Continuando...
O irmão balançou a cabeça concordando. Depois se virou e olhou para a criança que estava deitada atrás do banco. Viu que ela continuava de olhos fechados num sono profundo. Até aquele momento, desde que foi colocado ali, ainda permanecia imóvel. Mas o importante, observou Quim, é que o seu coração batia e que a respiração estava normal. Acabou deixando aflorar um sorriso de alívio e falou para o irmão:
- Ei Toni, ele continua dormindo. Tá apagadão, mas o importante é que o coração tá batendo firme. Tá até roncando, ouve só. Mas coitadinho do menino. Mano, não deve ter mais de dez anos, não é? Tão novo e já passando por isso tudo.
- Que brabeira. Coitadinho mesmo. Criança não devia sofrer, não é?
- É isso mesmo, mano. Pior que tem uma porção por aí sofrendo, e muito. Vamos parar de pensar nisso, que vou acabar chorando.
- Chorando? Nunca te vi chorar!
- Só choro escondido. Não divulgo as minhas emoções.
- Gostei, Quim, está falando bonito.
- É. Agora falando sério. Mano, você já contou em quantas confusões a gente já entrou?
- Não. Acho que não foram muitas.
- Não importa a quantidade, né? Pra você, nunca é nada demais.
- Não é assim. Em todas as encrencas eu tive medo. Mas não quero nem me lembrar da quantidade. Já passou.
- Toni, passou uma ova! Já estamos entrando em outra! Me dá medo só de pensar. Será que dessa vez vamos conseguir sair inteiros? Das outras, nos safamos. E dessa?
- Ei Quim! Afasta esse pensamento negativo pra lá! Nem sabemos se estamos entrando em uma fria! Exorciza os maus pensamentos. Fica tranquilo que a gente vai resolver esse probleminha rapidinho. Vamos esperar só o garoto acordar.
- Pronto, já estou light. Não estou pensando mais em coisas ruins. Nesse momento já estou pensando na Verinha.
- Verinha? Eu não sabia que você tinha alguma namorada naquela biboca que a gente vai. Ela é de lá mesmo?
- Tenho nada, Toni. Verinha é só um nome e uma esperança. Mas já estou até sonhando com ela. A gatinha que vou encontrar lá, eu já batizei de Verinha.
- Quim, você é um cara muito convencido, hem! Já até idealizou uma mulher, que nem sabe se vai encontrar! Uma garota que você vai ficar – gostou do ficar? Sou um cara moderno! Tá pensando o quê! – lá no posto de gasolina do Mano Alê!
- Mas eu...
Quim interrompe o que ia responder ao irmão, porque o garoto no exato momento se mexe e solta um gemido. Ele olha para trás e fala para Toni:
- Mano. Você ouviu? O garoto está recobrando os sentidos. O que é que a gente faz?
- Olha ele. Vê se está de olho aberto.
- Não. O olho continua fechado. Você não acha melhor a gente dar uma paradinha? Já que estamos andando há muito tempo, vai ser bom pra dar uma relaxada. De repente eu pego a direção. Não vai ter problema a gente parar. A estrada continua vazia, vazia. Toni, eu não me lembro quando foi a última vez que pegamos uma estrada tão deserta. Vamos parar? Para fora da estrada, por precaução.
Toni passa a mão no queixo, olha para trás rapidamente. Depois mira o retrovisor do lado direito e depois o do seu lado e respira aliviado, ao constatar que não vinha nenhum carro. Como viu que a estrada estava livre, respondeu ao irmão:
- Acho que não tem problema algum a gente parar no acostamento. O acostamento aqui é bem espaçoso. Vou parar agora mesmo. Depois a gente vai direto, se der, e só para no posto do Mano Alê.
Ele foi diminuindo a velocidade até parar no acostamento. Antes de descer pede ao irmão para olhar o garoto. Disse que ia descer primeiro para aliviar a bexiga. Quim então colocou a mão na testa do menino. Mas mal encostou, o menino arregalou os olhos. Ele emocionado gritou para o irmão:
- Toni! Toni! O garoto abriu os olhos! Vem cá ver!
- Calma Quim! Me deixa terminar de fazer as minhas necessidades!
Continua Semana que vem!

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