas entradas onde os noivos vão entrar. Lá dentro, depois de identificados, eles vão ficar cobertos. Apenas a comissão fica sabendo quem são os sorteados. Depois eles sobem para o palco e quando a cortina é aberta, já com todo o elenco a postos, é que a luz é acesa. Aí sim é que vamos conhecer os noivos.
          - João, mas quando os sorteados se dirigirem para o local determinado, as pessoas não podem identificá-los?

        - Tem uma norma que eles vão anunciar daqui a pouco. É o seguinte: todos terão que se afastar um do outro e ficarem em silêncio. A partir do momento que a luz é apagada, ninguém pode falar mais nada. Os eleitos poderão se movimentar tranquilamente pelo meio da galera. Você vai ver só: ninguém consegue enxergar um palmo na frente do nariz!
                                          Continua semana que vem...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

FESTA DE SÃO JOÃO - Parte 5

Continuando...
          Do lado de fora da casa os quatros irmãos conversavam animadamente. Sentados num banco tosco, no meio de um jardim, com uma vegetação harmoniosa, que emprestava sua beleza para compor o design da casa, eles botavam o papo em dia, enquanto esperavam Mundinho. A curiosidade dos três irmãos de João era muita. Queriam saber tudo sobre a cidade grande. O papo só foi interrompido quando finalmente Mundinho chegou. Eles não resistiram e deram uma salva de palmas pelo atraso do amigo. Mundinho ficou vermelho. Envergonhado pediu desculpas. Mas em seguida foi abraçado por João e seus irmãos, já caindo na gargalhada ao notarem como ele ficou desbundado. Mundinho acabou se descontraindo e riu com eles.
           A cidadezinha só tinha uma rua principal. Era um minúsculo lugarejo. Mas muito agradável. E Mundinho sentiu um bem estar logo na chegada. Até se lembrou de onde morava e que também não era muito grande, mas ficou menor depois que Das Graças foi embora. O astral do lugar não ficou nada bom. Mas ele tentou afastar essa lembrança, se fixando na praçinha, à direita na entrada, que era um cartão postal de tão bem cuidada, como ele nunca tinha visto outra igual. As flores pareciam que vinham abraçar o visitante, derramando o seu perfume pelo ar. A praça da sua cidade - voltou ele a comparar - era sem graça. As flores não conseguiam embelezar nada. Já tinha dúvidas se realmente existia alguma flor ou jardim. De repente nem praça tinha. Se não a saudade traria a tona algum perfume.  Não se lembrava se elas exalavam algum cheiro. Tinha quase certeza que não. Depois que Das Graças foi embora as árvore perderam até o seu verde.  Ficou tudo pálido. No fundo ele nem fazia questão de olhar o que acontecia em sua volta. Pra ele nem o galo cantava mais às cinco horas da manhã. Não escutava. Não via. Não sentia cheiro algum. A não ser, o cheiro dela que trazia na saudade. E essa saudade ele carregava de mãos dadas com a esperança.
          João chamou o amigo de volta. Sabia que ele estava viajando no seu silêncio. A irmã dele se achegou e deu o braço para Mundinho. Foram descendo rua abaixo. Não sei se poderia se chamada assim, pois era completamente plana. O lugar ficava numa planície, mas quando eles iam de casa para a pracinha, usavam essa expressão “descer rua abaixo.”

           Os irmãos de João estavam animados com a festa.  Não só pela festa em si. O que mais empolgava a cidade inteira era o casamento na roça. Eles contaram para Mundinho que ali faziam um casamento na roça diferente. Ele ficou curioso em saber qual era essa diferença. Porque ali, diziam eles, só iam conhecer o casal na hora do casamento. Era um mistério para todo mundo. Até o próprio casal só ia se conhecer, também, no momento do matrimônio. Isso porque no ato da inscrição, o candidato tinha que colocar um pseudônimo na ficha de inscrição que continha um número.  Nem a pessoa que recebia o envelope sabia quem era o inscrito. Esse envelope era lacrado e colocado numa urna. Mas o candidato ficava com uma filipeta que continha o mesmo número da ficha. Esse número ele apresentava na hora do casamento. Mas na ficha tinha umas normas. Na verdade uma só era importante. Onde dizia que a pessoa sorteada tinha que se manter no anonimato. Caso fosse descoberta, seria eliminada. E seria feito outro sorteio na hora do enlace matrimonial.  Ela só podia ser conhecida no instante do casamento. Mas o restante do elenco: o pai, mas que também não conhecia a filha, o padre, os padrinhos, o delegado, etc. Entretanto ficava tudo nos conformes. Mundinho entendeu o esquema.  Mas achou difícil aquilo dar certo. Chegaram à praça, sentaram-se num banco e foram explicar mais alguns pormenores, que na verdade não tinha nada demais. – O restante do elenco é praticamente o mesmo dos outros anos. Alguns participam há mais de cinco anos, com o mesmo papel. Já estão para lá de ensaiados! Mas mesmo assim ensaiam por um período bom, antes da festa! - comentou Leandro, irmão mais novo de João, que por sua vez, falou para o amigo: – Mundinho a cidade toda se inscreve para ser o noivo e a noiva. Daqui a pouco as inscrições começam. Pode olhar no relógio: precisamente às dezenove horas. E terminam nem um minuto a mais nem a menos das vinte horas. O sorteio começa às vinte e uma horas, com certeza! Você vai ver a cidade em peso aqui. Isso é só para os jovens. Mas é bastante gente. Eu e meus irmãos, todo ano, nos inscrevemos. Minha irmã já foi sorteada uma vez! Foi à noiva mais bonita que tivemos aqui! Mundinho o sorteio é honesto. Pode acreditar. E você vai comprovar isso! E tem prêmio! E não é ruim não, hem! No ano passado dois fazendeiros, doaram dois novilhos. O noivo levou um e a noiva o outro. - Mundinho continuou surpreso, pois nunca tinha ouvido falar em sorteio para a escolha de noivos para festa junina. João olhou para ele e disse para que não ficasse com cara de incredulidade. Ai apontou para ele, uma faixa que estava pendurada próximo ao local das inscrições, onde dizia o prêmio daquele ano: dois potros. Um para a noiva sorteada e o outro para o noivo, também sorteado. Naquele ano um dos doadores era o próprio pai do amigo. Os irmãos de João se adiantaram para o local de inscrição. João foi atrás com Mundinho. Foram logo os primeiros da fila. Levaram um bom tempo para convencer Mundinho a também participar. Mas finalmente conseguiram: estavam todos inscritos e sorridentes. Mundinho questionou com o amigo se por acaso fosse sorteado, fato que aconteceria mais tarde, como ele iria participar no dia seguinte sem a vestimenta de caipira? A irmã de João falou para Mundinho ficar tranqüilo, pois o que não faltava na casa deles era a tradicional roupa. – Mas tem um porém. - falou Mundinho. – E qual é o porém? - Interrogou Maria Isabel, irmã de João. – Se por um acaso eu for sorteado, tenho que manter segredo. Certo? E aí! Como é que fica a minha situação? - É simples: de qualquer jeito nós vamos arranjar uma caipira para você. Então você não vai precisar quebrar o silêncio. Se por um acaso eu ou meus irmãos formos sorteados, nós também não vamos falar nada. É segredo total! Assim é que funciona a nossa festa. A graça está na surpresa. – Mundinho foi todo ouvido com as explicações e ponderações de Isabel. Sorriu e aceitou tudo que ela disse, sem mais questionamentos.
                              Continua semana que vem...

terça-feira, 11 de agosto de 2015

FESTA DE SÃO JOÃO - Parte 4

Continuando...
               Mês de junho corria a todo vapor. Pra variar, Mundinho estava colado nos livros. As provas finais já se aproximavam. Era o penúltimo semestre. Ele já tinha passado direto. Mas mesmo assim não abria mão de fazer essas benditas provas. Um amigo de nome João, um dos que dividia o apartamento com ele, passou pela porta do seu quarto e pedindo licença entrou, e já se desculpando pela interrupção. Mundinho como gostava muito desse amigo, não se aborreceu, pelo contrário recebeu-o com um sorriso e convidou-o a sentar-se. Era um dos poucos que também se dedicava de corpo e alma aos estudos. E como Mundinho, já estava aprovado antes das provas finais. E a prosa foi sendo desfiada pelos dois, feito lã crua. Conversa boa de se ouvir. Dois corações de uma grandiosidade sem condições de ser medidos. E o papo foi rolando. Num determinado momento Mundinho perguntou ao amigo se não seria esse final de semana que ele iria visitar a família. João confirmou e tirou do bolso uma carta enviada pela sua mãe. Comentou então partes do seu conteúdo. Num determinado trecho, a mãe avisava ao filho sobre a festa junina da cidade. Mundinho ficou entusiasmado. Uma das poucas coisas que ele gostava, eram esses festejos juninos. Interrogou o amigo como era a festança:  se a festa era tradicional, ou se já estava modernizada. De antemão foi falando para o amigo que preferia às tradicionais. Àquelas bem do estilo antigo. Àquelas que não podia faltar um bom sanfoneiro. João percebendo o entusiasmo com que o amigo falava, resolveu convidá-lo a ir com ele. A princípio a recusa foi automática. Colocou mil empecilhos. O principal seria o estudo. Aí João rebateu e fez vê-lo que dois, ou três dias não iriam fazer qualquer diferença. Nem pra ele e nem para o amigo. Ambos já estavam aprovados. E que a família dele ficaria muito feliz em recebê-lo, já que o conhecia por seu intermédio. Naqueles anos todos que se conheciam, falava sempre dele para a sua mãe, pai e irmãos. Então não era uma pessoa estranha para entrar na sua casa. Mundinho ficou pensativo durante alguns minutos. Depois perguntou pela distância. – São duzentos e cinqüenta quilômetros, mais ou menos, até lá. - respondeu o amigo. E acrescentando: - a gente pode sair às 14h, aproximadamente! Hoje não vai ter mais aula mesmo! Só o tempo pra gente arrumar as nossas roupas e tomar um banho. O carro já está preparado. E é só a gente pegar estrada. -  Depois pensou, enquanto arrumava a sua mala: -Há muito tempo não via Mundinho com um sorriso solto. Ou talvez, nunca tinha visto. Essa era a certeza mais certa. - Acabou deixando escapulir um sorriso. Olhou para ver se o amigo não tinha visto o seu sorriso escondido. Mundinho nesta hora estava de costas, arrumando também a sua mala.
           Pegaram estrada. Mundinho não sabia porque o seu coração transbordava de emoção. Não era a mesma coisa quando voltava para casa: o seu coração pesava. Era sempre aquela tristeza querendo estrangulá-lo. Seus olhos ficavam sempre cheios d’água. Quando podia, adiava a sua volta. E era o que fazia mais. Os seus pensamentos nem deixaram perceber que o caminho era longo. O tempo voou. Já anoitecia, essa sexta-feira, quando entraram na cidade, que na verdade, era um lugarejo. Foram passando devagar pelo centro. Observaram que já estava quase tudo arrumado para começar a festa. Muita gente envolvida na organização, dava os últimos retoques. Dali há pouco, a festa começava. Nesse primeiro dia seria mais um pré-festejo. Aquele pedaço de noite, não era considerado o início. Era só um aperitivo. A festança mesmo seria no sábado. Começaria logo pela manhãzinha! Mundinho notou no centro da praça um pau de sebo. Ai comentou para o amigo que ele iria subi-lo com facilidade. João olhou pra ele e deu um sorriso maroto, lançando uma pecha de dúvida na afirmativa do amigo. – Você duvida? - arrematou Mundinho com um sorriso desafiador.

           Chegaram à casa de João. A recepção não poderia ser melhor.     Mundinho se sentiu logo à vontade. Parecia que já conhecia àquela família há muito tempo. Foi acolhido pelos pais de João como se fosse uma pessoa da família. E com os dois irmãos e a irmã, não foi diferente. A conversa rolou espontaneamente. Parecia que já se conheciam de há muito... Logo, logo já estava acomodado num quarto. E um quarto só para ele. Dava pra se notar a satisfação que brotava dos seus olhos. Há muito tempo ele não se sentia leve. Rapidamente fez a comparação entre a família de João e a sua. - Que diferença! - pensou. Àquela era uma família bem estruturada. Ali percebeu que existia amor. Quando se lembrou do pai, ai não conseguiu segurar as lágrimas. Falava com  ele esporadicamente e por obrigação. E a vontade era sempre nenhuma. Falava por falar. Procurou tirar àquelas lembranças de dentro da sua cabeça. Sacudiu-a, como se fosse lançá-las para bem longe dali Queria voltar a sentir o que estava sentindo ao entrar no quarto. Respirou fundo. Enxugou às lágrimas e forçou um sorriso. Nesse meio tempo bateram à porta. Era o amigo pedindo para que se arrumasse rápido, pois ele e os seus irmãos já estavam todos prontos para darem umas voltas pela cidade. Mundinho solicitou ao amigo mais alguns minutos. A noite estava agradável. Era lua cheia. Céu limpo. Temperatura amena. Tudo conspirava a favor.
                                              Continua semana que vem...